{"id":2987,"date":"2018-10-11T14:58:05","date_gmt":"2018-10-11T13:58:05","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/10\/11\/as-licoes-de-trotski-na-luta-contra-o-fascismo\/"},"modified":"2018-10-11T14:58:05","modified_gmt":"2018-10-11T13:58:05","slug":"as-licoes-de-trotski-na-luta-contra-o-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/10\/11\/as-licoes-de-trotski-na-luta-contra-o-fascismo\/","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es de Trotski na luta contra o fascismo"},"content":{"rendered":"\n<p>O marxismo  afirma que o homem n\u00e3o faz a hist\u00f3ria como quer, mas sim, segundo as  condi\u00e7\u00f5es que encontra. Ao mesmo tempo, n\u00e3o nega em nenhum momento a  subjetividade, a vontade e a intelig\u00eancia como fatores muitas vezes  decisivos na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>O ponto de vista que considera o homem um mero  joguete nas m\u00e3os de for\u00e7as econ\u00f4micas e sociais supra-humanas, que  perseguem seus pr\u00f3prios fins, n\u00e3o tem nada em comum com o marxismo. A  concep\u00e7\u00e3o de sociedade que despreza a intelig\u00eancia \u00e9, ela pr\u00f3pria,  carente de intelig\u00eancia. As ideias, quando absorvidas pelas massas em  movimento, se transformam em for\u00e7a material e, portanto, podem mudar os  rumos da hist\u00f3ria. Assim Marx e Engels formularam o pilar de sua  concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria em <em>A ideologia alem\u00e3<\/em>. Traduzindo para uma linguagem menos filos\u00f3fica, dir\u00edamos: a pol\u00edtica importa.<\/p>\n<p>Desde  esse ponto de vista, os eventos que tiveram lugar na Alemanha a partir  do final dos anos 1920 ganham nova perspectiva, sobretudo agora, quando a  extrema direita levanta novamente a cabe\u00e7a em diversas partes do mundo.  O nazismo venceu no in\u00edcio dos anos 1930, em parte porque durante os  dez anos anteriores realizou um intenso e escrupuloso trabalho de  agita\u00e7\u00e3o e propaganda sobre as massas pequeno-burguesas e \u201cdesclassadas\u201d  de uma Alemanha dilacerada e humilhada pelo tratado de Versalhes[2]. Em  parte, porque faltou intelig\u00eancia e iniciativa revolucion\u00e1ria aos  chefes do proletariado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar que o nazismo n\u00e3o era a  \u00fanica for\u00e7a pol\u00edtica na Alemanha daqueles anos e nem sequer a maior. Ao  lado do NSDAP[3],o partido de Hitler, havia duas outras poderosas  for\u00e7as: os social-democratas do SPD[4] e os comunistas do KPD[5], que,  juntos, abarcavam a imensa maioria da classe oper\u00e1ria alem\u00e3. Esta, por  sua vez, mesmo ap\u00f3s tr\u00eas levantes derrotados (1919, 1921 e 1923),  continuava sendo a principal for\u00e7a social e pol\u00edtica do pa\u00eds. Uma  pol\u00edtica justa por parte da dire\u00e7\u00e3o do proletariado poderia ter barrado o  caminho de Hitler ao poder e transformado a crise terminal da rep\u00fablica  de Weimar em uma terceira revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, ou ao menos impedido a  ascens\u00e3o do nazismo.<\/p>\n<p><em>Poderia<\/em> n\u00e3o quer dizer que <em>certamente seria<\/em>.  Mas \u00e9 preciso saber que esteve colocada essa possibilidade. A vit\u00f3ria  do nazismo nunca foi inevit\u00e1vel. Ela ocorreu por uma complexa combina\u00e7\u00e3o  de fatores, em que um dos mais importantes foi a pol\u00edtica adotada pelo  KPD stalinizado, que considerava a social-democracia como a principal  inimiga da classe trabalhadora e por isso se recusava terminantemente a  realizar com ela qualquer frente \u00fanica para barrar a ascens\u00e3o de Hitler.  N\u00e3o seria um exagero dizer que a hist\u00f3ria n\u00e3o conhece at\u00e9 hoje maior  exemplo de estupidez e cegueira pol\u00edtica. O pre\u00e7o deste erro foi pago  com o esmagamento do movimento oper\u00e1rio alem\u00e3o e com a Segunda Guerra  Mundial.<\/p>\n<p><strong>Origem e ascenso do nazismo<br \/> <\/strong>O  Partido Nacional Socialista Alem\u00e3o dos Trabalhadores aparece em primeiro  plano na cena pol\u00edtica no final de 1923, por ocasi\u00e3o do assim chamado \u201c<em>Putsch da Cervejaria\u201d,<\/em> ou \u201cPutsch de Munique\u201d, quando Hitler e seus seguidores tentam um golpe  contra o governo da Baviera. O levante fracassa rotundamente e o jovem  Partido Nazista sofre uma dura repress\u00e3o. Depois de passar cerca de um  ano na pris\u00e3o, onde escreve sua obra program\u00e1tica, <em>Mein Kampf<\/em> (Minha Luta), Hitler come\u00e7a um amplo e profundo operativo para  recrutamento de novos membros, ao mesmo tempo em que busca formas de  financiamento de suas atividades pol\u00edticas e paramilitares.<\/p>\n<p>Os  membros do Partido Nazista v\u00eam das pequenas cidades e s\u00e3o, em geral,  pequeno-burgueses falidos e elementos \u201cdesclassados\u201d da sociedade alem\u00e3,  que se encontra mergulhada no caos do desemprego e da hiperinfla\u00e7\u00e3o. No  final dos anos 1920 o partido come\u00e7a uma mete\u00f3rica ascens\u00e3o pol\u00edtica,  que tamb\u00e9m se expressa em resultados eleitorais. Os nazistas passam de  cerca de 800 mil votos obtidos nas elei\u00e7\u00f5es de 1928 para o Reichstag,  quando elegem 13 deputados, para mais de 6,4 milh\u00f5es de votos, ocupando  nada menos que 105 cadeiras no parlamento.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1932 saltam para a  impressionante marca dos 13,7 milh\u00f5es de votos no segundo turno das  elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Por outro lado, em novembro do mesmo ano, nas  elei\u00e7\u00f5es parlamentares, sua vota\u00e7\u00e3o sofre uma queda sens\u00edvel, descendo  para 11 milh\u00f5es de votos, o que em termos de bancada no Reichstag  significa a redu\u00e7\u00e3o de 230 para 196 deputados. Os resultados obtidos nas  elei\u00e7\u00f5es de novembro de 1932 indicam uma queda na influ\u00eancia dos  nazistas e revelam os limites de suas possibilidades eleitorais, ou,  mais precisamente, a impossibilidade do nazismo chegar ao poder pela via  eleitoral, uma vez que a maior parte do proletariado, que constitui a  maioria da popula\u00e7\u00e3o, continua votando no SPD e no KPD, seus partidos  tradicionais.<\/p>\n<p>A derrota eleitoral de Hitler d\u00e1 certo \u00e2nimo \u00e0  classe oper\u00e1ria, que come\u00e7a a resistir ao nazismo de maneira espont\u00e2nea,  praticamente sem a dire\u00e7\u00e3o de seus l\u00edderes. Em setembro de 1932 ocorre  em Berlim uma greve do transporte, que paralisa completamente a cidade.  Esse in\u00edcio de ascenso do movimento oper\u00e1rio, aliado ao enfraquecimento  eleitoral&nbsp; dos nazistas, se torna a principal preocupa\u00e7\u00e3o da alta  burguesia alem\u00e3, que, temendo uma nova onda revolucion\u00e1ria, adere em  peso \u00e0 ideia de um governo Hitler. O KPD e o SPD permanecem passivos.<\/p>\n<p>Em  30 de janeiro de 1933, frente ao agravamento da crise nacional, o  presidente Paul von Hindenburg nomeia Hitler chanceler, em substitui\u00e7\u00e3o a  Kurt von Schleicher. Em 27 de fevereiro de 1933 o pr\u00e9dio do Reichstag \u00e9  incendiado. O fato \u00e9 utilizado por Hitler para iniciar uma poderosa  repress\u00e3o contra os comunistas e outras for\u00e7as do espectro pol\u00edtico  alem\u00e3o. Atrav\u00e9s de uma coaliz\u00e3o com outras organiza\u00e7\u00f5es de direita e com  o apoio parlamentar do centro cat\u00f3lico, Hitler aprova o assim chamado  Ato de Habilita\u00e7\u00e3o ao Poder, que lhe permite governar com poderes  ditatoriais e eliminar v\u00e1rios direitos civis, antes garantidos pela  Constitui\u00e7\u00e3o de Weimar. Um ap\u00f3s o outro, os partidos pol\u00edticos s\u00e3o  abolidos e todos os l\u00edderes, presos ou assassinados. A noite nazista,  que duraria doze longos anos, finalmente desce sobre a Alemanha.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica do stalinismo<br \/> <\/strong>A  fase de crescimento vertiginoso da influ\u00eancia do nazismo coincide no  tempo com o que o stalinismo convencionou chamar de \u201cterceiro per\u00edodo\u201d. O  termo foi cunhado em 1928 e corresponderia ao per\u00edodo de agonia final  do capitalismo, etapa na qual o capitalismo seria fatalmente destru\u00eddo  pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. A conclus\u00e3o l\u00f3gica dessa avalia\u00e7\u00e3o foi que as  massas se encontravam em um gigantesco ascenso, e que, portanto, toda e  qualquer frente com outras for\u00e7as e movimentos deveria ser descartada.  Os partidos comunistas deveriam marchar sozinhos, rumo \u00e0 tomada do  poder.<\/p>\n<p>Qualquer frente ou acordo seria uma trai\u00e7\u00e3o e significaria a  entrega da revolu\u00e7\u00e3o. Sendo assim, a luta contra os inimigos internos  ao movimento oper\u00e1rio deveria ser intensificada e at\u00e9 elevada ao  primeiro plano. Desta forma, toda a pol\u00edtica dos partidos comunistas  deveria ser direcionada contra o principal concorrente dentro do  movimento oper\u00e1rio: a social-democracia e os partidos socialistas. Vale a  pena lembrar que esta pol\u00edtica de delimita\u00e7\u00e3o absoluta com os  reformistas j\u00e1 havia sido condenada pelo III Congresso da Internacional  Comunista, realizado em 1921, no qual se definiu pela atua\u00e7\u00e3o em  conjunto, sob certas condi\u00e7\u00f5es, com os partidos da social-democracia  internacional. Esta pol\u00edtica de unidade de classe para enfrentamento do  inimigo comum entrou para a hist\u00f3ria com o nome de Frente \u00danica.<\/p>\n<p>Desde  a sua elabora\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica ultraesquerdista do \u201cterceiro per\u00edodo\u201d foi  aplicada a fundo na Alemanha. Isso significou a recusa a qualquer  unidade de a\u00e7\u00e3o entre o SPD e o KPD para enfrentar f\u00edsica e  politicamente o nazismo. Em todas as situa\u00e7\u00f5es e em qualquer lugar, a  social-democracia era considerada o inimigo principal. O reformismo foi  igualado ao nazismo; surgiram e se propagaram express\u00f5es est\u00fapidas e  rasteiras como \u201csocial-fascismo\u201d, \u201cala moderada do fascismo\u201d (para se  referir ao Partido Socialista) e outras. Os dirigentes do Partido  Comunista da Alemanha memorizavam e recitavam como papagaios a cita\u00e7\u00e3o  de Stalin de 1924, na qual ele dizia:<\/p>\n<p>\u201c<em>O fascismo \u00e9 uma  organiza\u00e7\u00e3o de combate da burguesia que se assenta no apoio ativo da  social-democracia. A social-democracia \u00e9, objetivamente, a ala moderada  do fascismo (\u2026). Essas duas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o se excluem mutuamente. Ao  contr\u00e1rio, se complementam. Elas n\u00e3o s\u00e3o ant\u00edpodas, s\u00e3o g\u00eameas<\/em>\u201d.[6]<\/p>\n<p>Como  desenvolvimento l\u00f3gico dessa lament\u00e1vel teoria, se afirmava que a  vit\u00f3ria sobre o fascismo (que se reconhecia como inimigo) n\u00e3o seria  poss\u00edvel sem que antes se derrotasse a social-democracia. A  social-democracia era, segundo a teoria de Stalin, o pior inimigo, pois  estava infiltrada nas fileiras do movimento oper\u00e1rio, enquanto o  fascismo era um elemento externo, e por isso menos perigoso.<\/p>\n<p>\u00c0  medida que o ascenso do nazismo se torna evidente e preocupante, a  Internacional Comunista muda sua t\u00e1tica, e o KPD inicia um chamado \u00e0  base da social-democracia para que os oper\u00e1rios socialistas rompam com a  dire\u00e7\u00e3o do SPD e conformem, sob a dire\u00e7\u00e3o do KPD, uma \u201cfrente \u00fanica  pela base\u201d, tamb\u00e9m chamada de \u201cfrente \u00fanica vermelha\u201d.<\/p>\n<p>Fora a  caracteriza\u00e7\u00e3o da social-democracia como \u201ctraidora\u201d e \u201cala moderada do  fascismo\u201d, os stalinistas n\u00e3o informam o motivo pelo qual os oper\u00e1rios,  que haviam confiado na social-democracia por toda sua vida pol\u00edtica,  deveriam romper com ela justo agora e se submeter \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do Partido  Comunista. Para piorar, as condi\u00e7\u00f5es levantadas pela dire\u00e7\u00e3o da  Comintern para que se realize uma frente \u00fanica entre as duas  organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o absolutamente inaceit\u00e1veis para os socialistas. A  iniciativa fracassa.<\/p>\n<p>Mas as atrocidades stalinistas n\u00e3o param por  a\u00ed e logo o vi\u00e9s direitista dessa pol\u00edtica ultraesquerdista se far\u00e1  notar: Em mar\u00e7o de 1931, nazistas e comunistas se aliam em um plebiscito  sobre a dissolu\u00e7\u00e3o antecipada do <em>Landtag<\/em>[7] da Pr\u00fassia, uma  posi\u00e7\u00e3o chave controlada pela social-democracia no interior da Alemanha.  Os nazistas batizam o plebiscito de \u201cplebiscito marrom\u201d, e os  comunistas, de \u201cplebiscito vermelho\u201d. Os 25 milh\u00f5es de votos necess\u00e1rios  para a dissolu\u00e7\u00e3o do <em>Landtag<\/em> n\u00e3o s\u00e3o atingidos, mas a campanha  fortalece enormemente o Partido Nazista, que sai do processo com grande  autoridade. Ao mesmo tempo, a dire\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista  conclui que o vencedor do plebiscito foi o KPD. O cen\u00e1rio pol\u00edtico  torna-se cada dia mais bizarro, um verdadeiro \u201cbaile de m\u00e1scaras\u201d[8], na  express\u00e3o de Trotski.<\/p>\n<p>Em setembro de 1931, Rudolf Breitscheid,  dirigente social-democrata, declara publicamente que se os nazistas  continuarem a se fortalecer, ser\u00e1 necess\u00e1rio conformar uma frente \u00fanica  de luta entre comunistas e social-democratas para combater o inimigo  comum. Em resposta, Ernst Th\u00e4lmann, dirigente m\u00e1ximo do KPD, denuncia a  declara\u00e7\u00e3o de Breitscheid como uma \u201cmanobra do social-fascismo\u201d e uma  \u201camea\u00e7a\u201d contra o KPD (sic!).<\/p>\n<p>Tal \u00e9, em grandes tra\u00e7os, a pol\u00edtica  geral do KPD desde o final dos anos 1920 at\u00e9 a pr\u00f3pria chegada dos  nazistas ao poder. Evidentemente, tal pol\u00edtica impede qualquer unidade  de a\u00e7\u00e3o, m\u00ednima que seja, para combater a amea\u00e7a nazista. O resultado \u00e9  que o nazismo se fortalece em um cen\u00e1rio que n\u00e3o lhe oferece qualquer  tipo de resist\u00eancia, nem pol\u00edtica, nem f\u00edsica. A linha ultraesquerdista  de Stalin abre caminho para uma das maiores derrotas sofridas pelo  proletariado no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>No entanto, seria ing\u00eanuo pensar que  Stalin n\u00e3o via o perigo eminente de chegada dos nazistas ao poder. O  problema \u00e9 que Stalin utilizava outros par\u00e2metros para formular sua  pol\u00edtica. Segundo o historiador ingl\u00eas E. H. Carr, Stalin apostava que  os nazistas, ao chegarem ao poder, manteriam uma pol\u00edtica de alian\u00e7a com  a URSS contra Versalhes e as pot\u00eancias ocidentais, ao passo que os  social-democratas tendiam a aproximar-se mais da Fran\u00e7a e Inglaterra, o  que s\u00f3 poderia se dar \u00e0s custas da rela\u00e7\u00e3o com a URSS. Ou seja, a  trai\u00e7\u00e3o era maior do que se imaginava: Stalin sacrificou <em>conscientemente<\/em> o proletariado alem\u00e3o, entregando-o ao nazismo, em nome de uma pol\u00edtica  externa de estabilidade militar e vantagens comerciais. A esse ponto  chegava o cinismo do formulador da teoria do socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas  a \u201cclarivid\u00eancia\u201d da burocracia stalinista ia mais al\u00e9m: a dire\u00e7\u00e3o do  KPD e da Internacional Comunista acreditava que os nazistas, uma vez no  poder, se desgastariam t\u00e3o rapidamente, que isso abriria, quase que  imediatamente, a possibilidade de um governo do KPD. Coerente com essa  \u201cprevis\u00e3o\u201d, em 1931 Th\u00e4lmann lan\u00e7a mais uma f\u00f3rmula: \u201c<em>Depois de Hitler, ser\u00e1 nossa vez!<\/em>\u201d Foi o \u00faltimo erro daquela dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um  m\u00eas depois da nomea\u00e7\u00e3o de Hitler como chanceler da Alemanha, o KPD j\u00e1  estava na ilegalidade, suas sedes estavam destru\u00eddas e seus l\u00edderes j\u00e1  estavam na pris\u00e3o. O Partido Nazista, por sua vez, em novas elei\u00e7\u00f5es,  conquistou a maioria definitiva no Reichstag, com mais de 17 milh\u00f5es de  votos. A vit\u00f3ria nazista estava consolidada. Enquanto os nazistas  comemoravam nas ruas e continuavam as repress\u00f5es, a dire\u00e7\u00e3o do KPD (a  parte que n\u00e3o foi presa) relatava ao Comit\u00ea Executivo da IC:<\/p>\n<p>\u201c<em>Desde  1924, o chefe do proletariado mundial, o camarada Stalin, deu uma  avalia\u00e7\u00e3o \u00edmpar de exatid\u00e3o e perspic\u00e1cia sobre a evolu\u00e7\u00e3o da  social-democracia em dire\u00e7\u00e3o ao fascismo<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Depois de citar a  f\u00f3rmula de Stalin sobre a social-democracia e o fascismo como \u201cirm\u00e3os  g\u00eameos\u201d, Friz Heckert, respons\u00e1vel pelo relat\u00f3rio, conclu\u00eda:<\/p>\n<p>\u201c<em>Tudo  o que aconteceu na Alemanha confirmou particularmente a justeza do  diagn\u00f3stico do camarada Stalin: Hitler n\u00e3o rejeita o apoio da  social-democracia<\/em>\u201d.[9]<\/p>\n<p>Evidentemente, a culpa pela trag\u00e9dia  foi colocada na social-democracia, que, segundo a vis\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do  KPD, preferiu o apoio aos nazistas \u00e0 frente \u00fanica sob a dire\u00e7\u00e3o dos  comunistas. Outra parte da culpa recaiu sobre as costas daqueles que  menos podiam se defender naquele momento: as massas alem\u00e3s, que n\u00e3o  haviam \u201camadurecido\u201d o suficiente para uma insurrei\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria  vitoriosa.<\/p>\n<p>Desta forma, a cabe\u00e7a do proletariado mais organizado e  com maior tradi\u00e7\u00e3o de luta da hist\u00f3ria foi entregue ao nazismo em uma  bandeja, sem batalha, pela dire\u00e7\u00e3o da Comintern e sob as ordens de  Stalin.<\/p>\n<p><strong>A luta de Trotski<br \/> <\/strong>No momento em que o  nazismo ascende ao poder, Trotski j\u00e1 se encontrava fora das fronteiras  da URSS, em seu terceiro ex\u00edlio, e seguia atentamente a situa\u00e7\u00e3o alem\u00e3.  Em um artigo intitulado \u201cA chave da situa\u00e7\u00e3o internacional est\u00e1 na  Alemanha\u201d, o organizador do Ex\u00e9rcito Vermelho exp\u00f5e o eixo fundamental  de sua pol\u00edtica:<\/p>\n<p>\u201c<em>O fascismo cairia verdadeiramente em peda\u00e7os  se o KPD fosse capaz de unir a classe oper\u00e1ria, transformando-a em  poderoso polo de atra\u00e7\u00e3o de todas as massas oprimidas da popula\u00e7\u00e3o. Mas a  pol\u00edtica do KPD, desde as elei\u00e7\u00f5es de setembro, s\u00f3 tem feito agravar a  sua inconsist\u00eancia: frases declamat\u00f3rias sobre o \u2018social-fascismo\u2019,  namoro com o chauvinismo, imita\u00e7\u00e3o do fascismo aut\u00eantico com o objetivo  de fazer-lhe concorr\u00eancia no mesmo mercado e essa aventura criminosa do  \u2018plebiscito vermelho\u2019. Tudo isso impede que o KPD se torne o guia do  proletariado e do povo<\/em>\u201d.[10]<\/p>\n<p>Em base a uma minuciosa an\u00e1lise  da situa\u00e7\u00e3o internacional e alem\u00e3, Trotski explica qual \u00e9 a pol\u00edtica que  deve ser implementada com vistas a fechar o caminho do poder ao nazismo  e mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no pa\u00eds em favor do proletariado. Para  Trotski, a unidade entre todas as for\u00e7as do proletariado \u00e9 a chave da  vit\u00f3ria sobre Hitler. Essa unidade tem por objetivo, em primeiro lugar, a  defesa f\u00edsica das organiza\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria e o combate  pol\u00edtico-ideol\u00f3gico no seio das classes m\u00e9dias e setores \u201cdesclassados\u201d.  A \u00fanica possibilidade de vencer o nazismo \u00e9 o proletariado se  apresentar perante toda a na\u00e7\u00e3o como uma for\u00e7a s\u00f3lida, unida e decidida.  Somente desta forma ser\u00e1 poss\u00edvel convencer a pequena-burguesia falida e  os elementos \u201cdesclassados\u201d da sociedade de que a \u00fanica sa\u00edda vi\u00e1vel  para a Alemanha n\u00e3o reside nem no nazismo, nem na submiss\u00e3o passiva ao  tratado de Versalhes, mas na ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado e  na coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com a URSS:<\/p>\n<p>\u201cA realiza\u00e7\u00e3o de uma  colabora\u00e7\u00e3o internacional efetiva [com a URSS], segundo um plano, s\u00f3 \u00e9  poss\u00edvel com o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior na Alemanha, com a  nacionaliza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, em outras palavras, com a ditadura  do proletariado. Por este caminho, poderiam entrar na luta pelo poder  novos milh\u00f5es de oper\u00e1rios sem partido, social-democratas e  cat\u00f3licos\u201d.[11]<\/p>\n<p>Todos os esfor\u00e7os empregados por Trotski n\u00e3o foram  suficientes para reverter o curso sect\u00e1rio e ultraesquerdista do KPD.  Como vimos acima, a pol\u00edtica de Stalin estava determinada por elementos  externos ao pr\u00f3prio problema do fascismo. A quest\u00e3o n\u00e3o estava nos  melhores argumentos, mas nos interesses materiais da burocracia, na  pr\u00f3pria luta de classes. A rendi\u00e7\u00e3o sem luta do KPD foi a prova final de  que a III Internacional havia se degenerado irremediavelmente e que a  tarefa colocada na ordem do dia era a constru\u00e7\u00e3o de uma nova  Internacional. No in\u00edcio de 1933, refletindo sobre a vit\u00f3ria de Hitler,  Trotski escreve no Boletim da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda:<\/p>\n<p>\u201cO stalinismo  alem\u00e3o est\u00e1 a ponto de desmoronar, n\u00e3o tanto pelos golpes dos fascistas,  mas como consequ\u00eancia de sua pr\u00f3pria decomposi\u00e7\u00e3o interna. Da mesma  forma que um m\u00e9dico n\u00e3o abandona o doente enquanto ele ainda tenha um  sopro de vida, nosso dever era tentar reform\u00e1-lo enquanto existia uma  m\u00ednima esperan\u00e7a. Mas seria criminoso permanecer atado a um cad\u00e1ver. E o  KPD \u00e9 somente um cad\u00e1ver\u201d.<\/p>\n<p>A chegada dos nazistas ao poder mudou a  caracteriza\u00e7\u00e3o de Trotski sobre a burocracia sovi\u00e9tica, at\u00e9 ent\u00e3o  qualificada por ele como centrista, e abriu uma nova fase na luta da  Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda Internacional. A partir desse momento, a constru\u00e7\u00e3o  da IV Internacional ser\u00e1 a batalha central travada por Trotski at\u00e9 o  fim de sua vida.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<br \/> <\/strong>Em uma \u00e9poca em  que organiza\u00e7\u00f5es de esquerda se recusam terminantemente a implementar  qualquer pol\u00edtica de frente \u00fanica com partidos e for\u00e7as reformistas ou  burocr\u00e1ticas, em que o auto-isolamento \u00e9 apresentado como prova de  pureza revolucion\u00e1ria, os ensinamentos de Trotski na luta contra o  nazismo, o esp\u00edrito unit\u00e1rio e ao mesmo tempo principista das propostas  do velho revolucion\u00e1rio russo t\u00eam um valor absolutamente inestim\u00e1vel. A  leitura e o estudo das obras em que o velho revolucion\u00e1rio russo orienta  a luta contra o fascismo, principalmente o genial <em>Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Alemanha<\/em>,  constituem uma verdadeira escola militante e uma obriga\u00e7\u00e3o para todo  aquele que n\u00e3o se contenta com a esterilidade ultraesquerdista e  sect\u00e1ria, mas deseja fazer pol\u00edtica revolucion\u00e1ria de verdade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Artigo de Henrique Canary, colunista do Esquerda Online.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*&nbsp; *&nbsp; *<\/p>\n<p> [1] O Tratado de Versalhes, assinado pela Alemanha logo ap\u00f3s a derrota  na Primeira Guerra Mundial,&nbsp; inclu\u00eda a perda de uma parte de seu  territ\u00f3rio, de todas as col\u00f4nias oce\u00e2nicas e no continente africano, uma  restri\u00e7\u00e3o ao tamanho do ex\u00e9rcito e o pagamento de uma indeniza\u00e7\u00e3o \u00e0  Tr\u00edplice Entente pelos preju\u00edzos causados durante a guerra. [2] Uma  vers\u00e3o modificada deste artigo foi publicada como pref\u00e1cio ao livro  Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Alemanha (Editora Sundermann, 2011), que  re\u00fane artigos de Leon Trotski sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alem\u00e3 no in\u00edcio  dos anos 1930. [3] Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (Partido Nacional Socialista Alem\u00e3o dos Trabalhadores) [4] Sozialdemokratische Partei Deutschland (Partido Social-Democrata da Alemanha) [5] Kommunistische Partei Deutschland (Partido Comunista da Alemanha)  [6] Stalin, Works, VI, p. 294 apud Brou\u00e9, Pierre. Hist\u00f3ria da  Internacional Comunista. 1919-1943, Vol. I, S\u00e3o Paulo, Editora  Sundermann, 2007, p. 660. [7] Na Alemanha e na \u00c1ustria, assembleia representativa de um Land, ou seja, de um estado federado.  [8] TROTSKI, Leon. Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Alemanha. S\u00e3o Paulo:  Editora Instituto Jos\u00e9 Lu\u00eds e Rosa Sundermann, 2011, p. 184. [9] Relat\u00f3rio de Heckert ao Presidium do CEIC, In: <em>Rundschau<\/em>, p. 261-267 <em>apud<\/em> Brou\u00e9, Pierre. <em>Hist\u00f3ria da Internacional Comunista<\/em>. 1919-1943, Vol. I, S\u00e3o Paulo, Editora Sundermann, 2007, p. 685. [10] TROTSKI, Leon. <em>Op. cit.<\/em>, p. 184. [11] <em>Idem<\/em>, p. 258.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O marxismo afirma que o homem n\u00e3o faz a hist\u00f3ria como quer, mas sim, segundo as condi\u00e7\u00f5es que encontra. 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