{"id":2468,"date":"2017-09-04T22:11:57","date_gmt":"2017-09-04T21:11:57","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/09\/04\/grecia-entrevista-a-ricardo-cabral-fernandes-ii\/"},"modified":"2017-09-04T22:11:57","modified_gmt":"2017-09-04T21:11:57","slug":"grecia-entrevista-a-ricardo-cabral-fernandes-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/09\/04\/grecia-entrevista-a-ricardo-cabral-fernandes-ii\/","title":{"rendered":"Gr\u00e9cia: Entrevista a Ricardo Cabral Fernandes (II)"},"content":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a segunda parte da entrevista que o MAS realizou a Ricardo Cabral Fernandes, activista do Bloco de Esquerda. Entre setembro de 2015 e fevereiro de 2016 esteve em Sal\u00f3nica, Gr\u00e9cia, onde participou no movimento estudantil da Universidade de Sal\u00f3nica e na Unidade Popular.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">MAS: Como est\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o da juventude e dos trabalhadores aos ataques do Governo Syriza\/Anel?<\/span><\/p>\n<p><strong>RFC: <\/strong>Como te disse antes, n\u00e3o sei se os activistas voltaram a ter esperan\u00e7a e a participar nas lutas pol\u00edticas mais locais. O que sei \u00e9 que o \u00fanico movimento que aguentou o desespero criado pela capitula\u00e7\u00e3o e, depois, trai\u00e7\u00e3o do Syriza foi o movimento anarquista. N\u00e3o tinha esperan\u00e7as no partido por recusar inteiramente o combate eleitoral e a participa\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es do Estado. Organiza e participa em manifesta\u00e7\u00f5es e combate o Aurora Dourada, por exemplo. Alguns anarquistas recorrem inclusive \u00e0 luta armada, colocando bombas em sucursais de bancos, institui\u00e7\u00f5es que representam os interesses do patronato e destruindo instala\u00e7\u00f5es estatais. Lembro-me de um ataque ao escrit\u00f3rio do Estado respons\u00e1vel pelo confisco de casas com incumprimento de hipotecas. O Estado estava a fazer directamente esse trabalho pelos bancos. Os anarquistas entraram no escrit\u00f3rio e destru\u00edram tudo, inclusive os computadores e os servidores da base de dados. V\u00e1rias pessoas continuaram a ter um tecto onde viver.<\/p>\n<p>Entretanto, quem tem liderado a luta dos trabalhadores tem sido a PAME, a central sindical afecta ao KKE. Os sindicatos organizam manifesta\u00e7\u00f5es contra medidas concretas do governo, fazem greves e, por vezes, entram em confrontos com a pol\u00edcia, que est\u00e1 completamente infiltrada por fascistas e neonazis do Aurora Dourada.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: Atualmente qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da esquerda na Gr\u00e9cia? Qual achas que deveria ser o caminho dos partidos (KKE, Antarsya e Unidade Popular) que est\u00e3o \u00e0 esquerda do Syriza? Fazer uma frente de esquerda para as lutas, mas tamb\u00e9m para as elei\u00e7\u00f5es? Radicalizar o programa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RFC: <\/strong>Depois do referendo de 25 de julho de 2015 e da marca\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es legislativas antecipadas por Alexis Tsipras para 20 de setembro do mesmo ano &#8211; que n\u00e3o foram mais que um golpe partid\u00e1rio contra a Plataforma de Esquerda &#8211; assistiu-se a uma reestrutura\u00e7\u00e3o profunda da esquerda-radical grega. Se em 2003 o Syriza representou a forma\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a pol\u00edtica de unidade \u00e0 esquerda &#8211; e aten\u00e7\u00e3o que na Gr\u00e9cia o sectarismo \u00e9 muito mais forte que em Portugal -, a sua capitula\u00e7\u00e3o e, depois, trai\u00e7\u00e3o fizeram recuar a esquerda em mais de dez anos. Ao romper com o Syriza a Plataforma de Esquerda criou uma coliga\u00e7\u00e3o, a Unidade Popular, com v\u00e1rias for\u00e7as pol\u00edticas mais pequenas e com partes de for\u00e7as j\u00e1 existentes &#8211; por exemplo, uma parte do Antarsya saiu para formar a coliga\u00e7\u00e3o. No entanto, o sectarismo mant\u00e9m-se muito vivo entre a esquerda grega e os eventos recentes ajudaram em muito a que se fortalecesse. Por exemplo, o KKE \u00e9 o partido mais sect\u00e1rio entre a esquerda. Quando estive em Sal\u00f3nica participei no movimento estudantil e inicialmente assumi uma postura de unidade \u00e0 esquerda, mas com o passar do tempo tornou-se-me claro que \u00e9 imposs\u00edvel trabalhar com o KKE, bem como com os seus militantes de base, que s\u00e3o alvo de um controlo e disciplina muito r\u00edgidos pela burocracia partid\u00e1ria. O KKE recusava-se a participar nas assembleias do movimento estudantil e quando se realizavam assembleias de estudantes em que a direita (Nova Democracia e PASOK &#8211; este \u00faltimo sob a capa de um novo mega partido estudantil chamado Protovoul\u00eda (Iniciativa em portugu\u00eas) depois do colapso) participava, o KKE atacava mais a esquerda do que a direita. Isto \u00e9 a minha experi\u00eancia pessoal e quero acreditar que n\u00e3o \u00e9 representativa de toda a ac\u00e7\u00e3o do KKE, mas as informa\u00e7\u00f5es que recebo da Gr\u00e9cia comprovam-na sistematicamente. Gostaria de ver uma frente de esquerda n\u00e3o apenas nas disputas eleitorais, mas tamb\u00e9m nas ruas. Por\u00e9m, parece-me mais f\u00e1cil tal acontecer na segunda do que na primeira.<\/p>\n<p>Quanto ao programa. A ideia que tenho relativamente ao programa pol\u00edtico das principais organiza\u00e7\u00f5es de esquerda \u00e9 que n\u00e3o t\u00eam um programa definido relativamente \u00e0 quest\u00e3o da UE e \u00e0 sa\u00edda da zona euro, uma quest\u00e3o fundamental. Ou seja, defendem a sa\u00edda mas n\u00e3o t\u00eam um plano concreto para isso nem para o p\u00f3s-sa\u00edda. Por vezes os discursos s\u00e3o bastante radicais e t\u00eam uma linguagem bastante marxista e revolucion\u00e1ria, mas depois se analisarmos com aten\u00e7\u00e3o conseguimos perceber que n\u00e3o existem propostas concretas inseridas num verdadeiro programa e estrat\u00e9gia pol\u00edticas. Se n\u00e3o se inverter a situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 um erro crasso, podendo significar eventualmente uma repeti\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia Syriza se houver um novo confronto com os poderes europeus. N\u00e3o se cria um plano B durante os confrontos, mas muito antes. Esta \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que j\u00e1 devia ter sido aprendida.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: Recentemente vimos as manifesta\u00e7\u00f5es de sectores da extrema-direita em cidades americanas e o assass\u00ednio de uma militante de esquerda na cidade de Charlottesville. Temos o Trump que d\u00e1 for\u00e7a e encoraja este tipo de ideias. Parece que existe no mundo um ressurgimento da extrema-direita e das suas ideias. Na Gr\u00e9cia como est\u00e1 a Aurora Dourada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RFC: <\/strong>Tens toda a raz\u00e3o. Estamos a assistir ao ressurgimento da extrema-direita no mundo e \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio e de racismo, dividindo a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O Aurora Dourada \u00e9 actualmente um dos principais partidos de extrema-direita neonazi na Europa e o terceiro partido na Gr\u00e9cia, para al\u00e9m de ser uma inspira\u00e7\u00e3o para outras for\u00e7as pol\u00edticas no continente europeu como nos Estados Unidos. Por exemplo, um dos fascistas que falou para a Vice durante os confrontos em Charllottesville disse que o movimento se baseava nas ac\u00e7\u00f5es do partido.<\/p>\n<p>Actualmente, o Aurora Dourada encontra-se acossado, o que n\u00e3o quer dizer que se deva baixar a guarda, bem pelo contr\u00e1rio. Durante anos o partido e os seus grupos armados ca\u00e7aram pelas ruas gregas militantes de esquerda e imigrantes, matando v\u00e1rios e espancando muitos outros. Por\u00e9m, com o assassinato do rapper Pavlo Fyssas a 18 de setembro de 2013 por militantes do Aurora Dourada e a enorme convuls\u00e3o social que se deu, \u00e9 que o poder pol\u00edtico e judicial se sentiram pressionados para agirem contra o partido, acusando-o de ser uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa. Os seus principais dirigentes, como Nikolaos Michaloliakos, foram inclusive acusados de liderarem uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa. Por\u00e9m, os grandes respons\u00e1veis por impedirem a ascens\u00e3o da extrema-direita e desta conquistar as ruas gregas n\u00e3o foram os poderes pol\u00edtico e judicial, mas sim o movimento antifascista grego. Foram os antifas quem impediram que o Aurora Dourada conquistasse e semeasse o p\u00e2nico pelas ruas. Este tem imensas li\u00e7\u00f5es a ensinar a todos os antifascistas e deve ser estudado atentamente. A primeira \u00e9 logo que os fascistas n\u00e3o se regem pela mesma moral que n\u00f3s e, portanto, est\u00e3o mais que dispostos a utilizar m\u00e9todos violentos contra todos os que se lhe op\u00f5em. O movimento antifascista h\u00e1 muito que ultrapassou o debate sobre se se deve ou n\u00e3o responder com viol\u00eancia aos ataques fascistas &#8211; o que n\u00e3o significa n\u00e3o usar a viol\u00eancia de forma reflectida e ponderada sempre que tal seja necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O movimento antifascista \u00e9 um conjunto de organiza\u00e7\u00f5es e colectivos de v\u00e1rias tend\u00eancias pol\u00edticas, desde a esquerda-radical \u00e0 extrema-esquerda, n\u00e3o esquecendo os anarquistas e activistas a t\u00edtulo individual que simplesmente se op\u00f5em ao fascismo. De forma alguma pode ser considerado um movimento centralizado. O que une todas as organiza\u00e7\u00f5es, colectivos e activistas que o comp\u00f5em \u00e9 simplesmente a luta contra o fascismo. Todas as organiza\u00e7\u00f5es participam no movimento de acordo com a sua pr\u00f3pria agenda pol\u00edtica e com as capacidades que possuem, marcando manifesta\u00e7\u00f5es aut\u00f3nomas a que as restantes partes do restante movimento podem ou n\u00e3o participar. As assembleias antifascistas s\u00e3o comuns no seio de cada organiza\u00e7\u00e3o ou colectivo, a que se somam as assembleias \u201cgerais\u201d do movimento sempre que se justifica. O contacto entre os antifascistas \u00e9 permanente.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 certos momentos em que o movimento antifascista age como um todo, como, por exemplo, no dia de mem\u00f3ria do assassinato do rapper Pavlo Fyssas, em que marcham todos juntos. Outro exemplo de uni\u00e3o \u00e9 quando algum elemento do movimento antifascista \u00e9 atacado por for\u00e7as fascistas, como os esquadr\u00f5es de ataque do Aurora Dourada, a que o movimento reage em un\u00edssono por meio de manifesta\u00e7\u00f5es ou de retalia\u00e7\u00f5es violentas contra as sedes ou membros do partido.<\/p>\n<p>Se analisarmos as pr\u00e1ticas do movimento antifascista conseguimos delinear quatro eixos estrat\u00e9gicos orientadores que todas as organiza\u00e7\u00f5es e colectivos cumprem de forma independente (e dependendo das suas capacidades), que s\u00e3o: 1) cria\u00e7\u00e3o de colectivos de bairro antifascistas para impedir a expans\u00e3o das for\u00e7as fascistas e dos seus eventos pela cidade, organizando manifesta\u00e7\u00f5es; 2) disputa de influ\u00eancia atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o de propaganda (flyers, jornais e cartazes), de debates e de grandes eventos antifascistas, como o Festival Antifascista, que todos os anos se organiza em Sal\u00f3nica em Junho, ou o Torneio de Kickboxing Antifascista, e, por fim, com a cria\u00e7\u00e3o de websites de monitoriza\u00e7\u00e3o das actividades do Aurora Dourada e de call-centers, onde as pessoas podem ligar para pedirem ajuda ou para comunicar actividades que tenham presenciado ou que saibam que ir\u00e3o acontecer; 3) cria\u00e7\u00e3o de colectivos de solidariedade para os mais pobres, desempregados e imigrantes, tentando minimizar as suas car\u00eancias materiais e disputando esta \u00e1rea com os neonazis, que tamb\u00e9m organizam os seus centros de assist\u00eancia s\u00f3 para \u201cgregos\u201d; 4) apresenta\u00e7\u00e3o de alternativas ao fascismo com o aprofundamento de pr\u00e1ticas de democracia directa, de auto-gest\u00e3o, de igualdade e de solidariedade, principalmente nos colectivos de bairro, nos centros de solidariedade e nas assembleias antifascistas.<\/p>\n<p>Todos estes quatro eixos se inter-relacionam, compondo uma estrat\u00e9gia transversal perante a sociedade grega. Uma estrat\u00e9gia ofensiva contra as for\u00e7as fascistas, mas tamb\u00e9m construtiva, de preven\u00e7\u00e3o, sob as condi\u00e7\u00f5es que permeiam o avan\u00e7o social do fascismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a segunda parte da entrevista que o MAS realizou a Ricardo Cabral Fernandes, activista do Bloco de Esquerda. 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