{"id":2700,"date":"2018-04-10T17:05:22","date_gmt":"2018-04-10T16:05:22","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/04\/10\/cinzia-arruzza-existe-o-perigo-de-transformar-o-feminismo-numa-atitude-individual\/"},"modified":"2018-04-10T17:05:22","modified_gmt":"2018-04-10T16:05:22","slug":"cinzia-arruzza-existe-o-perigo-de-transformar-o-feminismo-numa-atitude-individual","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/04\/10\/cinzia-arruzza-existe-o-perigo-de-transformar-o-feminismo-numa-atitude-individual\/","title":{"rendered":"Cinzia Arruzza: \u201cExiste o perigo de transformar o feminismo numa atitude individual\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Julia C\u00e1mara \u00e9 historiadora e ativista feminista e faz parte do comit\u00e9 de reda\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o <em>Poder Popular<\/em>.<\/p>\n<p>Cinzia Arruzza \u00e9 professora de Filosofia na New School for Social Research de Nova York, feminista e militante socialista. O seu livro &#8220;Las sin parte. Matrimonios y divorcios entre el feminismo y el marxismo&#8221; \u00e9 uma obra de refer\u00eancia para compreender a rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do movimento oper\u00e1rio com o movimento pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres. Nascida em It\u00e1lia mas residente nos Estados Unidos, esta vis\u00e3o dupla permite-lhe compreender fen\u00f3menos de um e outro lado do Atl\u00e2ntico. Nesta entrevista fala-nos da rela\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o de g\u00e9nero e de classe, mas tamb\u00e9m dos perigos do purplewashing e dos caminhos que deve tomar o feminismo neste novo ciclo para n\u00e3o se extraviar.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <strong>Julia C\u00e1mara<\/strong>: S\u00e3o v\u00e1rios os textos e artigos nos quais te posicionas a favor da teoria do \u201csistema unit\u00e1rio\u201d, que defende que o patriarcado n\u00e3o existe como um sistema aut\u00f3nomo de opress\u00e3o dentro do capitalismo. Trata-se de uma tese algo pol\u00e9mica entre as especialistas em estudos de g\u00e9nero. Encontraste muitos problemas na hora de defender esta ideia? <\/p>\n<p><strong>Cinzia Arruzza<\/strong>: Sim, efetivamente coloca problemas. Trata-se no entanto de uma posi\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria dentro da teoria feminista, especialmente porque durante os anos noventa e finais dos anos oitenta a teoria feminista perdeu a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise de classe e \u00e0 cr\u00edtica ao capitalismo. Nancy Fraser chegou a dizer, em jeito de provoca\u00e7\u00e3o, que certo tipo de feminismo se teria convertido hoje num meio do capitalismo, do neoliberalismo.\u00a0E se hoje \u00e9 dif\u00edcil para as feministas falar da centralidade da classe e do capitalismo, mais ainda \u00e9 dizer que o patriarcado como sistema j\u00e1 n\u00e3o existe. Existiu, \u00e9 certo, mas sob o capitalismo deixou de existir. Claro, esta \u00e9 uma tese controversa e dif\u00edcil de defender, especialmente porque um dos mal-entendidos consiste em achar que estamos a desvalorizar ou a rejeitar a import\u00e2ncia da opress\u00e3o sobre as mulheres, que a negamos ou que a reduzimos e integramos na explora\u00e7\u00e3o capitalista. E esta n\u00e3o \u00e9 a ideia da teoria unit\u00e1ria. Pelo contr\u00e1rio, n\u00f3s defendemos que a opress\u00e3o das mulheres, a opress\u00e3o de g\u00e9nero no geral, \u00e9 absolutamente perversa e est\u00e1 muito presente, e que realmente deveria converter-se numa das prioridades principais de qualquer tipo de movimento de classe. Pelo que, ao contr\u00e1rio do que se diz, estamos insistindo na sua centralidade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, devido ao car\u00e1cter espec\u00edfico do capitalismo, ao modo como a acumula\u00e7\u00e3o capitalista funciona (tendendo \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 totaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais pr\u00e9vias) as bases materiais do patriarcado foram corro\u00eddas. E isso acontece de uma forma mais acentuada nos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, mas de certo modo tamb\u00e9m \u00e9 certo para os pa\u00edses sem capitalismo avan\u00e7ado, no sentido em que inclusive os pa\u00edses onde as rela\u00e7\u00f5es patriarcais organizam aspetos como a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos \u00a0est\u00e3o integrados no mercado capitalista global. Pelo que o modo em que estas rela\u00e7\u00f5es patriarcais funcionam j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais o modo como funcionavam, porque est\u00e3o moldados e influenciados pelos constructos criados por exemplo pelo colonialismo e imperialismo. H\u00e1 tamb\u00e9m alguns trabalhos hist\u00f3ricos que sustentam que nestas sociedades, especialmente sociedades sem classes, a opress\u00e3o de g\u00e9nero foi introduzida pelo colonialismo, n\u00e3o existia antes da chegada europeia. Por isso \u00e9 muito complicado falar, incluindo nestes casos, de rela\u00e7\u00f5es patriarcais que n\u00e3o estejam influenciadas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> H\u00e1 algumas feministas ind\u00edgenas que sustentam que na Am\u00e9rica Latina existia um sistema patriarcal pr\u00e9vio, que elas chamam \u201cpatriarcado original\u201d, e que o colonialismo europeu introduziu um \u201csegundo patriarcado\u201d. O que defendem \u00e9 que este sistemas interagem entre eles. Ser\u00e1 que poder\u00edamos olhar para este segundo sistema patriarcal como uma consequ\u00eancia do capitalismo? Porque na realidade o que est\u00e3o defendendo \u00e9 que o patriarcado como um sistema \u00fanico e estruturado globalmente n\u00e3o existe.<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Sim, exato. Na realidade, um dos problemas com o feminismo radical dos anos 70 \u00e9 que em certo modo assumia a exist\u00eancia de um \u201cpatriarcado global\u201d que funcionava do mesmo modo em todos os lugares e que estava sempre presente. E isto n\u00e3o est\u00e1 certo. Atualmente numerosos estudos antropol\u00f3gicos esclareceram que, em geral, nas sociedades sem classes existiu uma certa igualdade de g\u00e9nero, pelo que n\u00e3o \u00e9 certo que exista uma falha de origem que sempre tenha l\u00e1 estado. E se existiu, est\u00e1 claro que nem sempre funcionou igual, pelo que em qualquer caso podemos afirmar que o patriarcado sempre foi diferencial e nunca funcionou como um sistema global e original.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Alguns grupos feministas atacaram esta teoria, argumentando que relativiza a import\u00e2ncia da opress\u00e3o de g\u00e9nero. Queria perguntar-te se tamb\u00e9m encontraste grupos que utilizam a teoria do sistema unit\u00e1rio precisamente para isto, para argumentar que a opress\u00e3o de g\u00e9nero n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante.<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> N\u00e3o, na verdade n\u00e3o. \u00c9 certo que na tradi\u00e7\u00e3o marxista existem numerosas organiza\u00e7\u00f5es que sustentam que a opress\u00e3o de g\u00e9nero \u00e9 uma opress\u00e3o secund\u00e1ria, e temos importantes exemplos hist\u00f3ricos disso, mas na realidade quem se interessou pela teoria unit\u00e1ria s\u00e3o pensadoras feministas, que tendem em todo o caso ao contr\u00e1rio. Em todo o caso devemos compreender que para que Marx seja \u00fatil para entender a problem\u00e1tica das mulheres \u00e9 necess\u00e1rio que sejamos capazes de trabalhar com as categorias marxistas, mas tamb\u00e9m transform\u00e1-las e complement\u00e1-las. N\u00e3o podemos tratar as teorias marxistas simplesmente como ideias predefinidas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m creio que existe um certo receio de atacar a teoria unit\u00e1ria, porque realmente as suas defensoras estiveram historicamente muito implicadas no feminismo.\u00a0O que a teoria unit\u00e1ria tenta dizer \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o entre o capitalismo e o patriarcado n\u00e3o \u00e9 simplesmente contingente, sen\u00e3o que a opress\u00e3o de g\u00e9nero \u00e9 necessariamente produzida e reproduzida pelo capitalismo. Pelo que, se queremos libertar as mulheres, \u00e9 necess\u00e1rio nos libertarmos do capitalismo. Frequentemente nas posi\u00e7\u00f5es marxistas se relativiza a opress\u00e3o de g\u00e9nero, mas nas posi\u00e7\u00f5es opostas. Afinal, dizer que a rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo e patriarcado \u00e9 s\u00f3 contingente \u00e9 dizer que em algumas situa\u00e7\u00f5es ser\u00e1 \u00fatil para o capitalismo aproveitar-se da opress\u00e3o de g\u00e9nero, mas que em outras \u00e9 uma barreira, um obst\u00e1culo, e que, em qualquer caso, sob o capitalismo as mulheres podem aspirar a libertar-se muito mais que em qualquer sociedade pr\u00e9via. E tamb\u00e9m h\u00e1 uma relativiza\u00e7\u00e3o aqui, nesta forma de compreender como funciona a opress\u00e3o das mulheres na sociedade capitalista. Pelo que acho que a partir de ponto de vista te\u00f3rico \u00e9 preciso diferenciar-se.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Na atualidade est\u00e3o surgindo muitos novos grupos ativistas com mulheres muito jovens e tenho a impress\u00e3o de que se trata de uma rela\u00e7\u00e3o intergeracional complicada. Em certo modo estes grupo n\u00e3o t\u00eam em conta a produ\u00e7\u00e3o feminista pr\u00e9via ou inclusive as ideias e teorias que se est\u00e3o desenvolvendo na atualidade, e pode parecer que se aproximam do feminismo de uma maneira essencialista e moralista. Que elementos consideras mais interessantes desta nova onda e como podemos ultrapassar esta lacuna?<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Concordo que uma certa lacuna geracional se est\u00e1 a criar. Creio que os temas principais tratados pelo feminismo jovem derivam, por um lado, de uma crise nas pol\u00edticas de identidade, ainda que como dizias continua havendo uma essencializa\u00e7\u00e3o da identidade feminina e inclusive do pensamento pol\u00edtico estrat\u00e9gico: alian\u00e7as, lutas, etc. mas por outro lado encontramos tamb\u00e9m a influ\u00eancia das teorias queer, que tratam precisamente de desessencializar as identidades e que s\u00e3o mais inclusivas por exemplo com as mulheres trans. Penso que este desenvolvimento \u00e9 muito mais positivo. E uma das caracter\u00edsticas, especialmente da vertente feminista queer, \u00e9 um novo modo de interagir com os corpos. Uma positividade diferente sobre o pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>De certo modo o feminismo radical dos anos 70 (n\u00e3o todo, mas sim uma parte) acabou se convertendo, como rea\u00e7\u00e3o que foi contra o patriarcado, a opress\u00e3o patriarcal e a vis\u00e3o masculina, em uma censura \u00e0 beleza. No sentido da sua cr\u00edtica \u00e0 pornografia, a estigmatiza\u00e7\u00e3o de certos comportamentos das mulheres, a prescri\u00e7\u00e3o de certas atitudes como a recusa \u00e0 depila\u00e7\u00e3o ou \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o aos estere\u00f3tipos femininos no modo de vestir, etc. Pelo que gerou tamb\u00e9m um elemento normalizador, imp\u00f4s um modelo para as mulheres que queriam ser livres. E penso que por sorte isso est\u00e1 praticamente acabado, e hoje em dia as feministas mais jovens t\u00eam uma atitude mais positiva e mais interessante face ao desejo, \u00e0 apar\u00eancia corporal, ao modo como cada qual vive o seu corpo.. Em primeiro lugar, creio que h\u00e1 uma maior positividade corporal, um maior disfrutar do pr\u00f3prio corpo entendendo que em todo o caso isso n\u00e3o corresponde \u00e0 busca de valida\u00e7\u00e3o masculina sen\u00e3o a uma posi\u00e7\u00e3o pessoal e coletiva. E h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o mais s\u00e3 com o desejo, porque claro que necessitamos pensar sobre como se constr\u00f3i o nosso desejo, mas tamb\u00e9m temos que desideologizar. Eu penso que quando a pol\u00edtica se entranha demasiado no desejo pode criar um desastre.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Sim, est\u00e1 claro. Podemos v\u00ea-lo em v\u00e1rios per\u00edodos.<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Sim, e de certa forma temos que aceit\u00e1-lo! \u00c9 certo, qui\u00e7\u00e1 as nossas fantasias sexuais sejam o produto desta sociedade sexista, mas podemos viver com isso\u2026s\u00e3o fantasias sexuais. Nada est\u00e1 mal, nada est\u00e1 necessariamente mal com isso. E creio que esta ideia se desenvolveu muito positivamente entre as feministas mais jovens. Porque tamb\u00e9m h\u00e1 caminhos pelos quais a teoria feminista pode converter-se realmente em opressora para as mulheres, desencadear um ju\u00edzo sobre as mulheres que aparentemente se conformam com os estere\u00f3tipos masculinos, mudar uma opress\u00e3o por outra.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Se h\u00e1 algo que se pode observar nesta nova \u201conda\u201d, se \u00e9 que a podemos chamar assim, \u00e9 precisamente essa tentativa de reconhecer e aceitar como v\u00e1lidas todas as formas em que as mulheres escolham viver. Qui\u00e7\u00e1 poder\u00edamos falar por fim de um fruto bom da p\u00f3s-modernidade\u2026 (risos). Este novo movimento se esfor\u00e7a muito por reconhecer a interseccionalidade, \u00e9 muito interessante a maneira como se relaciona com a quest\u00e3o antirracista ou com a luta contra a islamofobia. E no entanto, a aus\u00eancia de desenvolvimento te\u00f3rico est\u00e1 levando a reconhecer como \u201cv\u00e1lidas\u201d todas as manifesta\u00e7\u00f5es elaboradas pelos sujeitos oprimidos. Este poder\u00e1 ser um perigo? Como se pode evitar este retorno ao individualismo?<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Sim, claro: o risco \u00e9 cair em certo tipo de relativismo no qual a verdade individual \u00e9 sempre a correta. E isto \u00e9 problem\u00e1tico, porque n\u00e3o \u00e9 assim, n\u00f3s tomamos decis\u00f5es sobre o modo como as condi\u00e7\u00f5es nos influenciam, por muito que nos influenciem for\u00e7adamente. Existe o perigo de transformar o feminismo numa atitude individual. Por outras palavras: me liberto a mim mesma, decido sobre como me visto, decido como vivo o meu desejo, etc. Neste sentido isto \u00e9 \u00fatil, porque mostra como a estrutura social determina as nossas decis\u00f5es e os nossos padr\u00f5es de vida. Mas por outro lado \u00e9 preciso priorizar a luta coletiva, isto \u00e9: mudar o foco da identidade para a luta, \u00e0 luta coletiva. Creio que esta \u00e9 uma das tarefas que enfrentamos, ainda que obviamente n\u00e3o seja simples.<\/p>\n<p>E n\u00e3o creio que o marxismo n\u00e3o tenha nada a dizer sobre isto ou sobre a quest\u00e3o da identidade. As identidades nunca foram fixas nem eternas nem hist\u00f3ricas, e a luta tem um papel na transforma\u00e7\u00e3o das identidades. Quando as pessoas participam nas lutas, realmente se est\u00e3o a transformar a si mesmas, mudam, questionam as coisas que pensavam serem certas, adquirem novos pontos de vista. E penso que provavelmente isto contrasta com as pol\u00edticas de identidade, que cristalizam e fetichizam as identidades. Diante isto devemos insistir na centralidade da luta, atrav\u00e9s da qual as identidades se transformam e perdem de vez o medo desta transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Creio que esta \u00e9 uma boa resposta \u00e0 ideia de que o sujeito oprimido tem sempre raz\u00e3o. \u00c9 \u00f3bvio que os sujeitos oprimidos nem sempre t\u00eam raz\u00e3o! Os sujeitos oprimidos t\u00eam o direito de estarem errados, exatamente como todo o mundo. A quest\u00e3o \u00e9 que obviamente n\u00e3o se pode conceber um projeto de liberta\u00e7\u00e3o sem ter em conta que as pessoas oprimidas devem libertar-se a si mesmas, mas isto n\u00e3o quer dizer que t\u00eam sempre raz\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m um certo elemento paternalista em quem diz \u201coh, tu \u00e9s oprimida, pelo que sempre tens raz\u00e3o\u201d. Acho que \u00e9 muito mais respeitoso, que se reconhe\u00e7a em maior grau que a outra pessoa \u00e9 efetivamente uma pessoa, e que numa discuss\u00e3o tens a liberdade de n\u00e3o concordar. Isto permite que numa conversa se possam encontrar pontos em comum.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Retomando a ideia de luta, parece-me interessante falar um pouco sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o movimento \u201cBlack Lives Matter\u201d que se est\u00e1 a desenvolver nos Estados Unidos e a opress\u00e3o das mulheres. Constitui o g\u00e9nero um fator diferencial neste movimento e na maneira em que \u00e9 tratado?<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> De facto, um dos elementos interessantes de \u201cBlack Lives Matter\u201d \u00e9 que as mulheres foram de fato as mais vis\u00edveis: muitas das organizadoras mais importantes s\u00e3o mulheres. E claro isto tem consequ\u00eancias. Por exemplo, organizaram-se manifesta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas sobre \u201cBlack Women Lifes\u201d, como a que se organizou em Nova York no m\u00eas de julho. Trata-se de uma via de desenvolvimento crucial e esperamos que continue, porque ainda que esteja claro que estatisticamente h\u00e1 uma maior propor\u00e7\u00e3o de homens na pris\u00e3o, h\u00e1 caracter\u00edsticas particulares nas deten\u00e7\u00f5es policiais de mulheres negras: viola\u00e7\u00f5es, humilha\u00e7\u00f5es, casos em que a pol\u00edcia rapou as mulheres nas esquadras\u2026ferramentas tradicionalmente espec\u00edficas da repress\u00e3o de g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Durante a escravatura as mulheres negras n\u00e3o foram tratadas s\u00f3 como escravas, mas tamb\u00e9m como pertences sexuais, e a viola\u00e7\u00e3o foi sistematicamente empregada como forma de disciplina. Isto derivou em parte numa hipersexualiza\u00e7\u00e3o de estas: por um lado, v\u00eaem-se esteticamente desvalorizadas por causa do seu cabelo, porque n\u00e3o correspondem com o que \u00e9 visto como c\u00e2none universal de beleza (que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o c\u00e2none branco e ocidental); por outro lado, s\u00e3o consideradas sexualmente ex\u00f3ticas, prom\u00edscuas, etc. Em certo modo os homens negros tamb\u00e9m foram hipersexualizados, no seu caso atrav\u00e9s da figura dos negros predadores sexuais. Pelo que se diria que \u00e9 imposs\u00edvel, se examinamos o modo em que o racismo se desenvolveu historicamente nos Estados Unidos, separar o discurso racial do discurso de g\u00e9nero, pois realmente se desenvolveram de maneira conjunta.<\/p>\n<p>Neste sentido, tamb\u00e9m com uma certa perspetiva hist\u00f3rica, creio que \u201cBlack Lives Matter\u201d realmente lhe est\u00e1 dando uma especial import\u00e2ncia \u00e0s mulheres negras. Est\u00e3o sendo organizadas manifesta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas em torno da vida das mulheres negras, e acho que a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Nos anos 80 e no in\u00edcio dos 90, uma parte do movimento feminista branco dos Estados Unidos e tamb\u00e9m da Gr\u00e3 Bretanha organizou uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es noturnas chamadas \u201cA noite e a rua tamb\u00e9m s\u00e3o nossas\u201d, focadas na viol\u00eancia sexual e nas agress\u00f5es constantes.\u00a0 As marchas costumavam desenvolver-se pelos bairros negros das cidades e isto potenciou essa imagem de que falavas antes dos homens negros como predadores sexuais. Est\u00e3o surgindo problemas similares na atualidade? Qual \u00e9 a atitude do feminismo liberal com respeito ao \u201cBlack Lives Matter\u201d?<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Pois realmente depende. H\u00e1 um apoio geral do movimento feminista branco, os problemas chegam quando h\u00e1 dist\u00farbios (risos). J\u00e1 sabemos que n\u00e3o s\u00f3 as feministas liberais, mas os liberais em geral, t\u00eam problemas com os dist\u00farbios. E isto \u00e9 um problema, porque podemos debater estrategicamente sobre o que \u00e9 mais \u00fatil politicamente, mas n\u00e3o podes moralizar acerca do comportamento de pessoas que est\u00e3o fartas de ser constantemente detidas, assassinadas, que passam dia sim e dia n\u00e3o na pris\u00e3o por nada, que foram reduzidas ao trabalho escravo dentro da pris\u00e3o e \u00e0quelas em quem se dispara por n\u00e3o quererem abrandar o carro\u2026N\u00e3o podes imaginar o n\u00edvel de viol\u00eancia a que estas pessoas est\u00e3o sujeitas nos Estados Unidos. Mas em geral sim existe um apoio, pelo menos formal, ao movimento \u201cBlack Lives Matter\u201d.<\/p>\n<p>Bom respeito ao tema da seguran\u00e7a sim h\u00e1 problemas. Por exemplo, faz dois ou tr\u00eas anos uma organiza\u00e7\u00e3o fez um v\u00eddeo sobre <em>catcalling<\/em> (vulgar piropo), que consistia basicamente numa mulher branca gravando durante 8 horas enquanto passeava por Nova York, com o objetivo de registar quantas vezes era interpelada. Estas horas se condensaram depois numa curta de seis minutos. E aqui houve um problema grande, porque quando os materiais foram selecionados houve uma despropor\u00e7\u00e3o no n\u00famero de homens latinos e negros que assediavam a mulher. Claro que isto contribu\u00eda para perpetuar o mito do violador negro, dando a impress\u00e3o de que, afinal\u2026quem s\u00e3o os homens que normalmente costumam assediar nas ruas? Mais uma vez, vemos como esta falta de sensibilidade sobre a hist\u00f3ria do racismo nos Estados Unidos gera problemas. Ainda que se diga que h\u00e1 um apoio formal ao movimento \u201cBlack Lives Matter\u201d, esta \u00e9 uma coisa, e outra muito distinta \u00e9 realmente adotar posturas antirracistas profundas. Para isso \u00e9 preciso conhecer a hist\u00f3ria do racismo no pa\u00eds, com o objetivo de evitar a reprodu\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos. O mais dif\u00edcil aqui foi que quando houve protesto e se acedei ao material completo da grava\u00e7\u00e3o, nessas nove horas de v\u00eddeo havia muitos homens brancos a assediar a mulher. Ent\u00e3o, porque puderam um? Como n\u00e3o pensaram nisto?<\/p>\n<p>Acho que ainda h\u00e1 muito por fazer. O ass\u00e9dio nas ruas \u00e9 um problema, claro, mas n\u00e3o \u00e9 a pior forma de viol\u00eancia contra a mulher. Por exemplo, as viola\u00e7\u00f5es nas cidades universit\u00e1rias s\u00e3o end\u00e9micas nos Estados Unidos, e s\u00e3o sempre realizadas por homens brancos. E a maior parte das agress\u00f5es prov\u00eam de familiares ou pessoas pr\u00f3ximos ao meio familiar. Porque falar de <em>catcalling<\/em> sem contextualizar, sem explicar que se d\u00e1 em um contexto onde a viol\u00eancia de g\u00e9nero \u00e9 extrema e acontece mais vezes no interior dos locais do que na rua, pode gerar mal-entendidos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Continuando com o tema da interseccionalidade e o <em>purplewashing<\/em>, podemos avan\u00e7ar para a quest\u00e3o da islamofobia. N\u00e3o sei se em ingl\u00eas existe um termo concreto para o que me castelhano chamamos de \u201cislamofobia de g\u00e9nero\u201d, um conceito que se come\u00e7a a teorizar como resposta ao atual panorama pol\u00edtico e social.<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Gosto do termo, porque \u00e9 certo que h\u00e1 uma dimens\u00e3o muito forte de g\u00e9nero na islamofobia, em v\u00e1rios sentidos. Determinado discurso feminista foi cooptado com a inten\u00e7\u00e3o de justificar a islamofobia, e este \u00e9 um dos principais problemas que o feminismo deve encarar na Europa. Encontramo-nos numa situa\u00e7\u00e3o na qual o feminismo corre o real risco de ser c\u00famplice de um dos piores fen\u00f3menos racistas em muito tempo. A rea\u00e7\u00e3o de muitas feministas liberais a respeito da proibi\u00e7\u00e3o do <em>burkini<\/em>, por exemplo em It\u00e1lia, onde estiveram a favor, \u00e9 algo honestamente vergonhoso e problem\u00e1tico. Significa que de facto n\u00e3o fomos capazes de escapar \u00e0 nossa \u201cbranquitude\u201d e revela at\u00e9 que n\u00edvel a islamofobia est\u00e1 se armando como movimento de massas. E h\u00e1 tamb\u00e9m um elemento imperialista na ideia de que o Estados Europeus, neste caso a Fran\u00e7a, t\u00eam a tarefa de \u201clibertar\u201d e de faz\u00ea-lo, ainda por cima, atrav\u00e9s da pol\u00edcia, que \u00e9 na verdade o Estado o que est\u00e1 constru\u00eddo para oprimir as mulheres. Pelo que creio que a discuss\u00e3o sobre dimens\u00e3o de g\u00e9nero \u00e9 absolutamente crucial, pois estamos da situa\u00e7\u00e3o paradoxal de que a opress\u00e3o das mulheres mu\u00e7ulmanas pelos Estados Europeus \u00e9 justificada com argumentos racistas por mulheres que dizem ser feministas. Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que as mulheres mu\u00e7ulmanas estejam sempre certas, como em geral os sujeitos oprimidos n\u00e3o est\u00e3o sempre certos, mas as estruturas de opress\u00e3o fazem com que diretamente n\u00e3o possamos ouvir a sua voz, n\u00e3o porque n\u00e3o falam mas porque n\u00e3o lhes \u00e9 cedido esse espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Spyvak de novo..<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Sim! No caso do <em>burkini<\/em>, os pol\u00edticos franceses falaram sobre ele, as feministas brancas e italianas falaram sobre ele\u2026E onde se ouve a voz das mulheres implicadas? Em parte nenhuma, porque n\u00e3o t\u00eam voz, n\u00e3o t\u00eam nenhuma possibilidade de expressar-se por si mesmas. Estamos replicando em alguns casos a opress\u00e3o de que precisamente atacamos os homens mu\u00e7ulmanos. Pelo que penso que as resist\u00eancias que constru\u00edmos contra a islamofobia deveriam converter-se na principal prioridade da esquerda europeia. Estamos numa situa\u00e7\u00e3o verdadeiramente perigosa e aterradora.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Especialmente porque, al\u00e9m da islamofobia como exemplo concreto, estamos vendo de novo como os problemas gerais procuram ser solucionados atrav\u00e9s dos corpos das mulheres.<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Sim, completamente. Creio que h\u00e1 um fator de verdadeira obsess\u00e3o com os corpos das mulheres mu\u00e7ulmanas. Isto \u00e9 algo sobre o que j\u00e1 escreveu Fanon faz 50 anos: um dos aspetos do colonialismo \u00e9 o desejo de desvelar as mulheres mu\u00e7ulmanas, de despi-las.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Sim, \u00e9 como ver de novo a campanha de Arg\u00e9lia\u2026<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Exato, o fen\u00f3meno repete-se. A imagem de uma mulher mu\u00e7ulmana rodeada por pol\u00edcias franceses que a fazem despir-se creio que \u00e9 uma das imagens mais violentas que j\u00e1 vi, em termos de viol\u00eancia de g\u00e9nero, em muito tempo. Creio que a obsess\u00e3o muito colonialista por tomar posse do corpo das mulheres mu\u00e7ulmanas, um desejo de exp\u00f4-las, de faz\u00ea-las sentirem-se seminuas diante dos homens brancos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>J.C.:<\/strong> Quem sabe as novas lutas que nos cabem organizar neste per\u00edodo complexo tenham muito que ver com este exemplo da islamofobia de g\u00e9nero. Cr\u00eas que este tipo de agress\u00f5es que combinam problem\u00e1tica racial, colonialista e de g\u00e9nero preconizam o modelo das pr\u00f3ximas agress\u00f5es das quais nos cabe defender?<\/p>\n<p><strong>C.A.:<\/strong> Completamente. Isto \u00e9 algo b\u00e1sico se queremos tentar criar as condi\u00e7\u00f5es para um novo movimento feminista na Europa. O que \u00e9 um pouco paradoxal neste feminismo liberal franc\u00eas, mas tamb\u00e9m italiano, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 forma de ser capaz de abrir um di\u00e1logo com as mulheres mu\u00e7ulmanas, nem de organizar-se conjuntamente com elas nem de lutar conjuntamente com elas, sem converter a luta contra a islamofobia uma prioridade. N\u00e3o existe maneira. Certamente n\u00e3o se trata de apoiar com slogans e pancartas, mas sim de ter a possibilidade que criar grupos feministas que incluam as mulheres mu\u00e7ulmanas. E porque deveriam elas unirem-se? Se n\u00f3s estamos a sustentar certo tipo de ass\u00e9dio contra elas? Porque deveriam elas interessar-se por n\u00f3s? Somos os inimigo, somos parte do problema para elas. Ou em qualquer caso, n\u00e3o somos parte da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Devemos pensar muito cuidadosamente sobre como constru\u00edmos um feminismo interseccional na Europa, o que significa aceitar que certos aspetos que n\u00e3o s\u00e3o considerados feministas num primeiro momento podem converter-se em tem\u00e1ticas feministas. De novo, por exemplo, os direitos das migrantes. A luta contra a islamofobia e pelos direitos das mulheres migrantes, pelos seus direitos laborais, \u00e9 fundamental. Existe uma enorme massa de mulheres migrantes que s\u00e3o exploradas para obter a m\u00e1xima margem de lucro, e sem trabalhar pelos seus direitos jamais seremos capazes de unir estas mulheres ao movimento feminista. Porque para elas, o seu \u201cbrexit\u201d particular \u00e9 precisamente este: o ass\u00e9dio racial. E v\u00eam denunciando-o j\u00e1 faz mais de 40 anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>VIENTO SUR N\u00famero 148\/Octubre 2016<\/em><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Originalmente publicado em\u00a0<a href=\"http:\/\/vientosur.info\/spip.php?article11829\">http:\/\/vientosur.info\/spip.php?article11829<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o do MAS<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julia C\u00e1mara \u00e9 historiadora e ativista feminista e faz parte do comit\u00e9 de reda\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o Poder Popular. Cinzia Arruzza \u00e9 professora de Filosofia na New School for Social Research de Nova York, feminista e militante socialista. O seu livro &#8220;Las sin parte. Matrimonios y divorcios entre el feminismo y el marxismo&#8221; \u00e9 uma obra de refer\u00eancia para compreender a rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do movimento oper\u00e1rio com o movimento pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres. Nascida em It\u00e1lia mas residente nos Estados Unidos, esta vis\u00e3o dupla permite-lhe compreender fen\u00f3menos de um e outro lado do Atl\u00e2ntico. Nesta entrevista fala-nos da rela\u00e7\u00e3o entre a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2699,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[68],"tags":[116,371,114,115,368,117],"class_list":["post-2700","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher","tag-alternativa","tag-feminismo","tag-mas","tag-movimento","tag-mulher","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cinzia_arruzza.jpg?fit=500%2C230","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2700"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2700\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2699"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}