{"id":2890,"date":"2018-07-15T16:43:16","date_gmt":"2018-07-15T15:43:16","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/15\/as-birras-de-trump-e-a-economia-mundial\/"},"modified":"2018-07-15T16:43:16","modified_gmt":"2018-07-15T15:43:16","slug":"as-birras-de-trump-e-a-economia-mundial","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/07\/15\/as-birras-de-trump-e-a-economia-mundial\/","title":{"rendered":"As birras de Trump e a economia mundial"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: both;\" \/>A reuni\u00e3o do G7, no Quebec, Canad\u00e1, foi um marco em muitos aspectos. Primeiro, houve uma clara ruptura com a habitual e ins\u00edpida unidade de pol\u00edticas e objectivos das reuni\u00f5es do G7 pelos l\u00edderes dos sete principais pa\u00edses capitalistas do mundo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Pouco antes da reuni\u00e3o do G7, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tinha anunciado uma s\u00e9rie de medidas tarif\u00e1rias protecionistas contra o resto do G7, incluindo o seu vizinho mais pr\u00f3ximo, o Canad\u00e1, sob a justifica\u00e7\u00e3o de estar a proteger a sua \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d \u2013 aparentemente, o Canad\u00e1 \u00e9 um risco de seguran\u00e7a para os EUA. Ao faz\u00ea-lo, Trump cumpriu com as suas promessas eleitorais. <\/p>\n<p>No encontro, Trump chocou com os restantes l\u00edderes, alegando que seus governos estavam a impor regras comerciais \u201cinjustas\u201d aos produtos norte-americanos e que precisavam reduzir os seus excedentes comerciais com os EUA. Os outros l\u00edderes j\u00e1 haviam respondido \u00e0s medidas tarif\u00e1rias dos EUA com tarifas rec\u00edprocas, planeadas sobre as principais exporta\u00e7\u00f5es dos EUA, e agora respondiam aos ataques de Trump com argumentos e provas de que, pelo contr\u00e1rio, foram os EUA que restringiram as importa\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os estrangeiros.<\/p>\n<p>E assim a guerra comercial come\u00e7ou \u2013 uma guerra a que as grandes economias capitalistas n\u00e3o recorriam desde a depress\u00e3o dos anos 1930 e que deveria ser resolvida no \u00e2mbito dos acordos internacionais como o Acordo Geral de Tarifas e Com\u00e9rcio (GATT, em ingl\u00eas), a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (WTO, em ingl\u00eas) e o Tratado Norte-Americano de Livre Com\u00e9rcio (NAFTA, em ingl\u00eas), no per\u00edodo p\u00f3s-guerra. Trump apelidou a WTO de o pior acordo comercial poss\u00edvel e o NAFTA de o segundo pior (para os EUA). Os Estados Unidos protegeram os estados capitalistas europeus e japoneses, com seus ex\u00e9rcitos e armas nucleares, contra a suposta amea\u00e7a russa, e agora est\u00e1 na hora de aqueles estados pagarem tanto em gastos com defesa quanto em acordos comerciais \u201cmais justos\u201d. A verdadeira ironia neste argumento de Trump est\u00e1 no seu pedido para que a R\u00fassia, o suposto inimigo, volte a ocupar um lugar \u00e0 mesa das negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que todos estes malabarismos de Trump revelam \u00e9 que o per\u00edodo da \u201cGrande Modera\u00e7\u00e3o\u201d e da globaliza\u00e7\u00e3o, decorrido entre os anos 1980 e 2007, quando todos os principais Estados capitalistas trabalharam em conjunto para beneficiar o capital em todos os pa\u00edses (em graus variados), acabou. A Grande Recess\u00e3o, de 2007-8, e a, consequente, Longa Depress\u00e3o, desde 2009, mudaram o quadro econ\u00f3mico. Numa economia capitalista mundial estagnada, onde o crescimento da produtividade \u00e9 baixo, o crescimento do com\u00e9rcio mundial diminuiu e a rentabilidade do capital n\u00e3o recuperou, a coopera\u00e7\u00e3o foi substitu\u00edda pela perversa competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trump \u00e9 o l\u00edder \u201cpopulista\u201d e nacionalista da maior pot\u00eancia capitalista; It\u00e1lia (a pot\u00eancia mais fraca do G7) tornou-se \u201cpopulista\u201d e nacionalista tamb\u00e9m. E a Gr\u00e3-Bretanha est\u00e1 trancada no po\u00e7o do \u201cBrexit\u201d, um desastre para o capital brit\u00e2nico que ele mesmo criou. O ataque de Trump fez com que o encontro do G7, marcado para discutir a crescente desigualdade social, a automa\u00e7\u00e3o e as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas \u2013 os principais desafios, de longo prazo, para a sobreviv\u00eancia do capitalismo \u2013 tivesse ficado paralisado.<\/p>\n<p>Por enquanto, isso pouco importa. A economia mundial est\u00e1 realmente a atravessar o seu melhor momento desde o final da Grande Recess\u00e3o. O Banco Mundial estima que o crescimento do PIB real, em termos mundiais, seja de 3,1% este ano, o mesmo que em 2017. Isso pode n\u00e3o parecer grande coisa mas \u00e9 uma recupera\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s o per\u00edodo de quase recess\u00e3o de 2015-6, quando o crescimento global caiu para 2,4% e as economias do G7 n\u00e3o foram al\u00e9m dos 1,5%. Agora as economias do G7 est\u00e3o a expandir-se em torno de uma taxa de 2,5%. O desemprego nos EUA, no Reino Unido e no Jap\u00e3o alcan\u00e7aram os valores mais baixos de todos os tempos. E mesmo na Europa, a taxa de desemprego caiu para 8%, ainda acima dos n\u00edveis pr\u00e9-crise, mas a marcar uma tend\u00eancia de regresso a tais n\u00edveis.<\/p>\n<p>No entanto, os economistas do Banco Mundial, nas suas Perspectivas Econ\u00f3micas Globais mais recentes, n\u00e3o est\u00e3o convencidos de que esta leve recupera\u00e7\u00e3o (ainda cerca de 30% abaixo da taxa de crescimento mundial pr\u00e9-crise) seja sustentada. \u201cEspera-se que caia nos pr\u00f3ximos dois anos, \u00e0 medida que a folga global se v\u00e1 dissipando, o com\u00e9rcio e o investimento v\u00e3o arrefecendo e as condi\u00e7\u00f5es de financiamento se estreitem. O crescimento nas economias avan\u00e7adas deve desacelerar, conforme a pol\u00edtica monet\u00e1ria se normalize e os efeitos do est\u00edmulo fiscal norte-americano diminuam\u201d. Para al\u00e9m disso, \u201cos riscos para o futuro permanecem inclinados para baixo. Incluem movimentos desordenados do mercado financeiro, aumento do proteccionismo comercial, aumento da incerteza pol\u00edtica e aumento das tens\u00f5es geopol\u00edticas, que continuam a obscurecer as perspectivas\u201d.<\/p>\n<p>Sugeri, no final do ano passado, que o ciclo comercial, de curto prazo, de 2015-16 iria atingir o seu pico em 2018 e depois voltaria a afundar em 2019-20. \u201cO que parece ter acontecido \u00e9 que houve uma recupera\u00e7\u00e3o c\u00edclica, de curto prazo, a partir de meados de 2016, ap\u00f3s uma quase recess\u00e3o global desde o final de 2014 at\u00e9 meados de 2016. Se o n\u00edvel mais baixo desse ciclo de Kitchin foi em meados de 2016, o seu pico deveria ser em 2018, com um novo afundamento depois da\u00ed\u201d. Em Abril do presente ano, voltei a afirmar esta previs\u00e3o.<\/p>\n<p>Os economistas do Banco Mundial parecem concordar. Eles esperam que o crescimento econ\u00f3mico mundial diminua para 2,9% at\u00e9 2020. \u201cA expans\u00e3o econ\u00f3mica global continua robusta, mas suavizou-se. A atividade global ainda est\u00e1 aqu\u00e9m das expans\u00f5es anteriores, e o crescimento dever\u00e1 desacelerar em 2019-20, j\u00e1 que o com\u00e9rcio e o investimento est\u00e3o moderados. O progresso na renda\u00a0per capita\u00a0ser\u00e1 desigual e insuficiente para combater a pobreza extrema na \u00c1frica Subsaariana\u201d. E \u201cn\u00e3o obstante a expans\u00e3o global em curso, apenas 45% dos pa\u00edses dever\u00e3o experimentar uma nova acelera\u00e7\u00e3o do crescimento neste ano, abaixo dos 56%, em 2017. Al\u00e9m disso, a atividade global ainda est\u00e1 aqu\u00e9m das expans\u00f5es anteriores, apesar da d\u00e9cada de recupera\u00e7\u00e3o desde a crise financeira global. Desta forma, o Banco Mundial calcula que a Longa Depress\u00e3o ir\u00e1 continuar.<\/p>\n<p>E tudo isto assumindo que n\u00e3o haver\u00e1 uma nova recess\u00e3o mundial nos pr\u00f3ximos dois anos. Embora n\u00e3o haja sinais imediatos de uma nova recess\u00e3o global (de fato, aparenta o oposto), h\u00e1 muitos fatores que sugerem que ela n\u00e3o estar\u00e1 assim t\u00e3o distante. O primeiro \u00e9 o facto \u00f3bvio de que a atual muito fraca recupera\u00e7\u00e3o da Grande Recess\u00e3o \u00e9 a segunda expans\u00e3o mais longa no per\u00edodo p\u00f3s-1945, atingindo dez anos no pr\u00f3ximo ver\u00e3o de 2019 \u2013 se durar tanto tempo.<\/p>\n<p>E depois h\u00e1 a rentabilidade. No primeiro trimestre de 2018, as 500 principais empresas dos EUA obtiveram um aumento de 26% no lucro, por a\u00e7\u00e3o. Mas isso foi principalmente devido a uma enorme redu\u00e7\u00e3o de impostos, criada pela Administra\u00e7\u00e3o Trump. Quando se olha para os lucros de todo o setor corporativo, antes das redu\u00e7\u00f5es de impostos, houve uma queda, no primeiro trimestre de 2018 (-0,6%), que se seguiu a uma queda no quarto trimestre de 2017 (-0,1%). Com os benef\u00edcios fiscais, os lucros aumentaram 6%. A grande bonan\u00e7a de Trump ser\u00e1 apenas pontual. E a rentabilidade m\u00e9dia, nas economias do G7, permanece abaixo dos n\u00edveis pr\u00e9-crise, mesmo ap\u00f3s dez anos de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2882\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" alt=\"economia_mundial_02\" height=\"293\" width=\"450\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_02.jpg?resize=450%2C293\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_02.jpg?w=450 450w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_02.jpg?resize=300%2C195 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>E o grande risco que temos pela frente \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o da queda da rentabilidade com a alta e crescente d\u00edvida, nos setores empresariais do G7. Se os lucros come\u00e7arem a cair, enquanto o custo do servi\u00e7o das d\u00edvidas aumenta, \u00e0 medida que as taxas de juros sobem, estar\u00e1 composta a receita para novas fal\u00eancias empresariais e uma nova crise da d\u00edvida. A d\u00edvida global, nomeadamente a d\u00edvida empresarial, est\u00e1 nos n\u00edveis mais elevados de todos os tempos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2883\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_03.jpg?resize=425%2C330\" width=\"425\" height=\"330\" alt=\"economia_mundial_03\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_03.jpg?w=425 425w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_03.jpg?resize=300%2C233 300w\" sizes=\"(max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><\/p>\n<p>Em 2017, a d\u00edvida subiu 10,2%, face a 2016. Desagregando por setor, a d\u00edvida empresarial, n\u00e3o financeira, cresceu 11,1%, a d\u00edvida p\u00fablica cresceu 6,7%, a d\u00edvida das fam\u00edlias cresceu 12,5% e a d\u00edvida do setor financeiro cresceu 11,3%.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2884\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_04.jpg?resize=450%2C314\" width=\"450\" height=\"314\" alt=\"economia_mundial_04\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_04.jpg?w=450 450w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_04.jpg?resize=300%2C209 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>O n\u00edvel de d\u00edvida dos mercados emergentes ser\u00e1 insustent\u00e1vel porque, entre outras raz\u00f5es, a d\u00edvida amadurece e deve ser paga ou refinanciada. Aqui est\u00e1 a d\u00edvida do mercado emergente por maturidades:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2885\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_05.jpg?resize=279%2C358\" width=\"279\" height=\"358\" alt=\"economia_mundial_05\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_05.jpg?w=279 279w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_05.jpg?resize=234%2C300 234w\" sizes=\"(max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><\/p>\n<p>Muitos dos neg\u00f3cios e empresas financeiras dos mercados emergentes contra\u00edram empr\u00e9stimos em d\u00f3lares, j\u00e1 que o d\u00f3lar estava relativamente fraco e as taxas de juros dos EUA ridiculamente baixas. Grande parte destes fluxos de capital para as economias emergentes n\u00e3o se destinou a investimento produtivo, mas sim \u00e0 atividade especulativa. Os fluxos de capital, de longo prazo, para os setores produtivos das economias emergentes (FDI, em ingl\u00eas) est\u00e3o em decl\u00ednio desde a Grande Recess\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2886\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_06.jpg?resize=450%2C294\" width=\"450\" height=\"294\" alt=\"economia_mundial_06\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_06.jpg?w=450 450w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_06.jpg?resize=300%2C196 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>A bonan\u00e7a do cr\u00e9dito acabou. Cerca de 4,8 bili\u00f5es de d\u00f3lares em d\u00edvidas dos mercados emergentes ir\u00e3o vencer, a partir deste ano at\u00e9 2020, muitos destes precisar\u00e3o de ser empurrados para o futuro a taxas geralmente mais altas e, se a valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar continuar, est\u00e1 criado um ambiente cambial desvantajoso.<\/p>\n<p>Os sinais de quebra j\u00e1 est\u00e3o a aparecer em algumas das maiores economias emergentes. A Argentina rebentou e foi for\u00e7ada a ser intervencionada pelo FMI, no valor de 50 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, j\u00e1 que n\u00e3o pode contrair mais empr\u00e9stimos nos mercados de t\u00edtulos internacionais, a custos acess\u00edveis. A economia mergulhou, a infla\u00e7\u00e3o subiu e a moeda caiu. O Brasil n\u00e3o est\u00e1 muito diferente. A economia brasileira est\u00e1 a lutar para crescer e, ainda assim, tem os maiores custos do mundo com os juros das d\u00edvidas. No primeiro trimestre de 2018, a economia da \u00c1frica do Sul registou a maior contra\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos nove anos, com os investimentos das empresas a cair drasticamente. E a moeda da Turquia, a lira, atingiu os m\u00ednimos de todos os tempos, \u00e0 medida que a infla\u00e7\u00e3o anual alcan\u00e7ou mais de 12%; os investidores estrangeiros t\u00eam retirado o seu dinheiro da Turquia e o banco central elevou a sua taxa de juros para quase 18%.<\/p>\n<p>Mas o fundamental ser\u00e1 provavelmente a d\u00edvida das empresas nas economias do G7. A d\u00edvida das empresas n\u00e3o financeiras dos EUA atingiu uma alta p\u00f3s-crise, de 72% do PIB. Em torno de 14,5 bili\u00f5es de d\u00f3lares, em 2017, um aumento de 810 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares face ao ano anterior, com 60% do aumento decorrente da concess\u00e3o de novos empr\u00e9stimos banc\u00e1rios. Atualmente, o financiamento de t\u00edtulos corresponde a 43% da d\u00edvida, com prazo m\u00e9dio de vencimento, de 15 anos, contra o prazo m\u00e9dio de 2,1 anos para os empr\u00e9stimos comerciais dos Estados Unidos. Isso implica cerca de 3,8 bili\u00f5es de d\u00f3lares em amortiza\u00e7\u00f5es de empr\u00e9stimos, por ano. \u201cNeste contexto, o aumento das taxas de juros aumentar\u00e1 a press\u00e3o sobre as empresas com grandes necessidades de refinanciamento\u201d. (IIF)<\/p>\n<p>Al\u00e9m das taxas de juros mais altas, as empresas que precisam de cr\u00e9dito (em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s de alta classifica\u00e7\u00e3o que recorrem a empr\u00e9stimos somente porque podem faz\u00ea-lo mais barato) tendem a ser mais arriscadas. Um relat\u00f3rio recente da Moody\u2019s revelava que 37% da d\u00edvida das empresas n\u00e3o financeiras dos EUA est\u00e1 abaixo do n\u00edvel de investimento, cerca de 2,4 bili\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2887\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_07.jpg?resize=450%2C186\" width=\"450\" height=\"186\" alt=\"economia_mundial_07\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_07.jpg?w=450 450w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_07.jpg?resize=300%2C124 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, todas as empresas, tanto da categoria de investimento real quanto as especulativas, aumentaram significativamente o seu endividamento desde a Grande Recess\u00e3o. Algumas empresas contraem empr\u00e9stimos para financiar recompras de a\u00e7\u00f5es, mesmo tendo um vasto fluxo de caixa e reservas. Estas podem facilmente pagar os seus empr\u00e9stimos, se necess\u00e1rio. Mas as empresas menores e mais arriscadas n\u00e3o t\u00eam essa escolha. O neg\u00f3cio n\u00e3o financeiro m\u00e9dio est\u00e1 cerca de 20% mais endividado do que no momento da crise financeira global, em 2007-8. Grande parte dessa d\u00edvida \u00e9 avaliada em BBB, o menor grau de\u00a0investimento. Isto significa que eles est\u00e3o apenas um n\u00edvel acima da nota\u00e7\u00e3o de \u201clixo\u201d. O n\u00famero de empresas com rating BBB cresceu 50%, desde 2009.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2888\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_08.jpg?resize=450%2C287\" width=\"450\" height=\"287\" alt=\"economia_mundial_08\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_08.jpg?w=450 450w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_08.jpg?resize=300%2C191 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>A recess\u00e3o global n\u00e3o est\u00e1 presente em 2018 \u2013 pelo contr\u00e1rio, a economia global est\u00e1 a crescer mais rapidamente do que em qualquer outra altura, desde 2009. Mas esse crescimento pode ter atingido o pico e, nos pr\u00f3ximos 18 meses, a economia mundial poder\u00e1 cair para uma poss\u00edvel recess\u00e3o. Como podemos saber? Bem, como argumentei antes, a rentabilidade do capital deve come\u00e7ar a cair novamente e, eventualmente, os lucros totais das empresas das principais economias devem parar de subir. Se o custo do servi\u00e7o da d\u00edvida tamb\u00e9m aumentar, ent\u00e3o est\u00e3o criadas as condi\u00e7\u00f5es para a fal\u00eancia de empresas.<\/p>\n<p>Um sinal vi\u00e1vel que, no passado, o comprovou, foi a invers\u00e3o das taxas juros. Normalmente, a taxa de juro para os empr\u00e9stimos, por um ano, \u00e9 muito mais baixa do que a taxa de juro dos empr\u00e9stimos, por dez anos, por raz\u00f5es \u00f3bvias (o credor \u00e9 reembolsado mais rapidamente). Portanto, a diferen\u00e7a entre a taxa de dez anos e a de um ano \u00e9 normalmente positiva (digamos, 4% em compara\u00e7\u00e3o com 1%, respectivamente).<\/p>\n<p>A ideia geral \u00e9 a de que quando as taxas de longo-prazo est\u00e3o a subir mais rapidamente que as taxas de curto-prazo, tal indica que o cr\u00e9dito \u00e9 de f\u00e1cil acesso e que os lucros s\u00e3o altos devido ao crescimento econ\u00f3mico tamb\u00e9m em acelera\u00e7\u00e3o. Mas quando as taxas de curto-prazo se elevam acima das taxas de longo-prazo, tal indica que as condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito se tornaram mais restritivas, em compara\u00e7\u00e3o com os lucros, e que h\u00e1 uma probabilidade muito alta de que uma recess\u00e3o chegue dentro de um ano.<\/p>\n<p>O estratega de investimentos do RBC, Jim Allworth, avalia que: \u201cn\u00e3o houve recess\u00e3o em mais de 60 anos que n\u00e3o tenha sido precedida por uma invers\u00e3o da curva das taxas de juros. Em m\u00e9dia, a curva das taxas de juros inverteu 14 meses antes do in\u00edcio de uma recess\u00e3o (mediana de 11 meses). O menor \u201caviso antecipado\u201d foi de oito meses. Ainda n\u00e3o estamos l\u00e1, nos EUA, e certamente nem perto na Europa. Mas a curva dos EUA est\u00e1 indo nessa dire\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2889\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_09.jpg?resize=450%2C309\" width=\"450\" height=\"309\" alt=\"economia_mundial_09\" style=\"margin: 5px; vertical-align: middle;\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_09.jpg?w=450 450w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/economia_mundial_09.jpg?resize=300%2C206 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/>As birras comerciais de Trump e o risco crescente de uma guerra comercial que poderia sufocar a atual \u201crecupera\u00e7\u00e3o\u201d s\u00f3 aumentam os riscos subjacentes a uma nova crise global no futuro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Michael Roberts (Blog). Tradu\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Ferreira, de Lisboa, Portugal<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reuni\u00e3o do G7, no Quebec, Canad\u00e1, foi um marco em muitos aspectos. 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