{"id":2728,"date":"2018-04-23T13:55:20","date_gmt":"2018-04-23T12:55:20","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/04\/23\/em-abril-sonhou-se\/"},"modified":"2018-04-23T13:55:20","modified_gmt":"2018-04-23T12:55:20","slug":"em-abril-sonhou-se","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/04\/23\/em-abril-sonhou-se\/","title":{"rendered":"Em Abril sonhou-se"},"content":{"rendered":"<p>Duras longas d\u00e9cadas. Encurralados, esmagados pela fome, silenciados pelo medo de um regime repressivo e totalit\u00e1rio. Sofreram, resistiram, fugiram em busca de uma vida melhor em liberdade. Outros foram presos, deportados, torturados e mortos \u00e0s m\u00e3os da ditadura. Foi dura e crua a realidade do povo que sobreviveu a meio s\u00e9culo de vig\u00eancia Salazarista. Se na hist\u00f3ria da humanidade 48 anos \u00e9 um brev\u00edssimo espa\u00e7o de tempo, \u00e0 escala da esperan\u00e7a m\u00e9dia et\u00e1ria de cada um de n\u00f3s \u00e9 de metade de uma vida.<\/p>\n<p>  <!--more-->  A Guerra Colonial em que o pa\u00eds estava envolvido, de onde os jovens regressavam mortos ou mutilados, criou um enorme descontentamento. A Guerra que os povos africanos travaram com o Estado Novo, na luta pela sua independ\u00eancia, foi a causa principal da Revolu\u00e7\u00e3o que iria eclodir na metr\u00f3pole. <\/p>\n<p>O descontentamento, nas For\u00e7as Armadas, levou a que um sector da oficialidade m\u00e9dia do ex\u00e9rcito (MFA) se insurgisse contra o Regime. A escassa base social de apoio ao Regime por esta altura, devido \u00e0 fome e pobreza espalhadas por todo territ\u00f3rio nacional, n\u00e3o permitiu que o Regime se mantivesse.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria colectiva sobre o 25 de Abril continua presente, felizmente ainda por c\u00e1 andam muitas daquelas mulheres e homens que viram o longo pesadelo acabar. A longa espera terminava, o golpe dos capit\u00e3es foi a fa\u00edsca que detonou o paiol. Os capit\u00e3es esperavam da popula\u00e7\u00e3o apoio, mas n\u00e3o imaginariam que o povo quisesse ser o protagonista da mudan\u00e7a. O sonho de um pa\u00eds livre, solid\u00e1rio, igualit\u00e1rio ganhava contornos reais.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o agigantou-se, encheu-se de uma alegria contagiante. A pobreza, a mis\u00e9ria, o isolamento pareciam finalmente chegar ao fim. A classe trabalhadora, martirizada pelo trabalho duro em troca de sal\u00e1rios parcos, lan\u00e7ou-se \u00e0 conquista.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ava. O que meses antes parecia uma utopia, agora estava ali <em>\u201ccomo bola colorida entre as m\u00e3os de uma crian\u00e7a\u201d<\/em>. Assembleias, manifesta\u00e7\u00f5es, greves, ocupa\u00e7\u00f5es foram o quotidiano da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a energia revitalizadora de quem sa\u00eda de um longo cativeiro, com a \u00e2nsia de recuperar tempo roubado e ousar por uma vida nova. O povo explorado galvanizou-se e partiu para a luta. Mobilizou-se, protestou, discutiu e exigiu. Constru\u00edram-se comiss\u00f5es de trabalhadores, comiss\u00f5es de moradores, exigiram-se aumentos de sal\u00e1rio e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Cria-se o sal\u00e1rio m\u00ednimo, h\u00e1 aumento do sal\u00e1rio m\u00e9dio (vivia-se, na \u00e9poca, a maior crise petrol\u00edfera desde a II Guerra Mundial).<\/p>\n<p><em>\u201cO que a revolu\u00e7\u00e3o conquistou em dezoito meses, a rea\u00e7\u00e3o consumiu dezoito anos para destruir e, ainda assim, n\u00e3o conseguiu anular todas as conquistas sociais alcan\u00e7adas pelos trabalhadores. Depois de ter incendiado durante um ano e meio as esperan\u00e7as de uma gera\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios e jovens, a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa colidiu em obst\u00e1culos intranspon\u00edveis. A revolu\u00e7\u00e3o portuguesa, a tardia, a democr\u00e1tica, teve o seu momento \u00e0 deriva, descobriu-se perdida e terminou derrotada. Mas foi, desde o in\u00edcio, filha da revolu\u00e7\u00e3o colonial africana e merece ser chamada pelo seu nome mais temido: revolu\u00e7\u00e3o social.\u201c<\/em><sup>1<\/sup><\/p>\n<p>Grandes herdades e f\u00e1bricas ocupadas pelos trabalhadores. De todo o povo que se rebelava, os oper\u00e1rios industriais e os trabalhadores agr\u00edcolas do Ribatejo e Alentejo, surpresos com a sua pr\u00f3pria for\u00e7a, avan\u00e7avam destemidamente e atemorizavam a burguesia, quer a oposicionista ao antigo Regime quer a colaboracionista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A Contra-Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Tal como em todas as outras revolu\u00e7\u00f5es, houve de imediato a resposta do sector que se opunha \u00e0 mudan\u00e7a. Foram inicialmente tentados dois golpes que fracassaram. S\u00f3 em Novembro de 1975, atrav\u00e9s de um auto-golpe preparado pelo sector mais reaccion\u00e1rio das FA, se restabelece a cadeia de comando dentro do MFA e leva a cabo uma poderosa purga para varrer os elementos mais \u00e0 esquerda. Esta posi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a da burguesia entrela\u00e7ou-se com a for\u00e7a da mentira e do medo usadas em larga escala. Os partidos PSD\/CDS que davam abrigo aos aliados do Estado Novo, e por outro lado, o PS e o PCP, estavam juntos para assegurar uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, ou seja, consolidar a mudan\u00e7a do Regime, mas manter inalterado o Sistema, o Regime e o Estado capitalistas. As <em>fake-news,<\/em> financiadas com dinheiros do imperialismo, espalharam-se pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A direita, o PS e o imperialismo mundial, com temor da mobiliza\u00e7\u00e3o popular e da for\u00e7a organizativa do PCP (e da possibilidade das suas bases e apoiantes ultrapassarem as suas direc\u00e7\u00f5es), amedrontavam as popula\u00e7\u00f5es com um hipot\u00e9tico golpe do PCP para transformar o pa\u00eds \u201cnuma ditadura comunista\u201d.<\/p>\n<p>A radicalidade da situa\u00e7\u00e3o portuguesa, e o \u201cgirar \u00e0 esquerda\u201d da classe trabalhadora e dos sectores interm\u00e9dios, leva a que os partidos de direita, para sobreviverem, proclamem, hipocritamente, os ideais da esquerda.<\/p>\n<p>Vale a pena recordar Freitas do Amaral e S\u00e1 Carneiro para vermos at\u00e9 onde a direita pode ir:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ilqlZX2QUMg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ilqlZX2QUMg<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qJbMcQTIVHs\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qJbMcQTIVHs<\/a><\/p>\n<p>Recordemos a s\u00e1bia quadra de Zeca Afonso, na sua m\u00fasica \u201cviva o poder popular\u201d:<\/p>\n<p><em>\u201cA palavra socialismo<\/em><\/p>\n<p><em>como est\u00e1 hoje mudada<\/em><\/p>\n<p><em>de colarinho \u00e0 Texas<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>Sempre muito aperaltada\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia feminina ao Estado Novo<\/strong><\/p>\n<p>O Regime oprimia a mulher a todos os n\u00edveis: desde o trabalho, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, passando pela fam\u00edlia e quest\u00e3o sexual e amorosa. Ao contr\u00e1rio dos homens que podiam votar desde 1945, mesmo que analfabetos, elas s\u00f3 poderiam votar caso tivessem a escolaridade m\u00ednima obrigat\u00f3ria ou se fossem \u201cchefes de fam\u00edlia\u201d (vi\u00favas ou marido ausente) para al\u00e9m de terem que ser consideradas \u201cid\u00f3neas\u201d. A lei considerava um \u201ccrime de honra\u201d a morte da mulher ad\u00faltera \u00e0s m\u00e3os do seu marido, ou seja, ficava sujeito a uma multa e a um desterro da comarca durante 6 meses.<\/p>\n<p>At\u00e9 1969, quando Marcelo Caetano sucedeu a Salazar, as mulheres s\u00f3 podiam viajar para o estrangeiro com o consentimento do marido. At\u00e9 1973 o adult\u00e9rio era crime. No caso da mulher a pena podia ir de 2 a 8 anos, no caso do homem estava previsto apenas uma multa, caso este levasse a amante para a \u201ccasa conjugal\u201d. Um marido que prostitu\u00edsse a mulher n\u00e3o era preso, sujeitava-se a uma multa, desterro e perda de direitos pol\u00edticos durante 12 anos.<\/p>\n<p>O conceito \u201cchefe de fam\u00edlia\u201d, s\u00f3 desaparece em 1978. At\u00e9 a\u00ed, os maridos detinham a autoridade sobre as mulheres e bens, cabendo-lhes a eles a administra\u00e7\u00e3o dos mesmos. Tinham tamb\u00e9m direito de desautorizar que elas tivessem determinadas actividades profissionais.<\/p>\n<p>As mulheres trabalhadoras, brutalmente oprimidas e exploradas no antigo Regime, libertaram-se das amarras e foram, em determinados momentos, actrizes principais, para surpresa de uns, vergonha de outros e \u00f3dio de alguns, da resist\u00eancia ao Salazarismo. Destacavam-se nos protestos, surpreendiam nas exig\u00eancias, apavoravam a moral vigente. Sa\u00edram das suas vidas privadas de sofrimento, subservi\u00eancia e opress\u00e3o, e foram \u00e0 conquista. Fizeram greves violent\u00edssimas, lutaram arduamente por trabalho digno e pelo direito ao p\u00e3o. Eram Catarinas e Marias, por vezes, contando s\u00f3 com as suas for\u00e7as, uma vez que os maridos (mesmo quando eram contra o Regime), n\u00e3o raras vezes, as desencorajavam de fazer oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1940 o Regime viu-se confrontado com greves fort\u00edssimas que se alastraram por todo territ\u00f3rio nacional. Foram as oper\u00e1rias t\u00eaxteis do distrito de Braga, que logo no inicio da d\u00e9cada (1941), deram o mote para que seria de forte oposi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria ao Estado Novo.<\/p>\n<p>No fim do ano de 1941, na serrana Covilh\u00e3, poderosas greves dos oper\u00e1rios dos lanif\u00edcios paralisam a cidade. Numa das greves que se realizaram na cidade, uma numerosa marcha oper\u00e1ria desfila e desafia as autoridades, nela se destacam as mulheres como principais incitadoras do protesto.<\/p>\n<p><em>\u201cDepois da paralisa\u00e7\u00e3o, em 5 de novembro, de quase todas as f\u00e1bricas, a repress\u00e3o caiu sobre os oper\u00e1rios, n\u00e3o conseguindo, por\u00e9m, evitar que realizassem uma manifesta\u00e7\u00e3o com milhares de pessoas, na qual se destacavam grandes grupos de mulheres\u201d<\/em><sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Na mesma obra, a historiadora Irene Pimentel relata a centralidade da mulher neste per\u00edodo de luta noutros pontos do pa\u00eds (Almada e Barreiro):<\/p>\n<p><em>\u201c(&#8230;)foram vistas mulheres, tradicionalmente arredadas do espa\u00e7o p\u00fablico, a atirar pedras aos el\u00e9tricos conduzidos por fura-greves. Com os filhos no rega\u00e7o, muitas delas tamb\u00e9m participaram nas \u201cmarchas da fome\u201d, bem como nas concentra\u00e7\u00f5es e assaltos \u00e0s lojas. Com bens e g\u00e9neros a\u00e7ambarcados.\u201d<\/em><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da resist\u00eancia \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fez s\u00f3 no masculino, foram muitas aquelas que se libertaram das correntes da opress\u00e3o e lutaram afincada e corajosamente pelos seus direitos. E se o 25 de Abril, do ponto de vista jur\u00eddico, transformou o direito das mulheres a verdade \u00e9 que h\u00e1 ainda um longo caminho a percorrer.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Muito por conquistar<\/strong><\/p>\n<p>Quase meio s\u00e9culo depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril as mulheres continuam a receber menos pelo mesmo trabalho, s\u00e3o a maioria dos pobres, a viol\u00eancia dom\u00e9stica continua a marcar o nosso quotidiano e a benevol\u00eancia com os agressores continua a ser a regra. A for\u00e7a, a aud\u00e1cia e a persist\u00eancia de todas aquelas que lutaram contra o Regime fascista e que sonharam por melhores vidas quando fizeram Abril, iluminam o longo percurso que temos que fazer at\u00e9 \u00e0 igualdade plena entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Castro<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><strong>Notas<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>1<\/sup> Arcary, Val\u00e9rio militante do MAIS e historiador em <a href=\"https:\/\/pt.linkedin.com\/pulse\/revolu%C3%A7%C3%A3o-portuguesa-197475-uma-solit%C3%A1ria-valerio-arcary\">https:\/\/pt.linkedin.com\/pulse\/revolu\u00e7\u00e3o-portuguesa-197475-uma-solit\u00e1ria-valerio-arcary<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>2<\/sup> Pimentel, Irene <em>\u201cHist\u00f3ria da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura (1926-1974)\u201dPorto:Figueirinhas 2014, p\u00e1g 212\u201d<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duras longas d\u00e9cadas. 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