{"id":2607,"date":"2018-03-02T12:51:13","date_gmt":"2018-03-02T11:51:13","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/03\/02\/libertacao-das-mulheres-a-tradicao-marxista-i\/"},"modified":"2018-03-02T12:51:13","modified_gmt":"2018-03-02T11:51:13","slug":"libertacao-das-mulheres-a-tradicao-marxista-i","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/03\/02\/libertacao-das-mulheres-a-tradicao-marxista-i\/","title":{"rendered":"Liberta\u00e7\u00e3o das mulheres: a tradi\u00e7\u00e3o marxista (I)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><strong>Por Sharon Smith, Dirigente da Internacional Socialist Organization (ISO\/EUA)<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>Os marxistas cl\u00e1ssicos do s\u00e9culo XIX e do in\u00edcio do s\u00e9culo XX \u2013 Karl Marx, Friedrich Engels, Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo, V. I. Lenin, Alexandra Kollontai e Leon Trotski \u2013 desenvolveram uma estrutura te\u00f3rica unindo a luta pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0 luta pelo socialismo. Ao passo que suas teorias precisam ser atualizadas<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn2\">[ii]<\/a>, as mesmas v\u00eam sendo rejeitadas ou ignoradas.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Al\u00e9m disso, a hist\u00f3ria de quem sustentou a tradi\u00e7\u00e3o marxista sobre a opress\u00e3o das mulheres ao longo do s\u00e9culo XX \u00e9 frequentemente invisibilizada \u2013 ainda que estas ativistas e te\u00f3ricas tenham formado um fio de continuidade indispens\u00e1vel desde a vit\u00f3ria do sufr\u00e1gio feminino na d\u00e9cada de 1920 (comumente chamada de \u201cprimeira onda\u201d do feminismo americano) ao levante dos anos 60 pela liberta\u00e7\u00e3o da mulher (conhecido como \u201csegunda onda\u201d). <\/p>\n<p>Marx e Engels localizaram as ra\u00edzes da opress\u00e3o \u00e0s mulheres no papel que estas cumprem no seio da fam\u00edlia nuclear das sociedades de classe. Eles entendiam a fun\u00e7\u00e3o das mulheres como \u201creprodutoras\u201d biol\u00f3gicas resultado de seu status subordinado dentro da fam\u00edlia nuclear e, consequentemente, de toda a sociedade. Na sociedade capitalista as mulheres das fam\u00edlias propriet\u00e1rias produzem herdeiros; nas fam\u00edlias de trabalhadores, reproduzem as gera\u00e7\u00f5es de m\u00e3o de obra para o sistema.<\/p>\n<p>A classe dos capitalistas se tornou dependente deste m\u00e9todo de \u201creprodu\u00e7\u00e3o privada\u201d dentro das fam\u00edlias de trabalhadores, porque ele diminui a sua responsabilidade financeira pela reprodu\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra, que \u00e9, ent\u00e3o, amplamente provida pelo trabalho n\u00e3o pago no \u00e2mbito familiar. Isto, por sua vez, exige uma transforma\u00e7\u00e3o socialista da sociedade, que n\u00e3o pode ser atingida gradualmente, mas apenas atrav\u00e9s de um processo revolucion\u00e1rio, em um enfrentamento decisivo entre as classes.<\/p>\n<p>Marx e Engels rapidamente identificaram o papel revolucion\u00e1rio da classe trabalhadora, ou proletariado, como \u00fanica classe capaz de conduzir a mudan\u00e7a para uma sociedade socialista. No\u00a0Manifesto Comunista, eles afirmaram, \u201cO que a burguesia produz, antes de mais nada, s\u00e3o seus pr\u00f3prios coveiros. Sua derrocada e a vit\u00f3ria do proletariado s\u00e3o igualmente inevit\u00e1veis\u201d<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn3\">[iii]<\/a>. Como observou Hal Draper,<\/p>\n<p>\u201cA formula\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do princ\u00edpio da auto emancipa\u00e7\u00e3o foi escrito em 1864 sendo a primeira premissa das\u00a0regras\u00a0da Primeira Internacional \u2013 de fato, como sua primeira cl\u00e1usula:<\/p>\n<p>\u2018CONSIDERANDO, que a emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora precisa ser conquistada por ela pr\u00f3pria\u2026\u2019\u201d<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn4\">[iv]<\/a><\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria baseada no classismo n\u00e3o minimiza a import\u00e2ncia de combater a opress\u00e3o \u00e0s mulheres na teoria marxista do final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX. Como Leon Trotski argumentava, \u201cpara que possamos mudar as condi\u00e7\u00f5es de vida n\u00f3s devemos entend\u00ea-las atrav\u00e9s do olhar das mulheres\u201d<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn5\">[v]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim como Marx e Engels fizeram, a gera\u00e7\u00e3o seguinte de marxistas reconheceu o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio de toda a classe trabalhadora \u2013 e viram as mulheres trabalhadoras como componente chave para atingir o potencial revolucion\u00e1rio. Eles enfatizavam a m\u00e1 condi\u00e7\u00e3o das mulheres e se esfor\u00e7aram para organizar explicitamente movimentos de mulheres trabalhadoras.<\/p>\n<p>Marxistas europeus da Alemanha \u00e0 R\u00fassia estiveram correntemente na vanguarda da luta pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, ao mesmo tempo em que desenvolviam a teoria marxista no que tocava o que chamavam \u201ca quest\u00e3o da mulher\u201d. Fizeram isso n\u00e3o apenas em um momento de crescimento dos conflitos inter-imperialistas que conduziram o mundo para a Primeira Guerra Mundial, mas tamb\u00e9m no contexto em que o movimento revolucion\u00e1rio socialista crescia. Com o in\u00edcio da guerra veio \u00e0 tona um redemoinho de patriotismo em todos os pa\u00edses beligerantes e isso levou \u00e0 divis\u00e3o do movimento socialista, pois partidos inteiros da Segunda Internacional mergulharam, junto \u00e0s burguesias locais, no intento de promover a guerra.<\/p>\n<p>A cis\u00e3o entre revolucion\u00e1rias socialistas e aquelas por elas chamadas de \u201cfeministas burguesas\u201d se deu n\u00e3o por quest\u00f5es menores de t\u00e1tica e estrat\u00e9gia, mas por princ\u00edpios pol\u00edticos cruciais. No caso da R\u00fassia czarista, por exemplo, as mulheres burguesas se puseram a defender a guerra em troca do seu direito ao sufr\u00e1gio. A\u00a0<em>Liga pela Igualdade das Mulheres <\/em>chamou as russas a \u201cdedicar toda nossa energia intelectual e nossos conhecimentos ao nosso pa\u00eds. \u00c9 a obriga\u00e7\u00e3o que temos para com a p\u00e1tria, e isto nos dar\u00e1 o direito de participar, igualmente aos homens, na nova vida de uma R\u00fassia vitoriosa\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn6\">[vi]<\/a>.<\/p>\n<p>Como socialistas, Hal Draper e Anne G. Lipow, descreveram as revolucion\u00e1rias socialistas<\/p>\n<p>\u201c\u2026 deram um forte apoio para todas as demandas democr\u00e1ticas de direitos das mulheres. Mas seu movimento se diferenciava daquele das feministas burguesas, n\u00e3o apenas no contexto program\u00e1tico no qual apresentavam as \u201cdemandas democr\u00e1ticas\u201d, mas tamb\u00e9m, e consequentemente, na sua escolha por enfatizar demandas imediatas. Esta vis\u00e3o, em termos marxistas, como um movimento classista, se torna um\u00a0movimento de mulheres trabalhadoras\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn7\">[vii]<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A auto-organiza\u00e7\u00e3o das mulheres socialistas<\/strong><\/p>\n<p>Engels encorajou o socialista alem\u00e3o August Bebel, autor de\u00a0<em>Mulher e o Socialismo<\/em>, de 1878, a apoiar a funda\u00e7\u00e3o de um movimento socialista de mulheres trabalhadoras dentro do Partido Social Democrata Alem\u00e3o (SPD). O resultado foi a forma\u00e7\u00e3o de uma secretaria de mulheres no partido em 1891, tendo Clara Zetkin, dirigente do SPD, como seu centro pol\u00edtico e organizativo.<\/p>\n<p>Zetkin conduziu este trabalho at\u00e9 a divis\u00e3o da Segunda Internacional quando deixou o partido para se unir a um pequeno grupo composto por outros revolucion\u00e1rios contr\u00e1rios \u00e0 guerra, entre os quais estavam membros do partido bolchevique russo, que buscavam construir um movimento internacionalista principista contra a guerra imperialista. Depois disto Zetkin continuou seu trabalho por fora da Segunda Internacional.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da funda\u00e7\u00e3o da secretaria de mulheres do SPD, em 1891, as mulheres na Pr\u00fassia eram legalmente proibidas de participar de reuni\u00f5es pol\u00edticas ou aderir a partidos. Finalmente, em 1902, conforme lembrou Bebel, \u201co secret\u00e1rio do Estado prussiano concedeu permiss\u00e3o \u00e0s mulheres para frequentarem reuni\u00f5es de clubes pol\u00edticos, com a condi\u00e7\u00e3o de que se sentassem em uma \u00e1rea separada para elas nos sal\u00f5es\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn8\">[viii]<\/a>.<\/p>\n<p>As conquistas da secretaria de mulheres, vista neste contesto, foram substanciais. Sua publica\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Gleichheit\u00a0<\/em>(Igualdade), alcan\u00e7ou uma circula\u00e7\u00e3o de 23.000 exemplares em 1905 e 112.000 em 1913.\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn9\">[ix]<\/a><\/p>\n<p>O movimento de mulheres trabalhadoras alem\u00e3s logo se tornou o epicentro internacional do movimento socialista de mulheres sob a rubrica da Segunda Internacional, e teve como prioridade a organiza\u00e7\u00e3o de trabalhadoras nos sindicatos. Em 1907, Zetkin organizou a primeira confer\u00eancia internacional de mulheres socialistas, em Stuttgart, nos dias que precederam o congresso da Segunda Internacional. Neste congresso a Internacional votou pelo sufr\u00e1gio universal para todas as mulheres e homens.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o sobre se deveriam lutar pelo sufr\u00e1gio universal ou parcial foi um ponto de forte pol\u00eamica. Algumas organiza\u00e7\u00f5es pelo sufr\u00e1gio das mulheres reivindicavam (e em alguns pa\u00edses europeus conquistaram) o sufr\u00e1gio parcial das mulheres \u2013 com o direito ao voto baseado na posse de propriedades e pagamento de impostos (restringindo o direito ao voto \u00e0s mulheres com recursos financeiros). Mas em muitos desses lugares o direito ao voto dos homens tamb\u00e9m era restrito e negava-se aos trabalhadores o direito de votar. Dessa forma, o sufr\u00e1gio parcial apenas aumentava os poderes eleitorais das classes dirigentes.<\/p>\n<p>As dirigentes da Segunda Internacional, incluindo Zetkin, Luxemburgo, Kollontai e Eleanor Marx, tinham clareza sobre a diferen\u00e7a entre as demandas socialistas para as mulheres trabalhadoras e aquelas reivindica\u00e7\u00f5es de mulheres de classe m\u00e9dia. Elas defendiam o sufr\u00e1gio universal no contesto da luta de classes.<\/p>\n<p>Em um comunicado de prepara\u00e7\u00e3o \u00e0 confer\u00eancia de Stuttgart Zetkin defendeu o direito de todas as mulheres votarem, independentemente da classe \u00e0 qual pertencessem:<\/p>\n<p>&#8220;Mas quando reivindicamos o sufr\u00e1gio \u00e0s mulheres n\u00f3s s\u00f3 podemos fazer na medida em que se oriente por ser algo inerente \u00e0 mulher e n\u00e3o pelas posses de cada uma, \u00e0 quantia de propriedades\u2026<\/p>\n<p>Deste ponto de vista hist\u00f3rico, demandamos a igualdade entre as mulheres e o direito ao voto como um reconhecimento dos direitos pol\u00edticos pr\u00f3prios de nosso sexo. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o que se aplica a todas as mulheres, sem exce\u00e7\u00e3o. Todas as mulheres, seja qual sua posi\u00e7\u00e3o, deve reivindicar igualdade pol\u00edtica em prol de uma vida mais livre, voltada a produzir riquezas para toda sociedade. Al\u00e9m disso, no mundo das mulheres, assim como no dos homens, existe uma legisla\u00e7\u00e3o de classe e h\u00e1 a luta de classes, e estas aparecem t\u00e3o estabelecidas que \u00e0s vezes entre as mulheres trabalhadoras socialistas e aquelas pertencentes \u00e0 classe m\u00e9dia pode haver antagonismos\u2026 Esta classe m\u00e9dia deve reivindicar o sufr\u00e1gio, n\u00e3o apenas para seu pr\u00f3prio interesse, para assim enfraquecer o poder do sexo masculino, mas elas devem tamb\u00e9m trabalhar em fun\u00e7\u00e3o de uma reforma social completa, e dar toda ajuda que elas possam neste sentido. Mas enquanto n\u00f3s estamos prontas, como socialistas, para usar toda nossa for\u00e7a pol\u00edtica em favor desta mudan\u00e7a, seremos ainda obrigadas a perceber a diferen\u00e7a entre n\u00f3s e elas.\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn10\">[x]<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Classes sociais e a opress\u00e3o \u00e0s mulheres<\/strong><\/p>\n<p>Em 1909 a revolucion\u00e1ria russa Alexandra Kollontai escreveu o que se provou ser uma contribui\u00e7\u00e3o definitiva para a an\u00e1lise marxista da opress\u00e3o \u00e0 mulher,\u00a0<em>As bases sociais da quest\u00e3o da mulher<\/em>\u00a0onde ela argumentava,<\/p>\n<p>\u201cO mundo das mulheres \u00e9 dividido, assim como \u00e9 o mundo dos homens, em dois campos: os interesses e inspira\u00e7\u00f5es de um grupo s\u00e3o pr\u00f3ximo \u00e0 burguesia, enquanto o outro grupo tem uma estreita conex\u00e3o com o proletariado, e suas reivindica\u00e7\u00f5es por liberdade abarcam uma solu\u00e7\u00e3o completa para a quest\u00e3o das mulheres. Assim, ainda que os dois campos sigam o slogan de \u201cliberta\u00e7\u00e3o das mulheres\u201d, seus alvos e interesses s\u00e3o distintos. Cada grupo inconscientemente tem como ponto de partida as aspira\u00e7\u00f5es de sua classe, o que d\u00e1 um colorido espec\u00edfico, de classe, para as tarefas e objetivos que definem para si\u2026 ainda que as demandas das feministas sejam aparentemente radicais, n\u00e3o se deve perder de vista o fato de que as feministas n\u00e3o podem, dada sua posi\u00e7\u00e3o de classe, lutar pela transforma\u00e7\u00e3o fundamental da sociedade, sem a qual a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o pode ser completa\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn11\">[xi]<\/a><\/p>\n<p>Mas o outro lado da abordagem de Kollontai envolveu um esfor\u00e7o para convencer os homens da classe trabalhadora a apoiar as reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres de sua classe. Os bolcheviques participaram de greves e lutas que envolviam na maior parte homens e argumentavam que seus interesses repousariam na luta por demandas como a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade e o sal\u00e1rio igual \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p>Durante os preparos para o Congresso Pan-Russo dos sindicatos em 1917, Kollontai convocou os trabalhadores homens a defender o sal\u00e1rio igual entre homens e mulheres argumentando,<\/p>\n<p>\u201cO trabalhador consciente deve compreender que o valor do trabalho masculino depende do valor do trabalho feminino, e que a amea\u00e7a de substituir o trabalho masculino por um trabalho mais barato feito por mulheres permite aos capitalistas pressionarem o sal\u00e1rio dos homens, rebaixando-os ao n\u00edvel do sal\u00e1rio feminino. Dessa forma, somente a falta de conhecimento permitiria algu\u00e9m ver no tema da equidade salarial uma quest\u00e3o meramente \u2018de mulheres\u2019\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn12\">[xii]<\/a><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo seria incorreto assumir que o marxismo cl\u00e1ssico desconsiderava os problemas das mulheres da classe m\u00e9dia ou at\u00e9 mesmo das burguesas. Pelo contr\u00e1rio, Clara Zetkin expressava ter clara empatia com todas as mulheres, subjugadas dentro do n\u00facleo familiar. Como ela argumentava em 1896, a lei familiar dita \u00e0s mulheres das classes altas que seus maridos seriam seus superiores: \u201cela ainda \u00e9 dependente de seu marido. O protetor do sexo fr\u00e1gil sobreviveu na lei familiar \u00e0 qual diz: E ele dever\u00e1 ser seu mestre.\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn13\">[xiii]<\/a> Ela tamb\u00e9m argumentava,<\/p>\n<p>\u201cA mulher burguesa n\u00e3o apenas demanda seu pr\u00f3prio p\u00e3o, mas tamb\u00e9m busca sustento espiritual e quer desenvolver sua individualidade. \u00c9 exatamente neste estrato que encontraremos estas tr\u00e1gicas, ainda que psicologicamente interessantes, mulheres, cansadas de viver como bonecas em suas casinhas e que desejam tomar parte no desenvolvimento da cultura moderna.\u00a0A defesa dos direitos das mulheres burguesas \u00e9 completamente justificada seja no \u00e2mbito econ\u00f4mico como no intelectual e moral\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn14\">[xiv]<\/a> <em>(it\u00e1lico nosso)<\/em><\/p>\n<p>No mesmo texto Zetkin tamb\u00e9m defendeu que as mulheres da classe m\u00e9dia<\/p>\n<p><em>n\u00e3o s\u00e3o iguais aos homens no que toca a posse de propriedade privada, ainda que sejam parte dos c\u00edrculos superiores. As mulheres destes c\u00edrculos t\u00eam ainda que conquistar a igualdade econ\u00f4mica em rela\u00e7\u00e3o aos homens e s\u00f3 o podem faz\u00ea-lo mediante duas exig\u00eancias: a demanda por treinamento profissional e oportunidades de trabalho iguais para ambos os sexos. Esta competi\u00e7\u00e3o as pressiona para que reivindiquem seus direitos pol\u00edticos e com eles possam destruir todas as barreiras que foram criadas contra sua atividade econ\u00f4mica<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn15\">[xv]<\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o importante, observada acima por Zetkin, entre as mulheres burguesas e as de classe m\u00e9dia. As mulheres de classe m\u00e9dia, como todos desta classe, experimentam uma ampla gama de circunst\u00e2ncias financeiras, de trabalho e de vida. A classe m\u00e9dia alta tem um modo de vida pr\u00f3ximo ao da classe dirigente, enquanto a classe m\u00e9dia baixa vive em condi\u00e7\u00f5es muito semelhantes \u00e0s dos trabalhadores. Assim, as mulheres de classe m\u00e9dia podem ser atra\u00eddas para distintas dire\u00e7\u00f5es pol\u00edticas \u2013 algumas gravitando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia e outras se identificando com os interesses dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Certamente, Zetkin, em seus escritos vision\u00e1rios de 1896, observou a tend\u00eancia crescente de proletariza\u00e7\u00e3o do \u201ctrabalho intelectual\u201d que afetaria os acad\u00eamicos e outras profiss\u00f5es, um fator que \u00e9 ainda mais relevante hoje que nos tempos de Zetkin:<\/p>\n<p><em>Em meio \u00e0\u00a0<\/em><em>intelligentsia<\/em><em> burguesa, outra circunst\u00e2ncia leva \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida: o capitalismo precisa de uma for\u00e7a de trabalho inteligente e cientificamente treinada. Isto, por\u00e9m, contribui para uma superprodu\u00e7\u00e3o de trabalhadores intelectuais proletarizados e contribui para que posi\u00e7\u00f5es sociais que antes eram respeitadas e bem remuneradas venham erodindo continuamente.<\/em><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn16\">[xvi]<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O in\u00edcio do movimento americano pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres<\/strong><\/p>\n<p>O movimento pelo sufr\u00e1gio das mulheres no in\u00edcio do s\u00e9culo XX nos Estados Unidos diferiu um pouco de seus correlatos europeus, mas sua din\u00e2mica foi similar. Enquanto o governo dos Estados Unidos concedeu o \u201csufr\u00e1gio universal\u201d aos homens isso n\u00e3o impediu os Estados sulistas de impor as\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leis_de_Jim_Crow\"><strong>taxas eleitorais de Jim Crow<\/strong><\/a> e outras restri\u00e7\u00f5es voltadas a negar o voto especificamente aos homens negros.<\/p>\n<p>Assim, a segrega\u00e7\u00e3o de Jim Crow imp\u00f4s efetivamente o sufr\u00e1gio parcial aos homens, negando aos negros dos antigos Estados confederados o direito de votar. Evitando este assunto vital, as sufragistas americanas clamavam pelo \u201csufr\u00e1gio universal\u201d \u00e0s mulheres (ainda que \u00e0s negras tamb\u00e9m fosse negado o direito ao voto devido \u00e0s leis de Jim Crow). A dire\u00e7\u00e3o branca da\u00a0<em>National American Woman Suffrage Association<\/em> (Associa\u00e7\u00e3o Nacional para o Sufr\u00e1gio da Mulher Americana), NAWSA, permitiu que as filiadas sulistas praticassem a segrega\u00e7\u00e3o racial chamando voto unicamente nas brancas.<\/p>\n<p>Contudo, o racismo escancarado n\u00e3o se limitou a epis\u00f3dios no sul do pa\u00eds, como foi demonstrado em uma carta de uma dirigente do NAWSA, Carrie Chapman Catt, a um congressista: \u201cneste momento as mulheres de Nova York s\u00e3o politicamente iguais aos homens, mas as mulheres brancas do sul s\u00e3o politicamente inferiores aos negros\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn17\">[xvii]<\/a><\/p>\n<p>Mulheres afro-americanas, incluindo Mary Church Terrell e Ida B. Wells-Barnettm, se organizaram pelo sufr\u00e1gio das mulheres junto \u00e0 NAWSA, mas antes de tudo atrav\u00e9s da\u00a0<em>National Association of Colored Women<\/em> (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Mulheres Negras) e o\u00a0<em>Alpha Suffrage Club<\/em> (Clube de Sufr\u00e1gio Alpha). Wells-Barnett teve um papel chave na constru\u00e7\u00e3o da parada pelo sufr\u00e1gio das mulheres em 1913, ainda assim foi pedido a ela que caminhasse no final da marcha. Ela respondeu furiosa, \u201cse as mulheres de Illinois n\u00e3o tomarem posi\u00e7\u00e3o nesta parada democr\u00e1tica, ent\u00e3o as mulheres negras est\u00e3o perdidas\u201d<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn18\">[xviii]<\/a><\/p>\n<p>Socialistas americanas e radicais poderiam ter se unido \u00e0s suas correlatas europeias na luta pelo sufr\u00e1gio completo para homens e mulheres, a despeito de suas cores ou ra\u00e7as. Infelizmente, isto n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, socialistas e outros radicais estiveram frequentemente associados de forma concomitante na anarco-sindicalista \u201c<em>Industrial Workers of the World<\/em>\u201d (Trabalhadores Industriais do Mundo), IWW, e no Partido Socialista (PS), parte da Segunda Internacional. Ambos, a IWW e o PS, estavam comprometidos com a emancipa\u00e7\u00e3o das trabalhadoras e ligavam a luta de classes \u00e0 conquista ao direito das mulheres a controlar a natalidade, contudo discordavam quanto \u00e0 import\u00e2ncia de se conquistar o sufr\u00e1gio feminino.<\/p>\n<p>Ainda que a IWW fosse declaradamente antirracista, ela recusava se envolver em atividades eleitorais e se opunha terminantemente contra o movimento por sufr\u00e1gio, o qual considerava \u201c<em>entusiastas ricos do sufr\u00e1gio feminino<\/em>\u201d.\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn19\">[xix]<\/a> A ardente organizadora do IWW, Elizabeth Gurley Flynn, afirmou de forma clara, \u201cpara n\u00f3s a sociedade se movimenta por quest\u00f5es de classe, n\u00e3o sexo\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn20\">[xx]<\/a> Ao mesmo tempo os organizadores da IWW eram francos em lutar pela igualdade das mulheres. A IWW fazia quest\u00e3o de encorajar as mulheres a assumirem pap\u00e9is de comando nas greves e outras lutas, tendo tido um tremendo sucesso em 1912 na greve t\u00eaxtil de Lawrence. Flynn argumentava, \u201cA IWW tem sido acusada de p\u00f4r as mulheres no \u201cfront\u201d. A verdade \u00e9 que a IWW n\u00e3o mant\u00e9m as mulheres na retaguarda, e assim elas tomam a dianteira\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn21\">[xxi]<\/a><\/p>\n<p>Lucy Parsons, vi\u00fava de Albert Parsons, m\u00e1rtir da\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Revolta_de_Haymarket\"><strong>revolta de Haymarket<\/strong><\/a>, e uma dirigente radical, enfatizou o poder das mulheres trabalhadoras em seu discurso \u00e0 confer\u00eancia de funda\u00e7\u00e3o da IWW em 1905:<\/p>\n<p><em>N\u00f3s, mulheres deste pa\u00eds, n\u00e3o votar\u00edamos mesmo que quis\u00e9ssemos, o \u00fanico meio de sermos representadas \u00e9 escolher um homem para faz\u00ea-lo. Voc\u00eas homens fizeram tamanha bagun\u00e7a tentando nos representar que n\u00f3s n\u00e3o temos mais confian\u00e7a em pedir algo a voc\u00eas, e eu tenho o p\u00e9 atr\u00e1s em lhes pedir que me representem\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>[As mulheres] s\u00e3o as escravas dos escravos. Somos exploradas de forma mais cruel do que s\u00e3o os homens. Sempre que os sal\u00e1rios s\u00e3o reduzidos os capitalistas usam as mulheres para faz\u00ea-lo; e se h\u00e1 algo que voc\u00eas homens dever\u00e3o fazer no futuro \u00e9 organizar as mulheres.<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn22\">[xxii]<\/a><\/p>\n<p>Em contraste com o boicote da IWW ao movimento por sufr\u00e1gio, o PS trabalhou em conjunto com as sufragistas \u2013 mas sem uma pol\u00edtica que desafiasse sistematicamente a sua ader\u00eancia ao\u00a0<em>status quo<\/em> segregacionista. De fato, o PS era dividido entre a ala \u00e0 esquerda e outra \u00e0 direita no que tocava a quest\u00e3o crucial da segrega\u00e7\u00e3o racial. Em sua esquerda, Eugene Debs, talvez o orador mais inspirador do PS, se opunha \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o racial e se recusava a falar para p\u00fablicos segregacionistas.\u00a0 \u00c0 direita, Victor Berger defendia que o socialismo nos EUA e no Canad\u00e1 s\u00f3 seria poss\u00edvel caso permanecessem pa\u00edses de \u201chomens brancos\u201d. Berger tamb\u00e9m advertia que se a mar\u00e9 migrat\u00f3ria nos Estados Unidos n\u00e3o parasse, \u201ceste pa\u00eds certamente vir\u00e1 a ser um pa\u00eds negro-amarelo dentro de algumas gera\u00e7\u00f5es\u201d.\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn23\">[xxiii]<\/a><\/p>\n<p>Enquanto Debs tendia a evitar debates internos no PS, Berger e a ala direita do partido dominavam o aparato organizacional e atrav\u00e9s dele exerciam consider\u00e1vel influ\u00eancia na pol\u00edtica do PS.<\/p>\n<p>A ala direita do PS apostou suas fichas nas vit\u00f3rias eleitorais, e via nisso um caminho para conquistar uma sociedade socialista. Depois de alguns debates internos o PS votou pela forma\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Nacional da Mulher, em 1908 \u2013 incumbida n\u00e3o apenas de supervisionar o trabalho sobre as mulheres, o que inclu\u00eda o tema do sufr\u00e1gio, mas tamb\u00e9m por \u201corganizar o ataque sobre a superioridade dos homens entre os socialistas\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn24\">[xxiv]<\/a> Como ressaltou o historiador, contudo, \u201cas mulheres socialistas parecem ter conduzido a luta por direitos iguais com pouca ajuda dos homens de seu partido\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn25\">[xxv]<\/a><\/p>\n<p>Boa parte deste trabalho se centrou na educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia \u00e0s mulheres trabalhadoras para que estas tivessem acesso a m\u00e9todos contraceptivos confi\u00e1veis como um meio de controlar o tamanho das fam\u00edlias e a gravidez recorrente em condi\u00e7\u00f5es de pobreza. Historiadores focaram sua aten\u00e7\u00e3o no papel pioneiro do movimento por controle de natalidade da ent\u00e3o socialista Margaret Sanger, que depois veio a assumir um ponto de vista racista e eugenista.<\/p>\n<p>Mas muitas outras mulheres radicais da IWW e do PS receberam diminuto reconhecimento ainda que tivessem se comprometido durante toda a vida com a luta pelos direitos das mulheres controlarem sua pr\u00f3pria vida reprodutiva. Isso em um per\u00edodo no qual at\u00e9 mesmo dar informa\u00e7\u00f5es sobre contracep\u00e7\u00e3o era ilegal; estas ativistas encararam ataques da pol\u00edcia e a pris\u00e3o, n\u00e3o abandonando o seu trabalho entre as mulheres.<\/p>\n<p>Antoinette Konikow, uma revolucion\u00e1ria russa que imigrou para os EUA em 1893, dedicou-se a este projeto ao mesmo tempo em que foi central para o movimento socialista americano at\u00e9 sua morte em 1946. Konikow ligava explicitamente o direito das mulheres de controlar sua fertilidade \u00e0 luta por igualdade das mulheres. Como ela escreveu em 1923 em um panfleto,\u00a0<em>maternidade volunt\u00e1ria, <\/em>\u201cas mulheres nunca poder\u00e3o obter a verdadeira independ\u00eancia ao menos que sua fun\u00e7\u00e3o reprodutiva esteja sob seu pr\u00f3prio controle\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn26\">[xxvi]<\/a> Konikow nunca abandonou esta abordagem, prevendo temas que viriam a emergir no movimento pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres nos anos 1960.<\/p>\n<p>Os escrit\u00f3rios de Konikow eram regularmente atacados, por isso ela codificava seus arquivos m\u00e9dicos para prevenir que suas pacientes fossem processadas. Uma feminista socialista, Diane Feeley, comentou, \u201cainda que a grande maioria de suas pacientes fossem imigrantes pobres, sempre que Dra. Konikow era presa alguma mulher rica a punha em liberdade, j\u00e1 que, dadas as leis repressivas de Massachusetts, elas recorrentemente tinham que recorrer \u00e0 ajuda da revolucion\u00e1ria\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn27\">[xxvii]<\/a><\/p>\n<p>Como m\u00e9dica, Konikow falava sobre como a universidade deixava os m\u00e9dicos ignorantes sobre o tema dos m\u00e9todos de controle de natalidade e assim estes eram incapazes de ajudar suas pacientes mulheres que buscavam controlar sua fertilidade. Em resposta ela escreveu o\u00a0<em>Manual M\u00e9dico para o Controle de Natalidade<\/em>, em 1931, no qual estava inclu\u00eddo n\u00e3o apenas uma detalhada discuss\u00e3o sobre anatomia feminina, mas tamb\u00e9m informa\u00e7\u00f5es sobre o que ela considerava ser o mais confi\u00e1vel m\u00e9todo de controle de natalidade \u00e0 \u00e9poca, o diafragma com gel espermicida.\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn28\">[xxviii]<\/a><\/p>\n<p>O PS tamb\u00e9m se dedicou a ajudar mulheres grevistas e encorajou-as a se organizarem na\u00a0<em>American Federation of Labor<\/em> (Federa\u00e7\u00e3o Americana do Trabalho), AFL, mesmo quando a federa\u00e7\u00e3o n\u00e3o aceitava mulheres, negros e imigrantes em sua organiza\u00e7\u00e3o. Neste projeto, as mulheres do PS colaboraram com as sufragistas e mulheres reformistas de classe m\u00e9dia, apesar dos fortes atritos entre estes grupos e as mulheres trabalhadoras.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn29\">[xxix]<\/a><\/p>\n<p>A greve das trabalhadoras do vestu\u00e1rio de Nova York de 1909-10 \u00e9 normalmente lembrada pelos historiadores do trabalho como \u201co levante dos 20.000\u201d, e envolveu massivamente os imigrantes e a m\u00e3o de obra de mulheres adolescentes que lutaram incansavelmente at\u00e9 o fim, no qual a maioria das f\u00e1bricas, ainda que n\u00e3o todas, ganharam reconhecimento sindical e tornaram-se o\u00a0<em>Local 25<\/em> da\u00a0<em>International Ladies Garment Workers Union<\/em> (Uni\u00e3o Internacional dos Trabalhadores do Vestu\u00e1rio de Senhoras).<\/p>\n<p>Quando a greve come\u00e7ou, as grevistas receberam um forte apoio n\u00e3o s\u00f3 do PS, mas tamb\u00e9m das sufragistas e da\u00a0<em>Women\u2019s Trade Union League<\/em> (Liga Sindical das Mulheres), WTUL, organiza\u00e7\u00e3o de mulheres de classe m\u00e9dia, vistas como \u201caliadas\u201d das grevistas. O PS manteve seu comprometimento durante toda a greve. Contudo o interesse das mulheres de classe m\u00e9dia diminuiu \u00e0 medida que a greve se arrastava e as grevistas votaram contra uma proposta de contrato apresentada pela patronal. Uma participante enfurecida do WTUL fez uma proposta de \u201ccome\u00e7ar uma campanha contra o socialismo j\u00e1 que o socialismo \u00e9 uma amea\u00e7a\u2026 ele apenas faz com que imigrantes ignorantes e descontentes se posicionem contra o governo querendo destru\u00ed-lo\u201d.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_edn30\">[xxx]<\/a><\/p>\n<p>Mas a inspira\u00e7\u00e3o destas trabalhadoras do vestu\u00e1rio era profunda. Quando o Partido Socialista organizou a marcha do \u201cDia das Mulheres\u201d em 1910, a passeata pelas ruas de Nova York foi uma demonstra\u00e7\u00e3o massiva de solidariedade e consci\u00eancia de classe entre as mulheres trabalhadoras, incluindo um grande contingente das vestu\u00e1rias, que apresentavam suas demandas de aumento salarial, melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho junto \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o de direito ao voto.<\/p>\n<p>O hero\u00edsmo das trabalhadoras vestu\u00e1rias de Nova York inspirou Clara Zetkin a erigir uma resolu\u00e7\u00e3o, em 1910, na Segunda Confer\u00eancia Internacional de Mulheres, que declarava o Dia Internacional das Mulheres um feriado anual para os socialistas, uma tradi\u00e7\u00e3o que continua at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<div>\n<p>Em fevereiro de 1917, as trabalhadoras t\u00eaxteis em Petrogrado organizaram uma manifesta\u00e7\u00e3o pelo Dia Internacional das Mulheres sob o tema \u201ccontra a guerra, os altos pre\u00e7os e a situa\u00e7\u00e3o da mulher trabalhadora\u201d, resultando em um movimento grevista massivo que levou \u00e0 queda do Czar. Este dia se tornou, efetivamente, o primeiro dia da Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Publicado originalmente em\u00a0<a href=\"https:\/\/isreview.org\/issue\/93\/womens-liberation-marxist-tradition\">https:\/\/isreview.org\/issue\/93\/womens-liberation-marxist-tradition<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Caio Garrido<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Revis\u00e3o: Paula Farias<\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Notas<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref1\">[i]<\/a> Quoted in Barbara Evans Clements,\u00a0Bolshevik Feminist: The Life of Aleksandra Kollontai\u00a0(Bloomington: University of Indiana Press, 1979), 155.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref2\">[ii]<\/a> See Sharon Smith, \u201cTheorizing women\u2019s oppression \u2013 Part 1: Domestic labor and women\u2019s oppression,\u201d\u00a0International Socialist Review\u00a088, March 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref3\">[iii]<\/a> Karl Marx and Frederick Engels,\u00a0Manifesto of the Communist Party, chapter 1, (1848),\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1848\/communist-manifesto\/ch01.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1848\/communist-manifesto\/ch01.htm<\/a>(tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref4\">[iv]<\/a>Hal Draper, \u201cThe Principle of Self-Emancipation in Marx and Engels,\u201d\u00a0Socialist Register\u00a01971, 81\u2013109,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/draper\/1971\/xx\/emancipation.html#f6\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/draper\/1971\/xx\/emancipation.html#f6<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref5\">[v]<\/a> Leon Trotsky, \u201cAgainst Bureaucracy, Progressive And Unprogressive,\u201d\u00a0Problems of Life\u00a0(Methuen 1924),\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/trotsky\/1924\/xx\/bureaucracy.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/trotsky\/1924\/xx\/bureaucracy.htm<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref6\">[vi]<\/a> Richard Stites,\u00a0The Women\u2019s Liberation Movement in Russia: Feminism, Nihilism and Bolshevism 1860\u20131930\u00a0(Princeton, NJ: Princeton University Press, 1978), 282.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref7\">[vii]<\/a> Hal Draper and Anne G. Lipow, \u201cMarxist Women\u00a0versus\u00a0Bourgeois Feminism,\u201d\u00a0Socialist Register1976, 179-226.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/draper\/1976\/women\/women.html\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/draper\/1976\/women\/women.html<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[viii] August Bebel 1879\/1910,\u00a0Woman and Socialism, chapter<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">XV,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/bebel\/1879\/woman-socialism\/ch15.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/bebel\/1879\/woman-socialism\/ch15.htm<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[ix] Draper and Lipow, op cit<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[x] Clara Zetkin, \u201cSocial-Democracy &#038; Woman Suffrage\u201d (1906), <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/zetkin\/1906\/xx\/womansuffrage.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/zetkin\/1906\/xx\/womansuffrage.htm<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xi] Alix Holt,\u00a0Selected Writings of Alexandra Kollontai\u00a0(Westport: Lawrence Hill &#038; Co., 1977), 59.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref12\">[xii]<\/a> Ibid. 126.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref13\">[xiii]<\/a> Clara Zetkin, \u201cOnly in Conjunction With the Proletarian Woman Will Socialism Be Victorious,\u201d Speech at the Party Congress of the Social Democratic Party of Germany, Gotha, October 16th, 1896, Berlin, in Philip Foner, ed.,\u00a0Clara Zetkin:\u00a0Selected Writings, International Publishers, 1984,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/archive\/zetkin\/1896\/10\/women.htm\">http:\/\/www.marxists.org\/archive\/zetkin\/1896\/10\/women.htm<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xiv] Ibid.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xv] Ibid.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xvi] Ibid.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xvii] Crista DeLuzio, ed.,\u00a0Women\u2019s Rights: People and Perspectives\u00a0(ABC-CLIO\/Greenwood, 2009), 105.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref18\">viii]<\/a> Ibid. 106<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xix] Ann Schofield, \u201cRebel Girls And Union Maids: The Woman Question in the Journals of the AFL and IWW, 1905\u20131920,\u00a0Feminist Studies\u00a09, no. 2 (Summer 1983), 338.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref20\">[xx]<\/a> Ibid.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xxi] Meredith Tax,\u00a0The Rising of the Women: Feminist Solidarity and Class Conflict, 1880-1917\u00a0(University of Illinois Press, 1980), 256.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref22\">[xxii]<\/a> Robin Blackburn, ed.,\u00a0An Unfinished Revolution:\u00a0Karl Marx and Abraham Lincoln\u00a0(London: Verso Books, 2011), 251\u201352.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref23\">[xxiii]<\/a> Ira Kipnis,\u00a0The American Socialist Movement 1897\u20131912, Haymarket Books, 2005, 278\u201379.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref24\">[xxiv]<\/a> Ibid. 268.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref25\">[xxv]<\/a> Ibid. 265.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref26\">[xxvi]<\/a> Diane Feeley, \u201cAntoinette Konikow: Marxist and Feminist,\u201d in Paul LeBlanc, ed.,\u00a0Revolutionary Traditions of American Trotskyism\u00a0(New York, NY, 1988), 5. Reprinted fromInternational\u00a0Socialist Review\u00a033 (January 1972), 19\u201323.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref27\">[xxvii]<\/a> Ibid.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[xxviii] Ibid, 6.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref29\">[xxix]<\/a> See Tax, op cit.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8236#_ednref30\">[xxx]<\/a> Tax, 232<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><br \/><\/strong><\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sharon Smith, Dirigente da Internacional Socialist Organization (ISO\/EUA) Os marxistas cl\u00e1ssicos do s\u00e9culo XIX e do in\u00edcio do s\u00e9culo XX \u2013 Karl Marx, Friedrich Engels, Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo, V. I. Lenin, Alexandra Kollontai e Leon Trotski \u2013 desenvolveram uma estrutura te\u00f3rica unindo a luta pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0 luta pelo socialismo. Ao passo que suas teorias precisam ser atualizadas[ii], as mesmas v\u00eam sendo rejeitadas ou ignoradas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2606,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[68],"tags":[1057,116,1003,1301,176,1300,1299,114,115,368,455,117],"class_list":["post-2607","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher","tag-8m","tag-alternativa","tag-capitalismo","tag-engels","tag-luta","tag-marx","tag-marxismo","tag-mas","tag-movimento","tag-mulher","tag-opressao","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/clara-zetkin_rosa-luxemburg.jpg?fit=500%2C334","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2607"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2607\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2606"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}