{"id":3051,"date":"2019-01-15T10:47:29","date_gmt":"2019-01-15T09:47:29","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2019\/01\/15\/o-assassinato-de-rosa-luxemburgo-cem-anos-depois\/"},"modified":"2019-01-15T10:47:29","modified_gmt":"2019-01-15T09:47:29","slug":"o-assassinato-de-rosa-luxemburgo-cem-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2019\/01\/15\/o-assassinato-de-rosa-luxemburgo-cem-anos-depois\/","title":{"rendered":"O assassinato de Rosa Luxemburgo, cem anos depois"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<div id=\"dslc-theme-content-inner\">\n<p><em>A reabilita\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e  pol\u00edtica de Rosa est\u00e1 ainda por ser feita diante dos olhos da nova  gera\u00e7\u00e3o. Mas enquanto existir uma esquerda que tenha paix\u00e3o  revolucion\u00e1ria Rosa Luxemburgo estar\u00e1 viva<\/em><\/p>\n<p><em>Se a produ\u00e7\u00e3o  capitalista gera um mercado suficiente para si, a acumula\u00e7\u00e3o capitalista  (considerada objetivamente) \u00e9 um processo ilimitado. Se a produ\u00e7\u00e3o pode  sobreviver, continuar a crescer sem obst\u00e1culos, isto \u00e9, se pode  desenvolver as for\u00e7as produtivas ilimitadamente,(\u2026) desmorona um dos  mais fortes pilares do socialismo de Marx.(\u2026) Mas (\u2026) o sistema  capitalista \u00e9 economicamente insustent\u00e1vel. (\u2026) Se, no entanto,  aceitarmos como os \u201cespecialistas \u201d o car\u00e1ter econ\u00f4mico ilimitado da  acumula\u00e7\u00e3o capitalista, o socialismo perde o piso gran\u00edtico da  necessidade hist\u00f3rica objetiva. Ficamos perdidos nas nebulosidades dos  sistemas pr\u00e9-marxistas que queriam deduzir o socialismo somente da  injusti\u00e7a e maldade do mundo<br \/> e da decis\u00e3o revolucion\u00e1ria das classes trabalhadoras. <\/em><em> <\/em><a href=\"https:\/\/www.revistaforum.com.br\/o-assassinato-de-rosa-luxemburgo-cem-anos-depois\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<p><strong>Rosa Luxemburgo<\/strong><\/p>\n<p>Foi  h\u00e1 cem anos. J\u00e1 se disse que o sil\u00eancio \u00e9 a maior das repres\u00e1lias. O  anivers\u00e1rio deve ocorrer sem maior repercuss\u00e3o. No dia 15 de Janeiro de  1919, no calor da crise revolucion\u00e1ria que permanecia aberta depois da  revolu\u00e7\u00e3o de novembro de 1918 que derrubou o Kaiser, Rosa Luxemburgo foi  assassinada, ao lado de Karl Liebknecht. A reabilita\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e  pol\u00edtica de Rosa est\u00e1 ainda por ser feita diante dos olhos da nova  gera\u00e7\u00e3o. Mas enquanto existir uma esquerda que tenha paix\u00e3o  revolucion\u00e1ria Rosa Luxemburgo estar\u00e1 viva.<\/p>\n<p>Desde o 9 de Janeiro,  Berlim era uma cidade em estado de s\u00edtio. Rosa e Liebknecht sabiam que  estavam encurralados, e que o cerco se apertava. H\u00e1 v\u00e1rios dias viviam  em permanente mudan\u00e7a de endere\u00e7os. At\u00e9 que a dela\u00e7\u00e3o levou as mil\u00edcias  paramilitares ao seu esconderijo.<\/p>\n<p>O perigo de um confronto mais  s\u00e9rio, e at\u00e9 de guerra civil, tinha feito os trabalhadores recuarem,  inseguros diante da divis\u00e3o irreconcili\u00e1vel dos partidos que reconheciam  ainda como os seus. O governo Ebert\/Sheidemann (uma coaliz\u00e3o do SPD e  do USPD, os dois partidos oper\u00e1rios mais influentes, conhecidos como  majorit\u00e1rios e independentes, levados ao poder pelo \u201cfevereiro\u201d alem\u00e3o  que derrubou a monarquia), estava inflex\u00edvel na determina\u00e7\u00e3o de destruir  a dualidade de poderes que, sobretudo em Berlim, amea\u00e7ava a  estabilidade do regime, e prenunciava uma nova vaga revolucion\u00e1ria. O  perigo de um Outubro alem\u00e3o, verdadeiro ou ilus\u00f3rio, tinha estado no ar.<\/p>\n<p>Era  preciso agir, e agir r\u00e1pido: da\u00ed que a decis\u00e3o do governo, de retomar o  controle da pol\u00edcia de Berlim, a qualquer custo, fosse irredut\u00edvel.  Diante da rea\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica dos setores mais avan\u00e7ados da classe oper\u00e1ria,  em defesa dos Conselhos de trabalhadores e soldados, o Governo n\u00e3o  hesitou em tomar as medidas mais brutais, o cerco militar da cidade,  reveladoras da sua decis\u00e3o de n\u00e3o hesitar, e ir at\u00e9 ao derramamento  massivo de sangue, se necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>J\u00e1 os setores de vanguarda do  proletariado que tinham ensaiado o seu \u201cjunho de 1848\u201d, recuavam,  precipitada e abruptamente, em debandada. O teste de for\u00e7a fora feito e o  seu resultado era desolador. A maioria da classe trabalhadora voltou  para as f\u00e1bricas, e se entrincheirou, intimidada, consciente que n\u00e3o  seria poss\u00edvel manter a unidade do movimento sob a bandeira da greve  geral at\u00e9 a derrubada do Governo.<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, a repress\u00e3o  contra os spartakistas se abatia de forma impiedosa. O cerco se  apertava. Refugiados, nos dias 12 e 13, em uma resid\u00eancia no bairro  oper\u00e1rio de Neuk\u00f6lin, Rosa e Liebknecht mudaram-se, no 14, para um  apartamento \u201crespeit\u00e1vel\u201d de um distrito de classe m\u00e9dia em Wilmersdorf.  Suas cabe\u00e7as estavam oficiosamente a pr\u00eamio, com uma substantiva  recompensa oferecida por empres\u00e1rios de extrema direita, provavelmente  com a anu\u00eancia de Scheidemann. Foram presos \u00e0s nove horas da noite,  ainda na presen\u00e7a de Pieck, um dirigente do comit\u00ea central, que tinha  acabado de lhes trazer documentos pessoais falsos, para facilitar a  sa\u00edda de Berlim.<\/p>\n<p>Como os Freikorps os encontraram nunca se soube.  Foi, provavelmente, casual. Talvez algum vizinho a tenha identificado  pela famosa defici\u00eancia na perna. Foram levados at\u00e9 o Hotel Eden, onde  estava instalado, provisoriamente, o quartel general de uma das divis\u00f5es  para-militares na parte central de Berlim. Sabiam que n\u00e3o seria uma  pris\u00e3o como outras, e que seriam severa e brutalmente interrogados Mas,  desta vez, seus destinos j\u00e1 estavam tra\u00e7ados. Primeiro Liebknecht e  depois Rosa foram duramente atingidos por coronhadas na cabe\u00e7a e,  depois, levados para fora do Hotel, colocados dentro de um carro e, em  seguida, fuzilados, \u00e0 queima roupa: Liebknechet arrastado para fora do  carro para simular uma fuga, foi baleado pelas costas. Rosa recebeu o  tiro na nuca, ali mesmo.<\/p>\n<p>O corpo de Luxemburgo foi lan\u00e7ado nas  \u00e1guas do canal Landwehr, de onde foi resgatado somente em Mar\u00e7o. Ali foi  colocada uma placa, ao lado de uma das pontes, para honrar a sua  mem\u00f3ria. Rosa, a alem\u00e3, a judia-polonesa, a internacionalista, a  vermelha, morreu na Berlim que tanto amou, assassinada pela f\u00faria  fascista que, em 1933, chegaria ao poder, para mergulhar a Europa no  maior genoc\u00eddio da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>A m\u00e3o que aperta o gatilho nem sempre \u00e9 a mesma m\u00e3o que aponta a arma<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o  restam d\u00favidas, se \u00e9 que existiram, sobre o balan\u00e7o hist\u00f3rico da  cumplicidade do governo do SPD, o primeiro da Rep\u00fablica de Weimar, pelo  assassinato de Rosa e Liebknechet. Sabemos, hoje, que a ordem de  execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o partiu do Governo. Mas, tamb\u00e9m sabemos, que a persegui\u00e7\u00e3o  que cercava os revolucion\u00e1rios spartakistas foi incentivada por Ebert e  Scheidemann: Noske, e os Freikorps sob o seu comando, de onde surgiria,  nos anos seguintes, uma boa parte do material humano das mil\u00edcias  nazistas, eram um ponto de apoio vital do governo, que duvidava da  disciplina da maioria das tropas militares.<\/p>\n<p>O assassinato de Rosa  teve para o marxismo revolucion\u00e1rio na Alemanha, o efeito devastador de  uma ruptura dos v\u00ednculos entre duas gera\u00e7\u00f5es. A experi\u00eancia pol\u00edtica que  estava resumida nas pessoas de Rosa, de Liebknechet e de Jogiches, o  primeiro companheiro de Rosa, se perdeu. Ningu\u00e9m menos do que Hannah  Arendt, denuncia, sem meias palavras, fundamentando-se na pesquisa de  Nettl, a criminosa atitude dos socialistas no poder.[i]<\/p>\n<p>O Estado  alem\u00e3o-ocidental, ironia da Hist\u00f3ria, assumiu d\u00e9cadas mais tarde,  durante a guerra fria, \u00e0 sua maneira, a responsabilidade pelo  assassinato, apresentando-a nos termos de \u201cuma execu\u00e7\u00e3o de acordo com as  condi\u00e7\u00f5es de lei marcial\u201d. Fez o que Weimar n\u00e3o podia fazer: a  justifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do crime. A compara\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel do esc\u00e1rnio dos  assassinos, com o comportamento dos carrascos de Hitler, nos  julgamentos dos crimes de Guerra, n\u00e3o \u00e9 acidental. Sabiam poder contar  com a impunidade, tal era o grau de depend\u00eancia do governo de  Ebert\/Noske diante do aparato militar.<\/p>\n<p><strong>O confronto prematuro do 5 de Janeiro<\/strong><\/p>\n<p>Uma  contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ajudar\u00e1 a compreender porque foi t\u00e3o  necess\u00e1rio o massacre da dire\u00e7\u00e3o dos spartakistas. As circunst\u00e2ncias  pol\u00edticas das jornadas de janeiro de 19, o primeiro dos v\u00e1rios \u201cjunhos  de 1848\u201d ou \u201cjulhos de 1917\u201d da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 s\u00e3o pouco conhecidas,  mas merecem aten\u00e7\u00e3o, dadas as suas irrepar\u00e1veis conseq\u00fc\u00eancias. As crises  revolucion\u00e1rias tamb\u00e9m t\u00eam os seus tempos desiguais, conhecem  altern\u00e2ncias de conjuntura, e sofrem com a flutua\u00e7\u00e3o e invers\u00e3o das  rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as.<\/p>\n<p>Os acontecimentos que precipitaram as lutas de  janeiro come\u00e7aram de forma quase trivial, como em geral ocorre quando  uma revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em movimento, e se abre uma situa\u00e7\u00e3o de crise  revolucion\u00e1ria. Tudo se iniciou a partir de um primeiro movimento de  contra ofensiva do governo presidido pelo SPD, que considerava  intoler\u00e1vel as permanentes manifesta\u00e7\u00f5es de massas n\u00e3o controladas em  Berlim, fator de impulso e ao mesmo tempo, express\u00e3o da dualidade de  poderes, e resolveu derrubar o chefe de pol\u00edcia da cidade Emil Eichhorn,  membro do USPD, para colocar no lugar algu\u00e9m mais confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Acusado  de incapacidade na preserva\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica, e de permitir que a  pol\u00edcia se transformasse em uma institui\u00e7\u00e3o \u201cquase revolucion\u00e1ria\u201d, era  vital para o governo a sua queda. Eichhorn desafiou a decis\u00e3o do  governo, se recusando a obedecer \u00e0s ordens do Ministro do Interior, e  afirmando que sua autoridade s\u00f3 podia ser questionada pelo Conselho de  oper\u00e1rios e soldados. A dire\u00e7\u00e3o do USPD de Berlim apoiou essa decis\u00e3o, e  resolveu resistir, convocando as massas \u00e0s ruas, para uma manifesta\u00e7\u00e3o  de protesto. J\u00e1 os spartakistas apoiaram a a\u00e7\u00e3o de rua, mas defendendo a  greve geral e, mais importante, que as tropas do ex\u00e9rcito deveriam ser  desarmadas, e os trabalhadores armados.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Rosa, na  dire\u00e7\u00e3o do KPD, foi a favor, mas ressalvando que a greve deveria ser  somente de protesto, para medir for\u00e7as, e aguardar a rea\u00e7\u00e3o de Ebert e  do Governo e a repercuss\u00e3o junto aos trabalhadores no interior do pa\u00eds. A  passeata, no dia 5 de janeiro, foi um sucesso muito al\u00e9m do que todos  esperavam e, tudo indica, a dire\u00e7\u00e3o do KPD recebeu informes que  garantiam que, uma parte dos soldados aquartelados em Berlim, estavam do  lado dos inssurectos. Mais tarde, isso se demonstrou completamente  infundado.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, a sorte estava lan\u00e7ada, alea jacta est:  reuni\u00f5es conjuntas dos independentes (USPD) de Berlim, dos comunistas e  dos delegados revolucion\u00e1rios constitu\u00edram um organismo comum das tr\u00eas  fra\u00e7\u00f5es, com 33 membros e um secretariado de tr\u00eas dirigentes,  Liebknecht, Lebedour e Scholze. As atribui\u00e7\u00f5es precisas desse organismo  permanecem obscuras: seria sua responsabilidade, ou inten\u00e7\u00e3o, dirigir o  movimento como um protesto, ou tentar a derrubada do governo?<\/p>\n<p>A  quest\u00e3o \u00e9 pertinente, e talvez sem resposta hist\u00f3rica, porque a esquerda  socialista alem\u00e3, em todas as suas sensibilidades e matizes, inclusive  Rosa e a dire\u00e7\u00e3o spartakista, tinha sido formada em uma cultura de que  revolu\u00e7\u00f5es \u201cn\u00e3o se fazem\u201d, mas s\u00e3o feitas pelas massas. J\u00e1 a milit\u00e2ncia  spartakista, em sua maioria, jovens que n\u00e3o viveram o per\u00edodo anterior \u00e0  guerra, e pouco experientes, tinha inclina\u00e7\u00f5es voluntaristas  incorrig\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas, para os que se tinham formado no velho SPD  antes da guerra, a aprendizagem de consci\u00eancia de classe deveria ser  ditada pelo curso das lutas e eventos, e deveria ser o protagonismo dos  trabalhadores, deslocando as institui\u00e7\u00f5es, quem colocaria objetivamente o  poder nas ruas. Essa era a cultura da esquerda socialista na Alemanha:  governos caem, n\u00e3o s\u00e3o derrubados; o pal\u00e1cio se rende, n\u00e3o \u00e9 tomado. A  ordem pol\u00edtico-social desaba, finalmente, pela for\u00e7a da a\u00e7\u00e3o das massas,  e o governo, pela perda de legitimidade, cai \u201cde maduro\u201d. Sujeito  social e sujeito pol\u00edtico, movimento e dire\u00e7\u00e3o, classe e partido, se  confundem. Revolu\u00e7\u00e3o e insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se separam.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9  dif\u00edcil discernir at\u00e9 onde estavam dispostos a ir efetivamente os  revolucion\u00e1rios reunidos ap\u00f3s o entusiasmo da manifesta\u00e7\u00e3o do 5 de  Janeiro. Setores de vanguarda dos trabalhadores come\u00e7aram a ocupa\u00e7\u00e3o de  pr\u00e9dios em Berlim, entre eles, os escrit\u00f3rios do Vow\u00e4rts, o di\u00e1rio do  SPD. Esse n\u00e3o foi um pequeno erro: a grande maioria do povo, ainda que  desconfiado da decis\u00e3o de demiss\u00e3o do seu chefe de pol\u00edcia, ainda  reconhecia o SPD como a sua dire\u00e7\u00e3o e o Vow\u00e4rts como o seu jornal  di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na seq\u00fc\u00eancia, o comit\u00ea conjunto da esquerda revolucion\u00e1ria  votou, embriagado pela press\u00e3o dos acontecimentos, uma ef\u00eamera  resolu\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o teve maiores desdobramentos) a favor de derrubar o  governo. At\u00e9 Liebknecht votou a favor, contra a posi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do  seu partido, que sabia ser tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o de Rosa e Radek, o dirigente  russo ent\u00e3o colaborando em Berlim. Mas, j\u00e1 no dia 6 de Janeiro, esse  Executivo das tr\u00eas correntes estava em d\u00favida sobre a decis\u00e3o da v\u00e9spera  e, sem mais delongas, decidiu apoiar a posi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do USPD que,  entretanto, tinha iniciado negocia\u00e7\u00f5es com o Governo.<\/p>\n<p>Entre outros  fatos, parece ter sido decisiva a neutralidade da Volksmarinedivision, a  unidade militar que o Governo tinha tentado dissolver em Dezembro e  que, tendo recebido o apoio popular, era a grande esperan\u00e7a de  sustenta\u00e7\u00e3o militar do levante. A dire\u00e7\u00e3o spartakista, paradoxalmente,  condenou ambos os movimentos, tanto o de precipitar a luta pelo poder,  quanto a de iniciar negocia\u00e7\u00f5es\u2026O governo, no interim, tinha come\u00e7ado o  movimento de tropas de sua confian\u00e7a para Berlim.<\/p>\n<p><strong>Rosa estava marcada para morrer<\/strong><\/p>\n<p>A  partir da\u00ed come\u00e7ou a fuga. Tudo indica que a l\u00f3gica pol\u00edtica sinuosa  que guiou a posi\u00e7\u00e3o dos spartakistas, com o apoio de Rosa teria sido,  resumidamente, esta: os comunistas consideravam um erro a decis\u00e3o dos  setores mais avan\u00e7ados da classe de iniciar um movimento imediato pela  derrubada do Governo, ou que tensionava o conflito, a tal ponto, que o  problema do poder estaria objetivamente colocado. Sem embargo, como essa  tinha sido a vontade dos trabalhadores em luta, por disciplina de  classe, tinham se unido \u00e0s massas em levante. Mas, enquanto o KPD se  mantinha ao lado dos insurgentes, as outras organiza\u00e7\u00f5es, as primeiras  em colocar objetivos inalcan\u00e7\u00e1veis, bateram em retirada, capitulando em  negocia\u00e7\u00f5es de gabinete, e deixando os trabalhadores \u00e0 merc\u00ea da  repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: os spartakistas foram os \u00faltimos a  \u201caderir\u201d ao levante, mas ele iniciado, os mais reticentes em recuar, e  depois os seus mais destacados m\u00e1rtires. Isabel Loureiro resume, assim, o  seu balan\u00e7o de Rosa nos dias decisivos de Janeiro: \u201cEm suma, nos meses  de novembro-janeiro, Rosa permaneceu fiel \u00e0 sua teoria pol\u00edtica: a a\u00e7\u00e3o  de massas cria as pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es e permite o desenvolvimento da  consci\u00eancia de classe, processo no qual seriam resolvidos os problemas  da tomada do poder e do que fazer com ele ap\u00f3s a vit\u00f3ria. A a\u00e7\u00e3o supre  planos, organiza\u00e7\u00e3o, falta de clareza sobre as tarefas a cumprir \u00e0  medida que os problemas surgem, com eles nascem as respostas desde que  haja total liberdade de movimento(\u2026) A t\u00e1tica bolchevique, ao ver no  partido um contra-poder de assalto ao poder, \u00e9, no que tange a esse  problema, mais eficaz. Os autores, independentemente de posi\u00e7\u00e3o  pol\u00edtica, de maior ou menor simpatia pelos spartakistas, s\u00e3o un\u00e2nimes em  apontar a falta de organiza\u00e7\u00e3o da Liga Spartakus.\u201d (grifo nosso) [ii]  (LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria,  S\u00e3o Paulo, Editora da Unesp, 1995 p.176\/7)<\/p>\n<p>O fr\u00e1gil governo  nascido da revolu\u00e7\u00e3o de novembro que derrubou o Kaiser retomava a  iniciativa, apoiado no deslocamento de tropas disciplinadas, vindas do  interior do pa\u00eds, e poupadas do acelerado processo de radicaliza\u00e7\u00e3o que o  clima de agita\u00e7\u00e3o das massas oper\u00e1rias de Berlim provocava. Mas, sua  for\u00e7a repousava, tamb\u00e9m, nas mil\u00edcias nacionalistas para-militares que  agiam impunemente. As \u201cjornadas de Julho\u201d da primeira vaga da revolu\u00e7\u00e3o  alem\u00e3, se encerravam com a decapita\u00e7\u00e3o do emergente movimento  revolucion\u00e1rio no mais decisivo pa\u00eds da Europa. O paralelo hist\u00f3rico  parece quase irretoc\u00e1vel. A principal lideran\u00e7a spartakista foi v\u00edtima  de uma repress\u00e3o implac\u00e1vel que se abateu sobre um levante que n\u00e3o  dirigiam, que n\u00e3o tinham convocado, de cujas reivindica\u00e7\u00f5es discordavam,  mas que se viram obrigados a acompanhar e defender por solidariedade de  classe.<\/p>\n<p>Os Spartakistas se viram condenados, politicamente, ao  isolamento e abandonados \u00e0 f\u00faria da mais feroz repress\u00e3o na seq\u00fc\u00eancia de  um levante insurreccional, em tudo semelhante, pela sua precocidade, \u00e0  precipita\u00e7\u00e3o das jornadas de Julho em Petrogrado em Julho de 17, quando,  a dire\u00e7\u00e3o bolchevique esteve seriamente amea\u00e7ada (L\u00eanin mergulhou,  ent\u00e3o, na clandestinidade na Finl\u00e2ndia, e Trotsky, entre outros, \u00e9  preso, e os locais p\u00fablicos dos bolcheviques s\u00e3o fechados, enquanto sua  imprensa era proibida). Mas, como os relatos hist\u00f3ricos confirmam \u00e0  exaust\u00e3o, a fragilidade org\u00e2nica dos spartakistas, era incomparavelmente  maior.<\/p>\n<p>A analogia que sugerimos, pretende real\u00e7ar que, na  seq\u00fc\u00eancia de revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de \u201ctipo fevereiro\u201d, uma met\u00e1fora  hist\u00f3rica que remete \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o que derrubou o Czar em 1917, como foi o  9 de novembro na Alemanha, \u00e9 comum que ocorram situa\u00e7\u00f5es de intensa  agudiza\u00e7\u00e3o na luta de classes. Nessas circunst\u00e2ncias, acontecem testes  de for\u00e7a entre as classes em conflito. Setores mais radicalizados entre  os trabalhadores e a juventude, se lan\u00e7am a um confronto aberto,  invariavelmente prematuro, sem considerar que, no conjunto da classe  trabalhadora, e ou, no conjunto do pa\u00eds, existam condi\u00e7\u00f5es efetivas para  lutar pelo poder. Ou para preservar o poder se, eventualmente,  vitoriosos em um primeiro momento. Foi isso que ocorreu, tamb\u00e9m em  Berlim, nos primeiros dias de Janeiro de 1919.<\/p>\n<p>Este epis\u00f3dio  confirma que a contra-revolu\u00e7\u00e3o aprende as li\u00e7\u00f5es dos processos  revolucion\u00e1rios precedentes: a liquida\u00e7\u00e3o f\u00edsica de Rosa era vital para  neutralizar o crescimento da influ\u00eancia dos comunistas, que se  beneficiavam diretamente do impressionante prest\u00edgio da revolu\u00e7\u00e3o de  Outubro entre os trabalhadores. As pesquisas feitas por Jogiches, nos  poucos meses que o separaram da sua morte, igualmente tr\u00e1gica, indicam  que a decis\u00e3o pol\u00edtica de eliminar a qualquer custo Luxemburgo, j\u00e1 tinha  sido tomada, mesmo antes da manifesta\u00e7\u00e3o de 5 de Janeiro.<\/p>\n<p>O que  justifica que se pergunte as raz\u00f5es pelas quais, ela e Liebknecht, n\u00e3o  tenham sido retirados mais cedo do cen\u00e1rio conflagrado de Berlim. A  resposta mais plaus\u00edvel \u00e9 que inexistiam condi\u00e7\u00f5es organizativas de  emerg\u00eancia para fazer o translado. Esse fato, cujas conseq\u00fc\u00eancias  pol\u00edticas para o futuro da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 se demonstraram irrepar\u00e1veis  (o que remete a uma interessante reflex\u00e3o sobre o papel do indiv\u00edduo na  Hist\u00f3ria), pelo peso qualitativo e \u00fanico da personalidade de Rosa na  dire\u00e7\u00e3o dos Spartakistas, fala por si s\u00f3, da import\u00e2ncia do debate  estrat\u00e9gico sobre as rela\u00e7\u00f5es entre movimento e partido, a\u00e7\u00e3o e  organiza\u00e7\u00e3o, aos quais Rosa se entregou de corpo e alma,  incondicionalmente, em um raro exemplo de coer\u00eancia entre teoria e  pr\u00e1tica, durante toda sua vida.<\/p>\n<p><strong>A difama\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem uma hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>A  trag\u00e9dia de sua morte f\u00edsica resume os dilemas de sua her\u00f3ica vida  pol\u00edtica: na primeira crise revolucion\u00e1ria de sua vida, em Vars\u00f3via,  onde chegou clandestina para viver os \u00faltimos meses da vaga de 1905, foi  presa, e solta depois do pagamento de um expressivo resgate-fian\u00e7a; na  segunda, foi morta.<\/p>\n<p>Os seus detratores tiveram origem nas mais  diferentes tend\u00eancias do pensamento social e pol\u00edtico. Todos os m\u00e9todos  de difama\u00e7\u00e3o e cal\u00fania foram usados para diminu\u00ed-la. N\u00e3o surpreende que  as classes dominantes, seja na Alemanha ou na Pol\u00f4nia, n\u00e3o tenham o  menor interesse em divulgar perante as novas gera\u00e7\u00f5es o seu lugar na  Hist\u00f3ria, ou a import\u00e2ncia dos seus trabalhos. Mas os falsificadores do  lugar e obra de Rosa vieram, tamb\u00e9m, e sobretudo, das tend\u00eancias da  esquerda que, por muitas d\u00e9cadas, detiveram a maior influ\u00eancia entre os  trabalhadores e a juventude: a social democracia e o estalinismo.<\/p>\n<p>Os  primeiros, em especial os social-democratas de esquerda, se dedicaram a  converter Rosa em uma inimiga precoce da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, quase  como uma ap\u00f3stola de um socialismo democr\u00e1tico e libert\u00e1rio, em  irredut\u00edvel oposi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, ao socialismo tir\u00e2nico e ditatorial  de um L\u00eanin \u201cb\u00e1rbaro\u201d e \u201casi\u00e1tico\u201d. Esta fic\u00e7\u00e3o deitou ra\u00edzes profundas.  \u00c9 certo que Rosa manteve duras pol\u00eamicas com o bolchevismo durante  anos, antes e depois de Outubro. Ali\u00e1s, da mesma forma que Trotsky, e  muitos outros o fizeram, inclusive muitos membros da pr\u00f3pria fra\u00e7\u00e3o  bolchevique, como Bukharin, Zinoviev e Kamenev. A esquerda  internacionalista pode ter tido outros defeitos, mas nunca foi  monol\u00edtica. A unanimidade n\u00e3o era perseguida como virtude. Todos se  enfrentaram, freq\u00fcentemente, com L\u00eanin, sem que essas acesas querelas  estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas tivessem envenenado as rela\u00e7\u00f5es, ou diminu\u00eddo o  enorme respeito, que sempre foi mutuamente preservado.<\/p>\n<p>Uma  esquerda, em grande medida, minorit\u00e1ria em seus pa\u00edses, diversa em seu  enfoque de interpreta\u00e7\u00e3o do marxismo, mas solid\u00e1ria, como veio a se  demonstrar pelo reencontro hist\u00f3rico na funda\u00e7\u00e3o da Terceira. O que  merece sempre ser destacado, como um exemplo de esfor\u00e7o de unifica\u00e7\u00e3o,  pouco seguido, posteriormente. Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 certo que Rosa  apresentou cr\u00edticas agudas a algumas decis\u00f5es dos bolcheviques, como a  de dissolu\u00e7\u00e3o da Assembl\u00e9ia Constituinte.<\/p>\n<p>Mas, talvez, t\u00e3o ou mais  importante, seria destacar que, todas e cada uma dessas decis\u00f5es,  resultaram de intensas pol\u00eamicas entre os pr\u00f3prios bolcheviques no  poder. Muitas delas p\u00fablicas ou semi-p\u00fablicas. Os russos, antes da  staliniza\u00e7\u00e3o, davam uma enorme import\u00e2ncia \u00e0s opini\u00f5es dos marxistas de  outros pa\u00edses. Por isso, submeteram \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o dos delegados aos  Quatro Primeiros Congressos da Terceira Internacional, delicadas  resolu\u00e7\u00f5es, de car\u00e1ter deliberativo, sobre a pol\u00edtica do Estado  Sovi\u00e9tico. Tamb\u00e9m, nessa dimens\u00e3o, a perda de Rosa foi devastadora. Ela  resumia uma autoridade que, por sua vez, faltava \u00e0 maioria dos jovens  militante que se viram \u00e0 frente dos rec\u00e9m- formados partidos comunistas.  A seguir um extrato de Isabel Loureiro sobre o tema:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cEvitemos  cair nas armadilhas social-democr\u00e1ticas e liberais que acaba\u00adram por  transform\u00e1-la em uma autora anti-bolchevique, e at\u00e9 mesmo n\u00e3o marxista.  Ali\u00e1s, uma vertente interpretativa que fcz fortuna no ocidente aponta  quase exclusivarnente o vi\u00e9s \u201cdemocr\u00e1tico\u201d, vendo a\u00ed a sua contribui\u00e7\u00e3o  ao legado marxista. Esse aspecto salientado, et pour cause, pela  social-democracia, n\u00e3o pode fazer-nos perder de vista que Rosa assim  como os bolcheviques, seguiu sempre, sem vacilar, o mesmo fio condutor: a  revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Mas nem por isso se pode considera-la urna ponta  de lan\u00e7a do bolchevismo na Alemanha, como a direita e os comunistas  sempre afirmaram. S\u00e3o bem conhecidas as suas cr\u00edticas a L\u00eanin e, na hora  da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, ao defender incisivamente os conselhos corno \u00f3rg\u00e3os  do novo poder prolet\u00e1rio, nem por isso passou a ser favor\u00e1vel \u00e0  liberdade \u201cdos que pensam da mesma maneira\u201d. Os comentadores n\u00e3o  comunis\u00adtas s\u00e3o un\u00e2nimes ao reconhecer que Luxemburgo, por sua  independ\u00eancia e firmeza diante dos bolcheviques, teria sido a \u00fanica  lideran\u00e7a na Alemanha capaz de opor-se ao atrelamento do KPD a Moscou.\u201d.<\/em><\/strong> (grifo nosso) (LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, S\u00e3o Paulo, Editora da Unesp, 1995, p.16)<\/p>\n<p>Rosa  acabou sendo, portanto, uma das personalidades mais controvertidas da  hist\u00f3ria do movimento socialista. Em 1923, Ruth Fischer e Arkady Maslow,  dirigentes do partido comunista alem\u00e3o, simp\u00e1ticos \u00e0 campanha da  \u201cbolcheviza\u00e7\u00e3o\u201d impulsionada por Zinoviev, nos tempos da Troika,  iniciaram a campanha contra os desvios, ent\u00e3o \u201cdireitistas\u201d de  Luxemburgo, acusada como heran\u00e7a \u201csifil\u00edtica\u201d do movimento. Seus \u201cerros\u201d  foram ent\u00e3o severamente analisados, \u201cdescobrindo-se\u201d, finalmente  (abracadabra!), que eram quase id\u00eanticos aos de Trotsky. Do esdr\u00faxulo  am\u00e1lgama, resultou um exorcismo do suposto \u201cespontane\u00edsmo\u201d que, por sua  vez, teria ra\u00edzes no economicismo \u201ccatastrofista\u201d de interpreta\u00e7\u00e3o da  \u201ccrise final\u201d do capitalismo, contida em sua obra A Acumula\u00e7\u00e3o do  Capital.<\/p>\n<p><strong>O \u201ccatastrofismo economicista\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Este  tema do economicismo na obra de Luxemburgo foi sempre muito  controverso. A quest\u00e3o te\u00f3rica, como \u00e9 \u00f3bvio, \u00e9 decisiva, no seu sentido  mais grave: o marxismo n\u00e3o \u00e9 fatalismo, mas m\u00e1ximo ativismo. Em que  medida operam as tend\u00eancias estritamente econ\u00f4micas \u00e0 crise do  capitalismo, como um dos fatores decisivos do atual per\u00edodo hist\u00f3rico?  Mandel sintetiza, nos termos que poder\u00e3o ser conferidos a seguir, os  limites metodol\u00f3gicos da cr\u00edtica que, de t\u00e3o freq\u00fcente, se tornou quase  um \u201clugar comum\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cEs en este contexto que los  seguidores de Marx han intenta\u00addo formular de modo mas rigoroso el  probable destino dcl capitalismo. Rosa Luxemburg fue la primera en  tratar de elaborar sobre uma base estrictamente cient\u00edfica una teor\u00eda  del inevitable derrumbe dcl modo capitalista dc producci\u00f3n. En su libro  La acumulaci\u00f3n del capital intent\u00f3 demonstrar que la reproducci\u00f3n  ampliada. con plena realizaci\u00f3n del plusvalor producido durante el  proceso de producci\u00f3n propiamente dicho, era imposible en el capitalismo  \u2018puro\u2019. Ese modo de producci\u00f3n, por lo tanto, ten\u00eda una tendencia  inherente a expandirse en un medio no capitalista, es decir, a devorar  grandes \u00e1reas de peque\u00f1a producci\u00f3n de mercanc\u00edas que a\u00fan sobreviven  den\u00adtro de la metr\u00f3poli capitalista y a expandirse continuamente hacia  la periferia no capitalista es decir los paises coloniales y  semicoloniaIes. Esa expansion -incluyendo sus formas m\u00e1s radicales, el  colonialismo y las destructivas guerras coloniales de la epoca  contempor\u00e1nea; el imperialismo y las guerras imperialistas era  indispensable para la supervivencia del siste\u00adma(\u2026) Pero Luxcm\u00adbourg  dejaba claro que, mucho antes dc ese momento final las simples  consecuencias de esas formas de expansi\u00f3n cada vez mas violentas, as\u00ed  como las consequencias del gradual encogi\u00admiento del medio no  capitalista, agudizar\u00edan las contradicciones internas del sistema hasta  tal punto de explosi\u00f3n, preparan\u00addo as\u00ed su derrocamiento  revolucionario.\u201d (MANDEL, Ernest, El Capital, Cien A\u00f1os de Controv\u00e9rsias  en torno a la obra de Karl Marx, M\u00e9xico, SigloXXI, 1985, p.233\/4)[iii]<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00c0  luz da hist\u00f3ria da segunda metade do s\u00e9culo XX, um intervalo expressivo  para permitir a avalia\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias de longo prazo, n\u00e3o parece  razo\u00e1vel alimentar a expectativa de que o desmoronamento do capitalismo  possa ocorrer por \u201cmorte natural\u201d. Fatores como o atraso da entrada em  cena dos trabalhadores em pa\u00edses chaves, e o correspondente atraso na  constru\u00e7\u00e3o de novas dire\u00e7\u00f5es independentes, deveriam ganhar uma nova  dimens\u00e3o. Seriam essas conclus\u00f5es incompat\u00edveis com um quadro de an\u00e1lise  como o feito por Rosa Luxemburgo? Vejamos, de novo, o argumento de  Mandel:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cAlgunos cr\u00edticos han sostenido que, al basar  la perspectiva del inevitable derrumbe del modo capitalista de  producci\u00f3n exclusivamente en las leyes de movimiento del sistema,  Luxemburg retroced\u00eda hac\u00eda el \u2018economicismo\u2019; que eso era una regresi\u00f3n  del modo como los propios Marx y Engels y sus primeros disc\u00edpulos  integraban siempre los movimientos y leyes econ\u00f3micos con la lucha de  clases, a fin de llegar a proyecciones y perspecti\u00advas hist\u00f3ricas  generales. Sin embargo esa objeci\u00f3n es injustificada. Si bien es cierto  que la historia contempor\u00e1nea del capitalismo, y en realidad la historia  de cualquier modo de producci\u00f3n en cualquier \u00e9poca, no se puede  explicar satisfactoriamente sin tratar la lucha de clases (y  especialmente su desenlace despu\u00e9s de ciertas batallas decisivas) como  factor parcialmente aut\u00f3nomo, tambi\u00e9n es cierto que toda la  significaci\u00f3n del marxismo desaparece si esa autonomia parcial se  transforma en autonomia absoluta. Es justamente el m\u00e9rito de Rosa  Luxernburg, as\u00ed como de sus varios antagonistas subsiguientes en la  \u2018pol\u00e9mica del derrumbe\u201d, el haber relacionado los altibajos de la lucha  de clases con las leyes internas de mov\u00edmiento del sistema. Si  supusi\u00e9ramos que o bien la infinita adaptabilidad del sistena  capitalista, o la astucia pol\u00edtica de la burguesia, o la incapacidad del  proletariado de elevar su conciencia a nivel suficiente (por no hablar  de la supuesta creciente \u201cintegraci\u00f3n\u201d de la clase trabajadora a la  sociedad burguesa), pueden, a largo plazo y por tiempo indefinido,  neutralizar o invertir las leyes internas del movimiento y las  contradicciones intr\u00ednsecas del sistema, es decir, impedirles afirmarse,  entonces la \u00fanica conclusi\u00f3n cientificamente correcta seria que esas  leyes(\u2026) no corresponden a la esencia del sistema: en otras palabras que  Marx estaba b\u00e1sicamente equivocado al pensar que hab\u00eda descubierto esa  esencia<\/em><\/strong>\u201d(MANDEL, Ernest, El Capital, Cien A\u00f1os de Controv\u00e9rsias en torno a la obra de Karl Marx, M\u00e9xico, SigloXXI, 1985, p.233\/4)<\/p>\n<p>A  an\u00e1lise \u00e9 irretoc\u00e1vel. Sem negar a atualidade das conclus\u00f5es sobre o  movimento de rota\u00e7\u00e3o do Capital, reveladas por Marx, seria necess\u00e1rio  acrescentar que a esfera de autonomia crescente da pol\u00edtica, na  defini\u00e7\u00e3o dos desenlaces da luta de classes, tem permitido o adiamento  de novas crises catastr\u00f3ficas, como a de 1929. N\u00e3o foi outro o lugar das  pol\u00edticas keynesianas anti-c\u00edclicas do p\u00f3s-guerra e dos pactos sociais  nos pa\u00edses centrais. O que n\u00e3o anula, strictu sensu, a defesa  metodol\u00f3gica que Mandel faz de Rosa, mas recoloca o problema de forma  mais complexa, para al\u00e9m de uma resposta bin\u00e1ria, como, \u201cou ela estava  essencialmente certa, ou essencialmente errada\u201d. Porque s\u00f3 conseguiram  adiar a crise, aumentando a intensidade dos fatores de crise. Um novo  \u201c29\u201d, portanto, \u00e9 mais do que poss\u00edvel, \u00e9 em uma perspectiva hist\u00f3rica, a  hip\u00f3tese mais prov\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>A acusa\u00e7\u00e3o final: espontane\u00edsmo e trotskismo \u201cavant la lettre\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Os  impressionantes ziguezagues dos dez anos seguintes levaram a uma  mudan\u00e7a do foco da cr\u00edtica. Em 1925, depois de mais um giro imposto  pelas necessidades da diplomacia de Estado na URSS, aos quais os jovens  PC\u2019s estavam disciplinadamente comprometidos, Fischer e Maslow foram  expulsos. Os ataques a Rosa, ent\u00e3o, inverteram o seu signo. Inventaram,  na seq\u00fc\u00eancia, que seus desvios, afinal, n\u00e3o teriam sido direitistas, mas  ultra-esquerdistas.<\/p>\n<p>Mas esse n\u00e3o seria o \u00faltimo cap\u00edtulo da  novela. Mais uma espetacular reviravolta ainda estava por se dar.  Durante o chamado \u201cTerceiro Per\u00edodo\u201d, que se estendeu entre 1928 e 1935,  o PCA se recusou a fazer qualquer gesto de aproxima\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o com o  SPD, para resistir ao perigo da chegada ao poder de Hitler. Sob a  alega\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita de que os socialistas seriam sociais-fascistas, isto  \u00e9, socialistas em palavras, mas quinta coluna do fascismo nos atos  (ali\u00e1s, a mesma espantosa teoria ressuscitada pelo mao\u00edsmo nos anos 70,  s\u00f3 que a prop\u00f3sito da URSS, e dos partidos pr\u00f3-moscovitas), Rosa  Luxemburgo foi acusada novamente de direitista.<\/p>\n<p>Finalmente, em  1931, o pr\u00f3prio Stalin, j\u00e1 sem intermedi\u00e1rios, se uniu \u00e0 campanha de  difama\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em um famoso artigo, \u201cProblemas da Hist\u00f3ria do  Bolchevismo\u201d, em que reescrevia a hist\u00f3ria de acordo \u00e0s suas  conveni\u00eancias, e no qual decretou, contrariando as mais incontroversas  evid\u00eancias, que Rosa seria respons\u00e1vel pelo imprescrit\u00edvel \u201cpecado  te\u00f3rico\u201d da revolu\u00e7\u00e3o permanente. N\u00e3o satisfeito com essa ligeireza,  acusou Trotsky de ter plagiado Luxemburgo.<\/p>\n<p>Nesse mesmo artigo,  mais aberrante ainda, proclamou que Rosa s\u00f3 teria come\u00e7ado a pol\u00eamica  com o centrismo de Kautsky em 1910. E s\u00f3 depois que L\u00eanin a tivesse  convencido. Mas o artigo de Stalin, n\u00e3o obstante a grotesca  falsifica\u00e7\u00e3o, definiu, irremediavelmente, a posi\u00e7\u00e3o oficial dos partidos  comunistas de todo o mundo por v\u00e1rias d\u00e9cadas. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil  compreender a raz\u00e3o de toda essa hostilidade. Assassinada no auge de sua  maturidade pol\u00edtica, personalidade de grande influ\u00eancia nos c\u00edrculos  revolucion\u00e1rios europeus, m\u00e1rtir da causa do socialismo no pa\u00eds mais  decisivo da Europa, Rosa deixou uma obra de indiscut\u00edvel valor te\u00f3rico e  liter\u00e1rio, em que cada p\u00e1gina est\u00e1 temperada de ardor e determina\u00e7\u00e3o  revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Seu incondicional internacionalismo, seu  apaixonado apelo \u00e0 a\u00e7\u00e3o, sua confian\u00e7a no protagonismo do proletariado,  seu apego irredut\u00edvel aos mais altos valores da \u00e9tica militante, seu  compromisso inalien\u00e1vel com a verdade e a honestidade, sua preocupa\u00e7\u00e3o  com o sentido pol\u00edtico e a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da luta pela liberdade,  enfim, a permanente busca de coer\u00eancia entre suas id\u00e9ias e sua vida,  unidade entre teoria e pr\u00e1tica, eram incompat\u00edveis tanto com o  pensamento e a pr\u00e1tica das castas burocr\u00e1ticas no poder na ex-URSS e na  Europa Oriental, quanto com a vis\u00e3o do mundo das burocracias sindicais e  pol\u00edticas social-democratas confortavelmente adaptadas, de corpo e  alma, \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da ordem capitalista.<\/p>\n<p>Viveu no in\u00edcio da  \u00e9poca do imperialismo e, rapidamente, compreendeu o papel nefasto do  novo militarismo, e a crescente import\u00e2ncia dos gastos com armas como  mecanismo de regula\u00e7\u00e3o do sistema. Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante,  na hora crucial do Agosto de 1914, quando a precipita\u00e7\u00e3o da Primeira  Guerra Mundial colocou a hora da verdade para todos os partidos  marxistas europeus, dirigiu ao lado de Liebknechet, o pequeno grupo de  militantes do SPD que se negaram a apoiar os planos belicistas do seu  pr\u00f3prio governo imperialista. O invent\u00e1rio de suas posi\u00e7\u00f5es, e esta  breve exposi\u00e7\u00e3o de sua trajet\u00f3ria s\u00e3o, portanto, impressionantes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00a0Artigo de Val\u00e9rio Arcary publicado originalmente no Esquerda Online.<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<p><em>[i] ARENDT, Hannah, Introduction in Rosa Luxemburgo, NETTL, J.P., New York, Shocken Books, 1969<\/em><\/p>\n<p><em>[ii] LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, S\u00e3o Paulo, Editora da Unesp, 1995<\/em><\/p>\n<p><em>[iii] MANDEL, Ernest, El Capital, Cien A\u00f1os de Controv\u00e9rsias en torno a la obra de Karl Marx, M\u00e9xico, SigloXXI, 1985<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.revistaforum.com.br\/o-assassinato-de-rosa-luxemburgo-cem-anos-depois\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>LUXEMBURGO, Rosa,\u00a0<strong>\u201cEl Problema en discusi\u00f3n\u201d<\/strong> in\u00a0<strong>La acumulacion de Capital<\/strong>, M\u00e9xico, Cuadernos de pasado y Presente 51, 1980, p.31. Este ensaio \u00e9 tamb\u00e9m conhecido como a Anticr\u00edtica.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reabilita\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica de Rosa est\u00e1 ainda por ser feita diante dos olhos da nova gera\u00e7\u00e3o. Mas enquanto existir uma esquerda que tenha paix\u00e3o revolucion\u00e1ria Rosa Luxemburgo estar\u00e1 viva Se a produ\u00e7\u00e3o capitalista gera um mercado suficiente para si, a acumula\u00e7\u00e3o capitalista (considerada objetivamente) \u00e9 um processo ilimitado. Se a produ\u00e7\u00e3o pode sobreviver, continuar a crescer sem obst\u00e1culos, isto \u00e9, se pode desenvolver as for\u00e7as produtivas ilimitadamente,(\u2026) desmorona um dos mais fortes pilares do socialismo de Marx.(\u2026) Mas (\u2026) o sistema capitalista \u00e9 economicamente insustent\u00e1vel. (\u2026) Se, no entanto, aceitarmos como os \u201cespecialistas \u201d o car\u00e1ter econ\u00f4mico ilimitado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[42],"tags":[1598],"class_list":["post-3051","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo","tag-rosa-luxemburgo-social-democracia-aniversario-morte-berlim"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3051","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3051"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3051\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3051"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3051"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3051"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}