{"id":2949,"date":"2018-08-21T21:04:08","date_gmt":"2018-08-21T20:04:08","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/08\/21\/a-memoria-do-velho-obituario-de-leon-trotsky\/"},"modified":"2018-08-21T21:04:08","modified_gmt":"2018-08-21T20:04:08","slug":"a-memoria-do-velho-obituario-de-leon-trotsky","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/08\/21\/a-memoria-do-velho-obituario-de-leon-trotsky\/","title":{"rendered":"\u00c0 mem\u00f3ria do \u201cvelho\u201d (Obitu\u00e1rio de Leon Trotsky)"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><em><br style=\"clear: both;\" \/>Nos 78 anos do assassinato de Leon Trotsky , publicamos a tradu\u00e7\u00e3o do discurso lido por James Cannon no funeral do revolucion\u00e1rio russo. Cannon foi o fundador do Trotskismo nos EUA. Delegado ao V\u00ba Congresso da Internacional Comunista, em representa\u00e7\u00e3o do PC dos EUA, Cannon teve contacto com um documento clandestido de trotsky, traduzido para o ingl\u00eas, que foi secretamente introduzido no Congresso da Internacional Comunista, o primeiro Congresso que n\u00e3o se deu sob a \u00e9gide de Leninee \u2013 j\u00e1 falecido \u2013\u00a0 e de Trotsky, exilado. Ao tomar contacto com a contundente cr\u00edtica ao estalinismo, James Cannon rompeu com o estalinismo e voltou para os EUA para fundar um partido que seguisse os ensinamentos da revolu\u00e7\u00e3o de Outurbo \u2013 um partido Trotskista, o SWP. O SWP norte-americano e os seus quadros colaboraram diretamente com Trotsky durante o seu \u00faltimo ex\u00edlio e beberam diretamente os ensinamentos do \u201cvelho\u201d, que se refletem t\u00e3o vivos neste emocionante discurso.<\/em><\/p>\n<p>  <!--more-->  Toda a vida consciente do camarada Trotsky, a partir do momento em que ele entrou no movimento oper\u00e1rio na cidade provinciana russa de Nikolayev com a idade de dezoito anos at\u00e9 o momento da sua morte na Cidade do M\u00e9xico quarenta e dois anos depois, foi completamente dedicada ao trabalho e \u00e0 luta em prol de uma ideia central. Ele defendia a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e de todos os povos oprimidos do mundo e a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade do capitalismo para o socialismo por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o social. Em sua concep\u00e7\u00e3o, essa revolu\u00e7\u00e3o social libertadora exige para o seu sucesso a lideran\u00e7a de um partido pol\u00edtico revolucion\u00e1rio da vanguarda oper\u00e1ria. <\/p>\n<p>Em toda a sua vida consciente, o camarada Trotsky nunca divergiu dessa ideia. Ele nunca duvidou disso e nunca deixou de lutar pela sua realiza\u00e7\u00e3o. No seu leito de morte, na sua \u00faltima mensagem para n\u00f3s, seus disc\u00edpulos \u2013 seu \u00faltimo testamento \u2013 ele proclamou a sua confian\u00e7a no seu ideal de vida: &#8220;Diga aos nossos amigos que tenho certeza da vit\u00f3ria da Quarta Internacional \u2013 Sigam em frente!&#8221;<\/p>\n<p>O mundo inteiro conhece o seu trabalho e o seu testamento. Os cabos da imprensa mundial transmitiram o seu \u00faltimo testamento e deram-no a conhecer aos milh\u00f5es do mundo. E nas mentes e cora\u00e7\u00f5es de todos aqueles em todo o mundo que choram connosco esta noite, um pensamento \u2013 uma pergunta \u2013 \u00e9 mais importante: O movimento que ele criou e inspirou sobreviver\u00e1 \u00e0 sua morte? Seus disc\u00edpulos ser\u00e3o capazes de manter as suas fileiras juntos, eles ser\u00e3o capazes de tornar real o seu testamento e realizar a emancipa\u00e7\u00e3o dos oprimidos atrav\u00e9s da vit\u00f3ria da Quarta Internacional?<\/p>\n<p>Sem a menor hesita\u00e7\u00e3o, damos uma resposta afirmativa a essa quest\u00e3o. Aqueles inimigos que prev\u00eaem um colapso do movimento de Trotsky sem Trotsky e aqueles amigos sem for\u00e7a de vontade que o temem s\u00f3 mostram que n\u00e3o entendem Trotsky, o que ele era, o que ele significava e o que ele nos deixou. Nunca a uma fam\u00edlia enlutada foi deixada uma heran\u00e7a t\u00e3o rica como aquela que o camarada Trotsky, como um pai previdente, deixou para a fam\u00edlia da Quarta Internacional como fi\u00e9is deposit\u00e1rios de toda a humanidade progressista. Uma grande heran\u00e7a de ideias que ele nos deixou; ideias que devem mapear a luta em dire\u00e7\u00e3o ao grande futuro livre de toda a humanidade. As ideias poderosas de Trotsky s\u00e3o o nosso programa e a nossa bandeira. S\u00e3o um claro guia para a a\u00e7\u00e3o em todas as complexidades da nossa \u00e9poca e uma garantia constante de que estamos certos e de que a nossa vit\u00f3ria \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Trotsky acreditava que as ideias s\u00e3o a maior pot\u00eancia do mundo. Os seus autores podem ser mortos, mas as ideias, uma vez promulgadas, ganham vida pr\u00f3pria. Se s\u00e3o ideias corretas, fazem o seu caminho atrav\u00e9s de todos os obst\u00e1culos. Esse era o conceito central e dominante da filosofia do camarada Trotsky. Ele explicou-nos isso muitas e muitas vezes. Ele escreveu uma vez: \u201cN\u00e3o \u00e9 o partido que faz o programa [a ideia]; \u00e9 o programa que faz o partido\u201d. Em uma carta pessoal para mim, ele escreveu certa vez:\u201c Trabalhamos com as ideias mais corretas e poderosas do mundo, com for\u00e7as num\u00e9ricas e meios inadequados. Mas as ideias corretas, a longo prazo, sempre conquistam e disponibilizam para si as for\u00e7as e os meios necess\u00e1rios \u201d.<\/p>\n<p>Trotsky, um disc\u00edpulo de Marx, acreditava juntamente com Marx que \u201cuma ideia, quando permeia a massa, torna-se uma for\u00e7a material\u201d. Acreditando nisso, o camarada Trotsky nunca duvidou que o seu trabalho o sobreviveria. Acreditando nisso, ele poderia proclamar no seu leito de morte a sua confian\u00e7a na futura vit\u00f3ria da Quarta Internacional, que incorpora as suas ideias. Aqueles que duvidam n\u00e3o conhecem Trotsky.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Trotsky acreditava que a sua maior signific\u00e2ncia, o seu maior valor, consistia n\u00e3o na sua vida f\u00edsica, n\u00e3o nos seus atos \u00e9picos, que ofuscam os de todas as figuras her\u00f3icas da hist\u00f3ria no seu alcance e grandeza \u2013 mas no que ele deixaria para tr\u00e1s depois de os assassinos fazerem o seu trabalho. Ele sabia que sua senten\u00e7a estava selada e trabalhou contra o tempo para deixar tudo o que fosse poss\u00edvel para n\u00f3s e, atrav\u00e9s de n\u00f3s, para a humanidade. Ao longo dos onze anos do seu \u00faltimo ex\u00edlio, ele acorrentou-se \u00e0 sua escrivaninha como um escravo da gal\u00e9 e trabalhou, como nenhum de n\u00f3s sabe trabalhar, com tamanha energia, persist\u00eancia e autodisciplina, como s\u00f3 os g\u00e9nios podem trabalhar. Ele trabalhou contra o tempo para derramar atrav\u00e9s da sua caneta todo o rico conte\u00fado do seu poderoso c\u00e9rebro e preserv\u00e1-lo de forma permanente para n\u00f3s e para aqueles que vir\u00e3o a seguir a n\u00f3s.<\/p>\n<p>Todo o Trotsky, como todo o Marx, est\u00e1 preservado nos seus livros, seus artigos e suas cartas. Sua volumosa correspond\u00eancia, que cont\u00e9m alguns de seus pensamentos mais brilhantes e os seus sentimentos e opini\u00f5es pessoais mais \u00edntimas, deve agora ser coletada e publicada. Quando isso for feito, quando as suas cartas forem publicadas juntamente com os seus livros, os seus panfletos e os seus artigos, n\u00f3s, e todos aqueles que se juntarem a n\u00f3s na luta de liberta\u00e7\u00e3o da humanidade, ainda ter\u00e3o nosso Velho Homem para nos ajudar.<\/p>\n<p>Ele sabia que o super \u2013 Borgia no Kremlin, Caim \u2013 Estaline, que destruiu toda a gera\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, o tinha marcado para ser assassinado e que teria sucesso mais cedo ou mais tarde. \u00c9 por isso que ele trabalhou t\u00e3o desesperadamente. \u00c9 por isso que ele se apressou a escrever tudo o que estava na sua mente e a coloc\u00e1-lo em papel de forma permanente, onde ningu\u00e9m poderia destru\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Na outra noite, conversei \u00e0 mesa de jantar com um dos secret\u00e1rios fi\u00e9is do Velho \u2013 um jovem camarada que o servia h\u00e1 muito tempo e que conhecia a sua vida pessoal, como ele a viveu nos seus \u00faltimos anos de ex\u00edlio, mais intimamente. Pedi-lhe que escrevesse suas reminisc\u00eancias sem demora. Eu disse: \u201cTodos n\u00f3s devemos escrever tudo o que sabemos sobre Trotsky. Todos devem registrar suas lembran\u00e7as e suas impress\u00f5es. N\u00e3o devemos esquecer que nos movemos na \u00f3rbita da maior figura do nosso tempo. Milh\u00f5es de pessoas, gera\u00e7\u00f5es ainda para vir, ficar\u00e3o famintas por cada fragmento de informa\u00e7\u00e3o, cada palavra, cada impress\u00e3o que lan\u00e7ar luz sobre ele, suas ideias, seus objetivos e a sua vida pessoal \u201d.<\/p>\n<p>Ele respondeu: \u201cEu posso escrever apenas sobre as suas qualidades pessoais como eu as observei; os seus m\u00e9todos de trabalho, a sua humanidade, a sua generosidade. Mas eu n\u00e3o posso escrever nada de novo sobre as suas ideias. Elas j\u00e1 est\u00e3o escritas. Tudo o que ele tinha a dizer, tudo o que ele tinha no seu c\u00e9rebro, est\u00e1 no papel. Ele parecia estar determinado a mergulhar no fundo da sua mente, tirar tudo e dar ao mundo nos seus escritos. Muitas vezes, lembro-me, conversas casuais sobre algum assunto chegavam \u00e0 mesa de jantar; haveria uma discuss\u00e3o informal e o Velho expressaria algumas opini\u00f5es novas e refrescantes. Quase invariavelmente, as contribui\u00e7\u00f5es da conversa na mesa de jantar iriam encontrar express\u00e3o um pouco mais tarde num livro, num artigo ou numa carta.<\/p>\n<p>Eles mataram Trotsky n\u00e3o atrav\u00e9s dum golpe; n\u00e3o quando este assassino, o agente de Estaline, desferiu a picareta atrav\u00e9s da parte de tr\u00e1s do seu cr\u00e2nio. Esse foi apenas o golpe final. Eles mataram-no por cent\u00edmetros. Eles mataram-no muitas vezes. Eles mataram-no sete vezes quando mataram os seus sete secret\u00e1rios. Eles mataram-no quatro vezes quando mataram os seus quatro filhos. Eles mataram-no quando os seus velhos camaradas da Revolu\u00e7\u00e3o Russa foram mortos.<\/p>\n<p>No entanto ele enfrentou as suas tarefas apesar disso tudo. Envelhecido e doente, ele cambaleava com todos esses golpes morais, emocionais e f\u00edsicos para completar o seu testamento para a humanidade enquanto ainda tinha tempo. Ele compilou tudo \u2013 todo o pensamento, toda a ideia, toda a li\u00e7\u00e3o de sua experi\u00eancia passada \u2013 para criar um tesouro liter\u00e1rio para n\u00f3s, um tesouro que as tra\u00e7as e a ferrugem n\u00e3o podem comer.<\/p>\n<p>Havia uma diferen\u00e7a profunda entre Trotsky e outros grandes homens de a\u00e7\u00e3o e l\u00edderes pol\u00edticos transit\u00f3rios que influenciaram grandes massas durante sua vida. O poder dessas pessoas, quase todas elas, era algo pessoal, algo incomunic\u00e1vel para os outros. A sua influ\u00eancia n\u00e3o sobreviveu \u00e0s suas mortes. Basta lembrar por um momento os grandes homens da nossa gera\u00e7\u00e3o ou da gera\u00e7\u00e3o que acabou de passar: Clemenceau, Hindenburg, Wilson, Theodore Roosevelt, Bryan. Eles tinham grandes massas a segui-los e a apoiar-se neles. Mas agora est\u00e3o mortos; e toda a sua influ\u00eancia morreu com eles. Nada resta sen\u00e3o monumentos e elogios f\u00fanebres. Nada era distintivo neles a n\u00e3o ser as suas personalidades. Eles eram oportunistas, l\u00edderes por um dia. Eles n\u00e3o deixaram ideias para guiar e inspirar os homens quando seus corpos se tornassem p\u00f3 e as suas personalidades tornaram-se numa lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assim com Trotsky. N\u00e3o \u00e9 assim com ele. Ele era diferente. Ele tamb\u00e9m era um grande homem de a\u00e7\u00e3o, com certeza. Os seus feitos est\u00e3o incorporados na maior revolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da humanidade. Mas, ao contr\u00e1rio dos oportunistas e l\u00edderes de um dia, seus feitos foram inspirados por grandes ideias, e essas ideias ainda vivem. Ele n\u00e3o s\u00f3 fez uma revolu\u00e7\u00e3o; ele escreveu a sua hist\u00f3ria e explicou as leis b\u00e1sicas que governam todas as revolu\u00e7\u00f5es. Na sua Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, que ele considerava a sua obra-prima, ele deu-nos um guia para a realiza\u00e7\u00e3o de novas revolu\u00e7\u00f5es, ou melhor, para estender ao mundo a revolu\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou em outubro de 1917.<\/p>\n<p>Trotsky, o grande homem das ideias, foi ele mesmo o disc\u00edpulo de um ainda maior \u2013 Marx. Trotsky n\u00e3o originou ou reivindicou originar as ideias mais fundamentais que ele exp\u00f4s. Ele construiu sobre os fundamentos estabelecidos pelos grandes obreiros do s\u00e9culo XIX \u2013 Marx e Engels. Al\u00e9m disso, ele passou pela grande escola de Lenine e aprendeu com ele. O g\u00e9nio de Trotsky consistia na sua completa assimila\u00e7\u00e3o das ideias legadas por Marx, Engels e Lenine. Ele dominou o m\u00e9todo deles. Ele desenvolveu as suas ideias em condi\u00e7\u00f5es modernas e aplicou-as de maneira magistral na luta contempor\u00e2nea do proletariado. Se voc\u00ea entender Trotsky, deve saber que ele era um disc\u00edpulo de Marx, um marxista ortodoxo. Ele lutou sob a bandeira do marxismo por quarenta e dois anos! Durante o \u00faltimo ano da sua vida, ele colocou tudo o resto de lado para lutar uma grande batalha pol\u00edtica e te\u00f3rica em defesa do marxismo nas fileiras da Quarta Internacional! Seu \u00faltimo artigo, que foi deixado em sua mesa em estado bruto, o \u00faltimo artigo com o qual ele se ocupou, foi uma defesa do marxismo contra os revisionistas e c\u00e9ticos contempor\u00e2neos. O poder de Trotsky, primeiro que tudo e acima de tudo, era o poder do Marxismo.<\/p>\n<p>Querem uma ilustra\u00e7\u00e3o concreta do poder das ideias marxistas? Considerem apenas isto: quando Marx morreu em 1883, Trotsky tinha apenas quatro anos de idade. Lenine tinha apenas quatorze anos. Nenhum dos dois poderia ter conhecido Marx ou qualquer coisa sobre ele. No entanto, ambos se tornaram grandes figuras hist\u00f3ricas por causa de Marx, porque Marx tinha posto a circular ideias no mundo antes deles nascerem. Essas ideias tinham vida pr\u00f3pria. Elas moldaram a vida de Lenine e Trotsky. As ideias de Marx estavam com eles e guiavam a cada passo deles quando faziam a maior revolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tal como ir\u00e3o tamb\u00e9m as ideias de Trotsky, que s\u00e3o um desenvolvimento das ideias de Marx, influenciar-nos, seus disc\u00edpulos, que o sobrevivem hoje. Elas moldar\u00e3o a vida de disc\u00edpulos muito maiores que ainda est\u00e3o para vir, que ainda n\u00e3o conhecem o nome de Trotsky. Alguns que est\u00e3o destinados a ser os maiores Trotskistas est\u00e3o a brincar nos p\u00e1tios da escola hoje. Eles ser\u00e3o alimentados com as ideias de Trotsky, tal como ele e Lenine foram alimentados com as ideias de Marx e Engels.<\/p>\n<p>De fato, o nosso movimento nos Estados Unidos ganhou forma e cresceu com as suas ideias sem a sua presen\u00e7a f\u00edsica, sem qualquer comunica\u00e7\u00e3o num primeiro per\u00edodo. Trotsky foi exilado e isolado em Almaty quando come\u00e7\u00e1mos a nossa luta pelo Trotskismo neste pa\u00eds em 1928. N\u00e3o tivemos nenhum contacto com ele e, por muito tempo, n\u00e3o sab\u00edamos se ele estava vivo ou morto. N\u00f3s nem sequer t\u00ednhamos uma cole\u00e7\u00e3o dos seus escritos. Tudo o que t\u00ednhamos era um \u00fanico documento atual \u2013 sua \u201cCr\u00edtica ao Projeto de Programa da Internacional Comunista\u201d. Isso bastava. \u00c0 luz desse \u00fanico documento, vimos qual o nosso caminho, come\u00e7\u00e1mos nossa luta com suprema confian\u00e7a, pass\u00e1mos pela cis\u00e3o sem vacilar, constru\u00edmos a estrutura de uma organiza\u00e7\u00e3o nacional e estabelecemos a nossa imprensa Trotskista semanal. O nosso movimento foi constru\u00eddo com firmeza desde o in\u00edcio e permaneceu firme porque foi constru\u00eddo com base nas ideias de Trotsky. Foi quase um ano antes de podermos estabelecer comunica\u00e7\u00e3o direta com o Velho.<\/p>\n<p>Tal como com as sec\u00e7\u00f5es da Quarta Internacional em todo o mundo. Apenas alguns camaradas se encontraram alguma vez com Trotsky cara a cara. No entanto em todos os lugares o conheciam. Na China e do outro lado do oceano no Chile, na Argentina e no Brasil. Na Austr\u00e1lia, em praticamente todos os pa\u00edses da Europa. Nos Estados Unidos, Canad\u00e1, Indochina, \u00c1frica do Sul. Eles nunca o viram, mas as ideias de Trotsky uniram-nos num movimento mundial uniforme e firme. Por isso, continuar\u00e1 ap\u00f3s a sua morte f\u00edsica. N\u00e3o h\u00e1 lugar para d\u00favidas.<\/p>\n<p>O lugar de Trotsky na hist\u00f3ria j\u00e1 est\u00e1 estabelecido. Permanecer\u00e1 para sempre na emin\u00eancia hist\u00f3rica ao lado dos outros tr\u00eas grandes gigantes do proletariado: Marx, Engels e Lenine. \u00c9 poss\u00edvel, de facto \u00e9 bastante prov\u00e1vel, que na mem\u00f3ria hist\u00f3rica da humanidade, seu nome evoque o mais caloroso afeto, a mais sincera gratid\u00e3o de todos. Porque ele lutou por tanto tempo contra um mundo de inimigos, t\u00e3o honestamente, t\u00e3o heroicamente e com uma devo\u00e7\u00e3o t\u00e3o altru\u00edsta!<\/p>\n<p>As futuras gera\u00e7\u00f5es da humanidade livre olhar\u00e3o para tr\u00e1s com interesse insaci\u00e1vel nesta \u00e9poca louca de rea\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia sangrenta e mudan\u00e7a social \u2013 esta \u00e9poca da agonia da morte de um sistema social e as dores do parto de outro. Quando virem atrav\u00e9s das lentes do historiador como as massas de pessoas oprimidas em todos os lugares tateavam, cegas e confusas, elas mencionar\u00e3o com profundo amor o nome do g\u00e9nio que nos deu luz, o grande cora\u00e7\u00e3o que nos deu coragem.<\/p>\n<p>De todos os grandes homens do nosso tempo, de todas as figuras p\u00fablicas para quem as massas se voltavam procurando orienta\u00e7\u00e3o nestes tempos terr\u00edveis e conturbados, s\u00f3 Trotsky nos explicou as coisas, s\u00f3 ele nos deu luz na escurid\u00e3o. S\u00f3 o seu c\u00e9rebro desvendou os mist\u00e9rios e complexidades da nossa \u00e9poca. O grande c\u00e9rebro de Trotsky era o que todos os seus inimigos temiam. Eles n\u00e3o conseguiam lidar com isso. Eles n\u00e3o podiam responder. No m\u00e9todo incrivelmente horr\u00edvel pelo qual o destru\u00edram estava escondido um s\u00edmbolo profundo. Eles atacaram o seu c\u00e9rebro! Mas os produtos mais ricos desse c\u00e9rebro ainda est\u00e3o vivos. Eles j\u00e1 tinham escapado e nunca poderiam ser recapturados e destru\u00eddos.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o minimizamos o golpe que nos foi causado, ao nosso movimento e ao mundo. \u00c9 a pior calamidade. Perdemos algo de valor incomensur\u00e1vel que nunca poder\u00e1 ser recuperado. Perdemos a inspira\u00e7\u00e3o de sua presen\u00e7a f\u00edsica, seu s\u00e1bio conselho. Tudo isso est\u00e1 perdido para sempre. O povo russo sofreu o golpe mais terr\u00edvel de todos. Mas pelo simples fato de que a camarilha estalinista teve que matar Trotsky ap\u00f3s onze anos, eles tiveram que se mobilizar em Moscovo, empenhar todas as suas energias e planos para destruir a vida de Trotsky \u2013 \u00e9 esse o maior testemunho de que Trotsky ainda vivia nos cora\u00e7\u00f5es do povo russo. Eles n\u00e3o acreditavam nas mentiras. Eles esperaram e desejaram pelo seu retorno. As suas palavras ainda est\u00e3o l\u00e1. A sua mem\u00f3ria est\u00e1 viva nos seus cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Apenas alguns dias antes da morte do camarada Trotsky, os editores do boletim russo receberam uma carta de Riga. Ela tinha sido enviada antes da incorpora\u00e7\u00e3o da Let\u00f4nia na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Declarava em palavras simples que a \u201cCarta Aberta aos Trabalhadores da URSS\u201d de Trotsky lhes chegara, e levantara seus cora\u00e7\u00f5es com coragem e lhes mostrara o caminho. A carta dizia que a mensagem de Trotsky fora memorizada, palavra por palavra, e seria transmitida oralmente, n\u00e3o importando o que poderia acontecer. N\u00f3s realmente acreditamos que as palavras de Trotsky viver\u00e3o mais na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica do que o regime sangrento de Estaline. No pr\u00f3ximo grande dia de liberta\u00e7\u00e3o a mensagem de Trotsky ser\u00e1 a bandeira do povo russo.<\/p>\n<p>O mundo inteiro sabe quem matou o camarada Trotsky. O mundo sabe que no seu leito de morte ele acusou Estaline e a sua GPU do assassinato. A declara\u00e7\u00e3o do assassino, preparada antes do crime, \u00e9 a prova final, se mais provas fossem necess\u00e1rias, de que o assassinato foi um trabalho da GPU. \u00c9 uma mera reitera\u00e7\u00e3o das mentiras dos julgamentos de Moscovo; uma tentativa est\u00fapida e policial, t\u00e3o tardia, de reabilitar as estruturas que foram desacreditadas aos olhos de todo o mundo. Os motivos do assassinato surgiram da rea\u00e7\u00e3o mundial, do medo da revolu\u00e7\u00e3o e dos sentimentos de \u00f3dio e vingan\u00e7a dos traidores. O historiador ingl\u00eas Macaulay observou que os ap\u00f3statas em todas as \u00e9pocas manifestaram uma malignidade excepcional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que tra\u00edram. Estaline e o seu gangue de traidores foram consumidos por um \u00f3dio louco do homem que lhes lembrou o seu passado. Trotsky, o s\u00edmbolo da grande revolu\u00e7\u00e3o, lembrou-os constantemente da causa que tinham abandonado e tra\u00eddo, e eles odiavam-no por isso. Odiavam-no por todas as grandes e boas qualidades humanas que ele personificava e \u00e0s quais eles eram completamente alheios. Eles estavam determinados, a todo custo, a acabar com ele.<\/p>\n<p>Agora chego a uma parte que \u00e9 muito dolorosa, um pensamento que, tenho certeza, est\u00e1 nas mentes de todos n\u00f3s. No momento em que lemos acerca do sucesso do ataque tenho certeza de que todos entre n\u00f3s perguntaram: n\u00e3o poder\u00edamos t\u00ea-lo salvado por mais algum tempo? Se nos tiv\u00e9ssemos esfor\u00e7ado mais, se tiv\u00e9ssemos feito mais por ele \u2013 n\u00e3o poder\u00edamos t\u00ea-lo salvado? Queridos camaradas, n\u00e3o nos censuremos. O camarada Trotsky foi condenado e sentenciado \u00e0 morte h\u00e1 anos atr\u00e1s. Os traidores da revolu\u00e7\u00e3o sabiam que a revolu\u00e7\u00e3o vivia nele, a tradi\u00e7\u00e3o, a esperan\u00e7a. Todos os recursos de um Estado poderoso, postos em a\u00e7\u00e3o pelo \u00f3dio e vingan\u00e7a de Estaline, foram direcionados ao assassinato de um \u00fanico homem sem recursos e apenas com um punhado de seguidores pr\u00f3ximos. Todos os seus colegas de trabalho foram mortos; sete de seus fi\u00e9is secret\u00e1rios; seus quatro filhos. No entanto, apesar do fato de que eles o marcaram para ser morto ap\u00f3s o seu ex\u00edlio da R\u00fassia, n\u00f3s conserv\u00e1mo-lo por onze anos! Aqueles foram os anos mais frut\u00edferos de toda a sua vida. Aqueles foram os anos em que ele se sentou em plena maturidade para se dedicar \u00e0 tarefa de resumir e lan\u00e7ar em forma liter\u00e1ria permanente os resultados das suas experi\u00eancias e pensamentos.<\/p>\n<p>As suas aborrecidas mentes policiais n\u00e3o podem saber que Trotsky deixou o melhor de si para tr\u00e1s. Mesmo na morte, ele frustrou-os. Porque a coisa que eles mais queriam matar \u2013 a mem\u00f3ria e a esperan\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o \u2013 Trotsky deixou-nos.<\/p>\n<p>Se voc\u00eas se recriminarem a voc\u00eas pr\u00f3prios ou a n\u00f3s, porque esta m\u00e1quina assassina finalmente chegou a Trotsky e o derrubou, ter\u00e3o que se lembrar que \u00e9 muito dif\u00edcil proteger algu\u00e9m de assassinos. O assassino que persegue sua v\u00edtima dia e noite muitas vezes ultrapassa as maiores prote\u00e7\u00f5es. Mesmo os czares russos e outros governantes, cercados por todos os poderes policiais dos grandes estados, nem sempre podiam escapar ao assassinato por pequenos grupos de terroristas determinados, equipados com os recursos mais escassos. Este foi o caso mais de uma vez na R\u00fassia nos dias pr\u00e9-revolucion\u00e1rios. E aqui, no caso de Trotsky, t\u00ednhamos tudo isso ao contr\u00e1rio. Todos os recursos estavam do lado dos assassinos. Um grande aparato estatal, convertido numa m\u00e1quina de assass\u00ednio, contra um homem e alguns disc\u00edpulos dedicados. Ent\u00e3o, se eles finalmente conseguiram, temos apenas que nos perguntar, n\u00f3s fizemos tudo o que pod\u00edamos para impedir ou adiar isso? Sim, n\u00f3s fizemos o nosso melhor. Em plena consci\u00eancia, devemos dizer que fizemos o nosso melhor.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas ap\u00f3s o ataque de 24 de maio, mais uma vez coloc\u00e1mos na agenda da nossa comiss\u00e3o executiva a quest\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o do camarada Trotsky. Cada camarada concordou que esta \u00e9 a nossa tarefa mais importante, mais importante para as massas do mundo inteiro e para as futuras gera\u00e7\u00f5es, que acima de tudo faremos tudo ao nosso alcance para proteger a vida do nosso g\u00e9nio, nosso companheiro, que nos ajudou e guiou t\u00e3o bem. Uma delega\u00e7\u00e3o de l\u00edderes do partido fez uma visita ao M\u00e9xico. Acabou por ser a nossa \u00faltima visita. L\u00e1, naquela ocasi\u00e3o, em consulta com ele, concord\u00e1mos numa nova campanha para fortalecer a guarda. Recolhemos dinheiro neste pa\u00eds para fortificar a casa a custo de milhares de d\u00f3lares; todos os nossos membros e simpatizantes responderam com grandes sacrif\u00edcios e generosidade.<\/p>\n<p>E ainda assim a m\u00e1quina de assass\u00ednio rompeu. Mas aqueles que ajudaram mesmo em menor grau, seja financeiramente ou com seus esfor\u00e7os f\u00edsicos, como os nossos bravos jovens camaradas da guarda, nunca se arrepender\u00e3o do que fizeram para proteger e ajudar o Velho.<\/p>\n<p>Na hora em que o camarada Trotsky foi finalmente derrubado, eu voltava de comb\u00f3io de uma viagem especial a Minneapolis. Eu tinha ido l\u00e1 com o prop\u00f3sito de arranjar camaradas novos e especialmente qualificados para descer e fortalecer a guarda em Coyoac\u00e1n. A caminho de casa, sentei-me no comb\u00f3io com uma sensa\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o de que a tarefa da viagem havia sido cumprida, refor\u00e7os da guarda haviam sido providenciados.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando o comb\u00f3io passava pela Pensilv\u00e2nia, por volta das quatro da madrugada, trouxeram os primeiros jornais com a not\u00edcia de que o assassino rompera as defesas e desferira uma picareta no c\u00e9rebro do camarada Trotsky. Aquele foi o in\u00edcio de um dia terr\u00edvel, o dia mais triste das nossas vidas, quando esper\u00e1vamos, hora ap\u00f3s hora, enquanto o Velho lutava a sua \u00faltima batalha e se debatia em v\u00e3o contra a morte. Mas mesmo assim, naquela hora de pesar terr\u00edvel, quando recebemos a mensagem fatal pelo telefonema de longa dist\u00e2ncia: \u201cO Velho est\u00e1 morto\u201d \u2013 mesmo assim, n\u00e3o nos permitimos parar para chorar. N\u00f3s mergulh\u00e1mos imediatamente no trabalho para defender a sua mem\u00f3ria e cumprir o seu testamento. E trabalh\u00e1mos mais do que nunca, porque pela primeira vez percebemos com plena consci\u00eancia que agora temos que fazer tudo. N\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o nos podemos apoiar no Velho. O que est\u00e1 feito agora, temos de fazer. Esse \u00e9 o esp\u00edrito com que temos que trabalhar a partir de agora.<\/p>\n<p>Os mestres capitalistas do mundo compreenderam instintivamente o significado do nome de Trotsky. O amigo do oprimido, o fabricante das revolu\u00e7\u00f5es, era a encarna\u00e7\u00e3o de tudo o que eles odiavam e temiam! Mesmo na morte eles insultam-no. Seus jornais espalham sua imundice sobre o seu nome. Ele era o exilado do mundo no tempo da rea\u00e7\u00e3o. Nenhuma porta estava aberta para ele, exceto a da Rep\u00fablica do M\u00e9xico. O facto de Trotsky ter sido barrado em todos os pa\u00edses capitalistas \u00e9, em si mesmo, a refuta\u00e7\u00e3o mais clara de todas as cal\u00fanias dos estalinistas, de todas as suas acusa\u00e7\u00f5es vulgares de que ele traiu a revolu\u00e7\u00e3o, que ele se voltou contra os trabalhadores. Eles nunca convenceram o mundo capitalista disso. Nem por um momento.<\/p>\n<p>Os capitalistas \u2013 de todos os tipos \u2013 temem e odeiam at\u00e9 o seu corpo morto! As portas da nossa grande democracia est\u00e3o abertas a muitos refugiados pol\u00edticos, \u00e9 claro. Todos os tipos de reacion\u00e1rios; canalhas democr\u00e1ticos que tra\u00edram e abandonaram seu povo; mon\u00e1rquicos e at\u00e9 mesmo fascistas \u2013 todos foram recebidos no porto de Nova York. Mas nem mesmo o corpo morto do amigo dos oprimidos poderia encontrar asilo aqui! N\u00e3o nos esqueceremos disso! Vamos nutrir esse agravo perto dos nossos cora\u00e7\u00f5es e, em boa hora, vingar-nos-emos.<\/p>\n<p>A grande e poderosa democracia de Roosevelt e Hull n\u00e3o nos deixaria trazer o seu corpo para o funeral. Mas ele est\u00e1 aqui da mesma forma. Todos n\u00f3s sentimos que ele est\u00e1 aqui neste sal\u00e3o esta noite \u2013 n\u00e3o apenas nas suas grandes ideias, mas tamb\u00e9m, especialmente hoje \u00e0 noite, na nossa mem\u00f3ria dele como homem. Temos o direito de nos orgulharmos de que o melhor homem do nosso tempo nos pertenceu, o maior c\u00e9rebro e o cora\u00e7\u00e3o mais forte e leal. A sociedade de classes em que vivemos exalta os patifes, trapaceiros, ego\u00edstas, mentirosos e opressores do povo. Dificilmente se pode nomear um representante intelectual da decadente sociedade de classes, de alto ou baixo grau, que n\u00e3o seja um miser\u00e1vel hip\u00f3crita e desprez\u00edvel covarde, preocupado antes de tudo com os seus pr\u00f3prios assuntos pessoais inconsequentes e em salvar a sua pr\u00f3pria pele sem valor. Que tribo miser\u00e1vel eles s\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 honestidade, nenhuma inspira\u00e7\u00e3o, nada em todo o seu ser. Eles n\u00e3o t\u00eam um \u00fanico homem que possa provocar uma fa\u00edsca no cora\u00e7\u00e3o da juventude. O nosso Velho Homem foi feito de material melhor. O nosso Velho foi feito de coisas totalmente diferentes. Ele se elevou acima desses pigmeus na sua grandeza moral.<\/p>\n<p>O camarada Trotsky n\u00e3o lutou apenas por uma nova ordem social baseada na solidariedade humana como um objetivo futuro; ele viveu todos os dias de sua vida de acordo com os seus padr\u00f5es mais elevados e nobres. Eles n\u00e3o o deixariam ser cidad\u00e3o de nenhum pa\u00eds. Mas, na verdade, ele era muito mais que isso. Ele j\u00e1 era, em sua mente e em sua conduta, um cidad\u00e3o do futuro comunista da humanidade. Essa lembran\u00e7a dele como homem, como camarada, \u00e9 mais preciosa que ouro e rubis. N\u00f3s dificilmente podemos entender um homem desse tipo a viver entre n\u00f3s. Todos somos apanhados na rede de a\u00e7o da sociedade de classes, com as suas desigualdades, as suas contradi\u00e7\u00f5es, as suas conven\u00e7\u00f5es, os seus falsos valores, as suas mentiras. A sociedade de classes envenena e corrompe tudo. Somos todos ofuscados, vergados e cegados por isso. N\u00f3s dificilmente conseguimos visualizar o que as rela\u00e7\u00f5es humanas ser\u00e3o, dificilmente conseguimos compreender o que a personalidade do homem ser\u00e1, numa sociedade livre.<\/p>\n<p>O camarada Trotsky deu-nos uma imagem premonit\u00f3ria. Nele, na sua personalidade como homem, como ser humano, vislumbramos o homem comunista que est\u00e1 para ser. Essa lembran\u00e7a dele como homem, como camarada, \u00e9 a nossa maior garantia de que o esp\u00edrito do homem, lutando pela solidariedade humana, \u00e9 invenc\u00edvel. Na nossa \u00e9poca terr\u00edvel, muitas coisas morrer\u00e3o. O capitalismo e todos os seus her\u00f3is morrer\u00e3o. Estaline e Hitler e Roosevelt e Churchill, e todas as mentiras e injusti\u00e7as e hipocrisia que eles significam, morrer\u00e3o entre sangue e fogo. Mas o esp\u00edrito do homem comunista que o camarada Trotsky representou n\u00e3o morrer\u00e1.<\/p>\n<p>O destino fez de n\u00f3s, homens de barro comum, os disc\u00edpulos mais imediatos do camarada Trotsky. N\u00f3s agora torn\u00e1mo-nos seus herdeiros, e somos encarregados da miss\u00e3o de cumprir o seu testamento. Ele tinha confian\u00e7a em n\u00f3s. Ele assegurou-nos com as suas \u00faltimas palavras que estamos certos e que vamos prevalecer. Precisamos apenas ter confian\u00e7a em n\u00f3s pr\u00f3prios e nas ideias, na tradi\u00e7\u00e3o e na mem\u00f3ria que ele nos deixou como heran\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00f3s devemos-lhe tudo. Devemos-lhe a nossa exist\u00eancia pol\u00edtica, o nosso entendimento, a nossa f\u00e9 no futuro. N\u00f3s n\u00e3o estamos sozinhos. Existem outros como n\u00f3s em todas as partes do mundo. Lembrem-se sempre disto. N\u00f3s n\u00e3o estamos sozinhos. Trotsky educou quadros de disc\u00edpulos em mais de trinta pa\u00edses. Eles est\u00e3o convencidos at\u00e9 \u00e0 medula dos ossos do seu direito \u00e0 vit\u00f3ria. Eles n\u00e3o v\u00e3o vacilar. Nem vacilaremos. &#8220;Estou certo da vit\u00f3ria da Quarta Internacional!&#8221; Assim disse o camarada Trotsky no \u00faltimo momento de sua vida. Ent\u00e3o, temos a certeza.<\/p>\n<p>Trotsky nunca duvidou e n\u00f3s nunca deveremos duvidar que, armados com as suas armas, com as suas ideias, lideraremos as massas oprimidas do mundo para fora da confus\u00e3o sangrenta da guerra para uma nova sociedade socialista. Este \u00e9 o nosso testemunho aqui esta noite no t\u00famulo do camarada Trotsky.<\/p>\n<p>E aqui no seu t\u00famulo testemunhamos tamb\u00e9m que nunca esqueceremos o seu \u00faltimo pedido \u2013 que protejamos e cuidemos da sua mulher guerreira, a fiel companheira de todas as suas lutas e peregrina\u00e7\u00f5es. \u201cCuide dela\u201d, ele disse, \u201cela est\u00e1 comigo h\u00e1 muitos anos\u201d. Sim, vamos cuidar dela. Antes de tudo, devemos cuidar de Natalia.<\/p>\n<p>Chegamos agora \u00e0 \u00faltima palavra de adeus ao nosso maior camarada e mestre, que agora se tornou no nosso m\u00e1rtir mais glorioso. N\u00f3s n\u00e3o negamos a dor que constringe todos os nossos cora\u00e7\u00f5es. Mas a nossa tristeza n\u00e3o \u00e9 a da prostra\u00e7\u00e3o, a dor que enfraquece a vontade. \u00c9 temperada pela raiva, \u00f3dio e determina\u00e7\u00e3o. Vamos transform\u00e1-la em energia de combate para continuar a luta do Velho. Vamos-lhe dizer adeus de uma maneira digna dos seus disc\u00edpulos, como bons soldados do ex\u00e9rcito de Trotsky. N\u00e3o nos agachando em fraqueza e desespero, mas de p\u00e9 com os olhos secos e os punhos cerrados. Com a can\u00e7\u00e3o da luta e da vit\u00f3ria nos nossos l\u00e1bios. Com a m\u00fasica da confian\u00e7a na Quarta Internacional de Trotsky, o Partido Internacional que ser\u00e1 a ra\u00e7a humana!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">James Cannon<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos 78 anos do assassinato de Leon Trotsky , publicamos a tradu\u00e7\u00e3o do discurso lido por James Cannon no funeral do revolucion\u00e1rio russo. Cannon foi o fundador do Trotskismo nos EUA. Delegado ao V\u00ba Congresso da Internacional Comunista, em representa\u00e7\u00e3o do PC dos EUA, Cannon teve contacto com um documento clandestido de trotsky, traduzido para o ingl\u00eas, que foi secretamente introduzido no Congresso da Internacional Comunista, o primeiro Congresso que n\u00e3o se deu sob a \u00e9gide de Leninee \u2013 j\u00e1 falecido \u2013\u00a0 e de Trotsky, exilado. Ao tomar contacto com a contundente cr\u00edtica ao estalinismo, James Cannon rompeu com o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2948,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[42],"tags":[116,1072,114,115,117,1118],"class_list":["post-2949","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo","tag-alternativa","tag-assassinato","tag-mas","tag-movimento","tag-socialista","tag-trotsky"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/trotsky_obituario.jpg?fit=500%2C259","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2949","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2949"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2949\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2948"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}