{"id":2503,"date":"2017-10-04T10:04:55","date_gmt":"2017-10-04T09:04:55","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/10\/04\/eleicoes-autarquicas-a-esquerda-deve-mudar-de-rumo\/"},"modified":"2017-10-04T10:04:55","modified_gmt":"2017-10-04T09:04:55","slug":"eleicoes-autarquicas-a-esquerda-deve-mudar-de-rumo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/10\/04\/eleicoes-autarquicas-a-esquerda-deve-mudar-de-rumo\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas: a esquerda deve mudar de rumo"},"content":{"rendered":"<p>Estas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas ganharam um alcance nacional. Foram encaradas pelos eleitores como uma avalia\u00e7\u00e3o dos principais protagonistas pol\u00edticos \u00e0 escala nacional. Da direita ao PS, passando pela esquerda, todos est\u00e3o agora a pensar nisso.<strong> <br \/><\/strong><\/p>\n<p>  <!--more-->  <strong>De onde vem a vit\u00f3ria do PS? <\/strong> <\/p>\n<p>Os resultados s\u00e3o conhecidos. O PS \u00e9 o \u201cgrande vencedor\u201d. O prest\u00edgio conseguido pelo Governo, apoiado pela esquerda, por Bruxelas e pelo Presidente da Rep\u00fablica, assente num ciclo de crescimento econ\u00f3mico, transmitiu-se \u00e0s candidaturas do PS. Mas a verdade \u00e9 que os resultados n\u00e3o foram estrondosos para o PS. Por exemplo em Lisboa, o PS perde 10 mil votos e a maioria absoluta, essencialmente para a sua esquerda. No Porto, Rui Moreira refor\u00e7ou-se ap\u00f3s a rutura com o PS. As nove C\u00e2maras ganhas t\u00e3o pouco constituem um n\u00famero assinal\u00e1vel. No c\u00f4mputo nacional, o PS cresceu apenas 2%.<\/p>\n<p>A for\u00e7a do PS consiste, essencialmente, na derrota do PSD e no impasse da esquerda. Estas elei\u00e7\u00f5es mostram que, com a \u201cGeringon\u00e7a\u201d, Ant\u00f3nio Costa neutralizou os seus advers\u00e1rios&#8230; e os seus aliados. Na inexist\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 altura, o menos mau aparece como o melhor poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>O pre\u00e7o da divis\u00e3o \u00e0 esquerda<\/strong><\/p>\n<p>Ao BE e PCP, em particular, tem faltado um projeto pol\u00edtico alternativo \u00e0 direita e ao PS. A \u201cGeringon\u00e7a\u201d foi apresentada como um acordo pontual com o PS, mas revelou-se permanente. A esquerda ficou sem estrat\u00e9gia pr\u00f3pria. A esperan\u00e7a de muitos era que, neste processo, passo a passo, a esquerda pudesse ganhar for\u00e7a para voos mais altos mais adiante. Mas acontece o oposto: passo a passo, \u00e9 o PS quem ganha for\u00e7a. E, com mais for\u00e7a, como tanto tem afirmado, Catarina Martins, o PS tende a fazer mais ataques.<\/p>\n<p>Por isso temos proposto uma estrat\u00e9gia alternativa. Temos proposto que BE e PCP possam liderar um movimento mais amplo da esquerda, contra o PS e o PSD, para nas lutas e nas elei\u00e7\u00f5es derrotar estes partidos e reconquistar direitos. Antes das elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas, propusemos que BE e PCP se candidatassem coligados. Hoje podemos ver que, caso isso tivesse sucedido, v\u00e1rias c\u00e2maras da CDU n\u00e3o teriam sido ganhas pelo PS, como \u00e9 o caso de Almada ou at\u00e9 Beja. Uma unidade \u00e0 esquerda poderia ter gerado um efeito multiplicador, que permitisse disputar C\u00e2maras como Vila Franca de Xira ou o segundo lugar em Lisboa. Acima de tudo, um movimento unit\u00e1rio \u00e0 esquerda teria acumulado for\u00e7as maiores para lutar pelos temas centrais que a esquerda levantou: Transportes, Habita\u00e7\u00e3o, trabalho com direitos, etc.<\/p>\n<p>O primeiro passo, na verdade, \u00e9 refletir. \u00c9 necess\u00e1rio um debate plural \u00e0 esquerda, n\u00e3o s\u00f3 nas c\u00fapulas dos partidos, mas aberto \u00e0 sua base, ao movimento sindical e social, para fazer um balan\u00e7o da experi\u00eancia com este governo, da situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e no mundo e construir um plano de luta comum. Deixamos algumas ideias sobre os passos a dar.<\/p>\n<p><strong>Usar as posi\u00e7\u00f5es conquistadas para lutar por direitos<\/strong><\/p>\n<p>Os resultados da esquerda padecem de todas as fragilidades que j\u00e1 assinalamos. A CDU teve uma importante derrota e o BE n\u00e3o deu o \u201csalto\u201d que pretendia. Mas as vota\u00e7\u00f5es e os lugares conquistados ainda constituem uma for\u00e7a importante. No conjunto do pa\u00eds, a esquerda alcan\u00e7ou os 13%. A CDU mant\u00e9m 24 C\u00e2maras e 129 Freguesias, e entre BE e PCP foram eleitos 183 vereadores e 744 deputados municipais.<\/p>\n<p>O direito a transportes, habita\u00e7\u00e3o, e servi\u00e7os p\u00fablicos, estiveram no centro da campanha de BE e CDU. Com os resultados obtidos, \u00e9 certo estes problemas n\u00e3o ser\u00e3o resolvidos. N\u00e3o s\u00f3 os Munic\u00edpios dirigidos pelo PS e pela direita n\u00e3o v\u00e3o dar resposta, mas sobretudo porque tal n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel com a pol\u00edtica restritiva do Governo.<\/p>\n<p>S\u00f3 a mobiliza\u00e7\u00e3o pode trazer solu\u00e7\u00f5es. Houve durante a campanha exemplos nesse sentido: a luta dos moradores da Rua dos Lagares, em Lisboa, contra os despejos, obteve uma vit\u00f3ria importante. Foi a mobiliza\u00e7\u00e3o dos moradores que derrotou o despejo, mas elei\u00e7\u00f5es e os eleitos mostraram ser um ponto de apoio. Mais do que todo o trabalho t\u00e9cnico e legislativo \u2013 muitas vezes essencial \u2013 \u00e9 este tipo de a\u00e7\u00e3o que devemos exigir a um eleito de esquerda: estar ao servi\u00e7o das lutas. A crise dos transportes e da habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem agora cair no esquecimento, pelo contr\u00e1rio. Apesar de fr\u00e1geis, os resultados eleitorais devem estar ao servi\u00e7o de mobilizar as popula\u00e7\u00f5es contra os despejos, contra a lei das rendas ou por mais investimentos nos transportes.<\/p>\n<p><strong>Nenhum apoio ao PS nas autarquias<\/strong><\/p>\n<p>Como o demonstra a experi\u00eancia dos \u00faltimos dois anos, o PS, mesmo com o apoio da esquerda, n\u00e3o resolve o essencial. A esquerda, em alian\u00e7a com o PS, tende a perder for\u00e7a. Ser\u00e1 assim tamb\u00e9m nas autarquias. Eventuais coliga\u00e7\u00f5es com o PS nos Munic\u00edpios onde n\u00e3o obteve maioria, dificultam os avan\u00e7os destas lutas. A esquerda j\u00e1 teve experi\u00eancias nesse sentido. Recordamos a experi\u00eancia negativa com o Vereador eleito pelo BE em Lisboa em 2008, Jos\u00e9 S\u00e1 Fernandes, quando o BE se coligou com Ant\u00f3nio Costa e acabou por perder a representa\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara por muitos anos.<\/p>\n<p>Por isso, preocupam-nos as declara\u00e7\u00f5es de Catarina Martins ou Ricardo Robles \u2013 por quem fizemos campanha nestas elei\u00e7\u00f5es \u2013 mostrando abertura para um acordo com o PS em Lisboa. Fernando Medina tamb\u00e9m j\u00e1 mostrou abertura nesse sentido. Apoi\u00e1mos ativamente o BE em Lisboa, e em v\u00e1rias cidades para construir uma oposi\u00e7\u00e3o ao PS e \u00e0 direita tamb\u00e9m no terreno local. <strong>Os resultados demonstraram que essa \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia, pelo que apelamos a que nenhuma \u201cGeringon\u00e7a local\u201d seja feita, em particular na capital.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Apoiar, estender e unir as lutas em curso<\/strong><\/p>\n<p>Depois de dois anos de acalmia social, come\u00e7amos agora a ver lutas importantes. No privado os trabalhadores come\u00e7am a lutar contra as administra\u00e7\u00f5es, que usam a legisla\u00e7\u00e3o laboral herdada do Governo PSD\/CDS para esmagar direitos \u2013 vimos isso na Autoeuropa e na PT. No p\u00fablico, os trabalhadores exigem uma verdadeira reposi\u00e7\u00e3o de direitos \u2013 como \u00e9 o caso de enfermeiros e m\u00e9dicos e outros funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Apoiar, estender e unir estas lutas \u00e9 essencial. Por um lado, todas as for\u00e7as e aten\u00e7\u00f5es da esquerda devem estar viradas para isso. Por outro, \u00e9 necess\u00e1rio que elas se reflitam na pol\u00edtica destes partidos: a exig\u00eancia do descongelamento imediato das carreiras de todos os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, a revoga\u00e7\u00e3o das leis laborais da Troika e o aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo devem ser linhas vermelhas em qualquer conversa com o PS.<\/p>\n<p>Neste sentido, n\u00e3o faz sentido BE e PCP votarem favoravelmente a mais um Or\u00e7amento de Estado que troca sal\u00e1rios e direitos pela meta do d\u00e9fice. Se o apoio a Ant\u00f3nio Costa servia para afastar Passos Coelho do poder, esse problema j\u00e1 n\u00e3o se coloca. Se o BE e o PCP est\u00e3o empenhados em lutar pelos servi\u00e7os p\u00fablicos, direitos laborais, transportes p\u00fablicos e habita\u00e7\u00e3o para todos, como afirmaram durante a campanha, n\u00e3o podem ser favor\u00e1veis a um Or\u00e7amento que n\u00e3o avan\u00e7a em nada disso.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio: a esquerda tem a obriga\u00e7\u00e3o de apresentar um verdadeiro plano econ\u00f3mico alternativo que contemple as 35 horas de trabalho no p\u00fablico e no privado, o investimento na sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o, a renacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas como a PT, os CTT, a EDP e a TAP, o fim das PPP&#8217;s e a suspens\u00e3o e auditoria do pagamento da d\u00edvida p\u00fablica. Nada disso impede que BE e PCP possam exigir e aprovar medidas que tragam a recupera\u00e7\u00e3o de rendimentos e direitos, sem para isso terem de aprovar todos os Or\u00e7amentos.<\/p>\n<p><strong>100% \u00e0 esquerda, contra a direita e o PS!<\/strong><\/p>\n<p>Nem BE nem PCP conseguem, cada um para seu lado, mobilizar a maioria dos trabalhadores e do povo de esquerda para confrontar os grandes interesses econ\u00f3micos que impedem verdadeiras mudan\u00e7as no pa\u00eds. Mas unidos poderiam, se quisessem, come\u00e7ar esse movimento. Um movimento amplo, com um plano alternativo, que coloque a vida de quem trabalha antes das exig\u00eancias dos bancos e de Bruxelas, pode ser posto em marcha. Desta forma, despertariam as for\u00e7as daqueles que j\u00e1 desistiram de lutar e dariam uma perspetiva de vit\u00f3ria aqueles que est\u00e3o nas lutas. Se a esquerda se tem queixado de n\u00e3o ter a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para conseguir mais direitos, \u00e9 hora de se unir para construir essa for\u00e7a. Ao lado dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos negros e imigrantes e das LGBT&#8217;s. Porque ao lado do PS, a esquerda n\u00e3o ganha for\u00e7as. Se h\u00e1 coisa que as elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas provaram \u00e9 que o caminho n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas ganharam um alcance nacional. Foram encaradas pelos eleitores como uma avalia\u00e7\u00e3o dos principais protagonistas pol\u00edticos \u00e0 escala nacional. 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