{"id":2808,"date":"2018-06-05T08:46:07","date_gmt":"2018-06-05T07:46:07","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/06\/05\/irlanda-vota-pela-legalizacao-do-aborto-importante-vitoria-das-mulheres-e-derrota-da-extrema-direita\/"},"modified":"2018-06-05T08:46:07","modified_gmt":"2018-06-05T07:46:07","slug":"irlanda-vota-pela-legalizacao-do-aborto-importante-vitoria-das-mulheres-e-derrota-da-extrema-direita","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/06\/05\/irlanda-vota-pela-legalizacao-do-aborto-importante-vitoria-das-mulheres-e-derrota-da-extrema-direita\/","title":{"rendered":"Irlanda vota pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto: Importante vit\u00f3ria das mulheres e derrota da extrema-direita"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: both;\" \/>Era uma sexta-feira de primavera. No dia 24 de maio, a Rep\u00fablica da Irlanda foi \u00e0s urnas em um referendo para decidir se revogava ou n\u00e3o sua legisla\u00e7\u00e3o que criminalizava o aborto. O dispositivo legal em quest\u00e3o estava em vigor desde os anos 80 e fazia do pa\u00eds, de forte tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, um dos mais atrasados da Europa na quest\u00e3o dos direitos da Mulher.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Estimativas das mais variadas apontam que centenas de milhares de mulheres viajaram nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas para a vizinha Gr\u00e3 Bretanha, onde o aborto \u00e9 permitido, para interromper a gravidez. S\u00f3 em 2016, mais de 3 mil mulheres declaradamente residentes na Irlanda receberam atendimentos relativos a aborto no pa\u00eds, segundo o NHS (Sistema de Sa\u00fade brit\u00e2nico). <\/p>\n<p>E um n\u00famero ainda maior, por falta de condi\u00e7\u00f5es, sofreu na carne as consequ\u00eancias da legisla\u00e7\u00e3o atrasada do pa\u00eds. Um dos s\u00edmbolos da campanha do SIM (pela revoga\u00e7\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o) foi o caso de Savita Halappanavar, uma dentista de 31 anos que morreu em 2012 na cidade de Galway. Seu falecimento foi resultado de complica\u00e7\u00f5es de uma gravidez que n\u00e3o p\u00f4de ser interrompida por motivos legais, apesar de todo o risco conhecido pelos m\u00e9dicos. Existe at\u00e9 uma campanha para que a nova Lei, que deve entrar em vigor at\u00e9 o final do ano, receba o nome de \u201cSavita\u201d em sua homenagem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A ofensiva da extrema-direita<\/strong><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 2000, j\u00e1 havia uma press\u00e3o social crescente pela moderniza\u00e7\u00e3o desta legisla\u00e7\u00e3o, e de outros atrasos impostos pela forte influ\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica no pa\u00eds. Em 2015, um referendo j\u00e1 havia aprovado o reconhecimento de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por\u00e9m, ainda mais desta vez, a pergunta impressa na c\u00e9dula n\u00e3o foi a \u00fanica quest\u00e3o verdadeiramente em disputa no referendo irland\u00eas.<\/p>\n<p>O pa\u00eds \u00e9 governado por uma coaliz\u00e3o parlamentar de maioria neo-liberal. \u00c9 um governo cl\u00e1ssico neo-liberal: reacion\u00e1rio, que aplica os planos de austeridade e ataca os trabalhadores e movimento sociais mas n\u00e3o abra\u00e7a abertamente a ideologia rascista e semi-fascista da \u201cnova ultra-direita\u201d. O pr\u00f3prio Taoiseach\u00a0<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftn1\">[1]<\/a>, Leo Varadkar, apoiou o SIM neste Referendo e declarou ser gay em uma entrevista, durante o referendo de 2015. Obviamente, o conjunto das for\u00e7as de esquerda e movimentos sociais estiveram na linha de frente da campanha pelo SIM sem que isso significasse qualquer apoio ao governo de Varakdar, pelo contr\u00e1rio, combinaram essa luta com a resist\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas de seu governo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nos dois meses que antecederam o pleito, o N\u00c3O apresentou um aumento significativo, em volume de campanha e nas pesquisas eleitorais, colocando em d\u00favida qual seria o resultado do processo. Emer Toibin, uma das lideran\u00e7as da campanha do N\u00c3O disse ao jornal brit\u00e2nico The Guardian que \u201cquando olhamos para as campanhas do Brexit e de Trump, percebemos que a m\u00eddia j\u00e1 n\u00e3o consegue mais ganhar todas\u201d\u00a0<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftn2\">[2]<\/a>. Na verdade, houve um investimento consider\u00e1vel em m\u00eddias eletr\u00f4nicas, que teria sido bancado maioritariamente por setores da \u201cnova direita\u201d internacional\u00a0<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftn3\">[3]<\/a>, al\u00e9m de segmentos minorit\u00e1rios da burguesia irlandesa. Foi contratada a empresa norte-americana PSM (Political Social Media), que atuou nas campanhas do Brexit e de Trump. Tamb\u00e9m foi contratado pelo N\u00c3O o ex-s\u00f3cio da Cambridge Analytica\u00a0<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftn4\">[4]<\/a> e diretor t\u00e9cnico (CTO) da campanha do Brexit, Thomas Borwick. A campanha do N\u00c3O ganhou for\u00e7a, com bastante impulso nas redes sociais e uma abordagem baseada em fake news e preconceitos, e as pesquisas passaram a apontar quase um \u201cempate t\u00e9cnico\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Um Youthquake contra o &#8220;N\u00e3o&#8221; e independente do &#8220;Sim&#8221; oficial<\/strong><\/p>\n<p>Felizmente, essa movimenta\u00e7\u00e3o foi percebida \u2013 e respondida, em tempo h\u00e1bil. Um youthquake\u00a0<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftn5\">[5]<\/a> &#8211; trocadilho em ingl\u00eas com os termos \u201cjuventude\u201d e \u201cterremoto\u201d que significa grandes mudan\u00e7as pol\u00edticas e culturais vindas da juventude &#8211; se deu de forma independente da campanha oficial do SIM. Estudantes irlandeses no exterior fizeram campanhas financeiras para viajar ao pa\u00eds para votar. Na Inglaterra, v\u00e1rias universidades liberaram os estudantes irlandeses dos exames naquele per\u00edodo e ajudaram a organizar as campanhas financeiras, entre elas a Universidade de Oxford. O volume de campanha nas ruas aumentou, denunciando n\u00e3o apenas a reacion\u00e1ria campanha do N\u00c3O como as limita\u00e7\u00f5es da campanha oficial do SIM e do governo. A for\u00e7a deste movimento atravessou os limites anteriores da polariza\u00e7\u00e3o, levando o SIM a ganhar em quase todos os distritos (perdeu apenas em 01 dos 42 distritos, e por um pequena margem). Estima-se que tenha ganho em todas as faixas et\u00e1rias, com exce\u00e7\u00e3o de maiores de 65 anos. Em uma vota\u00e7\u00e3o com alt\u00edssimo comparecimento, cerca de dois ter\u00e7os do eleitorado (66.5%) votou pelo SIM.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Irlanda do Norte: A bola da vez<\/strong><\/p>\n<p>Diferente do restante do Reino Unido (Gr\u00e3 Bretanha) onde o aborto \u00e9 legalizado e fornecido pelo NHS desde 1967, o aborto ainda \u00e9 considerado ilegal na Irlanda do Norte. Como era de se esperar, o resultado do referendo na Rep\u00fablica da Irlanda teve um impacto imediato sobre seu vizinho terrestre. Recentemente, pressionado pela luta das Mulheres nos dois lados do Mar da Irlanda, o governo Theresa May j\u00e1 havia aprovado uma lei onde o NHS custeia o servi\u00e7o para que as mulheres da Irlanda do Norte o fa\u00e7am na Inglaterra \u2013 mas o momento \u00e9 de avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Um elemento complicador \u00e9 que o Partido Conservador depende do ultra-reacion\u00e1rio DUP, da Irlanda do Norte, para assegurar a maioria parlamentar que permite que Theresa May seja a Primeira-ministra. E o DUP j\u00e1 avisou, minutos ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados no sul, que tal mudan\u00e7a do lado norte \u201cn\u00e3o estava em cogita\u00e7\u00e3o\u201d. Enfim, mais um elemento de instabilidade em uma regi\u00e3o j\u00e1 conturbada, potencializada pelas incertezas do Brexit e que sustenta um governo cada vez mais fr\u00e1gil. Esse quadro contribui para a insustentabilidade do governo May e a possibilidade da antecipa\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es \u2013 o que coloca na ordem do dia a perspectiva de um governo Jeremy Corbyn. Mas isso \u00e9 assunto para outros artigos&#8230;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Marcio Drumond<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em><br \/><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<div><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Notas <\/em><\/strong><\/span> <\/p>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Primeiro Ministro da Irlanda<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2018\/may\/20\/ireland-referendum-abortion-divided-between-rival-camps-tech-firms-regulate-ads\"><span style=\"font-size: 10pt;\">https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2018\/may\/20\/ireland-referendum-abortion-divided-between-rival-camps-tech-firms-regulate-ads<\/span><\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftnref3\">[3]<\/a> Como tal doa\u00e7\u00f5es s\u00e3o ilegais pela legisla\u00e7\u00e3o eleitoral irlandesa, n\u00e3o existem registros, mas sobram den\u00fancias, desses aportes.<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Statement2\/Downloads\/Artigo%20aborto%20IRL.docx#_ftnref4\">[4]<\/a> Empresa brit\u00e2nica envolvida em um esc\u00e2ndalo de manipula\u00e7\u00e3o de dados individuais em redes sociais, intervindo em elei\u00e7\u00f5es e favorecendo campanhas pol\u00edticas de extrema-direita em v\u00e1rios pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[5] Youthquake foi considerada a palavra do ano (2017) pelo Dicion\u00e1rio de Oxford &#8211; <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Youthquake\">https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Youthquake<\/a><\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma sexta-feira de primavera. No dia 24 de maio, a Rep\u00fablica da Irlanda foi \u00e0s urnas em um referendo para decidir se revogava ou n\u00e3o sua legisla\u00e7\u00e3o que criminalizava o aborto. O dispositivo legal em quest\u00e3o estava em vigor desde os anos 80 e fazia do pa\u00eds, de forte tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, um dos mais atrasados da Europa na quest\u00e3o dos direitos da Mulher.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2807,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[39],"tags":[1367,116,1453,114,115,163,117],"class_list":["post-2808","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-europa","tag-aborto","tag-alternativa","tag-irlanda","tag-mas","tag-movimento","tag-referendo","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/aborto_irlanda.jpg?fit=500%2C243","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2808"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2808\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2807"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}