{"id":2770,"date":"2018-05-14T09:48:24","date_gmt":"2018-05-14T08:48:24","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/05\/14\/foi-uma-greve-ainda-inicial-mas-muito-aguerrida\/"},"modified":"2018-05-14T09:48:24","modified_gmt":"2018-05-14T08:48:24","slug":"foi-uma-greve-ainda-inicial-mas-muito-aguerrida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/05\/14\/foi-uma-greve-ainda-inicial-mas-muito-aguerrida\/","title":{"rendered":"\u201cFoi uma greve ainda inicial mas muito aguerrida\u201d"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: left;\" \/>No dia 8 de Maio os trabalhadores do call-center da Teleperformance de Set\u00fabal fizeram greve por melhores sal\u00e1rios, estabilidade e contra o ass\u00e9dio moral. Para conhecer melhor esta luta, fizemos algumas perguntas a Manuel Afonso, trabalhador da Teleperformance, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center e militante do MAS.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <strong>MAS<\/strong>: No passado dia 8 de Maio houve uma greve de tr\u00eas horas na Teleperformance de Set\u00fabal, explica-nos como correu e que objectivos tinha. <\/p>\n<p><strong>Manuel Afonso<\/strong>: As principais reivindica\u00e7\u00f5es eram, e continuam a ser: o aumento de sal\u00e1rios e progress\u00e3o salarial. Exigimos tamb\u00e9m que a Teleperformance tome medidas concretas para combater o ass\u00e9dio moral e o fim da contrata\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Empresa de Trabalho Tempor\u00e1rio, a Emprecede, uma empresa de fachada que s\u00f3 serve para impedir a entrada de trabalhadores nos quadros da Teleperformance. A par disso, queremos que todos os trabalhadores tenham acesso ao pr\u00e9mio de assiduidade, um pr\u00e9mio mensal de 78\u20ac a que os colegas contratados ap\u00f3s Novembro de 2014 n\u00e3o tem direito.<\/p>\n<p>A greve correu muito bem. Participaram mais de 50 trabalhadoras e trabalhadores, que \u00e0s 15h \u201cdeslogaram-se\u201d e concentraram-se em frente do local de trabalho. O Sindicato tinha assegurado a exist\u00eancia de um sistema de som que permitiu que todos os trabalhadores que assim o entenderam falassem da sua situa\u00e7\u00e3o e das suas reivindica\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso foram tr\u00eas horas de anima\u00e7\u00e3o constante em que se gritaram palavras-de-ordem como \u201cA empresa cresce e os sal\u00e1rios n\u00e3o! Estamos fartos desta explora\u00e7\u00e3o\u201d. Foi uma greve ainda inicial mas muito aguerrida.<\/p>\n<p><strong>MAS: Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na Teleperformance e nos call-centers em geral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MA<\/strong>: H\u00e1 entre 50 mil a 100 mil trabalhadores de call-center em Portugal. Na Teleperformance somos mais de 8 mil. O CEO vem repetidamente dizer que paga 20% acima da tabela. Isso \u00e9 falso. Os trabalhadores estrangeiros ou que trabalham em campanhas em l\u00edngua estrangeira recebem sal\u00e1rios superiores, conforme a l\u00edngua que falem, mas sempre muito abaixo do sal\u00e1rio m\u00ednimo no pa\u00eds de origem. J\u00e1 a maioria, que trabalha em campanhas de l\u00edngua portuguesa, para parceiros t\u00e3o importantes como Santander, Tranquilidade, FNAC, Ageas, Deco, NOS ou Galp, recebe, salvo rar\u00edssimas excep\u00e7\u00f5es o sal\u00e1rio m\u00ednimo e o subs\u00eddio de alimenta\u00e7\u00e3o. Em alguns casos, recebemos tamb\u00e9m o referido pr\u00e9mio de assiduidade. Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de todos os trabalhadores que fizeram greve em Set\u00fabal. Alguns h\u00e1 mais de dez anos sem qualquer progress\u00e3o salarial.<\/p>\n<p>Em troca estamos a falar de um trabalho extremamente desgastante, muitas vezes por turnos, num ambiente de press\u00e3o e controlo permanente. Essa press\u00e3o e controlo, a par com a precariedade e medo do despedimento, criam um clima onde o ass\u00e9dio moral \u00e9 uma pr\u00e1tica quotidiana.<\/p>\n<p><strong>MAS: Esta n\u00e3o foi a primeira greve neste call-center. Que caminho percorreram para chegar aqui?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MA<\/strong>: O STCC est\u00e1 presente neste call-center em Set\u00fabal h\u00e1 mais de tr\u00eas anos, inicialmente com um ou dois s\u00f3cios e posteriormente com uma delegada sindical. Paulatinamente fomos chegando a mais gente, ajudando em diversos problemas concretos que foram surgindo. No ano passado, os trabalhadores de um dos departamentos onde t\u00ednhamos s\u00f3cios chamou-nos, pois n\u00e3o podiam aguentar mais com os baixos sal\u00e1rios e estavam dispostos a entrar em greve. Foi uma greve praticamente de um departamento s\u00f3 mas muito determinada, quase espont\u00e2nea. N\u00e3o foi f\u00e1cil, porque a empresa tentou virar os restantes colegas contra os grevistas. Mas a greve foi um sucesso: todo o departamento parou e viemos a Lisboa, protestar junto \u00e0 Sede da Teleperformance. Embora a empresa se tenha recusado a receber-nos, foi dado um pr\u00e9mio mensal de 150\u20ac n\u00e3o s\u00f3 aos trabalhadores do departamento que fez a greve mas tamb\u00e9m a outras equipas. Al\u00e9m disso v\u00e1rios trabalhadores foram passados para os quadros da empresa.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s isso fomos fazendo um trabalho de organiza\u00e7\u00e3o ao longo de um ano, com v\u00e1rios plen\u00e1rios, sindicaliza\u00e7\u00e3o de mais colegas, comunicados etc. Foi um fant\u00e1stico trabalho n\u00e3o apenas do delegado sindical, como de uma s\u00e9rie de colegas que, no dia-a-dia, foram eles pr\u00f3prios expandindo o STCC. J\u00e1 em 2018, em v\u00e1rios Plen\u00e1rios construiram e votaram um Caderno Reivindicativo que foi apresentado \u00e0 empresa subscrito por mais de 200 trabalhadores e familiares. Aquando da resposta da Teleperformance \u2013 que mais uma vez, recusou-se a receber os trabalhadores e sindicatos \u2013 negando \u201csimpaticamente\u201d todos os pontos do caderno, os trabalhadores decidiram voltar \u00e0 luta. Em Plen\u00e1rio, decidimos come\u00e7ar por uma greve de tr\u00eas horas apenas, pois o objectivo, antes de mais, \u00e9 chegar aos trabalhadores que ainda n\u00e3o podem, n\u00e3o querem ou receiam lutar, n\u00e3o s\u00f3 em Set\u00fabal mas em toda a empresa.<\/p>\n<p><strong>MAS<\/strong>: Consideras que foi uma greve vitoriosa?<\/p>\n<p><strong>MA<\/strong>: Sem d\u00favida. Primeiro porque faz parte de um processo, que como disse come\u00e7ou na greve do ano passado e at\u00e9 antes, em que j\u00e1 conseguiu um pr\u00e9mio mensal de 200\u20ac \u00e0 maioria destes trabalhadores. N\u00e3o s\u00f3 foi conseguido o pr\u00e9mio de 150\u20ac no ano passado, como j\u00e1 este ano no dia antes do Plen\u00e1rio em que avan\u00e7amos para a greve, a empresa anunciou que iria dar mais 50\u20ac de pr\u00e9mio mensal! Por\u00e9m, isto n\u00e3o deteve os trabalhadores que compareceram ao Plen\u00e1rio e escolheram como palavra-de-ordem \u201cN\u00e3o Lutamos por Comiss\u00f5es, Lutamos por Sal\u00e1rios em Condi\u00e7\u00f5es!\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja: os pr\u00e9mios ou comiss\u00f5es com que a empresa \u201cpresenteia\u201d os trabalhadores n\u00e3o est\u00e3o no contrato e podem ser retirados a qualquer momento. Al\u00e9m disso s\u00e3o cortados quando se d\u00e1 tr\u00eas faltas num m\u00eas, mesmo que justificadas. Estas trabalhadoras, na sua maioria s\u00e3o mulheres, com filhos e por vezes outros familiares a cargo e est\u00e3o obrigadas a faltar para apoio familiar, algo que est\u00e1 previsto na lei. E assim perdem os \u201cpr\u00e9mios\u201d. O mesmo para in\u00fameros colegas que adoecem, muitas vezes por causa das condi\u00e7\u00f5es de trabalho ou do ass\u00e9dio moral. Al\u00e9m disso, se mudar de departamento ou campanha, o trabalhador pode perder o pr\u00e9mio, tal como a empresa pode retira-lo caso os trabalhadores desmobilizem. Assim, os colegas de Set\u00fabal recusaram esta chantagem e exigem aumento dos sal\u00e1rios-base e progress\u00e3o salarial.<\/p>\n<p>O objectivo central da greve foi o de refor\u00e7ar a uni\u00e3o e a confian\u00e7a dos trabalhadores, estimular mais colegas a lutar e mandar um recado a empresa. Nesse sentido, foi um sucesso, apesar de menos de metade dos trabalhadores ter aderido. N\u00f3s n\u00e3o inflacionamos os n\u00fameros das greves, como infelizmente \u00e9 pr\u00e1tica no mundo sindcal. Os trabalhadores tem no\u00e7\u00e3o que s\u00f3 unidos e chegando aos que ainda n\u00e3o se mobilizam podemos vencer. E que esta greve foi s\u00f3 mais um passo. J\u00e1 levam algumas conquistas importantes no caminho, mas pretendem continuar. H\u00e1 poucas vit\u00f3rias maiores que isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 8 de Maio os trabalhadores do call-center da Teleperformance de Set\u00fabal fizeram greve por melhores sal\u00e1rios, estabilidade e contra o ass\u00e9dio moral. 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