{"id":2911,"date":"2018-07-26T18:30:43","date_gmt":"2018-07-26T17:30:43","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/26\/encontros-de-trump-o-que-menos-interessou-foi-o-caso-da-intervencao-russa\/"},"modified":"2018-07-26T18:30:43","modified_gmt":"2018-07-26T17:30:43","slug":"encontros-de-trump-o-que-menos-interessou-foi-o-caso-da-intervencao-russa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/26\/encontros-de-trump-o-que-menos-interessou-foi-o-caso-da-intervencao-russa\/","title":{"rendered":"Encontros de Trump: o que menos interessou foi o caso da interven\u00e7\u00e3o russa"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: both;\" \/>Muitos t\u00eam pintado um Trump desmiolado, intempestivo, imprevisto, despropositado, impulsivo, irrefletido, dando a entender que a sua elei\u00e7\u00e3o foi um completo fruto do acaso. Esta \u00e9 uma caracteriza\u00e7\u00e3o que sobrevaloriza o estilo e a forma da actual Administra\u00e7\u00e3o dos EUA, concedendo muito pouca import\u00e2ncia ao seu conte\u00fado. A verdade \u00e9 que Trump n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso como tem uma estrat\u00e9gia delineada para responder \u00e0s dificuldades que se imp\u00f5em \u00e0 maior economia do mundo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Vivemos um per\u00edodo muito semelhante ao in\u00edcio do s\u00e9c. XX, o per\u00edodo anterior \u00e0 I e II Guerras Mundiais. Na altura, um per\u00edodo marcado pela perda e disputa da hegemonia imperialista, por parte do Reino Unido. Hoje, um per\u00edodo marcado pela perda e disputa da hegemonia imperialista, por parte dos EUA. <\/p>\n<p>Neste momento, o desafio que est\u00e1 colocado aos EUA \u00e9 a reconquista da capacidade produtiva e dos centros de acumula\u00e7\u00e3o de capital, deslocalizados, predominantemente, para a \u00c1sia e Am\u00e9rica do Sul. Isto implica que os EUA t\u00eam de (i) manter a Am\u00e9rica do Sul sob o seu dom\u00ednio quase exclusivo, onde se deve incluir o M\u00e9xico; (ii) recuperar o dom\u00ednio do M\u00e9dio Oriente e Norte de \u00c1frica; e (iii) combater e destabilizar os seus principais concorrentes, nomeadamente, a China, a UE e, eventualmente, o Jap\u00e3o e o Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o cen\u00e1rio que permite entender o encadeamento de acontecimentos e a estrat\u00e9gia, sob a designa\u00e7\u00e3o de \u201c<em>America first<\/em>\u201d, seguida por Trump. Um dos \u00faltimos exemplos \u00e9 o conjunto de encontros, com in\u00edcio na NATO, passagem pelo Reino Unido e finaliza\u00e7\u00e3o com Putin, na Finl\u00e2ndia, todos eles antag\u00f3nicos entre si.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Reuni\u00e3o da NATO: aliviar o or\u00e7amento dos EUA, destabilizar a UE<\/strong><\/p>\n<p>Trump tem vindo a amea\u00e7ar os seus principais aliados militares com a possibilidade de abandonar a NATO. Segundo ele, os custos suportados pelos EUA com a NATO s\u00e3o muito elevados, quando comparados com o esfor\u00e7o financeiro das restantes pot\u00eancias imperialistas, pertencentes \u00e0 NATO, nomeadamente, a Alemanha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a reuni\u00e3o da NATO, Trump chegou mesmo a apelidar os seus principais aliados militares da UE como \u201cum inimigo, devido ao que nos fazem no com\u00e9rcio\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 um comportamento completamente in\u00e9dito e aparentemente descompensado. No entanto, olhemos com mais cuidado. Trump conseguiu com que as principais pot\u00eancias da UE, cedessem ao compromisso de aumentar os seus or\u00e7amentos militares.<\/p>\n<p>Este compromisso \u00e9 vantajoso para os EUA em v\u00e1rios sentidos. Primeiramente, o aumento dos gastos militares por parte das restantes pot\u00eancias da NATO, alivia a press\u00e3o sobre o or\u00e7amento dos EUA. Depois, abre portas \u00e0 ind\u00fastria das armas dos EUA e, por fim, pressiona ainda os fr\u00e1geis or\u00e7amentos dos v\u00e1rios Estados da UE, destabilizando-os financeira e politicamente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Encontro com o Brexit de Theresa May: explorar fissuras para retirar benef\u00edcios<\/strong><\/p>\n<p>Com os aliados da NATO sob press\u00e3o, Trump seguiu para o Reino Unido, a bra\u00e7os com o <em>Brexit<\/em>.<\/p>\n<p>Chegou ao Reino Unido a amea\u00e7ar que as actuais op\u00e7\u00f5es de Theresa May, no sentido de um <em>Brexit<\/em>-leve, fazem com que seja pouco prov\u00e1vel um acordo comercial entre Londres e Washington, pois prev\u00ea-se que o Reino Unido mantenha fortes liga\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas com a UE, mesmo ap\u00f3s a formaliza\u00e7\u00e3o da sa\u00edda do bloco comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda, Trump teceu ainda largos elogios a Boris Johnson, que acabou de se demitir do cargo de Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, em rutura com o <em>Brexit<\/em>-leve, referindo que daria um excelente chefe de Governo, humilhando e desacreditando o actual Governo de Theresa May.<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, Trump referiu ainda que n\u00e3o se sente bem em Londres e a culpa \u00e9 do autarca da cidade, de origem mu\u00e7ulmana, tentando capitalizar o descontentamento existente atrav\u00e9s da liga\u00e7\u00e3o com o tema da imigra\u00e7\u00e3o: \u201cpermitir que milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas entrem na Europa \u00e9 muito, muito triste. Acho que est\u00e3o a perder a vossa cultura\u201d.<\/p>\n<p>Novamente, Trump identifica as fragilidades com a desagrega\u00e7\u00e3o da UE e as fissuras dentro do pr\u00f3prio Governo brit\u00e2nico, amea\u00e7a com a ruptura das rela\u00e7\u00f5es existentes, e faz quest\u00e3o de enfiar um p\u00e9 de cabra naquelas fissuras para expor fragilidades e da\u00ed retirar os poss\u00edveis benef\u00edcios, nomeadamente, com um poss\u00edvel futuro governo mais alinhado com o <em>Brexit<\/em>-duro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Encontro com Putin: antagonizar a UE e a NATO, destabilizar as pot\u00eancias do Atl\u00e2ntico Norte<\/strong><\/p>\n<p>A s\u00e9rie de encontros terminou com Putin, onde \u00e9 evidente uma esp\u00e9cie de aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para limpar terreno, as declara\u00e7\u00f5es de Trump sobre a interven\u00e7\u00e3o russa nas elei\u00e7\u00f5es dos EUA, em 2016, geraram muito alarido medi\u00e1tico mas talvez n\u00e3o sejam aquilo que tem mais import\u00e2ncia, pois se Trump n\u00e3o caiu at\u00e9 agora com este esc\u00e2ndalo ser\u00e1 dif\u00edcil que venha a cair. Trump j\u00e1 substituiu os seus principais conselheiros e a direc\u00e7\u00e3o do FBI por causa deste assunto e manteve-se no seu lugar. De qualquer forma, \u00e9 esta ponta solta que os Democratas e os Republicanos descontentes v\u00e3o pegando, potenciando a sua mediatiza\u00e7\u00e3o, para ir desgastando a Administra\u00e7\u00e3o Trump.<\/p>\n<p>Passando aos temas relevantes, a declara\u00e7\u00e3o de Trump de que \u201cos EUA e a R\u00fassia s\u00e3o duas grandes pot\u00eancias nucleares, sem paralelo, repartindo entre si 90% do armamento nuclear do mundo\u201d, quer exatamente dizer que, os interesses comuns entre os EUA e a R\u00fassia, neste momento, se devem sobrepor \u00e0s diverg\u00eancias. Quest\u00f5es como a Crimeia, o apoio russo ao Ir\u00e3o, o apoio russo ao Governo de Bashar Al-Assad ou o refor\u00e7o militar americano ao Governo ucraniano foram assumidos como disc\u00f3rdias, mas secundarizados face aos interesses comuns.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rias frentes em que os objetivos de Trump e Putin s\u00e3o coincidentes, come\u00e7ando desde logo, no que diz respeito \u00e0 instabilidade da NATO e da UE. Segundo a concep\u00e7\u00e3o de cada um dos dois, quanto maior for a instabilidade nas pot\u00eancias do Atl\u00e2ntico Norte, melhor, pois pode abrir boas oportunidades a n\u00edvel comercial e militar.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao M\u00e9dio Oriente e Norte de \u00c1frica, nem os EUA, nem a R\u00fassia querem entrar numa guerra directa e aberta entre si. Ent\u00e3o, estando o movimento revolucion\u00e1rio derrotado, \u00e9 muito prov\u00e1vel que este encontro tenha servido para avan\u00e7ar nas negocia\u00e7\u00f5es bilaterias dos interesses dos EUA e da R\u00fassia naquela regi\u00e3o, quanto mais n\u00e3o seja, ter\u00e3o come\u00e7ado a apalavrar a defesa dos interesses de Israel, apoiado pelos EUA, em contraponto \u00e0 defesa dos interesses do Governo Assad, apoiado pela R\u00fassia, negociando zonas de interesse e de controlo sob cada uma das pot\u00eancias.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, Trump n\u00e3o pode deixar a R\u00fassia \u00e0 merc\u00ea da China, pelo que mais vale manter alguma concerta\u00e7\u00e3o de interesses comuns com a R\u00fassia que abrir espa\u00e7o \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de um bloco entre a R\u00fassia e a China.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Qual a leitura pol\u00edtica destes encontros?<\/strong><\/p>\n<p>A Administra\u00e7\u00e3o Trump tem uma estrat\u00e9gia consciente para recuperar a sua antiga posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f3nica no mundo. Atualmente, as dificuldades e instabilidade impostas pela crise mundial imp\u00f5em que a recupera\u00e7\u00e3o dos EUA implique uma perda de poder por parte dos seus concorrentes diretos, nomeadamente, a China, a UE, Jap\u00e3o, ou a R\u00fassia, Ir\u00e3o e Coreia do Norte, a n\u00edvel regional.<\/p>\n<p>Deste enquadramento, Trump vai tirando partido da sua rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio, ainda existente, para substituir muitos dos velhos acordos multilaterais, com os mais diversos Estados e blocos comerciais, por uma multiplicidade de negocia\u00e7\u00f5es bilaterais, isolando cada um dos seus concorrentes \u00e0 mesa das negocia\u00e7\u00f5es. Esta \u00e9 a forma que, atualmente, os EUA melhor conseguem assegurar a defesa dos seus interesses.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das negocia\u00e7\u00f5es bilaterais, Trump faz ainda quest\u00e3o de n\u00e3o desperdi\u00e7ar nenhuma manobra ou t\u00e1tica ao seu dispor. Cria ou explora as, j\u00e1 existentes, fragilidades dos seus inimigos comerciais ou militares. Utiliza os inimigos dos seus inimigos como sendo seus amigos, quando lhe \u00e9 conveniente.<\/p>\n<p>Da\u00ed que Trump se v\u00e1 desdobrando em aproxima\u00e7\u00f5es e afastamentos sucessivos, com os mais variados pa\u00edses, parecendo um movimento err\u00e1tico, mas com os quais vai satisfazendo os seus interesses imediatos em fun\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de recupera\u00e7\u00e3o hegem\u00f3nica.<\/p>\n<p>No presente conjunto de encontros, Trump veio, sobretudo, aproveitar-se dos elementos de crise e instabilidade na UE e na NATO, ou seja, nas pot\u00eancias imperialistas suas concorrentes, expor as suas fragilidades e acirrar disputas. Lan\u00e7ada a instabilidade na NATO e UE, Trump demonstrou a possibilidade de conjuga\u00e7\u00e3o dos seus interesses com os de Putin e abriu negocia\u00e7\u00f5es sobre o M\u00e9dio Oriente, conjugando e negociando interesses com a R\u00fassia tamb\u00e9m naquela regi\u00e3o. Por fim, acabou ainda por disputar espa\u00e7o de influ\u00eancia da China sobre a R\u00fassia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que j\u00e1 depois do encontro com Putin, Trump tenha nomeada especificamente a Alemanha, ou seja, a \u201cdire\u00e7\u00e3o\u201d da UE, como \u201cinimiga\u201d, pois tem com a Alemanha um dos piores d\u00e9fices comerciais. Exp\u00f4s as fragilidades e contradi\u00e7\u00f5es alem\u00e3s, nomeadamente, a sua depend\u00eancia energ\u00e9tica face \u00e0 R\u00fassia, pa\u00eds considerado como a maior amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a europeia. E acabou por amea\u00e7ar a maior pot\u00eancia europeia com o fim das importa\u00e7\u00f5es dos autom\u00f3veis alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Como resposta, a UE assinou um importante acordo comercial com o Jap\u00e3o e reafirmou a manuten\u00e7\u00e3o do acordo internacional sobre o programa nuclear do Ir\u00e3o, ambos Estados desalinhados com a pol\u00edtica de Trump e dos EUA. As disputas mundiais v\u00e3o-se acirrando!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Fl\u00e1vio Ferreira<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos t\u00eam pintado um Trump desmiolado, intempestivo, imprevisto, despropositado, impulsivo, irrefletido, dando a entender que a sua elei\u00e7\u00e3o foi um completo fruto do acaso. Esta \u00e9 uma caracteriza\u00e7\u00e3o que sobrevaloriza o estilo e a forma da actual Administra\u00e7\u00e3o dos EUA, concedendo muito pouca import\u00e2ncia ao seu conte\u00fado. 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