{"id":2578,"date":"2018-01-18T18:56:53","date_gmt":"2018-01-18T17:56:53","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2018\/01\/18\/a-proposito-das-teses-de-c-delphy-o-esquecimento-da-reproducao-social\/"},"modified":"2018-01-18T18:56:53","modified_gmt":"2018-01-18T17:56:53","slug":"a-proposito-das-teses-de-c-delphy-o-esquecimento-da-reproducao-social","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2018\/01\/18\/a-proposito-das-teses-de-c-delphy-o-esquecimento-da-reproducao-social\/","title":{"rendered":"A prop\u00f3sito das teses de C. Delphy: o esquecimento da reprodu\u00e7\u00e3o social"},"content":{"rendered":"<p><strong>Uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria: Para uma teoria geral da explora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Os artigos da r\u00fabrica Ideias n\u00e3o exprimem necessariamente o ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o mas dos camaradas que interv\u00eam nos debates do movimento oper\u00e1rio. Alguns s\u00e3o publicados pela nossa imprensa, outros s\u00e3o resultado dos nossos debates internos, outros ainda s\u00e3o pontos de vista exteriores \u00e0 nossa organiza\u00e7\u00e3o, que nos parecem \u00fateis.<\/p>\n<p>  <!--more-->  O \u00faltimo trabalho de Christine Delphy, <em>Para uma teoria geral da explora\u00e7\u00e3o, as diferentes formas de extors\u00e3o do trabalho hoje<\/em>, \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o composta de dois artigos: \u201cPor onde atacar a \u201cpartilha desigual\u201d do \u201ctrabalho dom\u00e9stico\u201d?\u201d e \u201cPor uma teoria geral da explora\u00e7\u00e3o\u201d, ele mesmo dividido em duas partes: \u201cAcabar com a teoria da mais-valia\u201d e \u201cUm novo come\u00e7o com o p\u00e9 direito\u201d (dispon\u00edveis em acesso livre no site do Cairn). Estes dois artigos foram publicados em 2003 e 2004, um em <em>Mouvements<\/em>, o outro em <em>Nouvelles Questions f\u00e9ministes<\/em>. <\/p>\n<p>Tomemos algumas linhas para apresentar Christine Delphy para as e os que n\u00e3o a conhecem (ainda). Christine Delphy \u00e9 uma figura do movimento das mulheres em Fran\u00e7a, seja enquanto militante (co-fundadora do MLF, ela participou da primeira a\u00e7\u00e3o no t\u00famulo do soldado desconhecido, no lan\u00e7amento do \u201cManifeste des 343\u201d, e depois na cria\u00e7\u00e3o das Gouines rouges), seja como te\u00f3rica (a sua obra L\u2019Ennemi principal, \u00e9conomie politique du patriarcat, \u00e9, independentemente do que se pense sobre a sua subst\u00e2ncia, uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel hoje no pensamento feminista). A figura \u00e9 ali\u00e1s suficientemente importante para acabar de sair, enquanto viva, um document\u00e1rio biogr\u00e1fico: Je <em>ne suis pas f\u00e9ministe, mais<\/em>, de F. e S. Tissot.\u00a0 Ela \u00e9 tamb\u00e9m soci\u00f3loga, diretora de pesquisa em\u00e9rita no CNRS e co-fundadora, junto com Simone de Beauvoir e outros ativistas, da revista <em>Nouvelles Questions f\u00e9ministes<\/em>, que hoje dirige.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O patriarcado, \u201cinimigo principal\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Christine Delphy, enquanto te\u00f3rica tendo participado de maneira central no surgimento de uma corrente feminista materialista radical, esteve v\u00e1rias vezes em conflito com as feministas da luta de classes. O principal ponto de conflito era e continua sendo a defini\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o das mulheres e a sua articula\u00e7\u00e3o com o sistema capitalista. Para C. Delphy, a opress\u00e3o das mulheres resulta de um sistema, o patriarcado, que tem uma certa autonomia do sistema capitalista (sem ser independente). Esta opress\u00e3o estrutura a sociedade em classes, a classe das mulheres e a classe dos homens (sendo entendido que estas classes s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais e nunca dados naturais), como o capitalismo com o patronato e proletariado. Ela postula que a opress\u00e3o patriarcal \u00e9, para a \u201cclasse das mulheres\u201d, mais estruturante e omnipresente que a opress\u00e3o capitalista, e consequentemente, \u00e9 o patriarcado que constitui o \u201cinimigo principal\u201d do grupo social das mulheres. Ela identifica essencialmente tr\u00eas sistemas d\u2019opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o: o patriarcado, o capitalismo e o racismo, os tr\u00eas fortemente ligados, e a destruir.<\/p>\n<p>Ela critica as feministas da luta de classes de participar da invisibiliza\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o das mulheres no seio da luta da classe trabalhadora ao recusar admitir uma diverg\u00eancia de interesses entre mulheres e homens, este \u00faltimos tendo a perder privil\u00e9gios materiais no caso da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e participando frequentemente de forma activa na sua opress\u00e3o de\u00a0 diversas formas (trabalho dom\u00e9stico, viol\u00eancia\u2026).<\/p>\n<p>Mais ainda que os seus trabalhos anteriores, <em>Pour une th\u00e9orie g\u00e9n\u00e9rale de l\u2019exploitation, des diferentes formes d\u2019extorsion du travail<\/em> hoje constitui antes de mais uma resposta \u00e0s an\u00e1lises e discursos feministas marxistas e luta de classes. \u00c9 sem d\u00favida a raz\u00e3o pela qual \u00e9 apresentada na nossa revista. N\u00e3o se trata portanto de esquecer que as feministas radicais, pela sua abordagem construtivista, materialista e revolucion\u00e1ria, continuam sendo as nossas aliadas mais pr\u00f3ximas no movimento aut\u00f3nomo das mulheres. Esta corrente, muito mais que as outras, combate connosco os discursos essencialistas e o impasse do movimento das mulheres em reivindica\u00e7\u00f5es reformistas, institucionalizadas e simb\u00f3licas.<\/p>\n<p>Esta recens\u00e3o \u2013 necessariamente parcial \u2013 visa ent\u00e3o dar a conhecer melhor e compreender certas an\u00e1lises de C. Delphy que podem alimentar as nossas reflex\u00f5es coletivas, que aderimos ou n\u00e3o. Hoje, devemos nos servir das objec\u00e7\u00f5es que nos s\u00e3o feitas para continuar a elaborar e estar prontas\/os, tamb\u00e9m, a uma certa autocr\u00edtica construtiva.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O trabalho dom\u00e9stico, para o benef\u00edcio dos homens<\/strong><\/p>\n<p>Na primeira parte, \u201c<em>Par o\u00f9 attaquer le \u201cpartage in\u00e9gal\u201d du \u201ctravail m\u00e9nager<\/em>\u201d?\u201d, C. Delphy retoma um discurso dominante na nossa corrente: a ideia que o trabalho dom\u00e9stico \u00e9 efectuado no seio de casa, pelas mulheres (ou seja as esposas e companheiras), para retirar estas tarefas do mercado e, portanto, n\u00e3o remunera-las. A hip\u00f3tese \u00e9 que todas\/os as\/os trabalhadores precisam que determinadas tarefas sejam cumpridas para reproduzir a sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho e que o capitalismo deveria, se as mulheres n\u00e3o efetuassem este trabalho, remunerar seja pessoas seja servi\u00e7os estatais via o imposto. E que, portanto, o trabalho dom\u00e9stico beneficia em primeiro lugar.<\/p>\n<p>C. Delphy desconstr\u00f3i esta hip\u00f3tese atrav\u00e9s do seguinte racioc\u00ednio: h\u00e1 uma determinada quantidade de trabalho dom\u00e9stico a efetuar, e o facto deste trabalho n\u00e3o ser pago \u00e9 evidentemente uma vantagem. \u00a0Mas para quem? O facto de que estas tarefas sejam maioritariamente (a 80%) cumpridas pelas mulheres no seio de casas heterossexuais beneficia o capitalismo?<\/p>\n<p>C. Delphy recusa esta conclus\u00e3o. Ela sublinha que muitos trabalhadores n\u00e3o t\u00eam mulheres para se ocupar da reprodu\u00e7\u00e3o da sua for\u00e7a de trabalho: os trabalhadores sem esposas, mas tamb\u00e9m \u2026 a grande maioria das trabalhadoras! Estas\/es trabalhadoras\/es n\u00e3o t\u00eam no entanto nenhuma forma de compensa\u00e7\u00e3o financeira \u2013 \u00e9 mais o contr\u00e1rio para as mulheres \u2013 o que coloca mal a ideia que os servi\u00e7os fornecidos pelas esposas e concubinas seriam, na sua aus\u00eancia, compensadas pelo capitalismo. Mais ainda, as mulheres em casal heterossexual devem tomar conta n\u00e3o somente a integralidade da sua pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma boa parte da do seu parceiro, e a maior parte da dos seus eventuais filhos\/as. Aqui ainda, nenhuma forma de compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 preciso ent\u00e3o bem concluir que o capitalismo n\u00e3o compensaria o trabalho dom\u00e9stico \u2013 uma vez que j\u00e1 n\u00e3o o faz \u2013 e que em consequ\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a ele que beneficia este trabalho n\u00e3o pago. Mas sim aos homens em casal heterossexual, uma vez que quando um homem e uma mulher v\u00e3o viver juntos, o tempo de trabalho dom\u00e9stico da mulher aumenta e n\u00e3o o do homem; a mulher assume ent\u00e3o uma parte do trabalho que o homem deveria fornecer. O capitalismo n\u00e3o compensando o trabalho dom\u00e9stico, seria o homem quem perderia com uma redu\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico gratuito das mulheres.<\/p>\n<p>C. Delphy critica tamb\u00e9m o facto que os diversos dispositivos estatais, quer seja no plano da fiscalidade, dos arrendamentos, ou dos servi\u00e7os, sejam vistos como ajudas \u00e0s mulheres, quando eles permitem, na pr\u00e1tica, manter o status quo do lado dos homens. Ela coloca a hip\u00f3tese de que estes dispositivos beneficiam os homens, que conservam todas as vantagens sem perder os seus ganhos\/sal\u00e1rios, nem em tempo de descanso ou lazer, para assumir a sua parte do trabalho dom\u00e9stico \u2013 enquanto a propor\u00e7\u00e3o do trabalho feminino n\u00e3o diminui j\u00e1 faz d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, a autora retoma um conceito essencial da sua elabora\u00e7\u00e3o: as \u201cclasses\u201d de homens e mulheres. Ela coloca em primeiro lugar a diverg\u00eancia de interesses entre homens e mulheres, uma vez que os homens tiram benef\u00edcio direto do trabalho gratuito das mulheres.<\/p>\n<p>\u201cOs homens, enquanto grupo, extorquem tempo, dinheiro e trabalho \u00e0 mulheres, gra\u00e7as a m\u00faltiplos mecanismos, e \u00e9 nesta medida que eles constituem uma classe\u201d.<\/p>\n<p>E \u00e9 o motivo pelo qual elas denunciam a marcha\/andamento da maior parte do movimento feminista que consiste em pesquisar um terceiro (mais frequentemente o Estado) que equilibraria as coisas, sem admitir que os homens t\u00eam a perder e a renunciar \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres. \u201cO movimento feminista deve ter a ousadia de dizer que os homens t\u00eam demais, ou em todo o caso, mais que a sua parte\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Mais-valia e explora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na segunda parte, \u201cPour une th\u00e9orie g\u00e9n\u00e9rale de l\u2019exploitation\u201d, \u201cEn finir avec la th\u00e9orie de la plus-value\u201d e \u201cRepartir du bom pied\u201d, C. Delphy volta \u00e0 no\u00e7\u00e3o mesma de explora\u00e7\u00e3o. Ela avan\u00e7a com a ideia que a teoria da mais-valia, modelo explicativo da explora\u00e7\u00e3o capitalista elaborada por K. Marx, se tornou para as correntes marxistas um totem, uma pedra de toque que agora serviria para validar o que constitui uma explora\u00e7\u00e3o e o que n\u00e3o o \u00e9. Ela denuncia a redu\u00e7\u00e3o do conceito de explora\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00fanica explora\u00e7\u00e3o capitalista assalariada, assim como a sobrevaloriza\u00e7\u00e3o deste tipo espec\u00edfico de explora\u00e7\u00e3o. Com efeito, assumindo que este tipo de explora\u00e7\u00e3o seria ontologicamente diferente das outras, alguns\/algumas chegariam \u00e0 conclus\u00e3o que lhes seria superior \u2013 o que justificaria a centralidade da luta ao seu encontro.<\/p>\n<p>A isto, ela op\u00f5e v\u00e1rios argumentos. Voltaremos aqui sobre alguns deles.<\/p>\n<p>Primeiro, o facto de que nem toda a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 assalariada e n\u00e3o d\u00e1 lugar a uma extors\u00e3o da mais-valia \u2013 mesmo se a mesma efetivamente existe. Ela d\u00e1 aqui o exemplo da escravatura e servid\u00e3o. Por outro lado, a partir do momento ou h\u00e1, por exemplo, consumo pessoal pelo explorador e explora\u00e7\u00e3o. Esta existe portanto bem.<\/p>\n<p>Depois, o autor coloca-se contra uma autonomiza\u00e7\u00e3o da \u201ceconomia\u201d que n\u00e3o permitiria dar-se conta do que se joga realmente nas diferentes formas de explora\u00e7\u00e3o, tais como rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as sociais. A este n\u00edvel, a explica\u00e7\u00e3o das varia\u00e7\u00f5es (dos sal\u00e1rios, das dura\u00e7\u00f5es de tempo de trabalho segundo a \u00e9poca, os lugares, o g\u00e9nero, a \u201cra\u00e7a\u201d, etc\u2026) por um \u201celemento moral e hist\u00f3rico\u201d lhe parece insuficiente.<\/p>\n<p>C. Delphy considera que a teoria da mais-valia como modelo total e \u00fanica modalidade de explora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais que um \u201cdesvio\u201d \u201cdo caminho principal\u201d: a propriedade privada, que cria, em todo o lado, as condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o. Longe de rejeitar as an\u00e1lises marxistas, a autora lembra que \u201ca teoria marxista diz que a propriedade privada se apresenta como uma rela\u00e7\u00e3o com as coisas, quando ela \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o com os outros e mais precisamente com o trabalho dos outros\u201d.<\/p>\n<p>Para concluir e abrir algumas perspectivas, deixemos a palavra ao autor:<\/p>\n<p>\u201cA extors\u00e3o do trabalho, \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o: de toda a explora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201c(\u2026) Voltar a uma defini\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de explora\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m voltar \u00e0 problem\u00e1tica primeira do marxismo.\u201d<\/p>\n<p>\u201c(\u2026) Todas as explora\u00e7\u00f5es t\u00eam pontos comuns, n\u00e3o apenas nos seus resultados \u2013 que s\u00e3o justamente explora\u00e7\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m nos seus mecanismos. N\u00e3o seria dif\u00edcil fazer um balan\u00e7o desses mecanismos se, em vez de reivindicar o termo de extors\u00e3o do trabalho, nos agarr\u00e1ssemos a estudar todas as formas de extors\u00e3o e em abstrair-lhes os princ\u00edpios: se tiv\u00e9ssemos a ambi\u00e7\u00e3o de fazer verdadeiramente uma teoria geral da explora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chlo\u00e9 Moindreau<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A prop\u00f3sito das teses de Delphy: o esquecimento da reprodu\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/p>\n<p>No seu \u00faltimo livro, Para uma teoria geral da explora\u00e7\u00e3o, Chrstine Delphy ataca abertamente o marxismo, utilizando na sua pol\u00e9mica conce\u00e7\u00f5es que atribui ao PCF e \u00e0 ex LCR. Ela n\u00e3o consagra portanto nem uma linha a discutir as elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que a corrente feminista marxista elaborou ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Segundo ela, n\u00e3o \u00e9 o sistema capitalista mas os homens, em particular os homens casados, que tiram proveito do trabalho das mulheres em casa. Partindo do facto real que as tarefas dom\u00e9sticas est\u00e3o quase exclusivamente em cima das mulheres, ela conclui que isso constitui a base de um \u201cmodo de produ\u00e7\u00e3o patriarcal ou dom\u00e9stico\u201d que beneficia a \u201cclasse dos homens\u201d (p. 29).<\/p>\n<p>O Estado favoreceria este sistema de explora\u00e7\u00e3o ao subsidiar os homens cujas esposas se consagram unicamente \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas, atrav\u00e9s do \u201csistema de seguran\u00e7a social (seguro de sa\u00fade e reforma), o sistema fiscal e o conjunto das presta\u00e7\u00f5es sociais\u201d )p. 59), quando \u201ctodo este dinheiro poderia ser empregado a favor da independ\u00eancia econ\u00f3mica das mulheres\u201d (p. 48). \u201cTodos estes custos, que representam uma grande parte do famoso \u201cburaco da seguran\u00e7a social, s\u00e3o suportados pelo resto dos\/das contribuintes: as mulheres que trabalham em particular pagam uma vez para elas mesmas, uma segunda vez para ajudar a explora\u00e7\u00e3o dos outros\u201d (p.48).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Quem beneficia das tarefas dom\u00e9sticas?<\/strong><\/p>\n<p>Um primeiro aspecto a notar \u00e9 que o conceito de trabalho dom\u00e9stico utilizado por Christine Delphy se reduz \u00e0s tarefas de limpeza, a fun\u00e7\u00e3o da mulher na reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie nem entra nestas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As feministas marxistas que, como Lise Vogel, fazem sua a \u201cteoria da reprodu\u00e7\u00e3o\u201d desenvolveram outra compreens\u00e3o da opress\u00e3o das mulheres, fundada sobre o seu papel na procria\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es futuras. Para elas, a divis\u00e3o do trabalho sexual, baseado nos pap\u00e9is diferentes dos homens e das mulheres no processo de reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, existiu em todas as sociedades mas n\u00e3o determina por si mesmas a opress\u00e3o das mulheres. O modelo da fam\u00edlia nuclear, naquela que o homem assegura a subsist\u00eancia e a mulher depende dele, foi desenvolvida pela burguesia no s\u00e9culo 19 com meio mais econ\u00f3mico de garantir a substitui\u00e7\u00e3o geracional da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Vogel distingue tr\u00eas aspectos no seio do trabalho dom\u00e9stico: as atividades quotidianas que permitem aos trabalhadores viverem e trabalharem; a aten\u00e7\u00e3o e cuidado dos mais jovens e idosos; a reprodu\u00e7\u00e3o destinada \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o dos membros da for\u00e7a de trabalho que morrem ou que param de trabalhar.<\/p>\n<p>Partindo do conceito de trabalho necess\u00e1rio desenvolvido por Marx, ela oferece uma interpreta\u00e7\u00e3o nova. Para Marx, a jornada de trabalho do oper\u00e1rio se divide entre o \u201ctrabalho necess\u00e1rio\u201d (o tempo que ele consagra a produzir os seus meios de subsist\u00eancia) e o \u201csobre-trabalho\u201d que se apropria do capitalismo. Para Vogel, o trabalho necess\u00e1rio integra duas componentes. Uma, social, \u00e9 o sal\u00e1rio. A outra, que Marx n\u00e3o desenvolve, \u00e9 constitu\u00edda do \u201ctrabalho n\u00e3o remunerado que contribui com a renova\u00e7\u00e3o quotidiana e a longo prazo dos portadores da mercadoria da for\u00e7a de trabalho e da classe oper\u00e1ria no seu conjunto. Chamo a isto a componente dom\u00e9stica do trabalho necess\u00e1rio, ou trabalho dom\u00e9stico\u201d.<\/p>\n<p>O sal\u00e1rio permite ao assalariado comprar as mercadorias que necessita para viver (alimentos, roupa, etc), mas existe um trabalho adicional, n\u00e3o pago, que tem que ser efectuado para preparar a comida, lavar a roupa, se ocupar das crian\u00e7as, etc. Este trabalho n\u00e3o tem valor em termos marxistas porque n\u00e3o \u00e9 quantific\u00e1vel, mas ele \u00e9 indispens\u00e1vel \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social capitalista. Esta defini\u00e7\u00e3o tem o m\u00e9rito de demonstrar que o trabalho dom\u00e9stico enquanto \u201ctrabalho n\u00e3o remunerado\u201d \u00e9 espec\u00edfico do sistema capitalista e, al\u00e9m disso, n\u00e3o espec\u00edfico de um g\u00e9nero. Algu\u00e9m tem que o fazer para complementar o sal\u00e1rio do trabalhador. \u00c9 a ideologia de g\u00e9nero que estabelece que s\u00e3o as mulheres e, no seio do sistema capitalista, exclusivamente as das classes subalternas, que s\u00e3o obrigadas a realiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Mas a teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social esclarece igualmente o papel conflituoso das mulheres trabalhadoras no terreno da substitui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Pois elas s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 respons\u00e1veis pela reprodu\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho atrav\u00e9s das tarefas dom\u00e9sticas, mas interv\u00eam tamb\u00e9m directamente no processo de produ\u00e7\u00e3o. Deste ponto de vista, elas s\u00e3o para o sistema capitalista uma contradi\u00e7\u00e3o. A longo prazo, este beneficia do seu papel de reprodutoras da futura for\u00e7a de trabalho. Mas enquanto elas procriam e educam os futuros trabalhadores, elas reduzem o seu contributo como produtoras directas.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o somente a burguesia se pode apropriar da totalidade da mais-valia potencial que as mulheres trabalhadoras geravam se n\u00e3o estivessem gr\u00e1vidas ou a amamentar, mas ela deve ainda contribuir para a sua subsist\u00eancia durante esse per\u00edodo \u201cimprodutivo\u201d ao longo daquela que ela n\u00e3o pode assegurar tamb\u00e9m a 100% a manuten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Para fazer baixar esse custo a burguesia privatizou o trabalho dom\u00e9stico instituindo a ideologia do homem \u201cprovedor\u201d de renda, tendo a responsabilidade de cobrir as necessidades da mulher \u201cm\u00e3e e esposa\u201d e dos seus descendentes.<\/p>\n<p>\u00c9 a depend\u00eancia das mulheres dos homens durante o per\u00edodo da procria\u00e7\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as pequenas que constitui na sociedade de classe a base material da sua subordina\u00e7\u00e3o. O capitalismo obt\u00e9m assim a substitui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho ao menor custo poss\u00edvel, ao se apropriar indirectamente a componente dom\u00e9stica do trabalho necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u201cClasse dos homens\u201d contra \u201cclasse das mulheres\u201d? <\/strong><\/p>\n<p>Reconhecer, como queria Delphy, a exist\u00eancia de uma classe de homens que expropria uma classe de mulheres, significaria aceitar que a esposa de Carlos Ghosn e a de um trabalhador da Renault pertencem \u00e0 mesma classe.<\/p>\n<p>Todas as mulheres s\u00e3o oprimidas na sociedade capitalista, porque elas n\u00e3o beneficiam dos mesmos direitos que os homens. \u00c9 a raz\u00e3o porque \u00e9 poss\u00edvel, no combate pelos direitos democr\u00e1ticos (direito ao voto, ao aborto, igualdade salarial, etc.),\u00a0 de construir alian\u00e7as entre as mulheres de diferentes classes sociais. Mas isso n\u00e3o elimina as diferen\u00e7as profundas existentes entre as classes. Como dizia uma dirigente feminista boliviana na primeira Confer\u00eancia Mundial das Mulheres em 1975 no M\u00e9xico, em resposta a uma mulher da burguesia que lhe repetia que elas eram iguais: \u201cSenhora, faz uma semana que a conhe\u00e7o. Todas as manh\u00e3s, a vejo com roupas diferentes (\u2026) tenho a certeza que vive numa habita\u00e7\u00e3o bem elegante, num bairro igualmente elegante (\u2026) N\u00f3s, as esposas de mineiros, temos apenas um pequeno alojamento que nos \u00e9 emprestado. Se o nosso esposo morre, ou fica doente ou \u00e9 dispensado, temos 90 dias para deixar o lugar e nos encontramos na rua. Ent\u00e3o diga-me, senhora: a sua situa\u00e7\u00e3o tem alguma coisa a ver com a minha? Ou a minha com a sua? De que igualdade vamos falar entre n\u00f3s, se voc\u00ea e eu n\u00e3o somos parecidas e temos tantas diferen\u00e7as? N\u00e3o podemos neste momento ser iguais, mesmo enquanto mulheres \u2013 n\u00e3o acha?\u201d<\/p>\n<p>Todos os homens beneficiam da privatiza\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas que, se adicionam aos relatos de opress\u00e3o de g\u00e9nero, fazem com que em casa as mulheres trabalhem mais e os homens menos. Mas isso n\u00e3o basta para falar de um antagonismo de classe, pois n\u00e3o h\u00e1 apropria\u00e7\u00e3o de mais-valia. Como o explica Cinzia Arruzza, \u201cum homem n\u00e3o perderia nada, em termos de carga de trabalho, se os trabalhos de cuidados e de manuten\u00e7\u00e3o fossem igualmente socializadas em vez de serem cumpridas pela sua mulher. Em termos estruturais, n\u00e3o h\u00e1 interesses antag\u00f3nicos ou inconcili\u00e1veis (\u2026) o capitalismo, por outro lado, tem algo a perder na socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se trata apenas dessas convic\u00e7\u00f5es sobre o mercado mundial e o seu lugar dentro dele, mas tamb\u00e9m dos proveitos massivos que ele expropria alegremente aos trabalhadores.\u201d<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O paradigma actual da reprodu\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/p>\n<p>Vimos como, para o sistema capitalista, a fam\u00edlia nuclear \u00e9 a unidade da reprodu\u00e7\u00e3o social. No seu livro, Delphy estima que \u201co casal \u00e9 a \u00fanica forma de vida aceit\u00e1vel na nossa sociedade\u201d (p. 35), para os heterossexuais como para os homossexuais. \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o intemporal. Para Delphy, a crise do sistema capitalista n\u00e3o afecta em nada as rela\u00e7\u00f5es sociais. O capitalismo do s\u00e9culo 21 atravessa portanto uma crise sist\u00e9mica. O processo de manuten\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho est\u00e1 passando por mudan\u00e7as estruturais, no quadro dos quais as tarefas dom\u00e9sticas no seu sentido mais amplo (como reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho) ocupam um lugar central.<\/p>\n<p>Nas sociedades capitalistas avan\u00e7adas, a unidade de reprodu\u00e7\u00e3o social real se afasta cada vez mais do modelo de fam\u00edlia nuclear. Em Fran\u00e7a, mais de 50% das crian\u00e7as nascem fora do casamento e h\u00e1 1\u00a0760\u00a0000 fam\u00edlias monoparentais, das quais 85% s\u00e3o dirigidas por mulheres. Os subs\u00edduos do Estado que Delphy condena porque libertaria os homens da obriga\u00e7\u00e3o de tratar dos cuidados \u00e0s suas crian\u00e7as permitem \u00e0s mulheres de cuidar delas sozinhas, escapando assim de rela\u00e7\u00f5es abusivas.<\/p>\n<p>Mas isso faz-se a um pre\u00e7o enorme: 31% das casas monoparentais s\u00e3o pobres. E quanto mais as mulheres de fam\u00edlia se consagram ao trabalho assalariado a fim de fazer viver a sua fam\u00edlia, menor \u00e9 a qualidade da aten\u00e7\u00e3o dada \u00e0s crian\u00e7as e ao trabalho dom\u00e9stico. Ao mesmo tempo, as casas afundadas no desemprego ou no sub emprego permanente v\u00eaem a sua marginaliza\u00e7\u00e3o agravar. Em alguns sectores, \u201ca unidade de reprodu\u00e7\u00e3o social\u201d come\u00e7a a reproduzir n\u00e3o mais que uma gera\u00e7\u00e3o de jovens sem os meios que os tornaria \u201cempreg\u00e1veis\u201d pela burguesia. Sem falar das consequ\u00eancias das migra\u00e7\u00f5es de massa, com as separa\u00e7\u00f5es de pais e a cria\u00e7\u00e3o de novas unidades de reprodu\u00e7\u00e3o social no seio das quais se reagrupam os membros de diferentes fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo de crise, as responsabilidades que pesam nos ombros das mulheres s\u00e3o enormes. A quest\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas, consideradas no sentido lato, assim como o papel das mulheres trabalhadoras no seio do processo de reprodu\u00e7\u00e3o social, s\u00e3o fundamentais n\u00e3o somente para elaborar uma teoria geral da explora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para come\u00e7ar a indicar a dire\u00e7\u00e3o na qual se devia comprometer. Precisamos de um novo programa feminista que se dirija a estes milh\u00f5es de mulheres que suportam a dupla jornada de trabalho, que devem educar as suas crian\u00e7as sozinhas e sem ajudas adequadas, que experimentam o isolamento da sua fam\u00edlia e da sociedade.<\/p>\n<p>Depois de ter lido o livro, compreendemos que n\u00e3o ser\u00e1 a Christine Delphy quem contribuir\u00e1.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Virginia de la Siega <\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(Tradu\u00e7\u00e3o do texto original <em>in<\/em> L&#8217;AntiK la revue N\u00b067 (julliet-aout 2015) e\/ou em:<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/npa2009.org\/idees\/propos-des-theses-de-c-delphy-loubli-de-la-reproduction-sociale\" rel=\"noopener\">https:\/\/npa2009.org\/<wbr><\/wbr>idees\/propos-des-theses-de-c-<wbr><\/wbr>delphy-loubli-de-la-<wbr><\/wbr>reproduction-sociale<\/a>) <br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria: Para uma teoria geral da explora\u00e7\u00e3o Os artigos da r\u00fabrica Ideias n\u00e3o exprimem necessariamente o ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o mas dos camaradas que interv\u00eam nos debates do movimento oper\u00e1rio. Alguns s\u00e3o publicados pela nossa imprensa, outros s\u00e3o resultado dos nossos debates internos, outros ainda s\u00e3o pontos de vista exteriores \u00e0 nossa organiza\u00e7\u00e3o, que nos parecem \u00fateis.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2577,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[68],"tags":[116,1275,1078,114,115,368,1276,117],"class_list":["post-2578","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher","tag-alternativa","tag-delphy","tag-exploracao","tag-mas","tag-movimento","tag-mulher","tag-npa","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/illus.jpg?fit=500%2C332","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2578\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2577"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}