{"id":295,"date":"2010-09-02T17:16:24","date_gmt":"2010-09-02T16:16:24","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/09\/02\/maputo-a-revolta-da-fome\/"},"modified":"2010-09-02T17:16:24","modified_gmt":"2010-09-02T16:16:24","slug":"maputo-a-revolta-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/09\/02\/maputo-a-revolta-da-fome\/","title":{"rendered":"Maputo: a revolta da fome"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-294\" style=\"margin: 10px 10px 3px; float: left;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/maputoparasite.jpg?w=300\"  srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/maputoparasite.jpg?w=580 580w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/maputoparasite.jpg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/maputoparasite.jpg?resize=480%2C320 480w\" sizes=\"(max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\n<p>A revolta popular em Maputo continua. Ao ler este artigo, ou\u00e7a o rapper Azagaia, no v\u00eddeo abaixo, e leia tamb\u00e9m o artigo deste link: <a href=\"http:\/\/rtp.pt\/noticias\/?t=Cantor-mocambicano-tornou-se-simbolo-da-revolta.rtp&#038;article=372091&#038;visual=3&#038;layout=10&#038;tm=7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/rtp.pt\/noticias\/?t=<wbr><\/wbr>Cantor-mocambicano-tornou-se-<wbr><\/wbr>simbolo-da-revolta.rtp&#038;<wbr><\/wbr>article=372091&#038;visual=3&#038;<wbr><\/wbr>layout=10&#038;tm=7<\/a><\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de Setembro, j\u00e1 os sms tinham circulado para convocar a greve em Maputo contra os aumentos dos pre\u00e7os do p\u00e3o, da \u00e1gua e da electricidade, um representante do governo lembrou Maria Antonieta. Em entrevista \u00e0 R\u00e1dio Mo\u00e7ambique, no programa &#8220;Caf\u00e9 da manh\u00e3&#8221;, a ilustre personagem apelou aos ouvintes para, em substitui\u00e7\u00e3o ao p\u00e3o, comerem batata doce. Ignor\u00e2ncia e prepot\u00eancia caminham, como sabemos, muitas vezes de m\u00e3os dadas. Horas depois, a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito do mesmo governo chefiado pela Frelimo disparavam sobre a multid\u00e3o desarmada.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  Eram homens, mulheres e crian\u00e7as da periferia miser\u00e1vel da capital mo\u00e7ambicana, a manifestar a sua revolta contra aumentos de pre\u00e7os de produtos essenciais que os condenariam a passar ainda mais fome. Estradas foram cortadas, pneus e carros incendiados, barricadas erguidas, lojas pilhadas, enquanto multid\u00f5es dirigiam-se, a p\u00e9, para o centro de Maputo. <\/p>\n<p>O governo da Frelimo fez, em n\u00fameros provis\u00f3rios, s\u00f3 no primeiro dia da rebeli\u00e3o, dez mortos, entre os quais crian\u00e7as, mais de 200 feridos e quase 150 pris\u00f5es. Durante os protestos, um homem foi filmado no primeiro andar da sede do Partido Frelimo, na Avenida de Angola, a atirar contra os manifestantes. Foi a reac\u00e7\u00e3o violenta de um governo corrupto e ditatorial, comandado pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional e \u00e0 frente de um dos pa\u00edses mais pobres do mundo. Segundo as Na\u00e7\u00f5es Unidas, 46,8% da popula\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana vive numa situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema, superior \u00e0 m\u00e9dia do continente africano e s\u00f3 superada por pa\u00edses como Afeganist\u00e3o, Serra Leoa ou Guin\u00e9. Os elevados \u00edndices de crescimento econ\u00f3mico verificados nos \u00faltimos anos, acima \u00e0s vezes dos 5%, t\u00eam beneficiado quase que exclusivamente a elite, burocr\u00e1tica e empresarial, ligada \u00e0 Frelimo, e as empresas estrangeiras que exploram a m\u00e3o-de-obra barata e as riquezas do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Um protesto leg\u00edtimo<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;O sentimento que hoje grassa nos bairros populares do Grande Maputo \u00e9 o de uma incerteza global quanto ao futuro e \u00e0 pr\u00f3pria subsist\u00eancia e, face ao poder pol\u00edtico, a sensa\u00e7\u00e3o de que as suas dificuldades se tornaram irrelevantes para os poderosos e de que n\u00e3o existem canais por onde as suas necessidades e protestos possam ser canalizadas de forma eficaz&#8221;, escreveu no jornal <em>P\u00fablico<\/em> o professor Paulo Granjo, da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa.<\/p>\n<p>&#8220;Mo\u00e7ambique passou, com o fim da guerra civil, de um regime socializante e paternalista para uma pol\u00edtica ultraliberal que trouxe o aumento do desemprego e das elites econ\u00f3micas, coincidentes ou ligadas \u00e0s elites pol\u00edticas. Trouxe tamb\u00e9m a eros\u00e3o do controle local da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es partid\u00e1rio-estatais que, se podiam cometer abusos, tamb\u00e9m podiam canalizar as necessidades e reclama\u00e7\u00f5es populares&#8221;, analisou o artigo.<\/p>\n<p>Numa outra reportagem, tamb\u00e9m do jornal <em>P\u00fablico<\/em>, um participante da revolta, pedreiro de profiss\u00e3o e activista de organiza\u00e7\u00f5es c\u00edvicas, explicava as suas raz\u00f5es: &#8220;Estamos contra o aumento do custo de vida, \u00e9 um protesto leg\u00edtimo. Eu vivo com menos de 50 meticais (cerca de um euro) por dia. Se a manifesta\u00e7\u00e3o existe \u00e9 porque as pessoas n\u00e3o est\u00e3o contentes. D\u00f3i sermos explorados injustamente&#8221;. E prosseguia: &#8220;N\u00f3s vot\u00e1mos neles [Frelimo], mas a Frelimo n\u00e3o \u00e9 aquela pessoa que est\u00e1 hoje na cadeira do poder. A Frelimo sempre quis dar o melhor ao povo desde os tempos de Samora Machel. E os actuais dirigentes n\u00e3o sentem pena desta gente que est\u00e1 cada vez a sofrer mais?&#8221;<\/p>\n<p>Tudo indica que n\u00e3o. Para o ministro do Interior do governo presidido por Armando Guebuza, o mesmo que vive a chamar o povo de &#8220;maravilhoso&#8221;, a revolta teria sido uma ac\u00e7\u00e3o de &#8220;criminosos, aventureiros, malfeitores e bandidos&#8221;. Mesmo o porta-voz da Renamo, a principal for\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o, sem deixar de criticar a viol\u00eancia da pol\u00edcia, n\u00e3o se absteve de tamb\u00e9m condenar as pilhagens.<\/p>\n<p><strong>Os assassinos est\u00e3o fardados<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com v\u00e1rios testemunhos, a revolta teria come\u00e7ado no bairro de Benfica, uma zona perif\u00e9rica de Maputo, e em pouco tempo estendeu-se \u00e0 Avenida de Mo\u00e7ambique e \u00e0 de Acordos de Lusaka, as duas principais vias de entrada da capital, e para a Beira, a segunda cidade mais importante do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como em 5 de Fevereiro de 2008, na rebeli\u00e3o contra o aumento do pre\u00e7o dos transportes, os &#8220;chapas&#8221;, autocarros que transportam os habitantes dos sub\u00farbios para o trabalho, n\u00e3o funcionaram. A ades\u00e3o \u00e0 greve \u2013 em Mo\u00e7ambique sin\u00f3nimo de revolta popular \u2013 convocada na v\u00e9spera por sms tinha sido de quase 100%. Os milhares de manifestantes dirigem-se, a p\u00e9, percorrendo quil\u00f3metros, para alcan\u00e7ar a &#8220;cidade de &#8220;cimento&#8221;, onde est\u00e1 o poder.<\/p>\n<p>De Maputo, Jo\u00e3o Vaz de Almada, relata ao <em>P\u00fablico<\/em>: &#8220;O bru\u00e1 da multid\u00e3o \u00e9 cada vez mais sonoro e a cad\u00eancia dos passos intensifica-se, sinal que a turba se aproxima rapidamente da pra\u00e7a [Pra\u00e7a da Organiza\u00e7\u00e3o da Mulher Mo\u00e7ambicana]. Momentos antes, tr\u00eas ve\u00edculos carregados de pol\u00edcias munidos de metralhadoras AK 47 tomam posi\u00e7\u00f5es ao longo da pra\u00e7a. A multid\u00e3o chega ao local e a tens\u00e3o aumenta \u00e0 medida que crescem as palavras de ordem que clamam por justi\u00e7a. Os tiros de aviso sucedem-se. O descontrolo entre os pol\u00edcias \u00e9 grande, e a turba, cada vez mais vociferante, entra na Avenida Vladimir Lenine, tomando a direc\u00e7\u00e3o da Baixa da cidade. Agora as ordens parecem claras: ningu\u00e9m pode passar para o cimento. Rapidamente tudo se precipita e os disparos, exclusivamente da pol\u00edcia, tomam as mais variadas direc\u00e7\u00f5es, com dois deles a deixar um corpo j\u00e1 cad\u00e1ver e outro em estado grave que acaba por ser socorrido pela Cruz Vermelha. A turba, essa, recua, voltando \u00e0 proced\u00eancia. No alcatr\u00e3o jazem dezenas de chinelos que o p\u00e2nico deixou para tr\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;(&#8230;) Sob agita\u00e7\u00e3o e alguns tiros, corremos para o local. &#8220;J\u00e1 levaram uma crian\u00e7a que estava ferida&#8221;, revela um transeunte. &#8220;Isto \u00e9 fogo real. Voc\u00eas t\u00eam de escrever que a pol\u00edcia est\u00e1 a matar o povo inocente e indefeso&#8221;. Enquanto isso, outro popular puxa-nos para o outro lado da rua, em direc\u00e7\u00e3o a uma crian\u00e7a que jaz cad\u00e1ver, coberta por uma capulana. Do seu lado esquerdo repousa a pasta com os livros da escola. Do lado direito, uma enorme po\u00e7a de sangue testemunha a brutalidade do disparo. &#8220;Atingiram-no aqui na cabe\u00e7a&#8221;, berra uma mulher indignada, enquanto levanta o improvisado sud\u00e1rio. &#8220;Chamava-se H\u00e9lio tinha 11 anos e regressava da escola quando foi atingido.&#8221;<\/p>\n<p>(&#8230;) A pol\u00edcia volta a investir e o povo que estava junto ao corpo de H\u00e9lio procura ref\u00fagio entre as pequenas habita\u00e7\u00f5es de blocos que a falta de dinheiro n\u00e3o deixou concluir. A indigna\u00e7\u00e3o cresce. &#8220;Queremos justi\u00e7a! Os assassinos est\u00e3o fardados! Isto n\u00e3o \u00e9 bala perdida. Bala perdida n\u00e3o atinge cabe\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8220;A luta continua&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>No dia seguinte, 2 de Setembro, a revolta continuou, convocada mais uma vez por sms. Mais repress\u00e3o, mais mortos e feridos. Novas barricadas e pneus queimados. Como gritavam mais de 100 jovens que bloquearam a Avenida Acordos de Lusaca na v\u00e9spera, a enfrentar os tiros da pol\u00edcia, &#8220;Um povo unido jamais ser\u00e1 vencido&#8221;.<\/p>\n<p>A luta do povo mo\u00e7ambicano contra a opress\u00e3o e os desmandos do governo totalit\u00e1rio da Frelimo \u00e9 leg\u00edtima e deve ter o apoio dos trabalhadores de todo o mundo. Ela se expressa na rebeli\u00e3o desses \u00faltimos dias, mas tamb\u00e9m na greve dos estudantes do Instituto Superior de Ci\u00eancias e Tecnologia de Maputo contra o aumento das propinas, realizada a 31 de Agosto, e outras manifesta\u00e7\u00f5es de protesto.<\/p>\n<p>Violenta n\u00e3o \u00e9 a revolta, mas a fome que governos corruptos, lacaios do imperialismo, querem impor \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para manter as suas regalias.<\/p>\n<p>Popula\u00e7\u00e3o pobre de Mo\u00e7ambique, estamos convosco!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revolta popular em Maputo continua. 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