{"id":2545,"date":"2017-11-09T13:50:23","date_gmt":"2017-11-09T12:50:23","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/11\/09\/mulheres-militantes-nos-dias-da-grande-revolucao-de-outubro\/"},"modified":"2017-11-09T13:50:23","modified_gmt":"2017-11-09T12:50:23","slug":"mulheres-militantes-nos-dias-da-grande-revolucao-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/11\/09\/mulheres-militantes-nos-dias-da-grande-revolucao-de-outubro\/","title":{"rendered":"Mulheres militantes nos dias da Grande Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro"},"content":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m olhar para o passado, poder\u00e1 v\u00ea-las, essa massa de hero\u00ednas an\u00f3nimas que Outubro encontrou a viver nas cidades famintas, em aldeias empobrecidas e saqueadas pela guerra&#8230; O len\u00e7o na sua cabe\u00e7a (muito raramente, at\u00e9 agora, um len\u00e7o vermelho), uma saia gasta, um casaco de inverno remendado&#8230; Jovens e velhas, mulheres trabalhadoras e esposas de soldados, camponesas e donas de casa das cidades pobres. Mais raramente, muito mais raramente nesses dias, secret\u00e1rias e mulheres profissionais, mulheres cultas e educadas. Mas havia tamb\u00e9m mulheres da intelligentsia entre aqueles que carregavam a Bandeira Vermelha \u00e0 vit\u00f3ria de Outubro &#8211; professoras, empregadas de escrit\u00f3rio, jovens estudantes nas escolas e universidades, m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Elas marchavam alegremente, generosamente, cheias de determina\u00e7\u00e3o. Elas iam a qualquer parte que fossem enviadas. Para a Guerra? Elas colocavam o quepe de soldado e tornavam-se combatentes no Ex\u00e9rcito Vermelho. Se elas portassem fitas vermelhas no bra\u00e7o, ent\u00e3o corriam para as esta\u00e7\u00f5es de primeiros-socorros para ajudar a Frente Vermelha contra Kerenski na Gatchina. Trabalhavam nas comunica\u00e7\u00f5es do ex\u00e9rcito. Trabalhavam felizes, convictas que alguma coisa significativa estava a a contecer, e que n\u00f3s somos todos pequenas engrenagens na \u00fanica classe revolucion\u00e1ria. <\/p>\n<p>Nas aldeias, a mulher camponesa (os seus maridos tinham sido enviados para a Guerra) tomava a terra dos propriet\u00e1rios e arrancava a aristocracia dos postos onde ela se alojou por s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m recorda os acontecimentos de Outubro, n\u00e3o v\u00ea faces individuais, mas massas. Massas sem n\u00famero, como ondas de humanidade. Mas onde quer que olhem, v\u00eaem homens &#8211; em com\u00edcios, assembleias, manifesta\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o tinham a certeza do que exactamente queriam, pelo que lutavam, mas sabiam uma coisa: n\u00e3o iriam continuar a suportar a guerra. Nem mesmo desejavam os propriet\u00e1rios de terras e ricos&#8230; No ano de 1917, o grande oceano de humanidade levanta-se e agita-se, e a maior parte desde oceano \u00e9 composto por mulheres&#8230; Algum dia a hist\u00f3ria escrever\u00e1 sobre as proezas dessas hero\u00ednas an\u00f3nimas da revolu\u00e7\u00e3o, que morreram na Guerra, foram mortas pelos Brancos e amargaram incont\u00e1veis priva\u00e7\u00f5es nos primeiros anos seguintes \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, mas que continuou a carregar nas costas o Estandarte Vermelho dos Poder Sovi\u00e9tico e do comunismo.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 para aquelas hero\u00ednas an\u00f3nimas, que morreram para conquistar uma nova vida para a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora durante a Grande Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, para aqueles a quem a nova rep\u00fablica agora se curva em reconhecimento assim como ao seu povo jovem, alegre e entusi\u00e1stico, come\u00e7ando a construir as bases do socialismo.<\/p>\n<p>Entretanto, fora deste mar de mulheres de len\u00e7os e toucas surradas, inevitavelmente emergem as figuras daquelas a quem os historiadores devotar\u00e3o aten\u00e7\u00e3o particular, quando, muitos anos depois, escreverem sobre a Grande Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e o seu l\u00edder, Lenine.<\/p>\n<p>A primeira figura que emerge \u00e9 a da fiel companheira de Lenine, Nadezhda Konstantinovna Krupskaya, com o seu vestido cinza liso e sempre a fazer um esfor\u00e7o para permanecer em segundo plano. Ela poderia passar desapercebida por uma assembleia e colocar-se em baixo de algum pilar, mas ela via e ouvia tudo, observando tudo o que acontecia, para assim poder fornecer, mais tarde, um relato completo, para Vladimir Ilich, adicionar os seus pr\u00f3prios h\u00e1beis coment\u00e1rios e expor uma ideia sensata, apropriada e conveniente.<\/p>\n<p>Nesses dias Nadezhda Konstantinovna n\u00e3o falou nas numerosas e turbulentas assembleias nas quais as pessoas giravam em torno da grande quest\u00e3o: os Sovietes conquistariam o poder ou n\u00e3o? Mas ela trabalhou incansavelmente como bra\u00e7o direito de Vladimir Ilich, ocasionalmente dando depoimentos e relatando cr\u00edticas nas reuni\u00f5es do partido. Em momentos de grande dificuldade e perigo, quando muitos camaradas firmes perderam o \u00e2nimo e sucumbiram \u00e0s d\u00favidas, Nadezhda Konstantinovna permaneceu sempre na mesma, totalmente convencida da justi\u00e7a da causa e da sua vit\u00f3ria certa. Ela transmitia inabal\u00e1vel confian\u00e7a, e a sua firmeza de esp\u00edrito escondia uma rara mod\u00e9stia, contaminava sempre com o seu \u00e2nimo todos aqueles que entravam em contacto com a companheira do grande l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>Outra figura que se destaca &#8211; outra leal parceira de Vladimir Ilich, uma camarada em armas durante os anos dif\u00edceis do trabalho clandestino, secret\u00e1ria do Comit\u00ea Central do Partido, Yelena Dmitriyevna Stassova. Inteligente, com uma rara precis\u00e3o, e uma excepcional capacidade para o trabalho, uma rara habilidade para &#8220;apontar&#8221; as pessoas certas para o trabalho. Mulher alta e de majestosa figura. Poderia ter sido a primeira no Soviete no pal\u00e1cio Tavricheski, depois na causa de Kshesinskaya, e finalmente Smolny. Nas suas m\u00e3os segurava um caderno de anota\u00e7\u00f5es, enquanto \u00e0 sua volta, multid\u00f5es de camaradas do front, trabalhadores, guardas vermelhos, membros do partido e dos Sovietes, esperavam rapidamente, respostas claras ou ordens.<\/p>\n<p>Stassova carregou a responsabilidade de muitos neg\u00f3cios importantes, mas se um camarada demonstrava necessidade ou ang\u00fastia nesses dias tempestuosos, ela sempre podia auxiliar, fornecendo explica\u00e7\u00f5es, respostas aparentemente rudes, mas fazia o que estava ao seu alcance. Ela foi esmagada com trabalho, e sempre estava no seu posto. Sempre no seu posto e, no entanto, nunca empurrou para a linha da frente, nunca adiou. Ela n\u00e3o gostava de ser o centro das aten\u00e7\u00f5es. A sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era com ela mesma, mas com a causa.<br \/> Para a nobre e estimada causa do comunismo, pela qual Yelena Stassova experimentou o ex\u00edlio e a deten\u00e7\u00e3o nas penitenci\u00e1rias do regime czarista, o que lhe prejudicou a sa\u00fade&#8230; Em nome da causa ela era firme como a\u00e7o. Mas em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento de seus camaradas ela demonstrava a sensibilidade e a receptividade que s\u00f3 se encontram em uma mulher com um cora\u00e7\u00e3o afectuoso e nobre.<\/p>\n<p>Klavdia Nikolayeva era uma mulher trabalhadora de origem muito humilde. Ela uniu-se aos bolcheviques j\u00e1 em 1908, nos anos da reac\u00e7\u00e3o, e suportou o ex\u00edlio e a pris\u00e3o&#8230; Em1917 retornou a Leningrado e tornou-se a organizadora da primeira revista para as mulheres trabalhadoras, Kommunistka. Ainda era jovem, cheia de \u00e2nimo e ansiedade. Ent\u00e3o segurava firmemente o estandarte, e corajosamente declarava que as trabalhadoras, esposas de soldados e camponesas precisavam ingressar no partido. Ao trabalho, mulheres! Vamos defender os Sovietes e o Comunismo!<\/p>\n<p>Ela discursava em com\u00edcios, ainda nervosa e insegura de si, mas j\u00e1 atra\u00eda as pessoas para segui-la. Ela era a \u00fanica entre os que carregavam no ombro todas as dificuldades envolvidas na prepara\u00e7\u00e3o do caminho a seguir, disseminando o envolvimento das mulheres na revolu\u00e7\u00e3o, uma daquelas que lutou em duas frentes &#8211; pelos Sovietes e o comunismo, e ao mesmo tempo pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>Os nomes Klavdia Nikolayeva e Konkordia Samoilova, que morreram exercendo fun\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias em 1921 (v\u00edtimas da c\u00f3lera), est\u00e3o indissoluvelmente ligados aos primeiros e mais dif\u00edceis passos do movimento das trabalhadoras, particularmente em Leningrado.<\/p>\n<p>Konkordia Samoilova foi uma militante do partido de incompar\u00e1vel abnega\u00e7\u00e3o, excel\u00eancia, uma oradora met\u00f3dica que sabia ganhar os cora\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. Aqueles que trabalhavam ao seu lado lembrar\u00e3o por muito tempo Konkordia Samoilova. Ela era simples nos costumes, simples na apar\u00eancia, exigente na execu\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es, severa com ela mesma e com os outros.<\/p>\n<p>Particularmente not\u00e1vel \u00e9 a gentil e encantadora figura de Inessa Armand, que foi incumbida de um trabalho partid\u00e1rio muito importante na prepara\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, e que depois contribuiu com muitas ideias criativas para o trabalho entre as mulheres. Com toda a sua feminilidade e bondade nas maneiras, Inessa Armand era inabal\u00e1vel nas suas convic\u00e7\u00f5es e capaz de defender aquilo que ela acreditava ser correcto, mesmo quando deparada com tem\u00edveis oponentes. Depois da revolu\u00e7\u00e3o, Inessa Armand dedicou-se \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do amplo movimento das trabalhadoras, e a confer\u00eancia foi sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um imenso trabalho foi feito por Varvara Nikolayevna Yakovleva durante os dif\u00edceis e decisivos anos da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro em Moscovo. No terreno de batalha das barricadas ela mostrou a determina\u00e7\u00e3o merit\u00f3ria de uma l\u00edder do quartel-general do partido. Muitos camaradas disseram na ocasi\u00e3o que a sua determina\u00e7\u00e3o e coragem inabal\u00e1veis foram o que deu \u00e2nimo aos vacilantes e inspirou aqueles que haviam perdido suas for\u00e7as. &#8220;Avante!&#8221; &#8211; para a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando se recordam as mulheres que tomaram parte na Grande Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, mais e mais nomes e faces surgem como magia da mem\u00f3ria. Poder\u00edamos falhar ao honrar hoje a mem\u00f3ria de Vera Slutskaya, que trabalhou de modo abnegado na prepara\u00e7\u00e3o para a revolu\u00e7\u00e3o e que foi morta pelos Cossacos no primeiro front Vermelho pr\u00f3ximo de Petrogrado?<\/p>\n<p>Podemo-nos esquecer de Yevgenia Bosh, com seu temperamento inflamado, sempre pronta para a batalha? Ela tamb\u00e9m morreu no trabalho revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixarei de mencionar aqui dois nomes intimamente ligados com a vida e a actividade de V. I. L\u00eanin &#8211; as suas duas irm\u00e3s e companheiras em armas, Anna Ilyinichna Yelizarova e Maria Ilyinichna Ulyanova.<\/p>\n<p>&#8230;E a camarada Varya, das oficinas de linhas de comboio em Moscovo, sempre animada, sempre inquieta! E Fyodorova, trabalhadora t\u00eaxtil de Leningrado, com seu rosto am\u00e1vel e sorridente e o seu destemor quando estava a lutar nas barricadas.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel fazer uma lista completa, e quantas delas permanecem desconhecidas? As hero\u00ednas da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro formavam todo um ex\u00e9rcito, e embora os seus nomes estejam esquecidos, a sua abnega\u00e7\u00e3o vive em cada vit\u00f3ria daquela revolu\u00e7\u00e3o, em todos os ganhos e fa\u00e7anhas desfrutadas pelos trabalhadores da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico e incontest\u00e1vel que, sem a participa\u00e7\u00e3o das mulheres, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro n\u00e3o traria a Bandeira Vermelha da vit\u00f3ria. Gl\u00f3ria \u00e0s trabalhadoras que marcharam sob a bandeira vermelha durante a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Gl\u00f3ria \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro que libertou as mulheres!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Alexandra Kollontai, Di\u00e1rio das Mulheres, n\u00ba 11, Novembro de 1927 <\/em><\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m olhar para o passado, poder\u00e1 v\u00ea-las, essa massa de hero\u00ednas an\u00f3nimas que Outubro encontrou a viver nas cidades famintas, em aldeias empobrecidas e saqueadas pela guerra&#8230; O len\u00e7o na sua cabe\u00e7a (muito raramente, at\u00e9 agora, um len\u00e7o vermelho), uma saia gasta, um casaco de inverno remendado&#8230; Jovens e velhas, mulheres trabalhadoras e esposas de soldados, camponesas e donas de casa das cidades pobres. Mais raramente, muito mais raramente nesses dias, secret\u00e1rias e mulheres profissionais, mulheres cultas e educadas. 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