{"id":2621,"date":"2018-03-07T18:51:38","date_gmt":"2018-03-07T17:51:38","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/03\/07\/o-dia-da-mulher-e-dia-de-luta-nao-queremos-flores-queremos-direitos\/"},"modified":"2018-03-07T18:51:38","modified_gmt":"2018-03-07T17:51:38","slug":"o-dia-da-mulher-e-dia-de-luta-nao-queremos-flores-queremos-direitos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/03\/07\/o-dia-da-mulher-e-dia-de-luta-nao-queremos-flores-queremos-direitos\/","title":{"rendered":"O Dia da Mulher \u00e9 dia de luta! N\u00e3o queremos flores, queremos direitos!"},"content":{"rendered":"<p>Em pleno s\u00e9culo XXI, at\u00e9 o olhar mais desatento se apercebe que vivemos um momento dram\u00e1tico da hist\u00f3ria da<strong> <\/strong>humanidade: s\u00e3o in\u00fameros os ataques a direitos elementares ao n\u00edvel do trabalho, da sa\u00fade, das liberdades democr\u00e1ticas. Esta ofensiva internacional \u00e9 acompanhada por discursos proteccionistas (nacionalistas em muitos casos, como em Fran\u00e7a, na Alemanha ou na It\u00e1lia), anti-emigra\u00e7\u00e3o, xen\u00f3fobos e machistas. Todo este movimento regressivo desenrola-se tendo como pano de fundo a crise de refugiados (s\u00e3o mais de 65 milh\u00f5es em todo o mundo&#8230;) e a sangrenta guerra na S\u00edria.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Neste contexto, o mais expressivo movimento \u00e0 escala mundial que parece mover-se em contra-ciclo \u00e9 o das mulheres. S\u00e3o elas quem est\u00e1 \u00e0 cabe\u00e7a dos movimentos de resist\u00eancia: seja contra Trump nos EUA, contra os feminic\u00eddios por toda a Am\u00e9rica Latina, contra as leis proibicionistas em rela\u00e7\u00e3o ao aborto na Pol\u00f3nia; seja pela liberta\u00e7\u00e3o da Palestina, pelos direitos laborais e pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida. S\u00e3o tantos os exemplos e tantas as mulheres em luta que hoje podemos realmente falar de um movimento internacional de mulheres. <\/p>\n<p>Em Outubro de 2016, milhares de mulheres organizaram na Pol\u00f3nia uma greve em protesto contra o projecto-lei que visava criminalizar o aborto em qualquer circunst\u00e2ncia. Aliado ao movimento \u201cni una menos\u201d na Argentina, a luta destas mulheres inspirou a convocat\u00f3ria de greve internacional de mulheres no dia 8 de Mar\u00e7o de 2017, \u00e0 qual aderiram quase 60 pa\u00edses, e que se baseava na greve ao trabalho dom\u00e9stico e a todas as tarefas socialmente atribu\u00eddas \u00e0s mulheres. No ano passado, o Dia da Mulher foi assinalado com manifesta\u00e7\u00f5es e concentra\u00e7\u00f5es em milhares de cidades em todo o mundo, tendo como palavras de ordem \u201cfim da viol\u00eancia sobre as mulheres\u201d, \u201cfim da desigualdade salarial\u201d, \u201ccontra o trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado\u201d, \u201cpela igualdade de g\u00e9nero\u201d, e exig\u00eancias de \u00e2mbito mais alargado, como o fim de todas as formas de opress\u00e3o (racismo, LGBTfobia, xenofobia, etc.).<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos vimos milhares de mulheres sair \u00e0 rua como n\u00e3o v\u00edamos desde os protestos dos movimentos feministas dos anos 1960 e 1970. As manifesta\u00e7\u00f5es do movimento \u201cNi una Menos\u201d na Am\u00e9rica Latina, as grandes manifesta\u00e7\u00f5es na \u00cdndia em 2014 contra as viola\u00e7\u00f5es e os protestos das mulheres anti-Trump nos EUA em 2016 s\u00e3o disso exemplo. No ano passado, tamb\u00e9m em Portugal tivemos um 8 de Mar\u00e7o como talvez nunca hav\u00edamos tido, com marchas de mulheres em v\u00e1rias cidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mais recentemente o mundo abriu a boca de espanto quando nos EUA as campanhas #MeToo, #UsToo e #TimesUp trouxeram a p\u00fablico esc\u00e2ndalos de ass\u00e9dio e viol\u00eancia sexual protagonizados por figuras p\u00fablicas de relevo, como Harvey Weinstein e v\u00e1rios actores de Hollywood. O espanto \u00e9 hip\u00f3crita porque estes movimentos apenas tornaram vis\u00edvel aquilo que a maioria das mulheres j\u00e1 sabia e que a sociedade (quanto mais n\u00e3o seja por omiss\u00e3o) aceita e consente \u2013 a viol\u00eancia quotidiana sobre as mulheres que os diversos sistemas judiciais n\u00e3o combatem, desvalorizam e escondem.<\/p>\n<p>Falta, portanto, dar voz \u00e0s mulheres que, sofrendo os mesmos ou piores males, t\u00eam medo de falar e sofrem caladas o passar dos dias. A luta feminista, a par de toda a luta contra as mais variadas formas de opress\u00e3o \u00e9, na sua \u00faltima inst\u00e2ncia, uma luta contra a estrutura s\u00f3cio-econ\u00f3mica em que vivemos, \u00e9 uma luta anti-capitalista. No caso, a luta das mulheres \u2013 metade da Humanidade \u2013 representa um abalo profundo no capitalismo porque questiona os seus pilares essenciais &#8211; o lucro, a divis\u00e3o social do trabalho, fam\u00edlia como a conhecemos, a educa\u00e7\u00e3o, os costumes e tradi\u00e7\u00f5es, a religi\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Como funcionaria a economia mundial se as mulheres parassem de fazer o que lhes \u00e9 social e injustamente atribu\u00eddo? Este \u00e9 o desafio do apelo \u00e0 greve internacional de mulheres: tomar consci\u00eancia da invisibilidade do trabalho feminino, do trabalho que as mulheres executam sem remunera\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia (f\u00edsica, psicol\u00f3gica, sexual, econ\u00f3mica) a que est\u00e3o sujeitas todos os dias.<\/p>\n<p>O objectivo do movimento internacional \u00e9 conseguir a ades\u00e3o de 177 pa\u00edses e tem inspira\u00e7\u00e3o no protesto realizado na Isl\u00e2ndia em 1975, no Dia Livre das Mulheres, quando estas fizeram greve e sa\u00edram \u00e0 rua por igualdade de direitos e sal\u00e1rios entre mulheres e homens, e, assim, iniciaram um processo de mudan\u00e7as naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em Espanha, as centrais sindicais e alguns partidos pol\u00edticos dar\u00e3o pela primeira vez cobertura \u00e0 greve das mulheres. A central sindical espanhola CGT vai convocar uma greve geral de 24 horas e a UGT vai fazer um pr\u00e9-aviso para duas horas de paralisa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m estendem o incentivo \u00e0 greve \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas, nomeadamente de cuidado com os filhos e idosos, por considerarem que as mulheres espanholas dedicam em rela\u00e7\u00e3o aos homens o dobro do tempo a essas tarefas (em m\u00e9dia 26 horas por semana).<\/p>\n<p>Em Portugal, onde as mulheres ganham em m\u00e9dia menos 17% que os homens por trabalho igual, onde gastam diariamente 4 horas e 23 minutos em cuidados com crian\u00e7as e idosos, e com tarefas dom\u00e9sticas (mais 1h e 45 min por dia que os homens)<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/O%20Dia%20da%20Mulher%20%C3%A9%20dia%20de%20luta_final.doc#_ftn1\"><sup>1<\/sup><\/a>, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para apoiar e incentivar uma greve de mulheres? As grandes centrais sindicais entendem que n\u00e3o. F\u00e1tima Messias, coordenadora da Comiss\u00e3o da Igualdade na CGTP \u2013 Intersindical, declarou ao Di\u00e1rio de Not\u00edcias &#8220;N\u00e3o fazemos pr\u00e9-avisos de greve que n\u00e3o tenham sustentabilidade no que s\u00e3o as reivindica\u00e7\u00f5es das trabalhadoras nos v\u00e1rios sectores laborais&#8221;<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/O%20Dia%20da%20Mulher%20%C3%A9%20dia%20de%20luta_final.doc#_ftn2\"><sup>2<\/sup><\/a>, e esclareceu que a CGTP n\u00e3o vai colaborar na organiza\u00e7\u00e3o da greve de mulheres. Ter\u00e3o iniciativas pr\u00f3prias com greves sectoriais onde tamb\u00e9m incluir\u00e3o trabalhadores homens durante aquilo a que chamam (ironicamente, diriamos) semana da igualdade. No que aos partidos pol\u00edticos (com assento parlamentar) diz respeito, infelizmente, apenas o Bloco de Esquerda (BE) demonstrou o apoio \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o de mulheres, mas n\u00e3o encontramos os seus rostos (muitos deles, s\u00e3o mulheres) activamente empenhados a organizar as marchas do 8 de Mar\u00e7o, nem a usar do seu tempo de antena para dar alento \u00e0s mulheres que querem protestar. A deputada do BE, Sandra Mestre Cunha, esclarece que &#8220;O BE n\u00e3o est\u00e1 a participar na organiza\u00e7\u00e3o da marcha nem da greve de mulheres. A paralisa\u00e7\u00e3o \u00e9 convocada internacionalmente. O BE d\u00e1 o apoio e a solidariedade a estas a\u00e7\u00f5es. Mas sabemos que em Portugal seria complicado conseguir o apoio das centrais sindicais para uma greve de um dia inteiro, afinal, o pa\u00eds est\u00e1 ainda em recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica&#8221;<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/O%20Dia%20da%20Mulher%20%C3%A9%20dia%20de%20luta_final.doc#_ftn3\"><sup>3<\/sup><\/a>. Acrescenta ainda o seguinte: &#8220;H\u00e1 desigualdade laboral, no acesso ao emprego, nos \u00f3rg\u00e3os de lideran\u00e7a e tomada de decis\u00e3o. Mas aderir a uma greve laboral implica perda de remunera\u00e7\u00e3o&#8221;<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/O%20Dia%20da%20Mulher%20%C3%A9%20dia%20de%20luta_final.doc#_ftn4\"><sup>4<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Mas os direitos n\u00e3o v\u00eam sem luta e \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o destas organiza\u00e7\u00f5es que se dizem pela igualdade promover os movimentos de mulheres \u2013 as quais, corajosamente lutam pelos seus direitos e, consequentemente, pelos direitos de todos os trabalhadores. Se esta greve tem tamb\u00e9m um fundamento anti-capitalista, os partidos que se afirmam anti-capitalistas devem apoia-la incondicionalmente! O MAS apela, por isso, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de todos nas manifesta\u00e7\u00f5es de 8 de Mar\u00e7o de 2018! Que mulheres e homens saiam \u00e0 rua pela igualdade, pelo fim da viol\u00eancia machista, pelo fim da explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o! N\u00e3o vale ficar em cima do muro.<\/p>\n<p>Apelamos a todas as mulheres que n\u00e3o possam fazer greve nos seus locais de trabalho que fa\u00e7am greve ao trabalho dom\u00e9stico \u2013 n\u00e3o fa\u00e7am a cama, n\u00e3o fa\u00e7am as refei\u00e7\u00f5es em casa, n\u00e3o lavem a roupa nem a lou\u00e7a, n\u00e3o v\u00e3o \u00e0s compras!<\/p>\n<p>Apelamos tamb\u00e9m \u00e0 solidariedade com as mulheres palestinianas \u2013 como Ahed Tamimi que enfrenta a brutalidade de Israel \u2013, com as trabalhadoras despedidas da Triumph e da Ricon, com as mulheres na Argentina que v\u00eaem uma das suas ser morta a cada 30 horas, com as refugiadas, emigrantes, negras, \u00a0l\u00e9sbicas, gr\u00e1vidas e com as que n\u00e3o querem engravidar&#8230; Este dia \u00e9 nosso, mas n\u00e3o \u00e9 um dia de celebra\u00e7\u00e3o, \u00e9 um dia de luta e n\u00f3s, mulheres, n\u00e3o nos calamos!<\/p>\n<div>\n<div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Notas<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/O%20Dia%20da%20Mulher%20%C3%A9%20dia%20de%20luta_final.doc#_ftnref1\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0<a href=\"http:\/\/cite.gov.pt\/pt\/destaques\/complementosDestqs2\/INUT_brochura.pdf\">http:\/\/cite.gov.pt\/pt\/destaques\/complementosDestqs2\/INUT_brochura.pdf<\/a><\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>2<\/sup>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/portugal\/interior\/em-espanha-o-8-de-marco-sera-dia-de-greve-das-mulheres-em-portugal-o-bloco-apoia-9121353.html\">https:\/\/www.dn.pt\/portugal\/interior\/em-espanha-o-8-de-marco-sera-dia-de-greve-das-mulheres-em-portugal-o-bloco-apoia-9121353.html<\/a><\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>3<\/sup>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/portugal\/interior\/em-espanha-o-8-de-marco-sera-dia-de-greve-das-mulheres-em-portugal-o-bloco-apoia-9121353.html\">https:\/\/www.dn.pt\/portugal\/interior\/em-espanha-o-8-de-marco-sera-dia-de-greve-das-mulheres-em-portugal-o-bloco-apoia-9121353.html<\/a><\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/O%20Dia%20da%20Mulher%20%C3%A9%20dia%20de%20luta_final.doc#_ftnref4\"><sup>4<\/sup><\/a>\u00a0Idem<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em pleno s\u00e9culo XXI, at\u00e9 o olhar mais desatento se apercebe que vivemos um momento dram\u00e1tico da hist\u00f3ria da humanidade: s\u00e3o in\u00fameros os ataques a direitos elementares ao n\u00edvel do trabalho, da sa\u00fade, das liberdades democr\u00e1ticas. 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