{"id":2586,"date":"2018-01-31T11:58:52","date_gmt":"2018-01-31T10:58:52","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/01\/31\/a-luta-na-palestina-hoje\/"},"modified":"2018-01-31T11:58:52","modified_gmt":"2018-01-31T10:58:52","slug":"a-luta-na-palestina-hoje","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/01\/31\/a-luta-na-palestina-hoje\/","title":{"rendered":"A luta na Palestina hoje"},"content":{"rendered":"<p>Neste ano h\u00e1 v\u00e1rias datas marcantes para a Palestina: H\u00e1 100 anos, a Declara\u00e7\u00e3o Balfour, da Inglaterra, favorecia a cria\u00e7\u00e3o de um \u201clar nacional judaico\u201d para os judeus, que eram 10% da popula\u00e7\u00e3o; h\u00e1 70 anos, a ONU votou a Partilha da Palestina, que dividiu o pa\u00eds, dando 51% da \u00e1rea para a minoria judaica de 30% da popula\u00e7\u00e3o; logo ap\u00f3s, os sionistas iniciavam a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=buIKKeygWBY\">limpeza \u00e9tnica<\/a> que expulsou 80% dos palestinos; h\u00e1 50 anos, em 1967, Israel ocupou \u201cprovisoriamente\u201d o restante da Palestina.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p> <strong>A natureza do estado de Israel<\/strong> <\/p>\n<p>Israel domina toda a vida na Palestina hist\u00f3rica, aquela do Mandato Brit\u00e2nico. Metade dos palestinos s\u00e3o refugiados, impedidos por Israel de retornar, apesar das repetidas resolu\u00e7\u00f5es da ONU. Outros 4 milh\u00f5es vivem em um regime colonial: na Cisjord\u00e2nia, cheio de muros, controles militares e 500 mil colonos judeus e em Gaza, em uma imensa pris\u00e3o a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>Para se entender como Israel manteve essa situa\u00e7\u00e3o com o apoio esmagador da maioria judaica \u00e9 preciso saber como funciona o estado. Nele, os palestinos s\u00e3o 20% da popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o cidad\u00e3os do estado, mas a \u00fanica nacionalidade reconhecida \u00e9 a judaica, o que \u00e9 a fonte de todas as discrimina\u00e7\u00f5es. O pa\u00eds n\u00e3o tem uma constitui\u00e7\u00e3o escrita e uma das leis b\u00e1sicas do estado \u00e9 a \u201clei do retorno\u201d, que d\u00e1 aos judeus o \u201cdireito\u201d de se tornar cidad\u00e3os de Israel, ao passo que nenhum refugiado palestino o tem. As pesquisas hist\u00f3ricas mostram como foram meticulosamente expulsos, mas mesmo se isso n\u00e3o fosse assim, n\u00e3o alteraria o seu direito de retorno.<\/p>\n<p>Os palestinos t\u00eam direito de voto, mas os partidos que questionam o car\u00e1ter judaico do estado s\u00e3o proibidos. 93% das terras s\u00e3o controladas pelo Fundo Nacional Judaico, que pro\u00edbe a sua concess\u00e3o a n\u00e3o-judeus. Com o controle das institui\u00e7\u00f5es do estado, os judeus se beneficiam desproporcionalmente dos recursos estatais. O estado impede a constru\u00e7\u00e3o ou expans\u00e3o de bairros ou cidades palestinas desde a forma\u00e7\u00e3o de Israel em 1948, o que explica a frequ\u00eancia das demoli\u00e7\u00f5es de casas de palestinos. Os \u201cComit\u00eas de Admiss\u00e3o\u201d locais, com maioria judaica, podem vetar legalmente a presen\u00e7a de \u201cindesejados\u201d. Cerca de 100 mil palestinos bedu\u00ednos vivem em aldeias \u201cn\u00e3o reconhecidas\u201d pelo estado, sob constante amea\u00e7a de erradica\u00e7\u00e3o. Os melhores empregos e os empr\u00e9stimos habitacionais e educativos s\u00e3o direcionados aos judeus, por meio do pr\u00e9-requisito de ter servido o ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Quanto aos direitos individuais, a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 constante. Por exemplo, as reunifica\u00e7\u00f5es familiares entre palestinos cidad\u00e3os israelenses e os dos territ\u00f3rios ocupados s\u00e3o proibidas por lei. Ou ent\u00e3o a repress\u00e3o brutal quando se solidarizam com os palestinos dos territ\u00f3rios ocupados. As institui\u00e7\u00f5es do estado, em especial as de seguran\u00e7a, discriminam claramente os palestinos. Basta chegar no aeroporto de Tel Aviv para se ver isso. Nos territ\u00f3rios ocupados, os colonos s\u00e3o regidos pelas leis israelenses e os palestinos, por leis que remontam ao Mandato Brit\u00e2nico. Al\u00e9m disso, h\u00e1 6500 presos pol\u00edticos palestinos, muitos sem julgamento. Mais de 1600 deles acabaram de realizar uma greve de fome de 40 dias exigindo condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas dentro das pris\u00f5es e foram vitoriosos.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a ess\u00eancia do <a href=\"http:\/\/www.cjpmo.org\/DisplayDocument.aspx?DocumentID=219.\">regime de apartheid<\/a> existente nas fronteiras de Israel. Nelas, o autodenominado estado \u201cjudeu e democr\u00e1tico\u201d s\u00f3 funciona sendo <a href=\"http:\/\/occupiedpalestine.wordpress.com\/2013\/03\/20\/the-laws-tha%20t-enshrine-israel-as-a-racist-state\/\">democr\u00e1tico para os judeus e judaico para os demais<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Alternativas para a Palestina<\/strong><\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para superar a opress\u00e3o palestina oscila entre duas posi\u00e7\u00f5es. Os que prop\u00f5em dois estados de acordo com as fronteiras de antes da guerra de 1967. O que seria uma solu\u00e7\u00e3o injusta, pois deixaria de fora os palestinos de Israel e os refugiados e levaria \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um estado invi\u00e1vel, dominado pelo vizinho poderoso. Creio que a op\u00e7\u00e3o de um estado democr\u00e1tico \u00e9 a \u00fanica que pode restituir os direitos dos palestinos.<\/p>\n<p>Em qualquer caso, o tema dos refugiados e seus descendentes \u00e9 essencial e eles dever\u00e3o poder exercer seu direito de retorno \u00e0s terras e propriedades originais e tamb\u00e9m de receber indeniza\u00e7\u00f5es pelas perdas (mesmo os que n\u00e3o desejarem retornar). A maioria dos que vivem como refugiados nos pa\u00edses vizinhos e na Cisjord\u00e2nia e em Gaza, assim como os deslocados internos dentro de Israel, (os chamados \u201causentes-presentes\u201d \u2013 mais um oximoro sionista) certamente o far\u00e3o.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o ter\u00e1 que ser dos refugiados, livremente e com pleno suporte financeiro internacional, como <a href=\"http:\/\/www.badil.org\/\">apontam suas organiza\u00e7\u00f5es<\/a>. Estudos de um importante pesquisador palestino, <a href=\"http:\/\/www.pij.org\/details.php?id=1217\">Salman Abu Sittah<\/a>, mostram que a maior parte das terras de onde provieram os refugiados est\u00e3o despovoadas, localizando-se longe dos centros urbanos de Israel. No caso de um acordo, nos lugares em que for imposs\u00edvel que voltem aos mesmos lugares (onde tenham sido constru\u00eddas Universidades ou hospitais, por exemplo), pode-se achar outras solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, se o crit\u00e9rio n\u00e3o for racista. Nas cidades que foram \u201cjudaizadas\u201d a situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais complicada, mas sempre h\u00e1 sa\u00eddas, desde que haja vontade pol\u00edtica do estado: afinal, Israel absorveu um milh\u00e3o de russos na d\u00e9cada de 90. Inaceit\u00e1veis s\u00e3o os crit\u00e9rios demogr\u00e1ficos racistas do establishment sionista, lamentavelmente compartilhados por setores amplos da chamada \u201cesquerda sionista\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os grupos nacionais na Palestina<\/strong><\/p>\n<p>De fato, j\u00e1 existe um s\u00f3 estado entre o rio Jord\u00e3o e o Mediterr\u00e2neo \u2013 com cerca de 12 milh\u00f5es de habitantes, metade judeus e metade palestinos \u2013 dominado ferreamente por Israel.<\/p>\n<p>A Palestina \u00e9 o \u00faltimo fato colonial ocidental remanescente. Um tipo de colonialismo de povoamento, em que uma popula\u00e7\u00e3o de imigrantes, eles pr\u00f3prios oprimidos em suas terras de origem, conquistaram o novo pa\u00eds e subordinaram, pela explora\u00e7\u00e3o ou pela exclus\u00e3o (em geral de forma combinada), a popula\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 70 anos, aparentemente, esses colonos- como eles pr\u00f3prios se denominavam- e seus descendentes constitu\u00edram uma nova na\u00e7\u00e3o judia-israelense que se auto identifica pela l\u00edngua, economia e tradi\u00e7\u00f5es culturais. A maioria deles, afora os mais ricos, n\u00e3o t\u00eam a op\u00e7\u00e3o de fugir para a metr\u00f3pole, como os pieds-noirs da Arg\u00e9lia. Inclu\u00eddos os 50% dos judeus israelenses oriundos dos pa\u00edses \u00e1rabes, apesar de sofrer forte discrimina\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria nacionalidade dominante.<\/p>\n<p>A for\u00e7a ineg\u00e1vel de Israel como pot\u00eancia regional e nuclear, apoiada pelos EUA e pela Uni\u00e3o Europeia, torna ainda mais importante que, como na \u00c1frica do Sul, um setor importante, mesmo que n\u00e3o majorit\u00e1rio, da nacionalidade opressora, seja ganho para a luta.<\/p>\n<p>Essa solu\u00e7\u00e3o ter\u00e1 imensas resist\u00eancias dentro da popula\u00e7\u00e3o judaica. Para ganhar mais do que indiv\u00edduos isolados solid\u00e1rios, \u00e9 necess\u00e1rio um programa que assegure os direitos nacionais dos judeus israelenses em um pa\u00eds descolonizado.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o estamos perante um conflito entre direitos nacionais equivalentes. A autodetermina\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 um direito dos oprimidos e n\u00e3o dos opressores.\u00a0 Como nacionalidade opressora, os judeus israelenses teriam que ceder seus privil\u00e9gios para conviver em igualdade de condi\u00e7\u00f5es e desfrutar de seus direitos nacionais (direito \u00e0 l\u00edngua, cultura, religi\u00e3o, tradi\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>Os judeus israelenses precisam escolher: que futuro desejam? Um pa\u00eds eternamente militarizado? Continuar sendo p\u00e1rias no Oriente M\u00e9dio, manter a fina flor de sua juventude como gendarmes de outro povo? A condena\u00e7\u00e3o mundial cada vez maior? A degenera\u00e7\u00e3o racista e a persegui\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios judeus que se atrevam a dissentir, como aponta, entre outras, a lei que criminaliza a recorda\u00e7\u00e3o da Nakba?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Novas perspectivas<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de seus \u00eaxitos relativos, Israel n\u00e3o pode vencer no m\u00e9dio e longo prazos. A popula\u00e7\u00e3o palestina segue resistindo e n\u00e3o h\u00e1 hoje condi\u00e7\u00f5es de se repetir a limpeza \u00e9tnica massiva de 47-8. A sua resist\u00eancia vem de longe e inclui v\u00e1rias formas, inclusive a resist\u00eancia armada, como na defesa frente aos ataques brutais a Gaza.<\/p>\n<p>A novidade desde 2005 \u00e9 o movimento pelo <a href=\"http:\/\/esquerdaonline.com.br\/2017\/05\/16\/declaracao-do-bds-da-palestina-no-dia-da-nakba1\/\">BDS<\/a> (Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es), que luta pela igualdade de direitos nas fronteiras de 1948, pelo fim da ocupa\u00e7\u00e3o e pelo direito de retorno dos refugiados.<\/p>\n<p>Mesmo em pouco tempo, o BDS \u00e9 um enorme sucesso e come\u00e7a a preocupar Israel. A mais recente ades\u00e3o foi a da Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Sindicatos da Noruega, com 900 mil filiados.<\/p>\n<p>As brutalidades de Israel fizeram com que, mesmo nos EUA, setores importantes da popula\u00e7\u00e3o se distanciassem de Israel. Um n\u00famero minorit\u00e1rio, mas crescente, de judeus liberais vem se juntar aos antissionistas de mais longa data. Como na luta para derrubar o apartheid, o desequil\u00edbrio de for\u00e7as na Palestina torna fundamental uma press\u00e3o externa. Excluir as institui\u00e7\u00f5es de Israel das atividades econ\u00f4micas, militares e culturais internacionais \u00e9 um poderoso recado, similar ao que foi dado na luta contra o apartheid sul-africano. Um apoio material e moral \u00e0 luta dos palestinos para derrubar o muro de discrimina\u00e7\u00e3o que cerca a Palestina.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">Por Waldo Mermelstein, Colunista do Blog Esquerda Online<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p> <em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/strong><\/em> <\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">Originalmente publicado no n\u00ba 18 da Revista Socialismo e Liberdade, da Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos, em junho de 2017<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste ano h\u00e1 v\u00e1rias datas marcantes para a Palestina: H\u00e1 100 anos, a Declara\u00e7\u00e3o Balfour, da Inglaterra, favorecia a cria\u00e7\u00e3o de um \u201clar nacional judaico\u201d para os judeus, que eram 10% da popula\u00e7\u00e3o; h\u00e1 70 anos, a ONU votou a Partilha da Palestina, que dividiu o pa\u00eds, dando 51% da \u00e1rea para a minoria judaica de 30% da popula\u00e7\u00e3o; logo ap\u00f3s, os sionistas iniciavam a limpeza \u00e9tnica que expulsou 80% dos palestinos; h\u00e1 50 anos, em 1967, Israel ocupou \u201cprovisoriamente\u201d o restante da Palestina. \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2585,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[26],"tags":[116,213,1254,121,1283,114,115,455,120,117],"class_list":["post-2586","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-palestina","tag-alternativa","tag-apartheid","tag-bds","tag-israel","tag-judeu","tag-mas","tag-movimento","tag-opressao","tag-palestina","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/palestina_proteste.jpg?fit=500%2C281","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2586","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2586"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2586\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2585"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2586"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2586"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2586"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}