{"id":2922,"date":"2018-07-31T12:31:44","date_gmt":"2018-07-31T11:31:44","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/31\/o-que-nos-ensina-o-caso-ricardo-robles\/"},"modified":"2018-07-31T12:31:44","modified_gmt":"2018-07-31T11:31:44","slug":"o-que-nos-ensina-o-caso-ricardo-robles","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/31\/o-que-nos-ensina-o-caso-ricardo-robles\/","title":{"rendered":"O que nos ensina o caso Ricardo Robles?"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: both;\" \/>O chamado caso Ricardo Robles dominou a comunica\u00e7\u00e3o social nos \u00faltimos dias. Os acontecimentos s\u00e3o conhecidos. No final da semana passada saiu a p\u00fablico que o vereador lisboeta do BE estaria prestes a vender um pr\u00e9dio em Lisboa por quase seis milh\u00f5es de euros, pr\u00e9dio este comprado \u00e0 Seguran\u00e7a Social por \u201capenas\u201d 347 mil euros.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Robles ter\u00e1 comprado o pr\u00e9dio, quando j\u00e1 era deputado municipal e, com a irm\u00e3, investiram mais de 500 mil euros em obras. Entre outras coisas, ter\u00e1 sido \u201cacrescentado um andar e remodelado em onze pequenos apartamentos\u00a0<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/Robes.doc#_ftn1\">[1]<\/a>\u201d. Tratava-se pois, aparentemente, de uma remodela\u00e7\u00e3o que visava adaptar o pr\u00e9dio para o Alojamento Local, tendo sido declarado nas finan\u00e7as que se trava de um im\u00f3vel destinado a arrendamento. Robles afirmou que n\u00e3o comprou o pr\u00e9dio com a pretens\u00e3o de o vender, mas sim que pretendia ajudar a irm\u00e3, co-propriet\u00e1ria. Mudan\u00e7as nos planos familiares, teriam levado a que o pr\u00e9dio fosse colocado \u00e0 venda&#8230; por um valor 17 vezes mais alto do que aquele pelo qual havia sido comprado! Evidentemente, este neg\u00f3cio \u2013 e as fr\u00e1geis explica\u00e7\u00f5es do vereador &#8211; entrou em contradi\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica central da campanha que o elegeu: o combate \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. <\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m certo que estas not\u00edcias n\u00e3o vieram a p\u00fablico por acaso. Alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o orquestraram uma campanha contra Robles e o BE, recorrendo a mentiras e distor\u00e7\u00f5es. O PSD, imediatamente, exigiu a demiss\u00e3o do vereador. A Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Propriet\u00e1rios de Im\u00f3veis aproveitou para exigir que o BE retirasse todas as propostas contra a especula\u00e7\u00e3o. Um ex\u00e9rcito de comentadores condenou o bloquista de forma mais dura do que alguma vez criticaram casos como a Tecnoforma de Passos ou os Submarinos de Portas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>As contradi\u00e7\u00f5es de Robles<\/strong><\/p>\n<p>O MAS apoiou e participou na campanha eleitoral do BE em Lisboa, que conseguiu eleger Ricardo Robles. Fizemo-lo apesar de criticarmos a pol\u00edtica do Bloco de acordos com o PS. Apoi\u00e1mos Robles porque em campanha atacou frontalmente a pol\u00edtica de Medina na CML e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, al\u00e9m de ter aproximado e apoiado diversas lutas de moradores, como a da Rua dos Lagares, na Mouraria. Com o acordo feito com Fernando Medina, Robles e o Bloco demonstraram como afinal todas as suas cr\u00edticas \u00e0 pol\u00edtica do PS em Lisboa era apenas um discurso eleitoral. Robles entrou no executivo de Medina aceitando um programa que em nenhuma medida ataca a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Pelo contr\u00e1rio, em grande medida \u00e9 um programa que visa enquadrar e alimentar a bolha imobili\u00e1ria que se vive em Lisboa. Por isso, o MAS foi publicamente contr\u00e1rio a este acordo, como grande parte dos militantes bloquistas de Lisboa.<\/p>\n<p>Agora, mais uma vez, somos obrigados a criticar duramente a conduta de Robles, que foi eleito tamb\u00e9m com o nosso voto. Um dirigente de esquerda que n\u00e3o entende que, j\u00e1 no exerc\u00edcio das fun\u00e7\u00f5es de deputado municipal, se deve abster de comprar edif\u00edcios que s\u00e3o propriedade p\u00fablica em neg\u00f3cios que envolvem milh\u00f5es, n\u00e3o pode ocupar este tipo de cargos. Durante a maior onda de despejos em d\u00e9cadas, fazer neg\u00f3cios imobili\u00e1rios de milh\u00f5es, mesmo n\u00e3o despejando ningu\u00e9m, demonstra uma falta de empatia total com aqueles que diz defender, os moradores pobres. S\u00f3 quando se v\u00ea a luta contra a especula\u00e7\u00e3o como algo confinado ao plano institucional \u00e9 que se pode pensar que \u00e9 poss\u00edvel ser porta-voz desta luta e estar envolvido num neg\u00f3cio desta natureza. E pensar ser poss\u00edvel passar sem qualquer escrut\u00ednio ou que este neg\u00f3cio n\u00e3o seria mal visto pelos seus camaradas e eleitores, revela um total afastamento daqueles que o colocaram no lugar de vereador.<\/p>\n<p>Pode argumentar-se que, objetivamente, Robles n\u00e3o fez nada que possa ser considerado imoral. Por\u00e9m, demonstra-se que o vereador bloquista estava longe de ser um basti\u00e3o da seriedade e da coer\u00eancia. Algu\u00e9m que se dedica a neg\u00f3cios desta natureza pode at\u00e9 ser militante de um partido de esquerda. Se tiver provas dadas de confian\u00e7a e seriedade, pode at\u00e9 cumprir um papel de destaque. Mas n\u00e3o pode protagonizar uma luta contra a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. O BE e Robles aprenderam isso da pior maneira.<\/p>\n<p>A forma como o BE sai desta crise, dir\u00e1 muito sobre o tipo de partido que \u00e9. Se se limitar a substituir Robles, mais n\u00e3o faz do que seguir o funcionamento normal dos partidos do regime. Sem uma reflex\u00e3o de fundo, nem a esquerda em geral, nem o Bloco em particular sair\u00e3o fortalecidos.<\/p>\n<p>Se tudo se reduzir a uma mera troca de protagonistas, novas contradi\u00e7\u00f5es e crises ocorrer\u00e3o no futuro. \u00c9 f\u00e1cil prever que, \u00e0 medida que as responsabilidades da CML na actual onda de despejos fiquem evidentes, a posi\u00e7\u00e3o de qualquer vereador na luta pela habita\u00e7\u00e3o no excutivo da C\u00e2mara se ir\u00e1 tornar bem complicada. Ficar ao lado de Medina a combater os despejos \u00e9 insustent\u00e1vel. Na nossa modesta opini\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio que o BE retome a pol\u00edtica que apresentou na camapanha eleitoral e lhe permitiu ter um vereador: a cr\u00edtica contundente \u00e0 pol\u00edtica de Medina e da CML e o refor\u00e7o das lutas de base contra os despejos como aconteceu na Rua dos Lagares\u00a0<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/Robes.doc#_ftn2\">[2]<\/a>. \u00c9 esse o deasfio que est\u00e1 colocado: regressar a uma pol\u00edtica de oposi\u00e7\u00e3o de esquerda, ao PS, aos despejos e \u00e0 espcula\u00e7\u00e3o, fomentando a luta e a organiza\u00e7\u00e3o de base. Em Lisboa e no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>De que tipo de partido e lideran\u00e7as precisamos?<\/strong><\/p>\n<p>Este caso n\u00e3o \u00e9 mais que o sintoma de um problema maior. N\u00e3o surge do seu protagonista nem \u00e9 um mero problema individual de Robles. O facto de isto ser poss\u00edvel acontecer, reflete uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica e um modelo de partido.<\/p>\n<p>O BE, ao abdicar de um perfil verdadeiramente anticapitalista e ao atuar centralmente \u201cpor dentro\u201d das institui\u00e7\u00f5es, forma os seus quadros em c\u00edrculos cada vez mais afastados das classes populares e trabalhadoras. A vida pol\u00edtica dos dirigentes j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nas greves, nas reuni\u00f5es de base ou nos movimentos. A \u201cmilit\u00e2ncia\u201d passa a ser no Executivo da C\u00e2mara, nas negocia\u00e7\u00f5es com o PS ou nos gabinetes do Parlamento. Em vez dos trabalhadores, dos imigrantes ou dos ativistas, os dirigentes partid\u00e1rios est\u00e3o rodeados de deputados, advogados e burocratas. Aos poucos, inicia-se a adapta\u00e7\u00e3o paulatina ao meio. N\u00e3o \u00e9 um problema individual, mas pol\u00edtico-social.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o comparar este caso com o esc\u00e2ndalo recente no Estado Espanhol, quando o l\u00edder do Podemos, Pablo Iglesias, comprou um Chalet de 600 mil euros. Tal como o BE, o Podemos surgiu das lutas e dos movimentos de base e rapidamente se integrou, com sucesso, no regime pol\u00edtico. O mesmo contexto gerou as mesmas maleitas, com sintomas quase id\u00eanticos.<\/p>\n<p>Mais uma vez, levanta-se a quest\u00e3o: para uma luta anticapitalista, que tipo de partido precisamos de construir? Onde e como vamos forjar as lideran\u00e7as que, de facto, representem os trabalhadores mais explorados e a popula\u00e7\u00e3o mais oprimida? Como podem as bases controlar os dirigentes? E mais uma vez, vemos que partidos como o BE ou o seus cong\u00e9neres europeus, como o Podemos ou o Syriza, n\u00e3o conseguem responder positivamente a estes problemas. Muito menos partidos como o PCP, tamb\u00e9m ele cruzado por pol\u00e9micas e derrotas eleitorais recentes, sem que nada mude na vida do partido.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, o MAS apoiou Robles e o BE nas \u00faltimas aut\u00e1rquicas, pois converg\u00edamos em pontos centrais de cr\u00edtica \u00e0 Governa\u00e7\u00e3o de Medina e no direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o nosso projeto \u00e9 o de um partido diferente. A totalidade dos dirigentes e porta-vozes do MAS s\u00e3o trabalhadores assalariados: professores, oper\u00e1rios, assistentes operacionais, operadores de call-center, banc\u00e1rios etc. Estamos dispostos a todas as unidades na luta, mas n\u00e3o apelamos a que os trabalhadores apoiem governos dos partidos do sistema, seja a direita ou o PS. Acreditamos num modelo de partido que d\u00ea voz e mecanismos aos mais explorados e oprimidos para se representarem a si mesmos, que nos permita controlar as lideran\u00e7as. Um partido cujo centro da atividade \u00e9 a luta dos trabalhadores, tendo como protagonistas as lutadoras e os activistas que s\u00e3o v\u00edtimas da explora\u00e7\u00e3o e da especula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o os seus benefici\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 essa a discuss\u00e3o de fundo que o caso Ricardo Robles evoca: que tipo de partido precisamos construir para combater o sistema capitalista?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Manuel Afonso<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em><br \/><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<div><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Notas<\/em><\/strong> <\/span> <\/p>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/Robes.doc#_ftnref1\">[1]<\/a> Declara\u00e7\u00e3o dos Eleitos da Mo\u00e7\u00e3o R sobre a Reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o Pol\u00edtica do BE de 27 de Julho;<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a style=\"font-size: medium;\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/Robes.doc#_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/moradores-da-mouraria-vao-poder-continuar-nas-suas-casas\/50146\">https:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/moradores-da-mouraria-vao-poder-continuar-nas-suas-casas\/50146<\/a><\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O chamado caso Ricardo Robles dominou a comunica\u00e7\u00e3o social nos \u00faltimos dias. Os acontecimentos s\u00e3o conhecidos. No final da semana passada saiu a p\u00fablico que o vereador lisboeta do BE estaria prestes a vender um pr\u00e9dio em Lisboa por quase seis milh\u00f5es de euros, pr\u00e9dio este comprado \u00e0 Seguran\u00e7a Social por \u201capenas\u201d 347 mil euros.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2921,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[31],"tags":[1488,116,684,1489,476,1268,114,115,1188,117],"class_list":["post-2922","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-alfama","tag-alternativa","tag-bloco","tag-catarina","tag-esquerda","tag-martins","tag-mas","tag-movimento","tag-robles","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/robles_martins.jpg?fit=2048%2C1366","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2922","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2922"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2922\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2921"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}