{"id":3077,"date":"2019-02-19T14:54:41","date_gmt":"2019-02-19T13:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2019\/02\/19\/sudao-a-revolucao-e-a-escolha-do-povo\/"},"modified":"2019-02-19T14:54:41","modified_gmt":"2019-02-19T13:54:41","slug":"sudao-a-revolucao-e-a-escolha-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2019\/02\/19\/sudao-a-revolucao-e-a-escolha-do-povo\/","title":{"rendered":"Sud\u00e3o: \u201cA revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a escolha do povo!\u201d"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dois meses, o Sud\u00e3o tem sido abalado por mobiliza\u00e7\u00f5es sem precedentes desde a sua independ\u00eancia, em 1956. Esta vaga de protestos, quase di\u00e1rios, \u00e9 a maior desde que Omar al-Bashir subiu ao poder atrav\u00e9s de um golpe, em 1989.<\/p>\n<p>\u00a0A revolta teve in\u00edcio no passado dia 19 de Dezembro no norte do pa\u00eds, na cidade de Atbara, um aglomerado da classe trabalhadora e o ber\u00e7o do sindicalismo sudan\u00eas. Desencadeada pela escassez e pela subida dos pre\u00e7os de bens e servi\u00e7os essenciais, como o p\u00e3o, o trigo, a electricidade e os combust\u00edveis, rapidamente se espalhou por outras cidades. A meio de Janeiro, contabilizaram-se protestos em 15 dos 18 estados do Sud\u00e3o<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Da mesma forma, as reivindica\u00e7\u00f5es adquiriram rapidamente um car\u00e1cter mais profundo, exigindo a queda do regime e o fim de tr\u00eas d\u00e9cadas de repress\u00e3o econ\u00f3mica, pol\u00edtica e social. Nas manifesta\u00e7\u00f5es cantam-se palavras-de-ordem como \u201cliberdade, paz e justi\u00e7a\u201d, \u201ca revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a escolha do povo\u201d e a c\u00e9lebre \u201co povo quer a queda do regime\u201d, popularizada durante as revoltas da Primavera \u00c1rabe, em 2011.<\/p>\n<p>\u00a0O Governo respondeu aos protestos com uma repress\u00e3o brutal, prendendo mais de 1.000 pessoas, incluindo manifestantes, l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o, activistas e jornalistas<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>. Para dispersar as manifesta\u00e7\u00f5es, utilizou g\u00e1s lacrimog\u00e9neo, granadas de atordoamento e muni\u00e7\u00f5es reais, recorrendo a snipers e mil\u00edcias. Os n\u00fameros mais recentes, divulgados pela oposi\u00e7\u00e3o, contabilizam 57 mortos desde Dezembro, algo que o regime nega, como seria de esperar, falando apenas em 31<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>. A 29 de Janeiro, face \u00e0 crescente mobiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 press\u00e3o externa, o chefe do Servi\u00e7o Nacional de Intelig\u00eancia e Seguran\u00e7a (NISS) ordenou a liberta\u00e7\u00e3o de todos os detidos<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>. Desde ent\u00e3o a resposta do regime tem oscilado entre a repress\u00e3o nas ruas e promessas vazias de mudan\u00e7a, crescimento econ\u00f3mico e paz, num tom mais conciliat\u00f3rio. Omar al-Bashir mantem-se intransigente, afirmando que a mudan\u00e7a apenas poder\u00e1 vir das urnas, em 2020. Por sua vez, a oposi\u00e7\u00e3o, numa declara\u00e7\u00e3o conjunta, recusa-se ao di\u00e1logo, afirmando que os protestos ir\u00e3o continuar at\u00e9 \u00e0 queda do regime<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<strong>Revolu\u00e7\u00f5es, golpes militares e guerra civil<\/strong><\/p>\n<p>O Sud\u00e3o \u00e9 terceiro maior pa\u00eds africano, tendo um subsolo rico em min\u00e9rios valiosos e importantes reservas de petr\u00f3leo. No entanto, desde a independ\u00eancia do Sud\u00e3o do Sul, em 2011, impulsionada pelos EUA, perdeu tr\u00eas quartos dessas reservas que pertencem, hoje, ao novo pa\u00eds. A isto junta-se uma infla\u00e7\u00e3o de quase 70%, ao ano, e uma severa crise cambial. O Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estima que quase metade da popula\u00e7\u00e3o, ou seja, cerca de 20 milh\u00f5es de pessoas, vive abaixo do limiar da pobreza<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0Por duas vezes desde a independ\u00eancia do pa\u00eds, a mobiliza\u00e7\u00e3o do povo sudan\u00eas derrubou regimes militares, em Outubro de 1964 e em Abril de 1985. Em ambos os casos, as liberdades democr\u00e1ticas conquistadas foram esmagadas atrav\u00e9s de golpes militares em 1969 e 1989, respectivamente.<\/p>\n<p>\u00a0O regime sudan\u00eas, resultante do golpe de 1989, dirigido pelo general Omar al-Bashir e apoiado por for\u00e7as fundamentalistas isl\u00e2micas, reprimiu toda a oposi\u00e7\u00e3o sindical e pol\u00edtica. Dominado pelo Partido Congresso Nacional (NCP), o regime apoia-se na for\u00e7a dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a (NISS) e em mil\u00edcias para exercer essa repress\u00e3o. Da mesma forma, utiliza a opress\u00e3o \u00e9tnica e racial para se manter no poder e alimentar as divis\u00f5es atrav\u00e9s de uma guerra civil com o sul e nas regi\u00f5es de Darfur, Kordofan do Sul e Nilo Azul. Em 2009, Omar al-Bashir foi acusado pelo Tribunal Penal Internacional por genoc\u00eddio no Darfur, sendo o primeiro Chefe de Estado em fun\u00e7\u00f5es a ser alvo de um mandado internacional de captura. Desde 2010, organizou duas farsas eleitorais que o reconduziram ao poder, estando actualmente a preparar uma altera\u00e7\u00e3o \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o para que se possa recandidatar, novamente, em 2020.<\/p>\n<p>\u00a0Desde que assumiu o cargo, Omar al-Bashir estabeleceu rela\u00e7\u00f5es importantes com pot\u00eancias regionais e internacionais, como os Emirados \u00c1rabes Unidos, o Qatar, a Turquia e a China, que t\u00eam grandes investimentos no pa\u00eds. O Sud\u00e3o tem sido um aliado da Ar\u00e1bia Saudita e dos Emirados na guerra sangrenta do I\u00e9men, para onde tem enviado milhares de soldados. Desde o in\u00edcio dos protestos, o regime sudan\u00eas tem recebido declara\u00e7\u00f5es de apoio das monarquias do Golfo, da Turquia e do Egipto. Em Janeiro, tamb\u00e9m a R\u00fassia se prestou a ajudar economicamente o regime criminoso sem pestanejar, ao lado dos Emirados, da Turquia e do Qatar<a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<strong>Os ventos tardios da Primavera \u00c1rabe<\/strong><\/p>\n<p>Envolto na divis\u00e3o do pa\u00eds, em 2011, o Sud\u00e3o n\u00e3o foi abalado nesse ano pelas grandes mobiliza\u00e7\u00f5es que enfrentaram os regimes ditatoriais do Norte de \u00c1frica e M\u00e9dio Oriente. Quando o povo se mobilizou, em 2013, contra a subida dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis, o regime respondeu com uma dura repress\u00e3o que fez 200 v\u00edtimas<a href=\"#_ftn8\">[8]<\/a>. A suspens\u00e3o parcial das san\u00e7\u00f5es que os Estados Unidos mantinham h\u00e1 quase 20 anos, em Setembro de 2017, causou expectativa de mudan\u00e7a na situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, expectativa defraudada quando foi apresentado o or\u00e7amento para 2018. Desde ent\u00e3o, o pa\u00eds tem passado por v\u00e1rias mobiliza\u00e7\u00f5es, que culminaram nestes dois meses de protestos.<\/p>\n<p>\u00a0As organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e a esquerda t\u00eam desempenhado um papel importante. Desde o primeiro momento que a Associa\u00e7\u00e3o de Profissionais do Sud\u00e3o est\u00e1 na linha da frente dos protestos, dando respaldo \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es das ruas e servindo como instrumento organizativo do movimento. M\u00e9dicos, jornalistas, farmac\u00eauticos, professores e estudantes est\u00e3o unidos contra o regime. Organiza\u00e7\u00f5es como o Partido Comunista Sudan\u00eas (SCP), assim como a Uni\u00e3o de Mulheres Sudanesas (SWU) e outros grupos feministas tamb\u00e9m t\u00eam tido um papel dirigente importante na revolta, mobilizando-se contra d\u00e9cadas de opress\u00e3o das leis isl\u00e2micas.<\/p>\n<p>\u00a0At\u00e9 ao momento \u00e9 dif\u00edcil prever qual ser\u00e1 o desfecho destas mobiliza\u00e7\u00f5es. Num pa\u00eds que atravessa v\u00e1rios conflitos armados, o regime tenta chantagear a oposi\u00e7\u00e3o com o fantasma da guerra em curso na L\u00edbia, resultado da revolu\u00e7\u00e3o usurpada pelo imperialismo que temia que o poder ca\u00edsse nas ruas. No entanto, aqueles que se manifestam contra al-Bashir fazem-no tamb\u00e9m pelo fim dos conflitos armados que o regime alimenta. No passado dia 14 de Fevereiro, a SPA chamou a protestos em solidariedade com a popula\u00e7\u00e3o afectada pelas guerras no Darfur, Kordofan do Sul e Nilo Azul, havendo relatos de protestos contra o regime nos campos de refugiados de Darfur<a href=\"#_ftn9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0Se, por um lado, os regimes da regi\u00e3o agitam os fantasmas das guerras na L\u00edbia, S\u00edria e I\u00e9men para convencer o povo de que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o, aquilo que mais temem \u00e9 acordar o gigante adormecido. Essa \u00e9 a principal raz\u00e3o para o apoio de Sissi (do Egipto) a Omar al-Bashir, pondo de lado velhas disputas sobre territ\u00f3rios fronteiri\u00e7os pelo Egipto e pelo Sud\u00e3o. Al\u00e9m disso, o presidente sudan\u00eas foi o primeiro Chefe de Estado da Liga \u00c1rabe a viajar \u00e0 S\u00edria e a prestar apoio a Bashar Al-Assad, depois de o pa\u00eds ter sido suspenso da organiza\u00e7\u00e3o internacional. Poucos dias depois, os Emirados \u00c1rabes Unidos reabriram a sua embaixada no pa\u00eds. O derrubar da ditadura no Sud\u00e3o pode alimentar, novamente, as esperan\u00e7as de milh\u00f5es na regi\u00e3o e dar um novo folgo \u00e0s lutas em curso, na Tun\u00edsia, e \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o que tem sido reprimida pelo ditador eg\u00edpcio, apoiado pelos EUA, e \u00e9 isso que une, hoje, os v\u00e1rios regimes da regi\u00e3o, ainda que tenham disputas em curso.<\/p>\n<p>\u00a0Deste cen\u00e1rio, n\u00e3o pode ser exclu\u00edda a hip\u00f3tese de um golpe ao estilo eg\u00edpcio, que removeu a Irmandade Mu\u00e7ulmana do poder, depois de ter sido eleita democraticamente, devolvendo o poder aos militares. Em todo o caso, n\u00e3o foram s\u00f3 os regimes que aprenderam com a designada Primavera \u00c1rabe. Por mais que tentem apagar a mem\u00f3ria e chantagear com a guerra, o que se passou na Tun\u00edsia e no Egipto continua a ser uma inspira\u00e7\u00e3o para as popula\u00e7\u00f5es e activistas<a href=\"#_ftn10\">[10]<\/a> que cantam hoje \u201co povo quer a queda do regime!\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<strong>Fora Omar al-Bashir!<\/strong><\/p>\n<p> <strong> <\/strong> <\/p>\n<p><strong>Toda a solidariedade com a luta do povo sudan\u00eas!<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Artigo de Pedro Godinho<\/strong><\/p>\n<div><br clear=\"all\" \/>  <\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/indepth\/opinion\/sudan-protests-people-revolution-led-periphery-190127061619964.html\">https:\/\/www.aljazeera.com\/indepth\/opinion\/sudan-protests-people-revolution-led-periphery-190127061619964.html<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2019\/01\/sudan-army-state-fall-protests-190131065510146.html\">https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2019\/01\/sudan-army-state-fall-protests-190131065510146.html<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.africanews.com\/2019\/02\/14\/sudan-protest-hub-africanews-updates\/\">http:\/\/www.africanews.com\/2019\/02\/14\/sudan-protest-hub-africanews-updates\/<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2019\/01\/sudan-intelligence-chief-orders-release-protest-detainees-190129174941793.html\">https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2019\/01\/sudan-intelligence-chief-orders-release-protest-detainees-190129174941793.html<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.africanews.com\/2019\/02\/14\/sudan-protest-organisers-vow-to-oust-president-omar-al-bashir\/\">http:\/\/www.africanews.com\/2019\/02\/14\/sudan-protest-organisers-vow-to-oust-president-omar-al-bashir\/<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/syriafreedomforever.wordpress.com\/2019\/01\/16\/soudan-manifestations-massives-contre-la-dictature-del-bechir\/\">https:\/\/syriafreedomforever.wordpress.com\/2019\/01\/16\/soudan-manifestations-massives-contre-la-dictature-del-bechir\/<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.africanews.com\/2019\/01\/24\/uae-turkey-qatar-russia-pledge-support-for-sudan-s-embattled-govt\/\">http:\/\/www.africanews.com\/2019\/01\/24\/uae-turkey-qatar-russia-pledge-support-for-sudan-s-embattled-govt\/<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lavanguardia.com\/internacional\/20190121\/454225606714\/primavera-arabe-estalla-sudan-40-muertos-omar-el-bashir.html?fbclid=IwAR3bMAI-5GNex5ddJj2GRgZNAZh9CbBg_tw7bug3106Vz9fY3urmnp5qOuM\">https:\/\/www.lavanguardia.com\/internacional\/20190121\/454225606714\/primavera-arabe-estalla-sudan-40-muertos-omar-el-bashir.html?fbclid=IwAR3bMAI-5GNex5ddJj2GRgZNAZh9CbBg_tw7bug3106Vz9fY3urmnp5qOuM<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.arabnews.com\/node\/1452431\/middle-east\">http:\/\/www.arabnews.com\/node\/1452431\/middle-east<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.apnews.com\/adb65a9703944774a72acb072d7386fe\">https:\/\/www.apnews.com\/adb65a9703944774a72acb072d7386fe<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dois meses, o Sud\u00e3o tem sido abalado por mobiliza\u00e7\u00f5es sem precedentes desde a sua independ\u00eancia, em 1956. Esta vaga de protestos, quase di\u00e1rios, \u00e9 a maior desde que Omar al-Bashir subiu ao poder atrav\u00e9s de um golpe, em 1989. \u00a0A revolta teve in\u00edcio no passado dia 19 de Dezembro no norte do pa\u00eds, na cidade de Atbara, um aglomerado da classe trabalhadora e o ber\u00e7o do sindicalismo sudan\u00eas. Desencadeada pela escassez e pela subida dos pre\u00e7os de bens e servi\u00e7os essenciais, como o p\u00e3o, o trigo, a electricidade e os combust\u00edveis, rapidamente se espalhou por outras cidades. 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