{"id":2913,"date":"2018-07-27T12:28:21","date_gmt":"2018-07-27T11:28:21","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/27\/a-identidade-de-um-revolucionario\/"},"modified":"2018-07-27T12:28:21","modified_gmt":"2018-07-27T11:28:21","slug":"a-identidade-de-um-revolucionario","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/27\/a-identidade-de-um-revolucionario\/","title":{"rendered":"A identidade de um revolucion\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: both;\" \/>Recebo, de vez em quando, mensagens de jovens que n\u00e3o conhe\u00e7o, pessoalmente, e pelo facebook me perguntam se ainda \u00e9 poss\u00edvel a luta pelo socialismo. Percebo que t\u00eam avers\u00e3o \u00e0 injusti\u00e7a e simpatia pela causa dos trabalhadores. Mas se interrogam sobre o sentido da dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 milit\u00e2ncia neste s\u00e9culo XXI. Vale a pena? Quais s\u00e3o os maiores desafios e perigos? Escrevi este texto como se fosse uma mensagem pessoal de resposta.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Foi h\u00e1 mais de quarenta anos que me uni \u00e0 causa do socialismo. Como tantos outros, e ap\u00f3s tantos outros, os anos me levaram a inoc\u00eancia. N\u00e3o obstante, a esperan\u00e7a nunca diminuiu. At\u00e9 hoje, aquela promessa, uma aposta suspensa no tempo, ou um pacto com o futuro permanece viva. Ainda que a espera seja longa. <\/p>\n<p>Essa escolha ideol\u00f3gica e, em correspond\u00eancia, o compromisso militante, n\u00e3o foi incomum entre os da minha gera\u00e7\u00e3o, por muitas e variadas raz\u00f5es. Ela definiu a minha vida, e isso n\u00e3o \u00e9 dizer pouco. Embora de extra\u00e7\u00e3o social, relativamente, privilegiada, para o que era o Brasil dos anos cinquenta, porque filho da classe m\u00e9dia assalariada com ensino m\u00e9dio \u2013 uma escolaridade elevada naqueles tempos \u2013 funcion\u00e1rios p\u00fablicos de uma burocracia que se profissionalizava, em um Brasil que crescia e se urbanizava, minha vida foi atropelada na madrugada de um long\u00ednquo 25 de Abril, em Lisboa, nos idos de 1974.<\/p>\n<p>Cheguei ao que poder\u00edamos chamar de vida \u201cconsciente\u201d na primeira metade dos anos 70: meia d\u00fazia de anos depois de 1968, mas antes da ascens\u00e3o de Reagan e Thatcher; depois dos Beatles, mas antes dos punks; depois das cal\u00e7as bocas de sino e antes dos palet\u00f3s com ombreiras gigantes; em tempo de ver Pel\u00e9 brilhar na Copa do M\u00e9xico de 1970 e antes de Maradona; quinze anos depois da p\u00edlula e dez anos antes da epidemia da Aids. Se tivesse ficado no Brasil, teria M\u00e9dici pela frente, mas estava em Portugal: o 25 de abril despertou a primavera dos meus dezessete anos. Em resumo: tudo considerado, tive sorte. Nasceu, ent\u00e3o, uma f\u00e9 de que o improv\u00e1vel era poss\u00edvel. Viver uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria quando iniciava a vida adulta foi acidental e maravilhoso. Aprendi que era poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Descobri o marxismo na resist\u00eancia \u00e0 ditadura de Marcelo Caetano em Portugal e, talvez por que fosse estrangeiro, me senti atra\u00eddo, irresistivelmente, pelo internacionalismo. Associei-me aos \u201ctroskos\u201d, \u00e0 luta pela Quarta Internacional, uma das tend\u00eancias mais cr\u00edticas do marxismo, sofrendo forte influ\u00eancia pol\u00edtica de exilados argentinos. A paix\u00e3o desse marxismo de juventude foi sendo polida, e at\u00e9 corrigida sob muitas e variadas influ\u00eancias. Por\u00e9m, permaneceu. Essas escolhas levaram a que tenha me engajado na constru\u00e7\u00e3o da Converg\u00eancia Socialista (1978\/1994) e, depois, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado. Desde 2016 construi o MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista) que entrou no PSOL em 2017. Fruto de uma unifica\u00e7\u00e3o do MAIS e da NOS (Nova Organiza\u00e7\u00e3o Socialista) fundamos a Resist\u00eancia, corrente interna do PSOL, em 2018.Militei nos \u00faltimos quarenta anos sob a mesma bandeira: o internacionalismo marxista. Sou um trotskista. Isso requer uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O termo marxista surgiu pela primeira vez em 1872, quando a disputa pol\u00edtica esquentou dentro da Primeira Internacional, \u00e0s v\u00e9speras do congresso de Hague. O adjetivo foi cunhado por Bakunin, em uma carta para a organiza\u00e7\u00e3o de sua fra\u00e7\u00e3o, com refer\u00eancias muito mordazes e meio anti-semitas, ao \u201cgrupo judeu-teut\u00f4nico\u201d ou \u201cmarxista\u201d, que \u201cpretendia transformar a Internacional em uma esp\u00e9cie de Estado\u201d. Parece certo que Marx sempre se sentiu pouco confort\u00e1vel com esse termo, mesmo quando ele foi utilizado, em correspond\u00eancias, por militantes do seu c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo, como Lafargue. N\u00e3o porque considerasse impr\u00f3prio identificar a sua tend\u00eancia como uma corrente diferenciada. Nem porque quisesse diminuir o seu papel pessoal, mas porque temia as consequ\u00eancias da personaliza\u00e7\u00e3o de um conjunto de id\u00e9ias, que pretendia ter ajudado a criar como um legado \u00e0 luta e organiza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=6446#_ftn1\">[1]<\/a> Com o tempo, no entanto, depois da morte de Marx, o estigma se perdeu e os pr\u00f3prios seguidores de Marx passaram a utilizar o termo, e assim entrou na hist\u00f3ria. N\u00e3o temos porque ignor\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O termo trotskista foi cunhado, tamb\u00e9m, pelos inimigos pol\u00edticos da corrente que Trotsky passou a animar em meados dos vinte do s\u00e9culo passado na luta contra a burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado na URSS. Identificar-me como um trotskista quer dizer que considero que a obra de Trotsky permanece a melhor refer\u00eancia de continuidade do marxismo para compreender os impasses da luta contra o capitalismo. Sou, tamb\u00e9m, um morenista. O que quer dizer que sou um trotskista latino-americano que considera a obra de Nahuel Moreno uma inspira\u00e7\u00e3o: pela orienta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, em especial a classe oper\u00e1ria industrial, e pelo internacionalismo apaixonado.<\/p>\n<p>Aprendi ao longo destes quarenta anos que a milit\u00e2ncia \u00e9, em primeiro lugar, um compromisso com um programa e a disposi\u00e7\u00e3o de lutar pela sua defesa. Um programa \u00e9 uma vis\u00e3o do mundo e um projeto. Mas s\u00f3 isso n\u00e3o basta para manter uma milit\u00e2ncia com tenacidade. \u00c9 preciso reencontrar novas for\u00e7as quando estamos angustiados pelo esgotamento. \u00c9 preciso const\u00e2ncia, at\u00e9 obstina\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o que fazer?<\/p>\n<p>Bom, se voc\u00ea quer mudar o mundo saiba que vai ser preciso estar disposto a mudar a si mesmo. A primeira qualidade de um socialista \u00e9 a sua integridade moral. A decad\u00eancia vergonhosa da dire\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, do aparelho profissional do PT confirma que o mau car\u00e1ter, a duplicidade e, portanto, a desonestidade s\u00e3o o endere\u00e7o final da adapta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma vida decente sem indigna\u00e7\u00e3o contra a explora\u00e7\u00e3o, sem repulsa contra todas as formas de opress\u00e3o, sem revolta contra a domina\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso honestidade de prop\u00f3sitos, inteireza de princ\u00edpios, retid\u00e3o de car\u00e1ter, amor pela justi\u00e7a, e sobriedade de conduta.<\/p>\n<p>Acontece que a autotransforma\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo ininterrupto de educa\u00e7\u00e3o, tem idas e voltas. Avan\u00e7amos e recuamos. Somos vulner\u00e1veis \u00e0s press\u00f5es do tempo e do meio em que estamos inseridos. E as press\u00f5es de in\u00e9rcia reacion\u00e1rias s\u00e3o muito poderosas, e ningu\u00e9m est\u00e1 imune. Ningu\u00e9m \u00e9 t\u00e3o firme, t\u00e3o s\u00f3lido, t\u00e3o coerente o tempo todo. Somos imperfeitos. Temos defeitos, medos, v\u00edcios, limites. Prepare-se para trope\u00e7ar. Porque voc\u00ea vai cair, vai trair a si pr\u00f3prio, vai se decepcionar com os outros e, pior ainda, vai se frustrar consigo mesmo. Mais de uma vez vai ter que encontrar for\u00e7as para levantar a cabe\u00e7a, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Vai ter que aprender a ter paci\u00eancia com os outros.<\/p>\n<p>E, claro, em algum momento vai se desmoralizar. Vai ter pena de si pr\u00f3prio, e vai pensar em desistir. Mas a autocompaix\u00e3o, ou autocomisera\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00e1 conselheira. Todos temos direito a um pouquinho de autocompaix\u00e3o, desde que dediquemos o dobro do tema a aprender a rir de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 preciso \u00e9 empatia e compaix\u00e3o com a dor daqueles que sofrem e lutam. Compaix\u00e3o \u00e9 a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros, e viver os medos e as esperan\u00e7as dos trabalhadores, e de todos os oprimidos como se fossem as nossas. Empatia \u00e9 a capacidade de sentir o que a maioria est\u00e1 sentindo.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, se voc\u00ea quer mudar o mundo saiba que vai ser preciso agir. N\u00e3o adianta nada saber que o mundo \u00e9 injusto e permanecer imobilizado, e ficar prostrado. A a\u00e7\u00e3o militante exige coragem. Sem a participa\u00e7\u00e3o nas lutas dos trabalhadores, da juventude, das massas populares nada vai mudar. A milit\u00e2ncia \u00e9 uma oferta, uma entrega, uma doa\u00e7\u00e3o, uma aposta. S\u00f3 que o ativismo n\u00e3o \u00e9 somente uma doa\u00e7\u00e3o de seu entusiasmo, seu tempo, ou at\u00e9 de seu dinheiro.<\/p>\n<p>\u00c9 uma mudan\u00e7a completa de atitude. Porque n\u00e3o adianta agir sem pensar. \u00c9 preciso aprender a pensar. Para n\u00e3o agir errado. Nada vai mudar se nossa a\u00e7\u00e3o \u00e9 irrefletida. \u00c9 preciso compreender como o mundo funciona para transform\u00e1-lo. \u00c9 preciso observar, estudar, instruir-se, e ponderar. Para poder agir a favor da mudan\u00e7a que \u00e9 necess\u00e1ria \u00e9 preciso estar disposto a aprender. Agir sem pensar \u00e9 voluntarismo. Agir sem refletir \u00e9 uma aventura. Investigar sem agir \u00e9 dilet\u00e2ncia. N\u00e3o se pode nunca perder a disposi\u00e7\u00e3o de enfrentar o combate. Sim, a milit\u00e2ncia \u00e9 um combate. Os militantes s\u00e3o os lutadores. Em qualquer luta h\u00e1 a possibilidade de vit\u00f3rias e derrotas. \u00c9 na a\u00e7\u00e3o que voc\u00ea recuperar\u00e1 as for\u00e7as perdidas.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, se voc\u00ea quer mudar o mundo saiba que vai ser necess\u00e1rio aprender a fazer a cr\u00edtica e, mais dif\u00edcil, a autocr\u00edtica. A milit\u00e2ncia anticapitalista \u00e9 uma escola de a\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o. Isso exige organiza\u00e7\u00e3o. Aderir a uma organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato volunt\u00e1rio, mas assim como ela deve garantir direitos, deve exigir deveres. Nenhuma organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fatil sem disciplina. Uma organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um instrumento para aumentar a efic\u00e1cia da luta. \u00c9 uma ferramenta indispens\u00e1vel. Uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria est\u00e1 sempre cercada de inimigos. Ela \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 ordem existente e precisa se proteger. A organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma fraternidade de lutadores. Ela deve ter fronteiras claras, precisa de muralhas. Se estiver demasiado exposta \u00e0s press\u00f5es reacion\u00e1rias das classes hostis aos trabalhadores ser\u00e1 destru\u00edda. Se estiver demasiado fechada se habituar\u00e1 a agir dentro de sua \u201czona de conforto\u201d, e ser\u00e1 incapaz de se transformar, de se ligar aos trabalhadores, e permanecer\u00e1 marginal na luta de classes.<\/p>\n<p>Devemos ser conscientes que s\u00f3 ser\u00e3o \u00fateis, estrategicamente, as organiza\u00e7\u00f5es que controlamos. Esse \u00e9 o papel da democracia revolucion\u00e1ria. Sem democracia interna n\u00e3o h\u00e1 controles. A democracia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o direito de fazer cr\u00edticas. \u00c9 o dever de dizer aquilo que pensamos. Mas \u00e9 preciso aprender a criticar os outros. Quando criticamos algo que algu\u00e9m fez, ou defendeu, \u00e9 obrigat\u00f3rio ter respeito. E quem exerce o direito da cr\u00edtica tem, tamb\u00e9m, o dever de ser capaz de fazer, quando for apropriado, a autocr\u00edtica. Porque ningu\u00e9m \u00e9 infal\u00edvel. S\u00f3 que autocr\u00edtica tem que ser volunt\u00e1ria, sen\u00e3o \u00e9 humilha\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m se diminui ao admitir os seus erros. Ao contr\u00e1rio, amadurece, se agiganta, se fortalece.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, se voc\u00ea quer mudar o mundo saiba que \u00e9 preciso cultivar o desapego e o altru\u00edsmo. Nunca esquecer que milit\u00e2ncia socialista digna \u00e9 abnega\u00e7\u00e3o, desprendimento, desinteresse e afinco. Tudo ao contr\u00e1rio da terr\u00edvel realidade que nos cerca. Tudo ao contr\u00e1rio das ideias que s\u00e3o dominantes. Tudo ao contr\u00e1rio do comportamento individualista que prevalece. A doa\u00e7\u00e3o que fazemos ao trabalharmos, voluntariamente, portanto, de gra\u00e7a pelo bem comum nos engrandece. As press\u00f5es sociais valorizam as recompensas imediatas, sejam materiais ou emocionais. Uma milit\u00e2ncia s\u00e9ria n\u00e3o ir\u00e1 melhorar a sua vida econ\u00f4mica. Ao contr\u00e1rio, vai exigir de voc\u00ea a disposi\u00e7\u00e3o de, quem sabe, at\u00e9 perder oportunidades de prosperar. Mas tenha aten\u00e7\u00e3o porque a corrup\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 feita somente com apelos \u00e0 cobi\u00e7a de dinheiro. A mesquinhez \u00e9, tamb\u00e9m, alimentada pelo apetite de sucesso e prest\u00edgio. A aur\u00e9ola de gl\u00f3ria pode, tamb\u00e9m, corromper. O apetite de reconhecimento e a ambi\u00e7\u00e3o de poder podem, tamb\u00e9m, nos perverter. Na milit\u00e2ncia n\u00e3o podem existir agendas ocultas. O impulso militante deve estar ao servi\u00e7o da grandeza do projeto. Isso significa aprender a dominar a tenta\u00e7\u00e3o de vaidade, a arrog\u00e2ncia, o orgulho. Finalmente, \u00e9 preciso ter a maturidade de aceitar que uma milit\u00e2ncia s\u00e9ria exige a divis\u00e3o de tarefas, porque se imp\u00f5e a necessidade de especialistas. Mas isso n\u00e3o pode dar lugar \u00e0 competi\u00e7\u00e3o por cargos. Devemos admirar os despojados.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, se voc\u00ea quer mudar o mundo saiba que a fraternidade deve come\u00e7ar aqui e agora. H\u00e1 que valorizar a dimens\u00e3o subjetiva da vida. Encontrar na luta a for\u00e7a de valores mais elevados. Eles s\u00e3o simples, por\u00e9m, insubstitu\u00edveis. A solidariedade, a amizade e o amor. A confian\u00e7a m\u00fatua que s\u00f3 se constr\u00f3i com o respeito pela nossa diversidade, e pelo compromisso com a luta pela liberta\u00e7\u00e3o dos explorados e oprimidos.<\/p>\n<p>Tudo isso posto, vem o que \u00e9 o mais importante. \u00c9 preciso clareza estrat\u00e9gica, e disciplina pol\u00edtica. Porque n\u00e3o adianta ter raz\u00e3o sozinho. Procure escolher com cuidado a organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual voc\u00ea vai se unir. Cuide de que ela abrace o internacionalismo que nos ensina que um povo que oprime outro n\u00e3o pode ser livre. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma luta contra um inimigo mundial somente dentro de fronteiras nacionais. Procure uma organiza\u00e7\u00e3o com um programa marxista, e que seja coerente entre o que diz e o que faz. \u00a0Tome cuidado em verificar se ela reivindica, honesta e humildemente, um legado que vem de longe. Mas atente para considerar se ela est\u00e1 disposta a tentar se reinventar. Porque novas realidades exigem novas explica\u00e7\u00f5es. Mas cuidado, n\u00e3o se deixe iludir por discursos que querem \u201creinventar a roda\u201d e s\u00f3 t\u00eam como identidade a necessidade de afirmar que s\u00e3o o \u201cnovo\u201d.\u00a0 Por \u00faltimo, saiba que tudo vai depender, finalmente, da uni\u00e3o e for\u00e7a dos trabalhadores. Procure uma orienta\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e suas lutas. Eles s\u00e3o os portadores da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em><strong>Val\u00e9rio Arcary, Esquerda Online<\/strong><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em><strong><br \/><\/strong><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em><strong>Notas<\/strong><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<div align=\"center\"><\/div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=6446#_ftnref1\">[1]<\/a> Marx, talvez, at\u00e9 exagerasse na sua hostilidade em ter quaisquer rela\u00e7\u00f5es com as organiza\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias do seu tempo, e, pela mesma raz\u00e3o, nunca lhe ocorreu a id\u00e9ia de construir uma seita \u201cmarxista\u201d. N\u00e3o porque ignorasse que as organiza\u00e7\u00f5es com pouca influ\u00eancia pudessem cumprir um papel progressivo em determinadas situa\u00e7\u00f5es, afinal, uma tend\u00eancia pol\u00edtica pode ser pequena, ou at\u00e9 \u201cliliputeana\u201d, por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias, e n\u00e3o pela sua voca\u00e7\u00e3o. Mas toda a\u00a0 preocupa\u00e7\u00e3o de Marx, durante os anos de vida da Primeira Internacional, o per\u00edodo mais significativo de sua milit\u00e2ncia junto ao movimento oper\u00e1rio, foi procurando uma aproxima\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de massas dos trabalhadores. A orienta\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o independente de classe governava os seus esfor\u00e7os, nesse terreno. De qualquer maneira, n\u00e3o seria razo\u00e1vel considerar, ainda hoje, em vig\u00eancia, os crit\u00e9rios que orientavam a pol\u00edtica de organiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio do s\u00e9culo passado. Sobre esse tema, vale a pena conferir um trecho de uma famosa carta de 1871: \u201c<strong><em>A Internacional foi fundada para substituir as seitas socialistas ou semi-socialistas pela organiza\u00e7\u00e3o real da classe trabalhadora para a luta. Tanto os primeiros estatutos como o \u201cManifesto lnaugural\u201d revelam isso \u00e0 primeira vista. Por outra parte, a Internacional n\u00e3o teria podido afirmar-se se a marcha da hist\u00f3ria n\u00e3o tivesse se encarregado de acabar com o regime das seitas. O desenvolvimento do regime interno das seitas socialistas e do movimento dos trabalhadores est\u00e3o em raz\u00e3o inversa. Quando as seitas s\u00e3o (historicamente) leg\u00edtimas \u00e9 porque a classe trabalhadora ainda n\u00e3o est\u00e1 madura para um desenvolvimento hist\u00f3nco independente. Assim que ela atinja essa maturidade todas as seitas s\u00e3o essencialmente reacion\u00e1rias. No entanto, na hist\u00f3ria da Internacional se repetiu o que se d\u00e1 sempre na hist\u00f3ria. O caduco busca uma nova acomoda\u00e7\u00e3o e tenta fazer-se valer dentro das novas formas conquistadas. E a hist\u00f3ria da Internacional tem sido uma luta constante do Conselho Geral contra a seitas e as tentativas diletantes de se imp\u00f4r dentro da Intcrnacional contra o movimento real da classe trabalhadora<\/em><\/strong><em>\u201d<\/em>(tradu\u00e7\u00e3o nossa). MARX, Karl,\u00a0<strong>Carta a Friedrich Bolte de 23 de Novembro de 1871<\/strong>, in\u00a0<strong>La Internacional<\/strong>, Mexico, Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, obras fundamentales, volume 17, 1988, p.614.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebo, de vez em quando, mensagens de jovens que n\u00e3o conhe\u00e7o, pessoalmente, e pelo facebook me perguntam se ainda \u00e9 poss\u00edvel a luta pelo socialismo. Percebo que t\u00eam avers\u00e3o \u00e0 injusti\u00e7a e simpatia pela causa dos trabalhadores. Mas se interrogam sobre o sentido da dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 milit\u00e2ncia neste s\u00e9culo XXI. Vale a pena? Quais s\u00e3o os maiores desafios e perigos? Escrevi este texto como se fosse uma mensagem pessoal de resposta.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2912,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[42],"tags":[116,114,115,162,117],"class_list":["post-2913","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo","tag-alternativa","tag-mas","tag-movimento","tag-revolucionario","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/revolution.jpg?fit=500%2C212","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2913","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2913"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2913\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2912"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2913"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2913"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2913"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}