{"id":2957,"date":"2018-09-04T12:10:50","date_gmt":"2018-09-04T11:10:50","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/09\/04\/ainda-os-80-anos-da-iv-internacional\/"},"modified":"2018-09-04T12:10:50","modified_gmt":"2018-09-04T11:10:50","slug":"ainda-os-80-anos-da-iv-internacional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/09\/04\/ainda-os-80-anos-da-iv-internacional\/","title":{"rendered":"Ainda os 80 anos da IV Internacional"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>David North, WSWS, Comit\u00e9 Internacional da QI.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rio apresentado inicialmente numa reuni\u00e3o em 2008 no Michigan, em v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o de Obama. Publicado originalmente no site World Socialist Web Site.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Oliveira, Lisboa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A 3\/Set.\/1938 a Quarta Internacional (QI) foi fundada num congresso em Paris, realizado em apenas um dia, devido \u00e0s circunst\u00e2ncias clandestinas em que ocorria, no contexto da permanente persegui\u00e7\u00e3o ao movimento trotskista levada a cabo pelo estado burgu\u00eas da Fran\u00e7a, pelos assassinos armados e sempre impunes dos grupos fascistas, e sobretudo pela pol\u00edcia pol\u00edtica sovi\u00e9tica, encarregada por Estaline de eliminar Trotsky e os seus colaboradores.<\/p>\n<p>O relator iniciou os trabalhos com a den\u00fancia de mais um assass\u00ednio, o de Rudolf Klement, sec. geral da QI. Foi a 4\u00aa figura mais importante do movimento a ser eliminada nos dois anos anteriores. Os outros foram Ewin Wolf em 1937 em Espanha, Ignace Reis em 1937 na Su\u00ed\u00e7a e Leon Sedov, filho de Trotsky em 1938 em Paris. O que o relator n\u00e3o sabia \u00e9 que Mark Zborovski, tamb\u00e9m agente da GPU (pol\u00edcia pol\u00edtica russa) e que teve papel central em todas essas execu\u00e7\u00f5es, esteve presente no congresso em representa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Estes assass\u00ednios, juntamente com os julgamentos-fantoche realizados em Moscovo, faziam parte da campanha de Estaline para destruir Trotsky, o trotskismo (e toda a oposi\u00e7\u00e3o interna, real ou imagin\u00e1ria).<\/p>\n<p>Historiadores como Dmitri Volkogonov, embora hostil a Trotsky, reconhecem o \u00f3dio de Estaline para com ele:<\/p>\n<p>\u201cEstaline continuou a odiar Trotsky, apesar de j\u00e1 n\u00e3o estar presente. Tinha um car\u00e1cter muito diferente. O seu estatuto intelectual, a sua capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e o seu talento de orador e escritor davam-lhe uma superioridade clara face aos burocratas e ao pr\u00f3prio Estaline. Este queixava-se junto do seu c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo que um dos maiores erros da sua vida tinha sido o facto de deixar escapar Trotsky entre os dedos. Esse \u00f3dio ainda cresceu mais depois de ler \u201cA escola estalinista da falsifica\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cCarta aberta aos membros do Partido Bolchevique\u201d, \u201cO Thermidor estalinista\u201d e a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda\u201d. Tudo isso contribuiu para fortalecer a decis\u00e3o de Estaline de remover Trotsky do caminho e em liquidar todos os seus potenciais inimigos internos\u201d.<\/p>\n<p>Trotsky compreendeu muito bem a escala dos perigos que ele e os seus seguidores tinham pela frente e declarou em 1938:<\/p>\n<p>\u201cOs carrascos, na sua estupidez e cinismo, pensam que podem meter-nos medo. Est\u00e3o errados. Com os golpes, n\u00f3s tornamo-nos mais fortes. As pol\u00edticas bestiais de Estaline s\u00e3o actos de desespero. \u00c9 poss\u00edvel liquidar alguns soldados do nosso ex\u00e9rcito, mas isso n\u00e3o nos mete medo\u201d.<\/p>\n<p>As origens da QI radicam na luta iniciada por Trotsky e pela oposi\u00e7\u00e3o de esquerda em 1923, contra a crescente burocratiza\u00e7\u00e3o do estado sovi\u00e9tico e do partido. Essa luta come\u00e7ou at\u00e9 antes do surgimento em cena de Estaline. Para Trotsky, a ascens\u00e3o de Estaline n\u00e3o foi a causa da degenera\u00e7\u00e3o do estado e do partido, mas antes uma manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do fortalecimento da reac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no seio da URSS, em resultado das derrotas sofridas pela classe trabalhadora internacional, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Para Lenine e Trotsky, o destino do socialismo na R\u00fassia dependia da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional. A ideia de que o socialismo se poderia desenvolver apenas na R\u00fassia, um pa\u00eds isolado e atrasado economicamente, era incompat\u00edvel com as premissas mais b\u00e1sicas da teoria marxista.<\/p>\n<p>Mas essa ideia era bem reveladora da orienta\u00e7\u00e3o essencialmente nacionalista da perspectiva e do programa da burocracia reinante na R\u00fassia. Essa burocracia liderada por Estaline entendia o socialismo como um regime marcado pela autarcia econ\u00f3mica nacionalista que salvaguardasse os rendimentos e privil\u00e9gios de que gozava, na base do seu controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o. As persegui\u00e7\u00f5es a Trotsky e a toda a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda caminhavam a par com a falsifica\u00e7\u00e3o e o distanciamento das funda\u00e7\u00f5es marxistas internacionalistas do partido Bolchevique. O regime estalinista passou a subordinar os interesses do movimento revolucion\u00e1rio internacional \u00e0s necessidades da sua burocracia.<\/p>\n<p>O resultado da trai\u00e7\u00e3o ao programa da revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional est\u00e1 na origem de uma s\u00e9rie de derrotas do movimento em Inglaterra em 1926, na China em 1927 e mais desastrosamente na Alemanha em 1933. A catastr\u00f3fica orienta\u00e7\u00e3o de Estaline para o PC alem\u00e3o levou \u00e0 ascens\u00e3o de Hitler em 1933, evento que est\u00e1 na origem da II Guerra e dos milh\u00f5es de mortes e destrui\u00e7\u00e3o que causou.<\/p>\n<p>Com a entrada de Hitler, Trotsky e a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda alteraram a sua pol\u00edtica, at\u00e9 a\u00ed orientada para a reforma do partido da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a 3\u00aa Internacional.\u00a0 Agora, Trotsky apela \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma QI e a uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na URSS, tendo definido a burocracia estalinista como uma ag\u00eancia do imperialismo no seio do movimento dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Os anos entre 1933 e 1938 foram dedicados \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica do congresso de funda\u00e7\u00e3o da QI. Trotsky avaliou este seu trabalho como o mais importante da sua vida, mais ainda que o seu papel na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>Nesta altura, pelos anos 30, n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m com a capacidade necess\u00e1ria para construir novos quadros de revolucion\u00e1rios e preservar a continuidade do movimento. Logo, Trotsky reconheceu que, naquele momento era indispens\u00e1vel. N\u00e3o se trata apenas do seu g\u00e9nio. Seria insuficiente. H\u00e1 tr\u00eas elementos da sua personalidade pol\u00edtica que \u00e9 preciso sublinhar.<\/p>\n<p>1 \u2013 Trotsky era o \u00faltimo representante do marxismo cl\u00e1ssico, ou seja, o expoente de uma escola de pensamento que j\u00e1 vinha de Marx e Engels e que inspirava as massas trabalhadoras revolucion\u00e1rias. Trotsky protagoniza uma concep\u00e7\u00e3o da teoria revolucion\u00e1ria enraizada filosoficamente no materialismo hist\u00f3rico, <strong>dirigida para a cogni\u00e7\u00e3o da realidade objectiva, orientada para a educa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas trabalhadoras e estrategicamente preocupada com a luta revolucion\u00e1ria contra o capitalismo.<\/strong><\/p>\n<p>2 \u2013 Trotsky compreendeu mais profundamente que qualquer outro pensador pol\u00edtico do s\u00e9c. XX as dimens\u00f5es globais e as din\u00e2micas da revolu\u00e7\u00e3o socialista, a interac\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica dos processos socioecon\u00f3micos internacionais e as condi\u00e7\u00f5es nacionais historicamente determinadas. Esta compreens\u00e3o expressou-se na <strong>teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente, <\/strong>formulada por Trotsky pela primeira vez em 1905, para enfrentar os problemas espec\u00edficos gerados pelo confronto entre as tradicionais t\u00e1ticas burguesas e as lutas dos trabalhadores num pa\u00eds atrasado.<\/p>\n<p>3 \u2013 Trotsky assimilou as li\u00e7\u00f5es essenciais da luta de Lenine contra os mencheviques centristas. Tendo tido disputas com Lenine sobre princ\u00edpios pol\u00edticos nesse per\u00edodo formativo crucial, Trotsky compreendeu e apreciou a extraordin\u00e1ria capacidade de Lenine em opor-se a todas as formas de oportunismo no partido SD russo e mais tarde, aquando da guerra imperialista de 1914. As li\u00e7\u00f5es tiradas por Trotsky dessa sua experi\u00eancia hist\u00f3rica constituem as bases para a funda\u00e7\u00e3o da QI.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Trotsky tem sido frequentemente minimizada, no contexto da predomin\u00e2ncia de escolas de pensamento mais ou menos ligadas a correntes idealistas. \u00c9 o pr\u00f3prio Trotsky que explica assim a abordagem do materialismo cient\u00edfico de Marx:<\/p>\n<p>\u201cO Homem, tendo estabelecido a ci\u00eancia como o conhecimento dos factos objectivos da natureza, tem tentado est\u00fapida e persistentemente excluir-se a si pr\u00f3prio da ci\u00eancia, reservando para si privil\u00e9gios especiais quer na forma de rela\u00e7\u00f5es com o Transcendente (religi\u00f5es) quer em preceitos morais (Idealismo). Marx despiu o homem desses privil\u00e9gios definitivamente, encarando-o como uma liga\u00e7\u00e3o natural no processo evolutivo da natureza material. \u00c9 completamente imposs\u00edvel procurar as causas das ocorr\u00eancias da sociedade capitalista na consci\u00eancia subjectiva \u2013 inten\u00e7\u00f5es ou planos dos seus membros. Essas ocorr\u00eancias objectivas foram formuladas antes de a ci\u00eancia come\u00e7ar a pensar seriamente nelas. Hoje, a maioria dos homens nada sabe sobre as leis que governam a economia capitalista. A for\u00e7a do m\u00e9todo marxista reside na sua abordagem dos fen\u00f3menos econ\u00f3micos, n\u00e3o do ponto de vista subjectivo, mas do ponto de vista objectivo do desenvolvimento da sociedade como um todo, justamente da mesma maneira como um cientista aborda o estudo de uma colmeia. Para a ci\u00eancia econ\u00f3mica, o ponto decisivo \u00e9 como as pessoas actuam e n\u00e3o o que elas pensam sobre as suas ac\u00e7\u00f5es. O m\u00e9todo marxista \u00e9 materialista porque procede da exist\u00eancia para a consci\u00eancia, n\u00e3o o oposto. O seu m\u00e9todo \u00e9 dial\u00e9tico porque olha tanto para a natureza como para a sociedade na sua evolu\u00e7\u00e3o e concebe-a como resultado constante das for\u00e7as que se conflituam\u201d.<\/p>\n<p>Assim, a aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo marxista requer que a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria se baseie primeiro e antes de tudo numa an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f3micas objectivas. O partido revolucion\u00e1rio tem de basear-se n\u00e3o nos humores e ilus\u00f5es das massas, mas sim na realidade das contradi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f3micas do capitalismo. O partido revolucion\u00e1rio s\u00f3 pode superar essas ilus\u00f5es se combater no seio da classe trabalhadora para corrigir a compreens\u00e3o da crise capitalista e das suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Trotsky exprimiu assim os objectivos do programa revolucion\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u201cO atraso de consci\u00eancia da classe trabalhadora americana \u00e9 muito grande. Mas o programa deve reflectir a sociedade como ela \u00e9 e n\u00e3o esse atraso. Trata-se de um instrumento para vencer e superar\u00a0 o referido atraso. Por isso, deve expressar a total agudeza das crises da sociedade capitalista. N\u00e3o podemos modificar as condi\u00e7\u00f5es objectivas que n\u00e3o dependem de n\u00f3s, mas devemos expressar a situa\u00e7\u00e3o tal como ela \u00e9. \u00c9 essa a tarefa do programa\u201d.<\/p>\n<p>Em 1939, Trotsky tamb\u00e9m escreveu:<\/p>\n<p>\u201cReformas parciais e remendos nada resolvem. O desenvolvimento hist\u00f3rico chegou a um ponto em que s\u00f3 a directa interven\u00e7\u00e3o das massas pode afastar as obstru\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias e estabelecer um novo regime. A aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro pr\u00e9-requisito para uma economia planificada, isto \u00e9, para a introdu\u00e7\u00e3o do racionalismo na esfera das rela\u00e7\u00f5es humanas, primeiro \u00e0 escala nacional e depois \u00e0 escala global. A Humanidade libertada alcan\u00e7ar\u00e1 o seu potencial\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 David North, WSWS, Comit\u00e9 Internacional da QI. Relat\u00f3rio apresentado inicialmente numa reuni\u00e3o em 2008 no Michigan, em v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o de Obama. Publicado originalmente no site World Socialist Web Site. 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