{"id":3035,"date":"2018-12-14T11:50:21","date_gmt":"2018-12-14T10:50:21","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/12\/14\/das-greves-das-mulheres-a-um-novo-movimento-de-classe-a-terceira-onda-feminista\/"},"modified":"2018-12-14T11:50:21","modified_gmt":"2018-12-14T10:50:21","slug":"das-greves-das-mulheres-a-um-novo-movimento-de-classe-a-terceira-onda-feminista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/12\/14\/das-greves-das-mulheres-a-um-novo-movimento-de-classe-a-terceira-onda-feminista\/","title":{"rendered":"Das greves das mulheres a um novo movimento de classe: a terceira onda feminista"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Em 23 de outubro, milhares de trabalhadoras da limpeza de Glasgow  (Esc\u00f3cia) deram in\u00edcio \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o sindical por igualdade salarial  organizada pela Public Services International, Unison e GMB com um  minuto de sil\u00eancio, em mem\u00f3ria das trabalhadoras que morreram antes de  poderem ver o dia em que finalmente seria concedida a mesma dignidade e  valor ao seu trabalho que a dada aos seus colegas homens.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Nesse ato,  havia plena consci\u00eancia de uma longa hist\u00f3ria de grandes e pequenas  humilha\u00e7\u00f5es, de trabalho invis\u00edvel, n\u00e3o reconhecido ou mal pago, de  incont\u00e1veis \u200b\u200bcasos de injusti\u00e7a e pequenos abusos, bem como da  enormidade do desafio enfrentado pela greve das mulheres. Igualdade  salarial: uma meta razo\u00e1vel, quase trivial, e ainda assim t\u00e3o dif\u00edcil de  alcan\u00e7ar, tanto que o\u00a0<a data-type=\"external\" data-content=\"https:\/\/www.weforum.org\/reports\/the-global-gender-gap-report-2017\" rel=\"undefined noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.weforum.org\/reports\/the-global-gender-gap-report-2017\">F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial<\/a> calculou  que \u2013 com base nas tend\u00eancias e dados atuais \u2013 ser\u00e3o \u00a0necess\u00e1rios pelo  menos 217 anos para finalmente superar a disparidade salarial entre  mulheres e homens globalmente ( considerando que o mundo ainda ser\u00e1  habit\u00e1vel em 217 anos \u2026)<\/p>\n<p>Uma semana depois da greve e dos piquetes  em Glasgow, milhares de funcion\u00e1rios do Google, de T\u00f3quio a Nova York,  abandonaram suas mesas e postos de trabalho e sa\u00edram \u00e0s ruas em  protesto, em resposta a uma s\u00e9rie de revela\u00e7\u00f5es publicadas pelo New York  Times sobre casos de ass\u00e9dio sexual, perpetrados por v\u00e1rios gerentes da  gigante da alta tecnologia e convenientemente encobertos. O Google, da  mesma forma que outras grandes empresas da economia digital, como o  Facebook, vem usando a m\u00e1scara do capitalismo progressista h\u00e1 anos: um  empregador que explora, sim, mas sem discriminar entre mulheres e  homens, trans e cis, gays e heterossexuais, e que fica feliz em pagar os  custos do congelamento de \u00f3vulos e da fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. O  protesto, no entanto, n\u00e3o se limitou a casos de ass\u00e9dio sexual no  trabalho; articulou uma s\u00e9rie de reivindica\u00e7\u00f5es, entre as quais se  destacaram a demanda por prote\u00e7\u00e3o e direitos sindicais. Como\u00a0<a data-type=\"external\" data-content=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2018\/nov\/02\/google-walkout-me-too-strike\" rel=\"undefined noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2018\/nov\/02\/google-walkout-me-too-strike\">Moira Donegan escreveu no The Guardian<\/a>,  \u201cO protesto focou-se com admir\u00e1vel clareza na interdepend\u00eancia das  desigualdades de g\u00eanero e de classe, e sugere a possibilidade de  esfor\u00e7os de sindicaliza\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores de tecnologia.\u201d Essas  duas greves, as mais recentes de uma\u00a0<a data-type=\"external\" data-content=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2018\/03\/07\/shape-solidarity-popular-feminisms-international-womens-strike\/\" rel=\"undefined noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2018\/03\/07\/shape-solidarity-popular-feminisms-international-womens-strike\/\">longa s\u00e9rie de greves com mulheres como protagonistas<\/a>,  das greves internacionais do 8 de mar\u00e7o \u00e0s de trabalhadores de  hotelaria e educa\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, nos confrontam com um aparente  dilema. Do que estamos falando quando falamos sobre as greves das  mulheres? Trata-se de luta de classes ou de uma nova onda feminista?<\/p>\n<p><strong>A TERCEIRA ONDA FEMINISTA<\/strong><br \/> Depois de mais de dois anos de mobiliza\u00e7\u00e3o internacional \u2013 duas greves  transnacionais no Dia Internacional da Mulher; e a recente expans\u00e3o do  movimento para o Chile, onde no \u00faltimo ver\u00e3o uma onda de ocupa\u00e7\u00f5es e  greves contra o ass\u00e9dio e a viol\u00eancia sexual atingiu escolas e  universidades em todo o pa\u00eds; da mesma forma que no Brasil, onde a  hashtag #EleN\u00e3o, lan\u00e7ada por algumas mulheres celebridades em resposta \u00e0  ascens\u00e3o eleitoral de Jair Bolsonaro, desencadeou um processo de  mobiliza\u00e7\u00e3o feminista que resultou em uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es  massivas \u2013 \u00e9 claramente hora de dizer que estamos no meio de uma nova  onda feminista. Uma onda que tem diferentes articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e  geogr\u00e1ficas, mas que como um todo tem colocado quest\u00f5es como a viol\u00eancia  de g\u00eanero, desigualdade salarial, direitos reprodutivos e trabalho  reprodutivo das mulheres, bem como liberdades sexuais, no centro do  debate pol\u00edtico e cultural em todos os pa\u00edses atingidos pelas  mobiliza\u00e7\u00f5es. Para compreender totalmente o impacto deste evento, no  entanto, \u00e9 melhor esclarecer os termos. A atual n\u00e3o \u00e9 a quarta nem a  quinta onda feminista. \u00c9 a terceira, e chega cerca de 40 anos ap\u00f3s o  final da segunda. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tem havido uma certa tend\u00eancia a  rotular como \u201conda feminista\u201d movimentos de pensamento que ocorreram  especialmente dentro dos campi universit\u00e1rios e seus arredores. Essas  correntes de pensamento marcaram importantes pontos de mudan\u00e7a na teoria  feminista; no entanto, n\u00e3o estavam enraizados em processos de  mobiliza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica de massa compar\u00e1veis ao movimento  feminista dos anos sessenta e setenta. Assim, se com \u00a0\u201conda\u201d pretendemos  indicar um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica que ocorre  atrav\u00e9s do ascenso de massa, o termo \u00e9 inadequado para indicar correntes  de pensamento ou transforma\u00e7\u00f5es no debate te\u00f3rico. Al\u00e9m disso, as  mudan\u00e7as no pensamento feminista que foram rotuladas como \u201condas\u201d  referem-se principalmente \u00e0 periodiza\u00e7\u00e3o do debate feminista  anglo-americano; aplicando-lhes a categoria de \u201conda\u201d, acabamos por  universalizar uma particularidade geogr\u00e1fica, que deveria ser  \u201cre-provincializada\u201d.<\/p>\n<p>Isso, \u00e9 claro, n\u00e3o significa que a evolu\u00e7\u00e3o  do debate te\u00f3rico dos anos anteriores n\u00e3o tenha influenciado as  reflex\u00f5es e slogans do movimento. Pelo contr\u00e1rio, o transfeminismo e o  anti-essencialismo do movimento tem certamente uma d\u00edvida com a teoria  queer e trans, e seu internacionalismo e anti-racismo s\u00e3o fortemente  influenciados pelo trabalho na interseccionalidade e na rela\u00e7\u00e3o entre  capitalismo e racializa\u00e7\u00e3o. No entanto, a no\u00e7\u00e3o de prolifera\u00e7\u00e3o de  \u201condas\u201d sugere um cont\u00ednuo hist\u00f3rico de mobiliza\u00e7\u00f5es feministas da  segunda onda at\u00e9 o presente, obscurecendo a natureza do atual movimento  feminista como um evento \u2013 e, assim, suas potencialidades para a ruptura  pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>Enquanto a segunda onda feminista, nos anos  sessenta e setenta, tinha como centro impulsionador um n\u00facleo de pa\u00edses  ocidentais capitalistas avan\u00e7ados, a atual onda feminista nasceu da  \u201cperiferia\u201d \u2013 da Argentina e da Pol\u00f4nia \u2013 e se espalhou rapidamente para  um \u00e2mbito global, assumindo uma dimens\u00e3o de massa numa s\u00e9rie de pa\u00edses  mais afetados pela crise e pelas pol\u00edticas de austeridade e conten\u00e7\u00e3o da  d\u00edvida (It\u00e1lia, Espanha, Brasil, Chile\u2026). O uso de tecnologias digitais  e m\u00eddias sociais tem contribu\u00eddo enormemente para o car\u00e1ter  transnacional imediato do movimento, incentivando n\u00e3o s\u00f3 a articula\u00e7\u00e3o  das lutas, mas tamb\u00e9m a circula\u00e7\u00e3o de documentos, id\u00e9ias, slogans,  an\u00e1lises e informa\u00e7\u00f5es, e incentivando uma expans\u00e3o din\u00e2mica da  mobiliza\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 acima de tudo a greve que constitui a novidade mais  importante \u00a0da nova onda. N\u00e3o s\u00f3 porque a greve colocou no centro do  debate o trabalho das mulheres,\u00a0<a data-type=\"external\" data-content=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2015\/11\/02\/issue-5-social-reproduction\/\" rel=\"undefined noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2015\/11\/02\/issue-5-social-reproduction\/\">o papel das mulheres na reprodu\u00e7\u00e3o social<\/a> e  a rela\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o de mercadorias e reprodu\u00e7\u00e3o, mas porque se  tornou o motor principal de um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do qual  uma nova subjetividade feminista anticapitalista est\u00e1 emergindo, a qual \u00e9  fortemente cr\u00edtica ao feminismo liberal, que tamb\u00e9m est\u00e1 presente  internamente \u00e0 nova onda: basta pensar em algumas tend\u00eancias liberais da  Marcha das Mulheres nos Estados Unidos, transformada em um ap\u00eandice  progressista do Partido Democrata, ou as inclina\u00e7\u00f5es punitivistas do  \u00a0#metoo.<\/p>\n<p>O impacto potencial do atual processo de subjetiva\u00e7\u00e3o  feminista emerge mais claramente quando se leva em considera\u00e7\u00e3o a  diferen\u00e7a fundamental entre essa onda e as duas primeiras. Em termos  extremamente esquem\u00e1ticos, a primeira onda feminista \u2013 nas \u00faltimas  d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX \u2013 ocorreu no processo de nascimento  e consolida\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio: do crescimento da  social-democracia alem\u00e3 \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de sindicatos e partidos  social-democratas e comunistas em toda a Europa e nos Estados Unidos.  Nesse processo hist\u00f3rico de politiza\u00e7\u00e3o de massas e da irrup\u00e7\u00e3o da  classe trabalhadora no cen\u00e1rio pol\u00edtico, a primeira onda feminista  reivindicou a plena realiza\u00e7\u00e3o da promessa universalista pr\u00f3pria do  liberalismo democr\u00e1tico e do socialismo, agitando-se em torno do slogan  da igualdade: igualdade de capacidades e direitos. A segunda onda  feminista ocorreu dentro de outro processo de subjetiva\u00e7\u00e3o de classe, o  do surgimento da Nova Esquerda nos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados e da  onda de lutas anticolonialistas e de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Nesse  processo, a segunda onda apropriou-se da palavra de ordem da diferen\u00e7a,  emprestada do nacionalismo negro, para denunciar o sexismo na sociedade e  dentro do movimento e para dar voz e visibilidade a uma especificidade  muitas vezes silenciada.<\/p>\n<p>O contexto da terceira onda feminista \u00e9  radicalmente diferente, uma vez que o novo movimento feminista n\u00e3o \u00e9 a  express\u00e3o de um particularismo dentro de um processo mais amplo de  subjetiva\u00e7\u00e3o. A explos\u00e3o do movimento feminista foi, naturalmente,  precedida por outras mobiliza\u00e7\u00f5es, a temporada de lutas de 2011-2013 com  visibilidade internacional (em particular, Occupy, os Indignados e a  Pra\u00e7a Taksim), com as quais apresenta alguns elementos de continuidade.  Como esses movimentos anteriores, o movimento feminista nasceu fora e  independente de todos os partidos e organiza\u00e7\u00f5es da esquerda tradicional  (ou o que resta dela). E, como em 2011\u20132013, uma das caracter\u00edsticas do  movimento feminista \u00e9 a velocidade com que reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e  parciais \u2013 a den\u00fancia de feminic\u00eddios e o ataque ao direito ao aborto \u2013  se transformaram em uma condena\u00e7\u00e3o total do sistema (o \u00a0modo de  produ\u00e7\u00e3o capitalista e suas institui\u00e7\u00f5es estatais). No entanto, a  natureza anti-sist\u00eamica das mobiliza\u00e7\u00f5es de 2011-2013 n\u00e3o foi  correspondida nem pela capacidade de consolida\u00e7\u00e3o organizacional nem  pela capacidade de identificar pr\u00e1ticas de luta e estrat\u00e9gias  correspondentes \u00e0 radicalidade das an\u00e1lises e aspira\u00e7\u00f5es. Deste ponto de  vista, o movimento feminista nasceu das cinzas da temporada anterior  dos movimentos sociais. Herdou algumas de suas caracter\u00edsticas, mas ao  mesmo tempo deu um passo crucial: a ado\u00e7\u00e3o e a reinven\u00e7\u00e3o coordenadas  internacionalmente da greve como sua principal forma de luta e como sua  identidade pol\u00edtica. Longe de expressar um particularismo, uma  perspectiva parcial, dentro de um processo mais amplo de subjetiva\u00e7\u00e3o,  atrav\u00e9s de greves de mulheres o movimento feminista est\u00e1 cada vez mais  se colocando como o processo internacional de forma\u00e7\u00e3o de classe dessa  fase.<\/p>\n<p><strong>O ARCANO DA CLASSE<\/strong><br \/> A tradi\u00e7\u00e3o marxista \u00e9 assombrada por  um paradoxo. Por um lado, para o marxismo, a no\u00e7\u00e3o de luta de classes \u00e9  um instrumento heur\u00edstico fundamental para a interpreta\u00e7\u00e3o da natureza  do capitalismo e dos processos hist\u00f3ricos capitalistas e constitui seu  horizonte pol\u00edtico-program\u00e1tico. Por outro lado,\u00a0<a data-type=\"external\" data-content=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2015\/10\/31\/how-not-to-skip-class-social-reproduction-of-labor-and-the-global-working-class\/\" rel=\"undefined noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2015\/10\/31\/how-not-to-skip-class-social-reproduction-of-labor-and-the-global-working-class\/\">o que \u00e9 exatamente uma classe <\/a>\u00e9  talvez a quest\u00e3o mais controversa e amb\u00edgua n\u00e3o apenas do debate  marxista, mas dos pr\u00f3prios escritos de Marx. Em Marx, a classe \u00e0s vezes  designa uma entidade metaf\u00edsica ou um momento em uma filosofia da  hist\u00f3ria que resulta na nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o. Em outros momentos, indica e  define a classe trabalhadora industrial com base em crit\u00e9rios  sociol\u00f3gicos e econ\u00f4micos objetivos. Em A Pobreza da Filosofia, Marx  apresenta a famosa distin\u00e7\u00e3o entre \u201cclasse em si\u201d e \u201cclasse para si\u201d,  mas a distin\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas sugerida e est\u00e1 longe de ser clara. Finalmente,  em uma s\u00e9rie de escritos pol\u00edticos, parece que um grupo social n\u00e3o pode  ser considerado como uma classe se n\u00e3o agir politicamente como uma  classe, em uma rela\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica com outra.<\/p>\n<p class=\"font_9\">Essas ambiguidades desempenharam um papel importante no subsequente debate marxista e deram origem a\u00a0<a data-type=\"external\" data-content=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2015\/10\/28\/making-a-living\/\" rel=\"undefined noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.viewpointmag.com\/2015\/10\/28\/making-a-living\/\">teorias divergentes<\/a>.  Esquematicamente, \u00e9 poss\u00edvel distinguir tr\u00eas abordagens principais:  objetivista ou sociol\u00f3gica, metaf\u00edsica (em que \u201cclasse\u201d \u00e9 uma categoria  abstrata que indica o sujeito de uma filosofia progressista da hist\u00f3ria)  e pol\u00edtica. Para entender por que o novo movimento feminista deve ser  entendido como um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o de classe, \u00e9 necess\u00e1rio  referir-se a esta \u00faltima abordagem.<\/p>\n<p>Para E.P. Thompson, \u201cclasse\u201d \u00e9  uma categoria hist\u00f3rica antes de ser te\u00f3rica, uma categoria que deve  ser articulada a partir da observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica de comportamentos  concretos individuais e coletivos que \u2013 ao longo do tempo \u2013 expressam um  car\u00e1ter de classe e criam institui\u00e7\u00f5es de classe (sindicatos, partidos,  associa\u00e7\u00f5es, etc.) Isso significa que a no\u00e7\u00e3o de classe \u00e9 din\u00e2mica,  referindo-se a um processo hist\u00f3rico em vez de expressar a ess\u00eancia de  uma entidade est\u00e1tica. Em outras palavras, entendida como uma categoria  hist\u00f3rica, a no\u00e7\u00e3o de classe n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 categoriza\u00e7\u00e3o  sociol\u00f3gica dos grupos sociais com base em crit\u00e9rios classificat\u00f3rios e  quantitativos. Por exemplo, as defini\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora como o  conjunto de todos os trabalhadores assalariados ou de todos aqueles que,  empregados ou n\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam outros recursos al\u00e9m da venda de sua for\u00e7a  de trabalho, embora n\u00e3o sejam em si mesmos falsas, s\u00e3o vagas, abstratas,  e incompleta. Em resumo, essas defini\u00e7\u00f5es cont\u00eam um elemento de  verdade, mas, se tomadas como defini\u00e7\u00f5es completas, levam a  mal-entendidos anal\u00edticos e erros pol\u00edticos com consequ\u00eancias  relevantes. Pelo contr\u00e1rio, para Thompson, a classe \u00e9 o ponto de chegada  e n\u00e3o o ponto de partida de um processo de forma\u00e7\u00e3o. Por mais paradoxal  que pare\u00e7a, a classe \u00e9 o produto da luta de classes e n\u00e3o o seu  pressuposto.<\/p>\n<p>Daniel Bensa\u00efd articula uma posi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de Thompson, em Marx for Our Times:<br \/> Onde a sociologia positivista afirma \u201ctratar os fatos sociais como  coisas\u201d, Marx sempre os trata como rela\u00e7\u00f5es. Ele n\u00e3o define seu objeto  de uma vez por todas por crit\u00e9rios ou atributos; ele persegue a l\u00f3gica  de suas m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es. Ele n\u00e3o \u201cdefine\u201d uma classe; ele  apreende rela\u00e7\u00f5es de conflito entre classes. Ele n\u00e3o fotografa um fato  social chamado \u201cclasse\u201d; ele est\u00e1 de olho na rela\u00e7\u00e3o de classe em sua  din\u00e2mica conflitiva. Uma classe isolada n\u00e3o \u00e9 um objeto te\u00f3rico, mas um  absurdo.<\/p>\n<p>Se a classe \u00e9 o produto hist\u00f3rico e din\u00e2mico da luta de  classes, o que resta por esclarecer \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre esse processo de  forma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da luta e a posi\u00e7\u00e3o determinada ocupada por grupos  sociais nas rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o. As rela\u00e7\u00f5es sociais de  produ\u00e7\u00e3o estruturam a sociedade, colocando indiv\u00edduos no que Ellen  Meiksins Wood chama de \u201csitua\u00e7\u00f5es de classe\u201d, cuja natureza \u00e9  determinada por fatores objetivos.<\/p>\n<p>No caso das situa\u00e7\u00f5es da classe  trabalhadora, devemos, portanto, referir-nos \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o  dos meios de produ\u00e7\u00e3o (proletariza\u00e7\u00e3o), \u00e0 extra\u00e7\u00e3o do mais-valor  atrav\u00e9s do trabalho assalariado, assim como aos processos de trabalho  historicamente espec\u00edficos, divis\u00e3o do trabalho, etc. No entanto, ser  colocado em uma \u201csitua\u00e7\u00e3o de classe\u201d n\u00e3o significa automaticamente  pertencer a uma classe. De fato, as rela\u00e7\u00f5es de classe nunca se  apresentam \u00e0 experi\u00eancia vivida de maneira imediata. Por exemplo,  escreve Wood, o trabalho na f\u00e1brica n\u00e3o re\u00fane trabalhadores em uma  classe, re\u00fane-os dentro de uma determinada unidade produtiva: o que os  trabalhadores experimentam diretamente \u00e9 sua pr\u00f3pria explora\u00e7\u00e3o em  determinado local de trabalho, n\u00e3o rela\u00e7\u00f5es de classe em geral.  Obviamente, sua coloca\u00e7\u00e3o objetiva dentro das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o cria  as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para que os trabalhadores reunidos em uma  unidade produtiva experimentem uma unidade superior, por exemplo, aquela  com os trabalhadores de outras unidades produtivas no mesmo territ\u00f3rio,  ou no mesmo pa\u00eds, ou em todo o mundo, mas essa unidade superior n\u00e3o \u00e9  uma imagem fiel da estrutura\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o da sociedade atrav\u00e9s de  rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 antes o produto de um processo hist\u00f3rico  contingente e vari\u00e1vel, que Wood chama de \u201cforma\u00e7\u00e3o de classe\u201d. Para  indiv\u00edduos colocados em \u201csitua\u00e7\u00f5es de classe\u201d se constitu\u00edrem como uma  classe, eles devem lutar como classe, ou seja, devem experimentar  antagonismo com outras classes. Para resumir, uma classe n\u00e3o \u00e9 uma  coisa, uma entidade est\u00e1tica, mas uma rela\u00e7\u00e3o social e um conjunto  pol\u00edtico e social, que \u00e9 constitu\u00eddo atrav\u00e9s de processos hist\u00f3ricos  contingentes e espec\u00edficos.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias pol\u00edticas dessa  abordagem te\u00f3rica s\u00e3o enormes. De fato, se a classe \u00e9 o resultado  din\u00e2mico, vari\u00e1vel e contingente de um processo hist\u00f3rico de  autoconstitui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da luta, um dos piores erros pol\u00edticos que  podem ser cometidos \u00e9 impor sobre a hist\u00f3ria modelos abstratos j\u00e1  prontos \u00a0com rela\u00e7\u00e3o a o que conta como luta de classes e o que n\u00e3o. De  fato, existe o risco de continuar a aquecer a nostalgia das formas e  experi\u00eancias do passado (ou daquelas que s\u00e3o meras inven\u00e7\u00f5es de nossa  imagina\u00e7\u00e3o), em vez de reconhecer os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o de classe  que est\u00e3o ocorrendo sob nossos narizes.<\/p>\n<p><strong>A NOVA CLASSE: FEMINISTA, ANTI-RACISTA, INTERNACIONALISTA<\/strong><br \/> A l\u00f3gica dos \u201cmovimentos paralelos\u201d, como observa Lise Vogel,  caracterizou a esmagadora maioria das teorias e estrat\u00e9gias pol\u00edticas da  hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio: de um lado, a luta de classes, de  outro, o movimento de mulheres, movimentos ambientalistas, movimentos  anti-racistas, liberta\u00e7\u00e3o sexual e assim por diante. \u00a0Nesse contexto, na  melhor das hip\u00f3teses, perguntava-se como unir esses movimentos uns com  os outros; na pior das hip\u00f3teses, os v\u00e1rios movimentos \u201cparciais\u201d foram  acusados \u200b\u200bde dividir a unidade da classe, de expressar tend\u00eancias  liberais ou de desviar a aten\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o verdadeiramente central: a  explora\u00e7\u00e3o. A nova onda feminista est\u00e1 oferecendo a oportunidade de  superar o impasse dessa abordagem, porque, mais do que as ondas  anteriores, ela est\u00e1 embaralhando os limites (reais e imagin\u00e1rios) entre  a luta de classes e o movimento feminista. Para voltar aos exemplos de  Glasgow e Google, a dificuldade em responder \u00e0 quest\u00e3o inicial \u2013 \u00e9 luta  de classes ou luta feminista? \u2013 reside no fato de que a quest\u00e3o \u00e9  fundamentalmente errada. Essas greves, assim como as greves  transnacionais do 8 de mar\u00e7o, e em particular as greves argentinas e  espanholas, s\u00e3o uma luta de classes feminista. O movimento feminista  est\u00e1 se tornando cada vez mais um processo de forma\u00e7\u00e3o de uma  subjetividade de classe com caracter\u00edsticas espec\u00edficas: imediatamente  antiliberal, internacionalista, anti-racista, obviamente feminista e  tendencialmente anticapitalista, em excesso e em tens\u00e3o com respeito \u00e0s  institui\u00e7\u00f5es tradicionais da esquerda e suas pr\u00e1ticas. Naturalmente,  esse processo n\u00e3o \u00e9 o mesmo em cada pa\u00eds e \u00e9 definitivamente mais  avan\u00e7ado em alguns pa\u00edses do que em outros. E, no entanto, se  considerarmos o movimento como um todo, \u00e9 esse aspecto que representa  sua maior novidade e encarna as potencialidades mais interessantes.<\/p>\n<p>Quando  falamos de potencialidades, tamb\u00e9m devemos falar sobre os riscos do  fracasso, as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, o trabalho a ser feito e as  estrat\u00e9gias a serem adotadas para que essas potencialidades sejam  realizadas. A realiza\u00e7\u00e3o do potencial criado pela nova onda feminista  requer acima de tudo uma capacidade por parte do movimento de refletir  sobre si mesmo e, portanto, de pensar estrategicamente no mesmo n\u00edvel em  que j\u00e1 se posicionou atrav\u00e9s de sua pr\u00e1tica: a de um \u00a0movimento  anti-sist\u00eamico em n\u00edvel global. Quest\u00f5es como a consolida\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas  compartilhadas de luta \u2013 em primeiro lugar a greve \u2013 a consolida\u00e7\u00e3o  organizacional em n\u00edvel nacional e transnacional, e a universaliza\u00e7\u00e3o do  movimento feminista atrav\u00e9s de sua expans\u00e3o para toda a sociedade e  atrav\u00e9s de sua capacidade de falar pelo todo \u2013 ou \u201ctransversalidade\u201d,  para usar as palavras de\u00a0<a data-type=\"external\" data-content=\"https:\/\/www.revistaamazonas.com\/2018\/05\/13\/veronica-gago\/\" rel=\"undefined noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.revistaamazonas.com\/2018\/05\/13\/veronica-gago\/\">Ver\u00f3nica Gago<\/a> \u2013 est\u00e3o entre as quest\u00f5es centrais que o movimento feminista ter\u00e1 que discutir e enfrentar no pr\u00f3ximo per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>Artigo de Cinzia Aruzza*<\/strong><\/p>\n<p>* \u00e9 membro do coletivo editorial da\u00a0Viewpoint  Magazine,\u00a0professora associada de Filosofia na\u00a0New School for Social  Research\u00a0de Nova York e ativista feminista e socialista. Ela \u00e9 autora do  autor de\u00a0Dangerous Liaisons: The Marriages and Divorces of Marxism and  Feminism.<br \/> *Tradu\u00e7\u00e3o: Mariana Luppi. Revis\u00e3o: Ana Carolina Andrade.  Publicado no site da Comuna \u2013 Tend\u00eancia interna do PSOL e no  International View Point.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 23 de outubro, milhares de trabalhadoras da limpeza de Glasgow (Esc\u00f3cia) deram in\u00edcio \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o sindical por igualdade salarial organizada pela Public Services International, Unison e GMB com um minuto de sil\u00eancio, em mem\u00f3ria das trabalhadoras que morreram antes de poderem ver o dia em que finalmente seria concedida a mesma dignidade e valor ao seu trabalho que a dada aos seus colegas homens.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2324,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[42],"tags":[1577],"class_list":["post-3035","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo","tag-mulheres-greve"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/manif8m.jpg?fit=1536%2C862","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3035","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3035"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3035\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2324"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3035"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3035"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3035"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}