{"id":2981,"date":"2018-10-04T10:36:27","date_gmt":"2018-10-04T09:36:27","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/10\/04\/nao-ha-um-golpe-militar-em-marcha-o-maior-perigo-e-a-eleicao-de-bolsonaro\/"},"modified":"2018-10-04T10:36:27","modified_gmt":"2018-10-04T09:36:27","slug":"nao-ha-um-golpe-militar-em-marcha-o-maior-perigo-e-a-eleicao-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/10\/04\/nao-ha-um-golpe-militar-em-marcha-o-maior-perigo-e-a-eleicao-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 um golpe militar em marcha; o maior perigo \u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p><strong>Artigo de Valerio Arcary, publicado no Esquerda Online<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Na hora mais escura da noite, mais intenso ser\u00e1 o brilho das estrelas no ce\u00fa.<br \/> <\/em>Sabedoria popular persa<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>A hora mais escura do dia \u00e9 a que vem antes do sol nascer<br \/> <\/em>Sabedoria popular \u00e1rabe<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>1.  N\u00e3o \u00e9 verdade que o maior perigo seja um golpe militar. O maior perigo \u00e9  Bolsonaro vencer nas urnas e, por dentro das regras do regime  democr\u00e1tico- eleitoral, chegar ao poder da presid\u00eancia. Na sequ\u00eancia, a  partir dessa posi\u00e7\u00e3o, subverter o regime que j\u00e1 adquiriu, depois do  golpe de 2016, tra\u00e7os bonapartistas, como o agigantamento do judici\u00e1rio,  das pol\u00edcias, das For\u00e7as Armadas. N\u00e3o \u00e9 verdade que o n\u00facleo duro da  burguesia brasileira j\u00e1 chegou \u00e0 conclus\u00e3o que o choque econ\u00f4mico-social  que defendem \u2013 com um ajuste fiscal brutal em 2019 \u2013 s\u00f3 pode ser  executado por um regime ditatorial.<\/p>\n<p>An\u00e1lises catastrofistas s\u00e3o  perigosas porque projetam cen\u00e1rios terminais que: (a) n\u00e3o correspondem \u00e0  realidade; (b) produzem desalento e desesperan\u00e7a em uma conjuntura que  j\u00e1 \u00e9 ruim o bastante, com um fascista com um ter\u00e7o dos votos v\u00e1lidos nas  pesquisas. A constru\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise pode ter eleg\u00e2ncia e coer\u00eancia, mas  n\u00e3o corresponde \u00e0 conjuntura. N\u00e3o h\u00e1 um golpe militar em marcha. Beleza  aristot\u00e9lica \u00e9 uma qualidade est\u00e9tica do discurso, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 marxismo.<\/p>\n<p>O  golpe foi institucional, \u00e9 j\u00e1 aconteceu h\u00e1 dois anos. A derrota n\u00e3o foi  somente superestrutural. Aconteceu uma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o social de  for\u00e7as. Foi uma derrota pol\u00edtico-social. Abriu-se uma situa\u00e7\u00e3o  defensiva, com muitos elementos reacion\u00e1rios. N\u00e3o obstante, n\u00e3o foi uma  derrota hist\u00f3rica, como em 1964. N\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio o intervalo de uma  gera\u00e7\u00e3o para que se acumulem for\u00e7as para que os trabalhadores e seus  aliados sociais voltem a entrar em cena. Mas, claro, o perigo  autorit\u00e1rio \u00e9 real.<\/p>\n<p>2. A ideia mais repetida no debate da Record  foi que estar\u00edamos diante de dois extremismos g\u00eameos: o de esquerda e o  de direita. Foi defendida por Marina Silva, \u00c1lvaro Dias, Geraldo  Alckmin, Henrique Meirelles, os quatro tons de Temer. Mas associou-se a  este cambalacho, tamb\u00e9m, vergonhosamente, Ciro Gomes. Cinco dos oito  presentes ficaram brincando entre si, alegremente, defendendo a  modera\u00e7\u00e3o, a reconcilia\u00e7\u00e3o, a paz, a uni\u00e3o, o amor. N\u00e3o dever\u00e1 ser  diferente no debate da TV Globo, da pr\u00f3xima quinta-feira, e deve marcar a  \u00faltima semana de campanha eleitoral. Esta interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um esc\u00e1rnio  contra a intelig\u00eancia do povo. \u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>H\u00e1 um  candidato fascista em primeiro lugar em todas as pesquisas, e ele \u00e9 uma  amea\u00e7a \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas. N\u00e3o h\u00e1 lugar para controv\u00e9rsia sobre o  perigo que Bolsonaro representa, porque ele e seu vice Mour\u00e3o n\u00e3o t\u00eam  qualquer pudor em declarar barbaridades absurdas, amplamente conhecidas.<\/p>\n<p>Em  segundo lugar nas pesquisas se consolidou Haddad. Qualquer pessoa  l\u00facida sabe que o PT n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas. O PT  esteve no governo entre 2003 e 2016 e respeitou, religiosamente, as  institui\u00e7\u00f5es at\u00e9 o limite do absurdo. O PT n\u00e3o desafiou a ordem  constitucional. Foi a maioria da burguesia brasileira que o fez, quando  incentivou e mobilizou setores da classe m\u00e9dia para legitimar o golpe  parlamentar.<\/p>\n<p>O problema real \u00e9 que o n\u00facleo duro da classe  dominante n\u00e3o conseguiu deslocar Bolsonaro, e Alckmin patina abaixo de  10%. Isso \u00e9 uma anomalia, se consideramos as necessidades de  representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos capitalistas. A f\u00f3rmula \u201cdois radicalismos  g\u00eameos\u201d j\u00e1 n\u00e3o obedece, somente, a um c\u00e1lculo desesperado de tentar  levar Alckmin ao segundo turno. Mesmo com a decis\u00e3o arbitr\u00e1ria, por\u00e9m  frustrada, de Fux de proibir entrevistas de Lula. Mesmo com a decis\u00e3o de  Moro de tornar p\u00fablica a dela\u00e7\u00e3o premiada de Palocci.<\/p>\n<p>Ela  responde \u00e0 necessidade de pressionar a dire\u00e7\u00e3o do PT para se render  antes do segundo turno. Render-se, outra vez, como fez Dilma Rousseff em  2015, diante da exig\u00eancia de preserva\u00e7\u00e3o do choque econ\u00f4mico-social  iniciado por Joaquim Levy, e radicalizado por Temer, com a EC95 do teto  dos gastos, contrarreforma trabalhista, lei de terceiriza\u00e7\u00e3o, etc.  Render-se, outra vez, diante da imposi\u00e7\u00e3o da idade m\u00ednima na  contrarreforma da previd\u00eancia.<\/p>\n<p>3. Qualquer tentativa de diminui\u00e7\u00e3o  do significado do dia 29 de setembro \u00e9 uma cegueira ideol\u00f3gica. Foi a  campanha pelo #elen\u00e3o e o gigantismo do s\u00e1bado dia 29\/09 que abriram a  possibilidade de derrotar Bolsonaro. S\u00f3 isso, mas n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.  Ainda que a batalha esteja muito longe de estar decidida. Tudo permanece  incerto. Todos que subestimaram Bolsonaro at\u00e9 agora erraram. A disputa  ser\u00e1 feroz. A manifesta\u00e7\u00e3o foi o acontecimento mais importante da  campanha eleitoral, e s\u00f3 foi poss\u00edvel porque se construiu uma frente  \u00fanica pela iniciativa do movimento feminista.<\/p>\n<p>Que a composi\u00e7\u00e3o dos  Atos e Marchas tenha sido, fundamentalmente, jovem, feminina, de  setores sociais com mais escolaridade e renda, n\u00e3o deveria nos  surpreender. Foi sempre assim, nos \u00faltimos quarenta anos, quando se  inicia uma campanha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Uma vanguarda social e pol\u00edtica abre  o caminho. S\u00f3 depois os setores populares, tendo como coluna vertebral a  classe trabalhadora, se colocam em marcha, e com o peso de sua Foi  assim na luta contra a ditadura, a partir de 1977\/78, mas o movimento  estudantil marchava sozinho. A classe oper\u00e1ria do ABC saiu \u00e0 luta em  1979, com os professores, petroleiros e banc\u00e1rios, mas o salto de  qualidade aconteceu somente em 1984, com as Diretas J\u00e1, agora na escala  de milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do PT fez uma aposta em uma estrat\u00e9gia  eleitoral de alto risco ao manter a candidatura Lula at\u00e9 o limite  m\u00e1ximo, para deixar bem claro que ele \u00e9 um preso pol\u00edtico. Esse c\u00e1lculo  estava certo. Era poss\u00edvel fazer a transfer\u00eancia dos votos para Haddad,  mesmo com pouqu\u00edssimo tempo. Sempre apostando na amargura gerada pelo  desemprego e pobreza dos \u00faltimos dois anos com Temer, em contraste com a  nostalgia da vida durante os anos do governo Lula. Mas esta estrat\u00e9gia  foi, eleitoralmente, correta somente para levar Haddad para o segundo  turno. Derrotar Bolsonaro exige uma nova t\u00e1tica. Alertamos, h\u00e1 v\u00e1rias  semanas, que o centro da t\u00e1tica tinha que girar para a den\u00fancia do  perigo do fascista.<\/p>\n<p>O papel do Psol foi, portanto, muito importante. Demonstrou-se na pr\u00e1tica porque a esquerda radical \u00e9 \u00fatil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Valerio Arcary, publicado no Esquerda Online Na hora mais escura da noite, mais intenso ser\u00e1 o brilho das estrelas no ce\u00fa. 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