{"id":2566,"date":"2017-12-18T22:41:09","date_gmt":"2017-12-18T21:41:09","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/12\/18\/imperio-e-o-oriente-medio-na-era-de-trump\/"},"modified":"2017-12-18T22:41:09","modified_gmt":"2017-12-18T21:41:09","slug":"imperio-e-o-oriente-medio-na-era-de-trump","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/12\/18\/imperio-e-o-oriente-medio-na-era-de-trump\/","title":{"rendered":"Imp\u00e9rio e o M\u00e9dio Oriente na era de Trump"},"content":{"rendered":"<p>A situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio \u00e9 extremamente complexa h\u00e1 d\u00e9cadas e est\u00e1 especialmente vol\u00e1til neste momento. \u00c0 crise latente n\u00e3o resolvida ap\u00f3s a derrota dos levantes conhecidos como Primavera \u00c1rabe se acrescentaram o golpe palaciano na Ar\u00e1bia Saudita e as ondas de choque que est\u00e1 enviando por toda a regi\u00e3o pelo peso da monarquia wahabista. A isso se\u00a0 combina a declara\u00e7\u00e3o de Trump contra os direitos dos palestinos sobre Jerusal\u00e9m e a rea\u00e7\u00e3o que est\u00e1 gerando na Palestina e no mundo \u00e1rabe e mu\u00e7ulmano. A regi\u00e3o se dilacera entre for\u00e7as reacion\u00e1rias, e mesmo contrarrevolucion\u00e1rias, e torna ainda mais urgente a constru\u00e7\u00e3o de alternativas de esquerda e socialistas. Neste final de ano, a compreens\u00e3o do que ocorre em uma regi\u00e3o t\u00e3o importante \u00e9 fundamental. Para isso, publicamos entrevista com Gilbert Achcar, um dos especialistas marxistas arabof\u00f4nicos mais conceituados. A publica\u00e7\u00e3o original foi feita no site\u00a0<a href=\"https:\/\/socialistworker.org\/2017\/12\/11\/empire-and-the-middle-east-in-the-age-of-trump\">Socialist Worker<\/a> em 11 de dezembro.<\/p>\n<p>  <!--more-->  O an\u00fancio feito por Donald Trump de que os EUA iriam reconhecer Jerusal\u00e9m como a capital de Israel e mover a embaixada americana para l\u00e1 causou uma erup\u00e7\u00e3o de protestos ao longo do Oriente M\u00e9dio e mais al\u00e9m. Mas a influ\u00eancia e o poder de Washington na regi\u00e3o t\u00eam estado em decl\u00ednio por algum tempo, devido a uma s\u00e9rie de reveses. <\/p>\n<p>Gilbert Achcar\u00a0\u00e9 um socialista que se criou no L\u00edbano e que \u00e9 autor de numerosos livros, incluindo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Morbid-Symptoms-Uprising-Stanford-Societies\/dp\/1503600319\/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&#038;qid=1512941588&#038;sr=8-1&#038;keywords=Gilbert+Achcar&#038;linkCode=ll1&#038;tag=socialistwork-20&#038;linkId=fda895dfdbc548fbc2423fc632284176\">Morbid Symptoms: Relapse in the Arab Uprising<\/a> e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Clash-Barbarisms-September-Making-Disorder\/dp\/1583670815\/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&#038;qid=1512941588&#038;sr=8-4&#038;keywords=Gilbert+Achcar&#038;linkCode=ll1&#038;tag=socialistwork-20&#038;linkId=94a487009f1e8020eee5e791a095eb8c\">Clash of Barbarisms: September 11 and the Making of the New World Disorder<\/a>. Ele concedeu esta entrevista para\u00a0Alan Maass\u00a0sobre os recentes acontecimentos no Oriente M\u00e9dio e as consequ\u00eancias ap\u00f3s um ano de Trump.<\/p>\n<p>Em sentido hor\u00e1rio, a partir do topo \u00e0 esquerda: Destrui\u00e7\u00e3o do I\u00eamen; Donald Trump; protesto na Palestina<\/p>\n<p><strong>Os EUA t\u00eam se focado principalmente em derrotar o Estado Isl\u00e2mico no Iraque e na S\u00edria (EI), o que parece ter sido amplamente alcan\u00e7ado com as ofensivas para expulsar o EI de seus principais basti\u00f5es em ambos os pa\u00edses. Primeira pergunta: o que ocorrer\u00e1 com o EI agora?<\/strong><\/p>\n<p>O EI obviamente sofreu uma s\u00e9ria derrota. Eles pensavam que tinham constru\u00eddo um estado, um califado, que duraria por um longo tempo em uma grande extens\u00e3o de territ\u00f3rio na S\u00edria e nos Iraque, e eles basicamente perderam tudo isso. Durou cerca de tr\u00eas anos antes de se desfazer.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que j\u00e1 foi uma fa\u00e7anha para o EI o fato de controlar um territ\u00f3rio t\u00e3o grande por um tempo t\u00e3o longo contra quase todos. Pois \u00e9 o \u00fanico grupo contra o qual houve algum grau de unanimidade entre todas as for\u00e7as envolvidas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O EI sofreu uma derrota pesada, mas isso n\u00e3o significa que ir\u00e1 desaparecer. Muitos dos seus combatentes conseguiram ir para a clandestinidade no Iraque e na S\u00edria, e possuem ramifica\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios outros pa\u00edses. E, como vimos no caso da al-Qaeda, o terrorismo pode prosseguir no longo prazo por meio de redes clandestinas.<\/p>\n<p>Tenho certeza que presenciaremos muito desse tipo de terrorismo no pr\u00f3ximo per\u00edodo, porque n\u00e3o h\u00e1 uma forma real de se livrar de tamanho tormento sem mudar as condi\u00e7\u00f5es de produzi-lo.<\/p>\n<p>Hoje, essas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem complicadas. Elas incluem, antes de mais nada, o terrorismo de estado, come\u00e7ando pelo de Israel e o perpetrado pela domina\u00e7\u00e3o imperialista ocidental na regi\u00e3o. Muito do que ocorreu ao redor do mundo desde 1990 tem suas ra\u00edzes nas guerras travadas pelos EUA contra o Iraque em 1991 e em 2003 e a subsequente ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m muitos regimes desp\u00f3ticos na regi\u00e3o que praticam o terrorismo de estado e que alimentam um \u00f3dio similar, criando dessa forma um caldo de cultivo para grupos como o EI.<\/p>\n<p>Globalmente, estamos testemunhando o que denominei, em um livro que escrevi ap\u00f3s o 11 de setembro, o \u201cchoque de barb\u00e1ries\u201d. A barb\u00e1rie dos poderosos cria as condi\u00e7\u00f5es da barb\u00e1rie contraria dos de baixo.<\/p>\n<p>\u00c9 o que estamos vendo \u2013 e vamos ver mais disso, receio diz\u00ea-lo\u2014seja a barb\u00e1rie dos poderosos dos EUA, a mais letal de todas, ou da R\u00fassia, ou de regimes desp\u00f3ticos locais tais como a tirania de Assad na S\u00edria, o mais b\u00e1rbaro dos governos regionais, ou da ditadura de Sisi no Egito, para nomear somente dois.<\/p>\n<p><strong>O outro lado da quest\u00e3o decorrente da conquista dos basti\u00f5es do EI no Iraque e na S\u00edria \u00e9 como isso posiciona o imperialismo americano. Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o relativa dos EUA em rela\u00e7\u00e3o aos poderes regionais do Oriente M\u00e9dio e aos seus rivais imperialistas internacionais?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que os Estados Unidos est\u00e3o no ponto mais baixo de sua influ\u00eancia na regi\u00e3o desde 1990. Foi quando os EUA intervieram, mobilizando massivas for\u00e7as na regi\u00e3o, no pre\u00e2mbulo da primeira guerra contra o Iraque. Os EUA atingiram um pico na hist\u00f3ria de sua hegemonia regional depois disso.<\/p>\n<p>Isso ocorreu no momento em que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica estava em seus estertores, assim que Washington assumiu o controle completo da situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio. Quando se avalia a situa\u00e7\u00e3o atual em compara\u00e7\u00e3o com aquele pico se pode ver o quanto os EUA deca\u00edram.<\/p>\n<p>A mais clara ilustra\u00e7\u00e3o foram as revoltas de 2011. E foi o ano em que os EUA tiveram que se retirar do Iraque sem alcan\u00e7ar nenhum dos objetivos da ocupa\u00e7\u00e3o, deixando um pa\u00eds que caiu sob o controle do arqui-inimigo regional de Washington, o Ir\u00e3. Teer\u00e3 possui muito mais influ\u00eancia sobre o governo iraquiano do que Washington.<\/p>\n<p>2011 foi tamb\u00e9m o ano em que aliados-chave de Washington enfrentaram revoltas de massas. Foi o caso de Hosni Mubarak no Egito, ap\u00f3s o ditador tunisiano Zine El Abidine Ben Ali.\u00a0 Muammar el-Qaddafi, da L\u00edbia, que tinha se passado para o lado de Washington em 2003, foi o seguinte, e explodiu uma rebeli\u00e3o no Bahrain, assustando todas as monarquias petrol\u00edferas do Golfo.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o militar na L\u00edbia em apoio \u00e0 revolta contra Qaddafi foi a ocasi\u00e3o para a famosa f\u00f3rmula \u201cliderando por detr\u00e1s\u201d, refletindo o fato que os EUA tinham uma presen\u00e7a mais discreta naquela interven\u00e7\u00e3o do que seus aliados europeus da OTAN, que assumiram a lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas essa interven\u00e7\u00e3o se transformou em um fiasco. A tentativa de controlar a insurrei\u00e7\u00e3o l\u00edbia e direcion\u00e1-la para uma conclus\u00e3o que preservasse o estado na L\u00edbia fracassou totalmente, e o estado l\u00edbio entrou totalmente em colapso.<\/p>\n<p>A L\u00edbia se tornou, ent\u00e3o, o \u00fanico pa\u00eds \u00e1rabe em que a revolu\u00e7\u00e3o teve \u00eaxito em derrubar totalmente o regime \u2013 exceto pelo fato que n\u00e3o havia nenhuma alterativa dispon\u00edvel e menos ainda alguma que fosse progressista. O caos estava naturalmente assegurado.<\/p>\n<p>A \u201csolu\u00e7\u00e3o iemenita\u201d &#8211; um compromisso entre o grupo dominante do pa\u00eds e a oposi\u00e7\u00e3o, preparado pelas monarquias petrol\u00edferas do Golfo com o apoio dos EUA, e t\u00e3o elogiado por Obama que ele o apontou como o modelo a ser aplicado na S\u00edria \u2013 entrou tragicamente em colapso ap\u00f3s menos de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, os EUA acumularam toda uma serie de reveses na regi\u00e3o desde a invas\u00e3o do Iraque. A guerra do Iraque ser\u00e1 recordada na hist\u00f3ria do imp\u00e9rio americano como um grande erro- uma ocupa\u00e7\u00e3o contraproducente realizada pela administra\u00e7\u00e3o Bush contra a opini\u00e3o de at\u00e9 amigos pr\u00f3ximos da fam\u00edlia Bush, que sabiam com que tipo de problemas os EUA iriam se defrontar.<\/p>\n<p>Como resultado, Washington est\u00e1 em um ponto muito baixo em compara\u00e7\u00e3o com algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s. Os EUA aproveitaram a oportunidade da expans\u00e3o do EI no Iraque em 2014 para orquestrar uma retorno limitado. Organizaram uma coalis\u00e3o para lan\u00e7ar uma campanha de bombardeios contra o EI, estabeleceram alguma presen\u00e7a novamente no Iraque e fizeram o mesmo na S\u00edria.<\/p>\n<p>A principal interven\u00e7\u00e3o de Washington no terreno na S\u00edria foi do lado das for\u00e7as curdas. Isso em si mesmo \u00e9 um paradoxo, pois essas for\u00e7as se originam de uma tradi\u00e7\u00e3o da esquerda radical \u2013 ainda que tenham sido os principais aliados dos EUA na luta contra o EI na S\u00edria. Donald Trump a qualificou como \u201crid\u00edculo\u201d, declarando que iria terminar com isso.<\/p>\n<p>Novamente, isso demonstra a fragilidade geral de Washington \u2013 ao passo que o Ir\u00e3 est\u00e1 expandindo seu poder, influ\u00eancia e interven\u00e7\u00e3o direta na regi\u00e3o. E a R\u00fassia, claro, aparece como a grande ganhadora em toda a situa\u00e7\u00e3o, da S\u00edria \u00e0 L\u00edbia.<\/p>\n<p>Moscou come\u00e7ou a intervir diretamente na S\u00edria com sua for\u00e7a a\u00e9rea em 2015. Naquele momento, a administra\u00e7\u00e3o Obama deu as boas-vindas \u00e0 interven\u00e7\u00e3o russa sob o pretexto de que a R\u00fassia estaria participando na guerra contra o EI. Mas todos sabiam que o alvo principal de Moscou seria a oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria ao regime de Assad regime, n\u00e3o o EI.<\/p>\n<p>Essencialmente, Washington deu \u00e0 R\u00fassia uma via livre para ajudar o regime s\u00edrio a esmagar a oposi\u00e7\u00e3o a ele. Depois da elei\u00e7\u00e3o de Trump, mas antes que ele se tornasse presidente, a R\u00fassia come\u00e7ou a se preparar para o papel de provedor da solu\u00e7\u00e3o para o conflito na S\u00edria, atuando inesperadamente como \u00e1rbitro entre o regime e a oposi\u00e7\u00e3o, com o Ir\u00e3 como a Turquia inclu\u00eddos no processo.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais um problema aqui. No outono de 2016, a Turquia, furiosa com o apoio de Washington \u00e0s for\u00e7as curdas na S\u00edria, voltou-se para uma alian\u00e7a com a R\u00fassia, desta forma dando outro golpe pesado \u00e0 influ\u00eancia dos EUA na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, a R\u00fassia parece ser o pa\u00eds que est\u00e1 ganhando espa\u00e7o em toda a regi\u00e3o, ao passo que os EUA est\u00e3o perdendo espa\u00e7o. Moscou aparece hoje como o mais eficaz pilar da ordem repressiva regional. Depois do papel muito brutal que desempenhou na S\u00edria, recebeu a concess\u00e3o de instala\u00e7\u00f5es para base a\u00e9reas no Egito de Sisi para apoiar a interven\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo na L\u00edbia, junto com os Emirados \u00c1rabes Unidos, em apoio ao homem forte local, Khaliha Haftar. Todas as monarquias petrol\u00edferas, incluindo os sauditas, est\u00e3o cortejando Moscou e comprando armas russas.<\/p>\n<p>Donald Trump certamente n\u00e3o ir\u00e1 reverter a mar\u00e9 de decl\u00ednio regional americano. Ao contr\u00e1rio, ele \u00e9 a raz\u00e3o para uma ainda mais r\u00e1pida deteriora\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia dos EUA no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>E agora, Trump anunciou que os EUA ir\u00e3o reconhecer Jerusal\u00e9m como capital de Israel. Que impacto isso ter\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o completamente gratuita que somente um homem irracional como Trump poderia fazer \u2013 irracional, ou seja, pelos padr\u00f5es dos interesses do imperialismo americano.<\/p>\n<p>Definitivamente n\u00e3o serve aos interesses americanos fazer tal jogada. Trump est\u00e1 fazendo isso sem raz\u00f5es aparentes, mas para satisfazer a ala mais reacion\u00e1ria de seus apoiadores e impulsionar seu narcisismo m\u00f3rbido de ter \u201ccumprido suas promessas\u201d de campanha quando seus predecessores n\u00e3o o fizeram.<\/p>\n<p>Ele o fez sem oferecer nada para apaziguar os palestinos. Ele n\u00e3o assegurou nada em troca por parte do governo Netanyahu em Israel para fazer tal movimento. Simplesmente n\u00e3o faz sentido do ponto de vista da pol\u00edtica americana nos EUA.<\/p>\n<p>Isso ir\u00e1 custar muito para Washington, em um momento em que sua imagem, por causa dele [Trump], j\u00e1 \u00e9 terrivelmente negativa no mundo \u00e1rabe, no mundo mu\u00e7ulmano e no Sul Global. Qualquer que tenha sido a melhora na imagem alcan\u00e7ada durante o governo Obama, foi completamente destru\u00edda e substitu\u00edda pela imagem mais repulsiva que os EUA alguma vez tiveram no mundo.<\/p>\n<p>O resultado s\u00f3 pode ser mais \u00f3dio contra os EUA, gerando mais terrorismo\u2014a arma dos fracos. E uma vez mais, a popula\u00e7\u00e3o americana pagar\u00e1 o pre\u00e7o do car\u00e1ter de espolia\u00e7\u00e3o de sua classe dominante, assim como sofreu com o 11 de setembro, que foi um resultado direto da pol\u00edtica dos EUA no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>Deixe-me perguntar sobre a outra parte do quadro: Pode falar sobre os acontecimentos na Ar\u00e1bia Saudita com as manobras do Pr\u00edncipe Herdeiro, Mohammed bin Salman?<\/strong><\/p>\n<p>O que est\u00e1 ocorrendo no reino saudita \u00e9, antes de mais nada, um tema dom\u00e9stico &#8211; \u00e9 uma luta pelo poder. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201crevolu\u00e7\u00e3o palaciana\u201d, mas em relativa c\u00e2mera lenta, no sentido que ela estava sendo feita por etapas, at\u00e9 a recente pris\u00e3o dram\u00e1tica de v\u00e1rios magnatas entre os emires e outros membros da aristocracia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Estamos presenciando uma tentativa por parte de Mohammad bin Salman [geralmente referido pelas suas iniciais, MBS] para tornar o reino mais de acordo com os padr\u00f5es tradicionais das monarquias, em que existe uma fam\u00edlia mais reduzida que governa. No reino saudita, em contraste, h\u00e1 uma fam\u00edlia governante estendida, composta pelos filhos de Abdulaziz (Ibn Saud), um rei que teve um grande n\u00famero deles -45 filhos homens de 100 no total \u2013 por causa do n\u00famero de esposas que teve: mais de 20!<\/p>\n<p>MBS est\u00e1 tentando terminar com essa tradi\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia saudita estendida e concentrar o poder em suas m\u00e3os, inaugurando uma nova linhagem din\u00e1stica. Ele est\u00e1 fazendo isso a partir da posi\u00e7\u00e3o de pr\u00edncipe herdeiro, mas seu pai est\u00e1 apoiando tudo o que ele est\u00e1 fazendo, assim que possui carta branca nesse aspecto.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um jovem homem ambiciosos que foi nomeado como Ministro da Defesa em janeiro de 2015, depois que seu pai Salman se tornasse rei, quando ele ainda n\u00e3o tinha 30 anos.<\/p>\n<p>A primeira coisa que fez como Ministro da Defesa foi lan\u00e7ar a guerra no I\u00eamen &#8211; uma campanha de bombardeios devastadora, assassina pelos sauditas e seus aliados. Ela fracassou no sentido de que as expectativas de que a coalis\u00e3o iria resolver os problemas rapidamente se demonstraram completamente equivocadas.<\/p>\n<p>Como se pode ver a partir dos eventos recentes &#8211; especialmente o assassinato do ex-presidente Ali Abdallah Saleh ap\u00f3s mudar de lado novamente e ter anunciado uma alian\u00e7a renovada com os sauditas &#8211; eles est\u00e3o muito longe de alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria. S\u00f3 tiveram \u00eaxito em causar o que j\u00e1 \u00e9 a pior trag\u00e9dia humanit\u00e1ria de nossos tempos, com cerca de 7 milh\u00f5es de pessoas com risco de morrer de fome e cerca de 1 milh\u00e3o em risco de morte de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>MBS mudou ent\u00e3o sua aten\u00e7\u00e3o para assuntos mais internos e foi ent\u00e3o que o antigo pr\u00edncipe herdeiro, que tinha sido designado de acordo com a velha tradi\u00e7\u00e3o, foi simplesmente removido desse cargo e MBS assumiu seu lugar. Isso foi um momento chave na \u201crevolu\u00e7\u00e3o palaciana\u201d \u2013 a primeira grande ruptura com a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, MBS tem consolidado seu pr\u00f3prio poder pela elimina\u00e7\u00e3o dos rivais potenciais. Qualquer um que esteja em seu caminho est\u00e1 sendo reprimido, preso e perseguido sob v\u00e1rios pretextos, um deles sendo a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Certamente, MBS recorreu a esse pretexto porque \u00e9 popular, e \u00e9 ineg\u00e1vel que h\u00e1 algo de podre no estado saudita. Mas \u00e9 tamb\u00e9m \u00f3bvio que isso \u00e9 somente um pretexto.<\/p>\n<p>MBS \u00e9 ele pr\u00f3prio muito corrupto mesmo \u2013 \u00e9 um jovem que pode utilizar qualquer quantidade de dinheiro da forma que quiser, ao mesmo tempo que imp\u00f5e austeridade sobre os s\u00faditos de seu reino. Ele provou isso no \u00faltimo ano quando cobi\u00e7ou um iate que pertencia a um magnata russo e o comprou por meio bilh\u00e3o de euros \u2013 cerca de U$550 milh\u00f5es! Isso d\u00e1 uma ideia de com quem estamos lidando.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as reverbera\u00e7\u00f5es dessa luta pelo poder para a regi\u00e3o? Por exemplo, o regime saudita parece ter tentado intervir no L\u00edbano obrigando seu principal aliado local, o Primeiro-Ministro Saad Hariri, a renunciar. Todas essas mudan\u00e7as t\u00eam a ver com a longa rivalidade com o Ir\u00e3, correto?<\/strong><\/p>\n<p>O reino saudita est\u00e1 cada vez mais preocupado pelo expansionismo iraniano \u2013 primeiro no Iraque, depois na S\u00edria, e a seguir no L\u00edbano. Existe hoje um corredor de domina\u00e7\u00e3o iraniana de Teer\u00e3 a Beirute, o que inclui tanto a presen\u00e7a direta como indireta do Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Os sauditas est\u00e3o extremamente preocupados com isso porque eles veem o Ir\u00e3 como seu arqui-inimigo. Desde a revolu\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica no Ir\u00e3, que derrubou a monarquia l\u00e1 em 1979, os sauditas t\u00eam tido um cen\u00e1rio de pesadelo, que tiveram que se confrontar no mesmo ano com um levante ultra-fundamentalista em casa, em Meca.<\/p>\n<p>Quando Salman se tornou rei em 2015, ele inicialmente modificou a pol\u00edtica do reino saudita para a unifica\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sunitas na regi\u00e3o. Ele seguiu essa pol\u00edtica por alguns anos, incluindo refazer as pontes, em um certo grau, com a Irmandade Mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>Isso continuou at\u00e9 que Donald Trump se tornou presidente. Trump, aconselhado pelo sinistro Stephen Bannon, pressionou para uma revers\u00e3o dessa pol\u00edtica para uma escalada tanto contra o Ir\u00e3 como a Irmandade Mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>Isso levou a que, antes disso, neste ano, a Ar\u00e1bia Saudita rompesse com o Qatar, que \u00e9 o principal patrocinador da Irmandade Mu\u00e7ulmana. At\u00e9 esse ponto, o Qatar estava envolvido na coalis\u00e3o que bombardeava no I\u00eamen, mas foi expulso dessa coalis\u00e3o por causa desse assunto. Isso foi uma manobra bem ruim, e o tiro saiu pela culatra.<\/p>\n<p>A escalada contra o Ir\u00e3 \u00e9 o que levou ao recente epis\u00f3dio com o L\u00edbano. Hariri \u00e9 inteiramente dependente dos sauditas. A fam\u00edlia Hariri fez sua fortuna no reino saudita, por meio de sua conex\u00e3o com membros da fam\u00edlia governante, que \u00e9 um pr\u00e9-requisito de todos os que fazem fortuna no reino.<\/p>\n<p>A mensagem que foi enviada pelos sauditas \u00e9 que n\u00e3o queremos que nossos aliados \u2013 ou seja, Hariri\u2014participem em um governo no L\u00edbano que seja dominado por gente ligada aos iranianos, o Hezbolah.<\/p>\n<p>Essa foi a mensagem. Mas mesmo isso n\u00e3o deu certo devido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos governos ocidentais, inclu\u00eddos os EUA e a Fran\u00e7a. O presidente franc\u00eas, Macron, teve um papel ativo em conseguir que Hariri sa\u00edsse do reinado de volta ao L\u00edbano, onde ele agora est\u00e1 engajado de novo em alguma forma de compromisso, que \u00e9 o que os sauditas queriam que terminasse. A situa\u00e7\u00e3o l\u00e1 \u00e9 muito inst\u00e1vel, no entanto.<\/p>\n<p><strong>Pode-se tirar conclus\u00f5es gerais sobre o balan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o e da contrarrevolu\u00e7\u00e3o neste momento, quase sete anos depois da Primavera \u00c1rabe? Voc\u00ea escreveu antes sobre entender isso como um processo em curso \u2013 n\u00e3o fragmentado em epis\u00f3dios separados, mas cont\u00ednuo. Pode ampliar sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>O ponto de partida \u00e9 compreender que o que foi denominado como Primavera \u00c1rabe n\u00e3o se limitou aos assuntos da democracia e da liberdade, como foi descrito na imprensa. Foi uma explos\u00e3o social e econ\u00f4mica muito mais profunda, devido \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de problemas de car\u00e1ter social. \u00cdndices recordes de desemprego, especialmente para a juventude; baixos n\u00edveis de vida; pobreza \u2013 tudo chegou a um ponto culminante em 2011.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual eu enfatizei naquele momento que havia come\u00e7ado o que denominei de \u201cprocesso revolucion\u00e1rio de longo prazo\u201d, que se prolongaria por muitos e muitos anos de instabilidade \u2013 hoje podemos dizer com seguran\u00e7a: d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Realmente, n\u00e3o haver\u00e1 nova estabiliza\u00e7\u00e3o nesta parte do mundo por um longo per\u00edodo de tempo, pois a condi\u00e7\u00e3o para a estabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a social e pol\u00edtica radical, que coloque toda a regi\u00e3o no caminho co2rreto de desenvolvimento econ\u00f4mico e social. Sem essa mudan\u00e7a radical, a instabilidade do Oriente M\u00e9dio n\u00e3o ser\u00e1 resolvida.<\/p>\n<p>O problema imediato do momento \u00e9 que as for\u00e7as progressistas que emergiram na Primavera \u00c1rabe retrocederam para a marginalidade em quase todos os lados, alguns anos depois de 2011. Desde ent\u00e3o, a regi\u00e3o tem sido dilacerada entre duas for\u00e7as reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Por um lado, existem os regimes \u2013 ou seus resqu\u00edcios, em pa\u00edses em que foram derrubados ou significativamente abalados. E, por outro lado, existem as for\u00e7as fundamentalistas isl\u00e2micas \u2013 em especial, a Irmandade Mu\u00e7ulmana patrocinada pelo Qatar e os salafistas inspirados pelos sauditas \u2013 que emergiram desde os anos 1970 e 1980 a partir do cad\u00e1ver de uma onda de atividade de esquerda precedente, em que os partidos nacionalistas e comunistas desempenharam um papel chave.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que o conjunto da regi\u00e3o mudou desde 2013 de uma fase revolucionaria precedente, denominada como Primavera \u00e1rabe, para uma fase contrarrevolucion\u00e1ria. Esta \u00faltima se caracteriza pelo choque entre dois polos contrarrevolucion\u00e1rios \u2013 o dos regimes e de seus rivais fundamentalistas isl\u00e2micos.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que tem ocorrido nas guerras que irromperam na L\u00edbia, S\u00edria e no I\u00eamen \u2013 esses mesmos ingredientes se encontram basicamente em todos os lados. Eles existem na situa\u00e7\u00e3o que se intensifica no Egito: a forma que eles adotaram foi o retorno do velho regime com uma vingan\u00e7a, esmagando a Irmandade Mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>Estamos no meio dessa fase contrarrevolucion\u00e1ria. Mas, ao mesmo tempo, pode-se verificar a partir de numerosas indica\u00e7\u00f5es que os problemas sociais est\u00e3o em ebuli\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somente persistem todos os fatores sociais e econ\u00f4micos que levaram \u00e0 explos\u00e3o de 2011, mas eles pioraram bastante.<\/p>\n<p>O que levaria a novas explos\u00f5es e mais instabilidades: isso \u00e9 seguro. Podemos pelo menos esperar que o potencial progressista que emergiu de forma poderosa em 2011 ser\u00e1 capaz de se reconstituir e organizar para lutar pelo poder. Isso \u00e9 o que estava faltando na Primavera \u00c1rabe \u2013 organiza\u00e7\u00f5es que encarnem esse potencial, com uma clara estrat\u00e9gia de construir uma alternativa aos velhos regimes e seus contendores fundamentalistas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Editoria Internacional, Esquerda Online<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio \u00e9 extremamente complexa h\u00e1 d\u00e9cadas e est\u00e1 especialmente vol\u00e1til neste momento. \u00c0 crise latente n\u00e3o resolvida ap\u00f3s a derrota dos levantes conhecidos como Primavera \u00c1rabe se acrescentaram o golpe palaciano na Ar\u00e1bia Saudita e as ondas de choque que est\u00e1 enviando por toda a regi\u00e3o pelo peso da monarquia wahabista. A isso se\u00a0 combina a declara\u00e7\u00e3o de Trump contra os direitos dos palestinos sobre Jerusal\u00e9m e a rea\u00e7\u00e3o que est\u00e1 gerando na Palestina e no mundo \u00e1rabe e mu\u00e7ulmano. A regi\u00e3o se dilacera entre for\u00e7as reacion\u00e1rias, e mesmo contrarrevolucion\u00e1rias, e torna ainda mais urgente a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2565,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[35],"tags":[1259,116,769,269,1258,268,1260,121,114,1261,115,1262,120,117,1002],"class_list":["post-2566","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-medio-oriente","tag-achcar","tag-alternativa","tag-estado","tag-eua","tag-gilbert","tag-isis","tag-islamico","tag-israel","tag-mas","tag-medio","tag-movimento","tag-oriente","tag-palestina","tag-socialista","tag-trump"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/gilbert.jpg?fit=425%2C304","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2566\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2565"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}