{"id":2958,"date":"2018-09-04T13:58:12","date_gmt":"2018-09-04T12:58:12","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/09\/04\/aos-80-anos-da-iv-internacional-algumas-reflexoes\/"},"modified":"2018-09-04T13:58:12","modified_gmt":"2018-09-04T12:58:12","slug":"aos-80-anos-da-iv-internacional-algumas-reflexoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/09\/04\/aos-80-anos-da-iv-internacional-algumas-reflexoes\/","title":{"rendered":"Aos 80 anos da IV Internacional, algumas reflex\u00f5es"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Artigo de<strong> <\/strong>Henrique Canary, de S\u00e3o Paulo, publicado originalmente no Esquerda Online.\u00a0<\/p>\n<p>Ao se completarem 80 anos da funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional, algumas reflex\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias.<br \/> Em primeiro lugar, estavam equivocados aqueles que diziam que a cria\u00e7\u00e3o  da IV Internacional, em condi\u00e7\u00f5es extremamente adversas, foi errada  devido \u00e0 for\u00e7a do stalinismo. \u00c9 verdade que a IV Internacional desde  muito cedo enfrentou um enorme aparato contrarrevolucion\u00e1rio mundial  encarnado no stalinismo e seus partidos nacionais, e permaneceu marginal  ao longo de toda a sua hist\u00f3ria. Mas isso ainda n\u00e3o significa que a  derrota da IV Internacional estava determinada de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m  sabia, naquele momento, os resultados da Segunda Guerra Mundial. O que  se sabia com certeza (pelo menos Trotski e seus seguidores sabiam disso e  alertaram diversas vezes) \u00e9 que uma guerra entre a Alemanha nazista e a  URSS era inevit\u00e1vel. A IV Internacional foi fundada com o objetivo de  se apresentar como uma alternativa revolucion\u00e1ria diante da inevit\u00e1vel  trai\u00e7\u00e3o do stalinismo. E essa trai\u00e7\u00e3o ocorreu. Em agosto de 1939 foi  assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop, tamb\u00e9m conhecido como Pacto  Hitler-Stalin. Esse pacto estabelecia n\u00e3o apenas a paz entre a Alemanha e  URSS (o que poderia ser plenamente justific\u00e1vel em termos diplom\u00e1ticos \u2013  o pr\u00f3prio Trotski dizia isso), mas tamb\u00e9m uma colabora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica  entre os dois pa\u00edses, com a URSS fornecendo petr\u00f3leo, trigo e outros  insumos para a Alemanha. Essa colabora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica permitiu a Hitler  acelerar a prepara\u00e7\u00e3o para a guerra e deixou despreparado o Ex\u00e9rcito  Vermelho e a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o da URSS, que passaram a acreditar em uma  paz duradoura com a Alemanha. Al\u00e9m disso, o Pacto Molotov Ribbentrop  estabelecia a divis\u00e3o da Pol\u00f4nia entre a Alemanha e a URSS, bem como a  partilha do B\u00e1ltico e de outras regi\u00f5es da Europa Oriental. Ou seja,  longe de ser uma tentativa de \u201cganhar tempo\u201d, como dizem hoje os  historiadores stalinistas, o pacto tinha ambi\u00e7\u00f5es bastante estrat\u00e9gicas e  de longo prazo. Isso sem contar a repress\u00e3o stalinista dentro do  pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito Vermelho entre 1937 e 1939, o que o deixou extremamente  debilitado em termos de comando t\u00e1tico militar, uma vez que a maioria  dos fuzilados por suposta trai\u00e7\u00e3o era de comandantes experientes, que  haviam passado pelo fogo da Guerra Civil.<\/p>\n<p><strong>Por que o stalinismo foi t\u00e3o poderoso?<\/strong><br \/> Por que uma trai\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande do stalinismo n\u00e3o teve efeito sobre o  movimento de massas mundial? Trata-se de uma quest\u00e3o dif\u00edcil. Aqui  parecem ter agido v\u00e1rios fatores: a for\u00e7a do aparato stalinista, a  lealdade burocr\u00e1tica das dire\u00e7\u00f5es nos partidos comunistas nacionais e a  velocidade e confus\u00e3o dos eventos, j\u00e1 que apenas dois anos depois da  assinatura do pacto a Alemanha invadiu a URSS, anulando de fato os  acordos anteriores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o hero\u00edsmo do povo sovi\u00e9tico  esteve muito al\u00e9m do que a imagina\u00e7\u00e3o humana jamais poderia vislumbrar.  Foram 27 milh\u00f5es de mortos, cinco mil cidades e vilarejos transformados  em cinzas. Ao se encontrar \u00e0 frente do Estado, Stalin apareceu para o  mundo como o arquiteto da vit\u00f3ria, o que \u00e9 absolutamente falso em termos  hist\u00f3ricos. A vit\u00f3ria se deu apesar de Stalin, e n\u00e3o gra\u00e7as ele. Mas  s\u00e3os os vitoriosos que contam a hist\u00f3ria das batalhas e por isso o mundo  encarou o stalinismo como o respons\u00e1vel pela derrota do nazismo. Isso  conferiu uma enorme autoridade aos partidos comunistas stalinizados do  mundo inteiro. Um outro fator que parece ter influenciado foi o r\u00e1pido  in\u00edcio das hostilidades entre a URSS e o bloco capitalista ocidental  logo ap\u00f3s a Segunda Guerra, o que tensionou as for\u00e7as simp\u00e1ticas ao  socialismo para se posicionarem em defesa do stalinismo.<\/p>\n<p>Tudo isso  fez com que a IV Internacional n\u00e3o se tornasse uma alternativa  revolucion\u00e1ria. Porque simplesmente a maioria do movimento de massas n\u00e3o  estava buscando nenhuma alternativa. Al\u00e9m disso, o assassinato de  Trotski pelas m\u00e3os de um agente stalinista privou a IV Internacional de  sua dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e por isso muitos erros foram cometidos pela jovem  e inexperiente dire\u00e7\u00e3o que assumiu o leme da IV Internacional ap\u00f3s a  guerra.<\/p>\n<p><strong>IV Internacional: muitas fragilidades e uma grande for\u00e7a<\/strong><br \/> A marginalidade pol\u00edtica, ao n\u00e3o ser superada, acabou impulsionando um  ciclo vicioso: quanto mais marginal se tornava, mais sect\u00e1ria e  autof\u00e1gica ficava a IV Internacional. As dezenas de rupturas acabaram  transformando o movimento trotskista em uma di\u00e1spora dif\u00edcil at\u00e9 mesmo  de ser mapeada. Cada um dos novos \u201ccentros internacionais\u201d surgidos ap\u00f3s  mais uma ruptura se colocava como tarefa primordial\u2026 a destrui\u00e7\u00e3o do  centro concorrente, que quase sempre era qualificado como \u201cinimigo\u201d,  \u201ctraidor\u201d etc.<\/p>\n<p>Mas por que ent\u00e3o dizemos que a funda\u00e7\u00e3o da IV  Internacional estava correta, se pol\u00edtica e organizativamente ela foi  derrotada? Porque uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente sua estrutura org\u00e2nica e  sua pol\u00edtica. Isso \u00e9 fundamental, mas n\u00e3o \u00e9 tudo. Uma organiza\u00e7\u00e3o \u00e9, em  primeiro lugar, seu programa e sua teoria. \u00c9 da\u00ed que pode vir sua for\u00e7a  pol\u00edtica e sua solidez organizativa, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Ao fundar a IV  Internacional, ainda que sob condi\u00e7\u00f5es extremamente dif\u00edceis, ainda que  sob uma enorme press\u00e3o pol\u00edtica por parte do stalinismo, Trotski estava  fazendo uma aposta no futuro. E essa aposta era, em primeiro lugar,  te\u00f3rica e program\u00e1tica.<\/p>\n<p>Isaac Deutscher, o grande bi\u00f3grafo de  Trotski (e tamb\u00e9m cr\u00edtico da funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional), cunhou a  express\u00e3o \u201cvit\u00f3ria na derrota\u201d para se referir ao legado de Trotski. O  que isso significa? Que o pr\u00f3prio Trotski e seu projeto  pol\u00edtico-organizativo (a IV Internacional) foram derrotados, mas sua  ideias n\u00e3o apenas permaneceram vivas, como se demonstraram as \u00fanicas  capazes de explicar a grande contradi\u00e7\u00e3o, o grande enigma do s\u00e9culo 20,  que devorou tantos revolucion\u00e1rios, transformando-os ora em oportunistas  empedernidos, ora em burocratas envergonhados, ora em sect\u00e1rios  alucinados: a vit\u00f3ria e a degenera\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, a for\u00e7a e a  inviabilidade hist\u00f3rica do stalinismo.<\/p>\n<p>Trotski deu uma explica\u00e7\u00e3o  te\u00f3rica e uma sa\u00edda program\u00e1tica para esses dois pares contradit\u00f3rios do  s\u00e9culo passado: explicou a vit\u00f3ria de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista em um  pa\u00eds atrasado por meio de sua teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente e depois  explicou porque essa revolu\u00e7\u00e3o degenerou, o que era a burocracia e o  mais importante: qual a alternativa ao stalinismo e qual o progn\u00f3stico  hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>Cinquenta anos antes, um progn\u00f3stico impressionante<\/strong><br \/> Em 1936, portanto 50 anos anos antes da perestroika, Trotski disse que:  ou a burocracia sovi\u00e9tica era derrubada em uma nova revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica  que devolvesse o poder aos sovietes e restabelecesse a democracia do  Estado e do partido na URSS ou o capitalismo seria restaurado. E  agregou: o capitalismo poderia ser restaurado tanto pela via da invas\u00e3o  estrangeira, quanto pelas m\u00e3os da pr\u00f3pria burocracia, ansiosa por deixar  de ser gerente e tornar-se propriet\u00e1ria. E foi exatamente isso que  aconteceu: a URSS derrotou a invas\u00e3o estrangeira, mas acabou perecendo  sob os golpes da pr\u00f3pria burocracia dirigente, que inventou a  perestroika para tomar de assalto a propriedade estatal e tornar-se  burguesia.<\/p>\n<p>O fato desse prognostico de Trotski ter se cumprido de  maneira brilhante n\u00e3o transformou os trotskistas em uma alternativa  pol\u00edtica real no momento em que a restaura\u00e7\u00e3o estava ocorrendo, nem  depois dela. Para piorar, os pr\u00f3prios trotskistas, em geral, entenderam  muito confusamente o que estava acontecendo. Confundiram uma  contrarrevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica (assim eu chamo a restaura\u00e7\u00e3o capitalista,  pois foi uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o social feita por m\u00e9todos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d)  com a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica preconizada por Trotski. \u00c9 incr\u00edvel: viram  (vimos) uma revolu\u00e7\u00e3o onde havia uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Resultado: n\u00e3o  perceberam (n\u00e3o percebemos) o tamanho da derrota ocorrida entre 1989 e  1991 na Europa Oriental. Para usar uma imagem do pr\u00f3prio Trotski:  imaginem uma pessoa no escuro que sabe que tem diante de si uma escada,  mas n\u00e3o sabe se a escada sobe (revolu\u00e7\u00e3o) ou desce (contrarrevolu\u00e7\u00e3o).  Essa pessoa quer muito subir e por isso decide que tem diante de si uma  escada que sobe, ent\u00e3o ela levanta o p\u00e9 e desloca o corpo para frente  para subir o primeiro degrau, mas ocorre que escada descia\u2026 Esse foi o  tamanho do tombo que n\u00f3s, trotskistas, ca\u00edmos.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 f\u00e1cil ser profeta do passado\u2026<\/strong><br \/> Hoje \u00e9 f\u00e1cil ver o que foi e como foi. Mas n\u00e3o era t\u00e3o f\u00e1cil assim na  \u00e1poca. Os eventos se desenvolviam a uma velocidade alucinante e os  sinais eram muito mais contradit\u00f3rios do que parecem hoje, \u00e0 dist\u00e2ncia.  De qualquer forma, erramos. No entanto, supondo que tiv\u00e9ssemos acertado,  tinha com ser diferente? Afinal de contas, mesmo com uma compreens\u00e3o  correta dos fatos, isso n\u00e3o quer dizer que o trotskismo pudesse sair  vitorioso do conturbado per\u00edodo dos anos 1990. Bem, isso jamais  saberemos. Mas como m\u00ednimo, podemos dizer que os partidos trotskistas  poderiam ter evitado, talvez, algumas derrotas desnecess\u00e1rias,  preservado algumas posi\u00e7\u00f5es, evitado algumas rupturas infantis,  provocadas por uma compreens\u00e3o equivocada da realidade, vista quase  sempre como uma mar\u00e9 montante rumo \u00e0 vit\u00f3ria final.<\/p>\n<p>Em qualquer  caso, uma teoria ou um te\u00f3rico n\u00e3o podem ser culpados pelos erros de  seus seguidores. Como dissemos mais acima, Trotski nos deu a teoria da  revolu\u00e7\u00e3o permanente e uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para a degenera\u00e7\u00e3o da  URSS e para a for\u00e7a do stalinismo. Esse \u00e9 o grande legado da IV  Internacional. Mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico: os militantes da IV Internacional  foram, em in\u00fameras ocasi\u00f5es, exemplo n\u00e3o apenas de firmeza moral e  estrat\u00e9gica, mas tamb\u00e9m de faro e iniciativa pol\u00edtica. Estados Unidos,  Fran\u00e7a, Inglaterra, Argentina, Brasil, Sri Lanka, Bol\u00edvia, Peru \u2013 todos  esses pa\u00edses viram nascer importantes organiza\u00e7\u00f5es trotskistas que  lutaram com dignidade e intelig\u00eancia para romper a marginalidade que as  derrotas da primeira metade do s\u00e9culo 20 haviam imposto. Alguns partidos  foram mais bem sucedidos. Outros nem tanto. Todos eles t\u00eam uma hist\u00f3ria  para contar e li\u00e7\u00f5es para serem absorvidas por todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>O presente e o futuro<\/strong><br \/> Mas e hoje? O que \u00e9 a IV Internacional hoje? Tem sentido aplicar  esfor\u00e7os na sua reconstru\u00e7\u00e3o? O legado te\u00f3rico e program\u00e1tico deixado  por Trotski \u00e9 o suficiente para a continuidade do marxismo em nosso  s\u00e9culo? Este \u00e9 um tema sobre o qual aqueles que reivindicam a teoria da  revolu\u00e7\u00e3o permanente j\u00e1 se debatem h\u00e1 algum tempo e, felizmente, devem  seguir se debatendo, exatamente porque esta \u00e9 uma das principais  quest\u00f5es do novo s\u00e9culo: como continuar o que come\u00e7aram nossos grandes  predecessores? Como ser dignos de uma heran\u00e7a t\u00e3o rica? Para isso,  tamb\u00e9m \u00e9 importante responder: Qual parte exatamente desta heran\u00e7a  reivindicamos? E a qual parte renunciamos? E qual \u00e9 a nossa pr\u00f3pria  contribui\u00e7\u00e3o a esta heran\u00e7a comum? O s\u00e9culo 21 se ergue diante de n\u00f3s e  nos indaga, como a Esfinge a \u00c9dipo: decifra-me ou te devoro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Henrique Canary, de S\u00e3o Paulo, publicado originalmente no Esquerda Online.\u00a0 Ao se completarem 80 anos da funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional, algumas reflex\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias. 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