{"id":281,"date":"2010-08-11T00:39:17","date_gmt":"2010-08-10T23:39:17","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/08\/11\/a-burca-em-questao\/"},"modified":"2010-08-11T00:39:17","modified_gmt":"2010-08-10T23:39:17","slug":"a-burca-em-questao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/08\/11\/a-burca-em-questao\/","title":{"rendered":"A burca em quest\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-279\" height=\"185\" width=\"300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/niqab.jpg?resize=300%2C185\" style=\"margin: 10px; float: left;\" \/>O governo de Nicolas Sarkozy, que se orgulha de ser considerado um dos governos europeus que mais respeita as liberdades individuais, prossegue na sua cruzada contra os mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Em Dezembro do ano passado, o governo franc\u00eas aprovou uma lei proibindo o uso de s\u00edmbolos religiosos nas escolas, entre eles o v\u00e9u isl\u00e2mico. Agora, a lei est\u00e1 para ser votada no Senado e depois sujeita ao crivo do Conselho Constitucional, por iniciativa do pr\u00f3prio governo. Ela multa em 150 euros o uso em espa\u00e7os p\u00fablicos do v\u00e9u integral (burca ou niqab), al\u00e9m da obriga\u00e7\u00e3o de participar de um &#8220;curso de cidadania&#8221;. As penas mais pesadas v\u00e3o para quem seja condenado por obrigar as mulheres ao uso do v\u00e9u integral: um ano de pris\u00e3o e multa at\u00e9 30 mil euros. O governo franc\u00eas alega, com essas medidas, estar a defender o princ\u00edpio democr\u00e1tico da separa\u00e7\u00e3o Igreja-Estado. <\/p>\n<p>Os ritos religiosos em geral oprimem e humilham as pessoas, subordinando-as \u00e0 ordem existente. \u00c9 uma quest\u00e3o de direitos humanos o respeito \u00e0s op\u00e7\u00f5es religiosas de cada um. Mas \u00e9 igualmente uma quest\u00e3o de direitos humanos que uma mulher n\u00e3o seja apedrejada no meio da rua porque resolveu romper o seu casamento com um homem. Como resolver essa contradi\u00e7\u00e3o? Os governos burgueses, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda comprometida com a manuten\u00e7\u00e3o da ordem vigente, acham que basta votar uma lei no Parlamento.<\/p>\n<p>A burca, esp\u00e9cie de t\u00fanica que cobre as mulheres da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o religiosa. \u00c9 uma das muitas formas de cumprir o preceito do Cor\u00e3o de que as mulheres sejam recatadas. Dependendo do momento hist\u00f3rico, esse preceito \u00e9 mais ou menos radicalizado. E a burca surgiu h\u00e1 pelo menos um s\u00e9culo, e imp\u00f4s-se de forma mais contundente depois de grupos fundamentalistas mais conservadores, como os Taliban, se terem imposto no mundo isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>Muitas mulheres seguem esse costume de usar a burca porque acreditam que assim est\u00e3o respeitando os preceitos religiosos; outras porque o v\u00e9u j\u00e1 faz parte de sua cultura e outras porque t\u00eam medo de serem reprimidas. O facto \u00e9 que essa imposi\u00e7\u00e3o religiosa, por mais absurda que possa parecer aos olhos de quem n\u00e3o vive num pa\u00eds isl\u00e2mico, \u00e9 algo integrado na cultura isl\u00e2mica e uma imposi\u00e7\u00e3o para as mulheres que a est\u00e3o obrigadas a seguir. <\/p>\n<p><strong>Religi\u00e3o combina com dor<\/strong><\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas obscurantistas sobreviveram aos tempos. Em algumas religi\u00f5es, os homens chicoteiam-se at\u00e9 arrancar sangue das costas para pagar os pecados; em outras, os crentes usam uma coroa de espinhos na cabe\u00e7a para sentir \u201ca dor que Cristo sentiu\u201d, outros jejuam dias e dias na cren\u00e7a de estarem assim purificando o corpo. As pr\u00e1ticas obscurantistas, gra\u00e7as ao desenvolvimento desigual e combinado, convivem com concep\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas, materialistas, e entram em contradi\u00e7\u00e3o umas com as outras. <\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas que causam sofrimento e dor s\u00e3o marca registada de todas as religi\u00f5es, sem excep\u00e7\u00e3o, e levam-nas a cometer barbaridades contra as pessoas. Nos pa\u00edses onde houve a separa\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado, algumas dessas pr\u00e1ticas ficaram restritas ao \u00e2mbito religioso, atingindo apenas os praticantes desta ou daquela seita. Mas naqueles onde a separa\u00e7\u00e3o Igreja-Estado n\u00e3o se consumou, ocorre um sincretismo maior entre os costumes religiosos e os costumes seculares. Por isso a burca, uma imposi\u00e7\u00e3o religiosa constante do Cor\u00e3o, ultrapassou os limites da religi\u00e3o e passou a ser parte da pr\u00f3pria cultura dos povos. O Cor\u00e3o \u00e9 ensinado nas escolas; desde pequenas as crian\u00e7as aprendem a ler aquelas palavras ditas sagradas; antes das refei\u00e7\u00f5es, os pais recitam as suras e os filhos s\u00e3o obrigados a repeti-las e aceit\u00e1-las, sem qualquer tipo de cr\u00edtica ou questionamento. <\/p>\n<p>Logo, a burca estendeu-se a toda a sociedade, e a mulher que se recusa a us\u00e1-la pode sofrer as penas da lei e da sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, sem contar com o rep\u00fadio por parte da fam\u00edlia, a tal ponto que a mulher que n\u00e3o usa a burca, mesmo de forma consciente, pode sentir-se exclu\u00edda do conv\u00edvio social.<\/p>\n<p>S\u00f3 isso j\u00e1 d\u00e1 uma leve dimens\u00e3o da gravidade do problema religioso e cultural para a soberania dos povos e o respeito aos direitos humanos. Proibir ou permitir uma pr\u00e1tica religiosa ou cultural n\u00e3o \u00e9 um acto fortuito, sobre o qual deputados de direita ou de esquerda possam decidir, que governantes burocratas desta ou daquela esp\u00e9cie possam legislar. Envolve toda a hist\u00f3ria de um povo e, como lembrou Marx, j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, os costumes e as cren\u00e7as s\u00e3o o \u00faltimo elemento a serem transformados na vida humana. Antes \u00e9 preciso transformar toda a base econ\u00f3mica da sociedade, as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o precisam sofrer uma revolu\u00e7\u00e3o profunda para que as superestruturas ideol\u00f3gicas, pol\u00edticas e culturais comecem a esbo\u00e7ar os seus primeiros movimentos de renova\u00e7\u00e3o ou supera\u00e7\u00e3o. As cren\u00e7as, as ideologias, os valores humanos s\u00e3o tribut\u00e1rios das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e, portanto, das condi\u00e7\u00f5es materiais de vida.<\/p>\n<p><strong>O vexame da esquerda francesa<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nesse sentido, algo que parece simples ao governo franc\u00eas que, com um golpe de caneta, quer proibir o uso do v\u00e9u, deixa de ser um problema meramente cultural, de costume ou de moda, e assume a sua verdadeira dimens\u00e3o: \u00e9 um problema pol\u00edtico com s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es sociais. Engana-se aquele que acha que proibir a burca \u00e9 uma medida democr\u00e1tica, que vai libertar as mulheres. Enganam-se as feministas que aplaudem essa medida, porque assim estariam salvando as mu\u00e7ulmanas da opress\u00e3o secular. Engana-se o democrata ou o militante de esquerda que acredita que essa lei do governo franc\u00eas visa defender a liberdade religiosa. <\/p>\n<p>Num momento em que os imperialismos americano e europeu travam uma guerra fratricida contra o Iraque e o Afeganist\u00e3o pelo controle do estrat\u00e9gico da regi\u00e3o, deixando um rastro de destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas e o consequente desastre nas condi\u00e7\u00f5es materiais de vida, a atitude da Fran\u00e7a, antes de qualquer coisa, \u00e9 uma atitude pol\u00edtica que colabora para aumentar o preconceito contra os povos mu\u00e7ulmanos que est\u00e3o sendo massacrados e humilhados. E aqueles que apoiam esse tipo de repress\u00e3o \u2013 porque \u00e9 disso que se trata a proibi\u00e7\u00e3o da burca &#8211; contra povos que est\u00e3o sendo atacados pelo imperialismo, colaboram com o agressor.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a tem hoje a maior comunidade mu\u00e7ulmana da Europa Ocidental: cerca de 5 milh\u00f5es de pessoas. Inclusive, grande parte da classe oper\u00e1ria francesa mais combativa \u00e9 formada por trabalhadores argelinos e imigrantes vindos de outros pa\u00edses isl\u00e2micos. \u00c9 contra eles que vem essa lei. A maioria da esquerda francesa compactua com essa pol\u00edtica criminosa. Foi inclusive da mente estalinista de um deputado do Partido Comunista Franc\u00eas que saiu essa lei. Andr\u00e9 Guerin foi o relator da comiss\u00e3o que preparou a lei proposta pelo governo e \u00e9 um dos seus maiores defensores com argumentos em torno da luta contra o fundamentalismo isl\u00e2mico. Com isso ele colocou o restante do PCF numa saia justa, porque os demais deputados desse partido tiveram de abandonar a sala para n\u00e3o ter de votar contra o seu colega de partido. Quanto ao Partido Socialista, tr\u00eas deputados votaram a favor da lei. Os ecologistas, ao inv\u00e9s de votarem contra, sa\u00edram da sala para n\u00e3o participar da vota\u00e7\u00e3o. Jean Glavany, deputado do PS, explicou a dif\u00edcil posi\u00e7\u00e3o do seu partido nesse debate: &#8220;Muitos de n\u00f3s n\u00e3o pod\u00edamos votar contra o texto, porque somos contra o uso do v\u00e9u integral. Mas n\u00e3o podemos votar a favor porque o debate sobre a burca faz parte das manobras do governo sobre a quest\u00e3o da identidade nacional. E a absten\u00e7\u00e3o seria dif\u00edcil de explicar \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica&#8221;. <\/p>\n<p>Em s\u00e3 consci\u00eancia o governo franc\u00eas sabe que \u00e9 muito dif\u00edcil que uma mulher que use a burca prejudique o que quer que seja na sociedade francesa. Esse \u00e9 apenas um \u00e1libi para justificar uma campanha internacional contra tudo o que tenha a ver com os pa\u00edses \u00e1rabes e os povos mu\u00e7ulmanos. A Fran\u00e7a, pa\u00eds que tem em sua hist\u00f3ria a viv\u00eancia da ocupa\u00e7\u00e3o nazi-fascista, sabe que o ataque aos costumes de um povo, por piores que eles sejam, \u00e9 um ataque \u00e0 sua auto-estima, \u00e0 sua cultura, \u00e0 sua hist\u00f3ria. Para subjugar os franceses na Paris ocupada, Hitler proibia a m\u00fasica francesa ou fazia as dan\u00e7arinas de can-can despirem-se diante de uma plateia de generais sanguin\u00e1rios. Quando Paris foi libertada, a popula\u00e7\u00e3o saiu em massa \u00e0s ruas cantando a Marselhesa \u2013 hino nacional que havia sido proibido &#8211; como um grito de guerra pela reafirma\u00e7\u00e3o de sua identidade. Para lutar contra os seus inimigos, os homens e mulheres precisam de ter a sua identidade fortalecida. A imposi\u00e7\u00e3o cultural, a propaganda subliminar, a substitui\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica e autorit\u00e1ria de uma cultura por outra s\u00e3o formas eficazes de subjugar os povos. H\u00e1 s\u00e9culos a burguesia aprendeu essa li\u00e7\u00e3o e o imperialismo n\u00e3o \u00e9 outra pol\u00edtica do que subjugar os povos. <\/p>\n<p>Nada como apelar para um sentimento t\u00e3o em voga nestes dias que correm, uma bandeira que foi hasteada pela esquerda feminista nos anos 60 e arrastada na lama pela mesma direita fascista que agora lan\u00e7a m\u00e3o dela para humilhar os povos \u00e1rabes votando essa lei no Parlamento franc\u00eas. O sentimento de que as mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o seres humanos \u00e9 uma bandeira que, se deixada nas m\u00e3os da burguesia e do imperialismo, ganha o signo oposto e passa a servir para oprimir ainda mais as mulheres. <\/p>\n<p>\u00c9 o que est\u00e1 a acontecer com a burca. O v\u00e9u isl\u00e2mico integral \u00e9 um elemento tradicional da cultura mu\u00e7ulmana. A proibi\u00e7\u00e3o de seu uso tem a ver com a pol\u00edtica do imperialismo de integrar os mu\u00e7ulmanos no restante da popula\u00e7\u00e3o francesa ou dar a eles uma identidade cultural puramente francesa, como se a cultura boa fosse a cultura francesa, ou como se essas mulheres n\u00e3o tivessem cultura pr\u00f3pria, fossem objectos inanimados. \u00c9 uma esp\u00e9cie de limpeza \u00e9tnica subliminar, uma tentativa de apagar do mapa uma cultura milenar como a isl\u00e2mica.<\/p>\n<p><strong><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-280\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/niqab-2.jpg?resize=300%2C299\" style=\"margin: 10px; float: left;\" width=\"300\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/niqab-2.jpg?w=300 300w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/niqab-2.jpg?resize=150%2C150 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Mulheres-zombies ou mulheres-bombas?<\/strong><br \/>Os povos \u00e1rabes h\u00e1 tempos que v\u00eam dando uma li\u00e7\u00e3o de soberania e coragem no Afeganist\u00e3o, no Iraque, na Palestina, em praticamente todo o M\u00e9dio Oriente. \u00c9 preciso quebrar essa resist\u00eancia. E nada como usar as mulheres para isso. A hipocrisia n\u00e3o podia ser maior. De facto, existe uma justa indigna\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em que vivem as mulheres nesses pa\u00edses. As revistas burguesas estampam fotos com mulheres sendo apedrejadas. Mulheres com burcas ficam a parecer fantasmas, e grandes fot\u00f3grafos conseguem fazer fotos assustadoras dessas mulheres-zombie. Mas tamb\u00e9m existem fundamentalismos noutras religi\u00f5es sem esses s\u00edmbolos t\u00e3o assustadores quanto a burca. Na ortodoxia judaica as mulheres s\u00e3o tratadas como crian\u00e7as, seres incapazes de tomar decis\u00f5es, e devem aceitar casamentos arranjados. A t\u00e3o aclamada \u201cm\u00e3e judia\u201d n\u00e3o passa de uma escrava, proibida de fumar diante do marido e de emitir opini\u00f5es dentro de casa. No catolicismo, a mulher \u00e9 um ser inferior e desprez\u00edvel, uma pecadora por natureza que, para salvar a alma, deve obedi\u00eancia ao homem pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Faz parte da opress\u00e3o que pesa sobre as mulheres em todos os povos a ideologia de que a mulher \u00e9 um ser inferior, incapaz, movida pelas emo\u00e7\u00f5es e n\u00e3o pela raz\u00e3o. A ideologia de que mulher \u00e9 mais instinto do que intelig\u00eancia, aproxima-a da natureza, dos animais irracionais, das plantas e das ferramentas. Apesar de todos os avan\u00e7os feitos no mundo contempor\u00e2neo, apesar de as mulheres terem conquistado um grande espa\u00e7o na sociedade, ainda n\u00e3o nos distanciamos das concep\u00e7\u00f5es de Arist\u00f3teles, para quem as mulheres, diferentemente dos animais e das enxadas, eram ferramentas falantes.<\/p>\n<p>\u00c9 uma das distor\u00e7\u00f5es do capitalismo ver as mulheres como animais, apesar de a antropologia moderna haver demonstrado cabalmente que foram elas as primeiras a domesticar os animais j\u00e1 no per\u00edodo Neol\u00edtico ou Idade da Pedra Polida (para mais detalhes ler Gordon Childe, <em>O que Aconteceu na Hist\u00f3ria<\/em>). <\/p>\n<p>A burca esconde as express\u00f5es faciais, esconde a tristeza e tamb\u00e9m esconde o \u00f3dio, a revolta. A mulher passa a ser vista como um zombie, um ser sem express\u00e3o facial, como os animais. <\/p>\n<p>No entanto, neste caso cumpre-se uma das leis mais comuns da hist\u00f3ria: o feiti\u00e7o voltar-se contra o feiticeiro. Por mais terr\u00edvel que a burca possa parecer, os povos oprimidos costumam lan\u00e7ar m\u00e3o justamente dos instrumentos do opressor para lutar por sua liberta\u00e7\u00e3o, ainda que com m\u00e9todos bastante question\u00e1veis. E a burca vem servindo para que as mulheres-zombies se transformem em mulheres-bombas, uma das maiores dores de cabe\u00e7a do imperialismo hoje. <\/p>\n<p><strong>A raiz mais profunda da religi\u00e3o \u00e9 o medo <\/strong><\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o se pode buscar a explica\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o da mulher mu\u00e7ulmana na religi\u00e3o ou nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero, mas na explica\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o e das rela\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero na mulher real. A religi\u00e3o e os costumes nascem das condi\u00e7\u00f5es concretas de vida e servem para legitim\u00e1-las. <\/p>\n<p>As religi\u00f5es sempre foram utilizadas pelos setores governantes para dominar os povos, escravizar e manter sectores da sociedade oprimidos para serem melhor explorados. <\/p>\n<p>Num texto de 1909, Lenin demonstrava que \u201ca raiz mais profunda da religi\u00e3o em nossos tempos \u00e9 a opress\u00e3o social das massas trabalhadoras, sua aparente impot\u00eancia frente \u00e0s for\u00e7as cegas do capitalismo, que a cada dia, a cada hora, causa aos trabalhadores sofrimentos e mart\u00edrios mil vezes mais horrorosos e selvagens do que qualquer acontecimento extraordin\u00e1rio, como as guerras e os terramotos. O medo criou os deuses. O medo \u00e0 for\u00e7a cega do capital \u2013 cega porque n\u00e3o pode ser prevista pelas massas do povo &#8211; que a cada passo amea\u00e7a o proletariado ou o pequeno propriet\u00e1rio com a perdi\u00e7\u00e3o, a ru\u00edna \u2018inesperada\u2019, \u2018repentina\u2019, \u2018casual\u2019, convertendo-o em mendigo, em indigente, lan\u00e7ando-o \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, levando-o \u00e0 morte por inani\u00e7\u00e3o: eis aqui a raiz da religi\u00e3o contempor\u00e2nea que o materialismo deve ter em conta antes de mais nada se n\u00e3o quer ficar como aprendiz de materialista. Nenhum folheto educativo ser\u00e1 capaz de afastar a religi\u00e3o das massas oprimidas pelos trabalhos for\u00e7ados do regime capitalista, e que dependem das for\u00e7as cegas e destrutivas do capitalismo, enquanto as massas n\u00e3o aprenderem a lutar unidas e organizadas, de modo sistem\u00e1tico e consciente, contra essa raiz da religi\u00e3o, contra o dom\u00ednio do capital em todas as suas formas\u201d. (<em>A atitude do partido oper\u00e1rio diante da religi\u00e3o<\/em>). <\/p>\n<p>Os diversos imperialismos que tentaram apossar-se do M\u00e9dio Oriente fizeram o mesmo. Depois da conquista do mundo \u00e1rabe pelos otomanos, o imperialismo ingl\u00eas usou a religi\u00e3o para lan\u00e7ar as massas contra o imp\u00e9rio otomano na primeira guerra mundial; soube aproveitar o sentimento anti-imperialista das massas \u00e1rabes para lan\u00e7\u00e1-las contra os otomanos e depois assegurar sua pr\u00f3pria domina\u00e7\u00e3o colonialista.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo XIX, os imperialismos t\u00eam sido os grandes respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o do atraso na regi\u00e3o como forma de assegurar a sua domina\u00e7\u00e3o. E, como consequ\u00eancia, t\u00eam sido os grandes respons\u00e1veis pela situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o da mulher mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p><strong>S\u00edmbolos de opress\u00e3o e identidade<\/strong><\/p>\n<p>O imperialismo coloca no v\u00e9u a causa de todos os males da mulher mu\u00e7ulmana. \u00c9 uma forma habilidosa de n\u00e3o admitir que a verdadeira causa desses males, ou pelo menos dos piores males, que s\u00e3o a fome, a mis\u00e9ria, a falta de empregos, que cortam o caminho da emancipa\u00e7\u00e3o feminina, est\u00e1 na sua pol\u00edtica de domina\u00e7\u00e3o do M\u00e9dio Oriente e da \u00c1sia Central, regi\u00f5es que concentram as maiores reservas de petr\u00f3leo do mundo. <\/p>\n<p>O que oprime a mulher afeg\u00e3 n\u00e3o \u00e9 propriamente o v\u00e9u ou a burca. Esses s\u00e3o apenas s\u00edmbolos que, inclusive j\u00e1 foram usados como s\u00edmbolo de resist\u00eancia \u00e0s diversas investidas imperialistas contra a soberania e a cultura isl\u00e2micas. <\/p>\n<p>A opress\u00e3o da mulher, e n\u00e3o s\u00f3 da mulher mu\u00e7ulmana, mas de todas as mulheres trabalhadoras e pobres, agrava-se conforme se agravam as condi\u00e7\u00f5es de vida. A pilhagem imperialista contra os pa\u00edses \u00e1rabes torna cada vez mais distante a solu\u00e7\u00e3o do problema da mulher porque agrava a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, aumenta a fome e a mis\u00e9ria, a falta de emprego e de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de vida. <\/p>\n<p>Sejamos categ\u00f3ricos: se o imperialismo americano e europeu conseguem aplicar seus planos no M\u00e9dio Oriente, o horizonte para a mulher mu\u00e7ulmana ficar\u00e1 ainda mais dram\u00e1tico, com ou sem a burca. Porque a pilhagem imperialista na regi\u00e3o, o espezinhar da soberania dos povos \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos e o desprezo por sua cultura, n\u00e3o encontrar\u00e3o obst\u00e1culos. <\/p>\n<p>A s\u00edntese de Lenin, de que nenhum folheto educativo ou curso de cidadania ser\u00e1 capaz de afastar a religi\u00e3o das massas oprimidas pelos trabalhos for\u00e7ados do regime capitalista, enquanto as massas n\u00e3o aprenderem a lutar unidas e organizadas, de modo sistem\u00e1tico e consciente contra o dom\u00ednio do capital em todas as suas formas, \u00e9 perfeitamente aplic\u00e1vel no caso da burca e outras imposi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas. Ser\u00e3o as pr\u00f3prias mulheres mu\u00e7ulmanas, com suas lutas, que ir\u00e3o se consciencializar e superar as suas barreiras. N\u00e3o ser\u00e1 um governo imperialista a libert\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Adaptado de artigo redigido por Cec\u00edlia Toledo (PSTU)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo de Nicolas Sarkozy, que se orgulha de ser considerado um dos governos europeus que mais respeita as liberdades individuais, prossegue na sua cruzada contra os mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":279,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-281","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-franca"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/niqab.jpg?fit=650%2C434","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/279"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}