{"id":2623,"date":"2018-03-08T14:17:54","date_gmt":"2018-03-08T13:17:54","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/03\/08\/a-divisao-sexual-do-trabalho\/"},"modified":"2022-11-12T16:10:36","modified_gmt":"2022-11-12T15:10:36","slug":"a-divisao-sexual-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/03\/08\/a-divisao-sexual-do-trabalho\/","title":{"rendered":"A divis\u00e3o sexual do trabalho"},"content":{"rendered":"<p>\u201cAs condi\u00e7\u00f5es em que vivem homens e mulheres n\u00e3o s\u00e3o produtos de um destino biol\u00f3gico, mas s\u00e3o antes de tudo constru\u00e7\u00f5es sociais. Homens e mulheres n\u00e3o s\u00e3o uma cole\u00e7\u00e3o \u2013 ou duas cole\u00e7\u00f5es \u2013 de indiv\u00edduos biologicamente distintos. Eles formam dois grupos sociais que est\u00e3o engajados em uma rela\u00e7\u00e3o social espec\u00edfica: as rela\u00e7\u00f5es sociais de sexo. Estas, como todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, t\u00eam uma base material, no caso o trabalho, e se exprimem atrav\u00e9s da divis\u00e3o social do trabalho entre os sexos, chamada, de maneira concisa: divis\u00e3o sexual do trabalho.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Dani\u00e8le Kergoat<\/p>\n<p><!--more-->  A divis\u00e3o sexual do trabalho pode, muito resumidamente, ser definida como a divis\u00e3o de atribui\u00e7\u00f5es, tarefas e lugares sociais para mulheres e homens, decorrentes das rela\u00e7\u00f5es sociais de sexo. Tem por caracter\u00edstica a destina\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria dos homens a atividades produtivas (atividades vis\u00edveis e de forte valor social, trabalho remunerado) e a mulheres \u00e0 esfera reprodutiva (atividades relacionadas a cuidados e afazeres dom\u00e9sticos, trabalho invis\u00edvel, n\u00e3o remunerado, sendo como que a paga pelo seu sustento).<\/p>\n<p>Foi nessa dicotomia entre o p\u00fablico e o privado que se consubstanciou a divis\u00e3o sexual do trabalho (homens provedores\/mulheres cuidadoras). Aos homens eram atribu\u00eddas as fun\u00e7\u00f5es da for\u00e7a e da raz\u00e3o, \u00e0s mulheres as da \u201cnatureza\u201d e \u201csensibilidade\u201d. Assim, as atribui\u00e7\u00f5es sociais, ao mesmo tempo que limitavam as mulheres a permanecerem no espa\u00e7o privado, delegavam aos homens, como &#8220;destino natural&#8221;, o espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Com as transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, socioecon\u00f3micas, culturais e a for\u00e7a do movimento feminista do s\u00e9c. XX, as mulheres come\u00e7aram a ocupar o espa\u00e7o p\u00fablico surgindo novas configura\u00e7\u00f5es que fragilizaram a dicotomia p\u00fablico e privado, mulher cuidadora e homem provedor.<\/p>\n<p>Apesar da entrada da mulher na esfera p\u00fablica a divis\u00e3o sexual do trabalho continua a existir e \u00e9 uma das bases da opress\u00e3o sobre a mulher. A mulher, embora esteja presente na esfera p\u00fablica, continua a ser a protagonista do espa\u00e7o privado, originando a chamada \u201cdupla jornada de trabalho\u201d. Ela trabalha dentro e fora de casa, continuando a ser vista como a \u201cnatural\u201d cuidadora, recaindo novamente sobre ela a responsabilidade dos afazeres dom\u00e9sticos e cuidado do lar. Um estudo da ONU revela que as mulheres fazem diariamente 302 minutos de trabalho dom\u00e9stico e assist\u00eancia a dependentes, os homens chegam aos 77 minutos.<\/p>\n<p>Esta atribui\u00e7\u00e3o de diferentes pap\u00e9is, para al\u00e9m de ser a respons\u00e1vel pela dupla jornada de trabalho, faz com que os trabalhos atribu\u00eddos \u00e0s mulheres sejam menos valorizados e remunerados, e sendo delas o papel de cuidadoras, faz com que tenham empregos mais prec\u00e1rios, menos hip\u00f3tese de progress\u00e3o na carreira e de acesso a cargos de chefia, pois sendo delas a \u201cnatural\u201d responsabilidade dos filhos e do lar, quem emprega prefere empregar homens e n\u00e3o mulheres, o que torna a mulher menos independente financeiramente, ficando mais exposta \u00e0 viol\u00eancia e a relacionamentos abusivos. Esta quest\u00e3o tamb\u00e9m faz com que muitas mulheres, que querem ter filhos, desistam de os ter pois s\u00e3o \u201cobrigadas\u201d a escolher entre ser m\u00e3e ou ter uma profiss\u00e3o, pois sabem que na pr\u00e1tica e no atual sistema um implica no outro.<\/p>\n<p>A pergunta que se imp\u00f5e \u00e9: como \u00e9 que com as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas na sociedade e a entrada da mulher no espa\u00e7o p\u00fablico, dentro de casa, ou seja, na esfera privada, continua a ser ela a maior respons\u00e1vel pelo trabalho dom\u00e9stico continuando ainda a ser vista como a \u201cnatural\u201d cuidadora e respons\u00e1vel do lar?<\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 no capitalismo! O sistema em que vivemos alimenta esta vis\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o do conceito homem\/mulher com a sua diferencia\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is, hierarquiza\u00e7\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o de um sobre o outro, contribuindo para o n\u00e3o questionamento deste modelo e da sua real mudan\u00e7a. E porqu\u00ea? Porque lucra com isso!<\/p>\n<p>Quanto menos se pagar em sal\u00e1rios mais lucra o patr\u00e3o, portanto quanto mais explorada for a mulher, mais lucra o capitalismo.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o, o trabalho de cuidadoras dom\u00e9sticas ocupa o espa\u00e7o que deveria ser ocupado pelo estado social. \u00c9 atribu\u00eddo \u00e0s mulheres o que deveria ser responsabilidade do estado, e quem \u00e9 que ganha com isso? Novamente o sistema, ou seja, o capitalismo.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de uma rede de creches p\u00fablicas, casas de repouso para idosos, lavandarias, cantinas, deveria ser responsabilidade do estado, n\u00e3o da mulher. Ao capitalismo d\u00e1 jeito o papel de cuidadora dado \u00e0 mulher, pois coloca nela a \u201cresponsabilidade\u201d de realizar essas tarefas, fazendo ela as vezes do estado que lucra com esse trabalho que \u00e9 trabalho e \u00e9 n\u00e3o remunerado.<\/p>\n<p>Segundo dados da ONU, o trabalho n\u00e3o remunerado de cozinhar, limpar a casa, cuidar de crian\u00e7as e idosos,&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/trabalho-de-cuidados-oscila-entre-10-e-39-do-pib-de-paises\/\">representa de 10% a 39% do Produto Interno Bruto (PIB) dos pa\u00edses<\/a>.<\/p>\n<p>Para se terminar com a divis\u00e3o sexual do trabalho e sua consequente dupla jornada de trabalho, que faz parte da pr\u00f3pria estrutura do sistema capitalista, temos de exigir ao Governo uma rede de creches p\u00fablicas, casas de repouso para idosos, cantinas p\u00fablicas, lavandarias p\u00fablicas e para que essa mudan\u00e7a aconte\u00e7a nas mentes, um ensino que leve a quest\u00e3o de g\u00e9nero \u00e0s salas de aula com a consequente aboli\u00e7\u00e3o de diferencia\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Temos de exigir ao PS, BE e PCP, que se dizem socialistas, pol\u00edticas realmente dignas desse nome, e enquanto isso n\u00e3o acontece, temos de sair todas e todos \u00e0 rua para denunciar e exigir essa mudan\u00e7a! A nossa voz tem de chegar a todas as mulheres, principalmente \u00e0s mais desprotegidas e oprimidas por este sistema, para que todas tomem a consci\u00eancia de que a divis\u00e3o sexual do trabalho n\u00e3o \u00e9 \u201cnormal\u201d, e nessa divis\u00e3o que a sociedade nos faz acreditar ser \u201cnatural\u201d e que \u00e9 parte estruturante do sistema capitalista em que vivemos, est\u00e1 toda uma opress\u00e3o sobre a mulher que vai desde, menos valoriza\u00e7\u00e3o, empregos pior remunerados, mais precariedade (o que origina uma maior depend\u00eancia econ\u00f3mica e uma posi\u00e7\u00e3o de fragilidade face a relacionamentos abusivos) e \u00e0 dupla jornada de trabalho que \u00e9 trabalho n\u00e3o remunerado.<\/p>\n<p>Temos de chegar a todas para que saibam que n\u00e3o est\u00e3o sozinhas, \u00e9 uma luta de todas e todos e s\u00f3 unidas conseguiremos. Por mim, por ti, por todas, a solidariedade \u00e9 a nossa arma!<\/p>\n<p>Por isso este 8 de Mar\u00e7o todas e todos na rua para que possamos tornar vivas as palavras de Rosa Luxemburgo \u201cpor um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.\u201d<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Teresa Alho<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAs condi\u00e7\u00f5es em que vivem homens e mulheres n\u00e3o s\u00e3o produtos de um destino biol\u00f3gico, mas s\u00e3o antes de tudo constru\u00e7\u00f5es sociais. Homens e mulheres n\u00e3o s\u00e3o uma cole\u00e7\u00e3o \u2013 ou duas cole\u00e7\u00f5es \u2013 de indiv\u00edduos biologicamente distintos. Eles formam dois grupos sociais que est\u00e3o engajados em uma rela\u00e7\u00e3o social espec\u00edfica: as rela\u00e7\u00f5es sociais de sexo. 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