{"id":2466,"date":"2017-09-04T21:54:30","date_gmt":"2017-09-04T20:54:30","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/09\/04\/grecia-entrevista-a-ricardo-cabral-fernandes-i\/"},"modified":"2017-09-04T21:54:30","modified_gmt":"2017-09-04T20:54:30","slug":"grecia-entrevista-a-ricardo-cabral-fernandes-i","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/09\/04\/grecia-entrevista-a-ricardo-cabral-fernandes-i\/","title":{"rendered":"Gr\u00e9cia: Entrevista a Ricardo Cabral Fernandes (I)"},"content":{"rendered":"<p>O MAS entrevistou Ricardo Cabral Fernandes,\u00a0 activista do Bloco de Esquerda. Entre setembro de 2015 e fevereiro de 2016 esteve em Sal\u00f3nica, Gr\u00e9cia, onde participou no movimento estudantil da Universidade de Sal\u00f3nica e na Unidade Popular.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <strong>MAS: Passado dois anos e meio de Governo do Syriza em coliga\u00e7\u00e3o com a Anel. Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Gr\u00e9cia?<\/strong> <\/p>\n<p><strong>RCF: <\/strong>A Gr\u00e9cia \u00e9 hoje uma neocol\u00f3nia europeia e o seu governo aplica todas as medidas que a troika, principalmente Merkel e Schauble, exige. Durante alguns meses o Syriza tentou mostrar ao povo grego que, mesmo depois das elei\u00e7\u00f5es de 20 de setembro, se opunha acerrimamente \u00e0s pol\u00edticas da troika nas reuni\u00f5es do Eurogrupo para depois aceitar todas as medidas que lhe impunham. Era o \u201cvejam lut\u00e1mos e tent\u00e1mos, mas eles s\u00e3o mais fortes\u201d, tentando passar as responsabilidades para as inst\u00e2ncias europeias. Nos \u00faltimos meses Alexis Tsipras e o seu c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo mudaram de estrat\u00e9gia: tentam vender a ideia de que o pa\u00eds j\u00e1 passou pelo pior e que a economia est\u00e1 a crescer, uma cl\u00e1ssica estrat\u00e9gia usada no passado por Antonis Samaras, ex-l\u00edder do Nova Democracia e ex-primeiro-ministro da coliga\u00e7\u00e3o ND-PASOK. Usam emiss\u00f5es de d\u00edvida soberana pontuais para o justificarem, emiss\u00f5es que apenas trocam d\u00edvida por d\u00edvida, empurrando o problema da d\u00edvida para o futuro. S\u00f3 o conseguir\u00e3o faz\u00ea-lo at\u00e9 um certo ponto e mais tarde ou mais cedo ser\u00e1 imperativo proceder-se a uma reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida. A quest\u00e3o \u00e9 como ser\u00e1 feita, lembrando a de 2012, que apenas serviu para salvar a banca francesa e alem\u00e3. O apoio do Fundo Monet\u00e1rio Internacional \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida soberana grega deve ser olhado com cautela ou at\u00e9 mesmo com desconfian\u00e7a, tendo em conta a cartilha neoliberal que aplicou por todo o mundo e na Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>Estas duas estrat\u00e9gias n\u00e3o t\u00eam resultado. A credibilidade do Syriza junto do povo grego cai a cada dia que passa. O partido continua em queda abrupta nas sondagens &#8211; se bem que na Gr\u00e9cia estas s\u00e3o de desconfiar &#8211; e o Nova Democracia, liderado por Mitsotakis, um fervoroso neoliberal que estudou economia na Universidade de Chicago, j\u00e1 ultrapassou o Syriza. Para mim \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 o partido colapsar. Os anos recentes demonstraram que sempre que uma for\u00e7a pol\u00edtica de centro-esquerda, o PASOK ou o PSF, por exemplo, \u00e9 conivente ou aplica a cartilha da austeridade e das reformas estruturais aliena a sua base social de apoio, ao contr\u00e1rio do que acontece com os partidos de centro-direita. Ao seguirem os ditames da troika perdem o seu car\u00e1cter diferenciador face aos de centro-direita, colocando em causa o pr\u00f3prio bipartidarismo. O caso do Syriza \u00e9 ainda mais grave no sentido em que representou uma grande esperan\u00e7a para muitos gregos e por possuir um discurso mais radical do que o PASOK, o que faz com que as contradi\u00e7\u00f5es entre o que prometeu e o que est\u00e1 a fazer sejam gritantes. Para al\u00e9m disso, o Syriza nunca teve &#8211; e ainda n\u00e3o tem &#8211; uma estrutura partid\u00e1ria, implanta\u00e7\u00e3o local e organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores a si afectas como os partidos da Internacional Socialista tinham e t\u00eam, o que contribui para a sua eros\u00e3o e prov\u00e1vel colapso. De um partido de esquerda-radical, o Syriza passou, em poucos meses, a partido neoliberal. Aderiu ao \u201cextremo centro\u201d que Tariq Ali t\u00e3o bem definiu.<\/p>\n<p>O colapso do Syriza coloca-nos imediatamente uma quest\u00e3o: quem vai representar a esquerda anticapitalista doravante? \u00c9 que caso nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica se afirme nos pr\u00f3ximos tempos n\u00e3o \u00e9 despeciente afirmar que a desilus\u00e3o de muitos gregos pode ser capitalizada pelo Aurora Dourada, mesmo que neste momento se encontre acossada.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: O Syriza desrespeitou a vota\u00e7\u00e3o do povo grego no referendo sobre o memorando no Ver\u00e3o de 2015. Quais foram as consequ\u00eancias para o povo grego?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RCF: <\/strong>As consequ\u00eancias foram desastrosas tanto para o povo grego como para a esquerda grega e europeia. Para o povo grego representou uma trai\u00e7\u00e3o e a ilus\u00e3o de uma falsa esperan\u00e7a representada pelo Syriza. Em consequ\u00eancia dos erros estrat\u00e9gicos do partido o povo grego foi punido com o pior memorando de austeridade e de reformas estruturais desde que a crise econ\u00f3mico-financeira entrou pela Gr\u00e9cia adentro. O povo grego ficou sem reac\u00e7\u00e3o e num estado de incredulidade, em que a descri\u00e7\u00e3o que mais se assemelha \u00e9 a de que Naomi Klein faz no seu livro \u201cDoutrina de Choque\u201d. De um pico de lutas sociais intensas passou-se para uma profunda letargia. Cheguei a Sal\u00f3nica logo depois da capitula\u00e7\u00e3o do Syriza e o que pude ver foi isso mesmo. Todo um povo sem saber o que fazer a seguir. Muitos activistas simplesmente desistiram e foram para casa sarar as feridas, reflectir no que tinha corrido mal e sem grandes esperan\u00e7as no futuro. Espero que hoje isso j\u00e1 tenha mudado e que tenham voltado a participar na luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: E para a esquerda radical europeia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RCF: <\/strong>A experi\u00eancia grega tem imenso para nos ensinar. Ao longo do curso contradit\u00f3rio da Hist\u00f3ria os erros pol\u00edticos tornaram-se n\u00e3o poucas vezes em fontes de conhecimento para a esquerda revolucion\u00e1ria. Perante uma derrota ou um impasse o pensamento revolucion\u00e1rio \u00e9 obrigado a descobrir novos caminhos, mas tal apenas pode acontecer se n\u00e3o ignorarmos os acontecimentos ou se apenas olharmos para algumas vertentes da Hist\u00f3ria \u2013 como tem acontecido em Portugal pelas principais direc\u00e7\u00f5es dos partidos de esquerda. Em suma, temos de aprender com o passado para disputarmos o presente e o futuro.<\/p>\n<p>Apesar da estupefac\u00e7\u00e3o e desalento de grande parte da esquerda europeia ap\u00f3s a capitula\u00e7\u00e3o do Syriza, a grande maioria dessa mesma esquerda recusou-se a debater tamanha derrota, e quando o fez focou-se apenas na caracteriza\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia (UE) e na forma como esta esmagou o governo grego. Parece que na luta de classes s\u00f3 existe um lado no combate e n\u00e3o dois, recusando qualquer car\u00e1cter dial\u00e9ctico da pr\u00f3pria luta de classes. No entanto, e apesar desta limita\u00e7\u00e3o, retiraram-se grandes ila\u00e7\u00f5es quanto ao car\u00e1cter da UE, o que por si s\u00f3 j\u00e1 foi uma conquista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: A que li\u00e7\u00f5es te referes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RCF: <\/strong>Bem, genericamente refiro-me a tr\u00eas, mas obviamente que existem muitas outras nos m\u00faltiplos planos de combate. A primeira li\u00e7\u00e3o foi que as institui\u00e7\u00f5es europeias, os governos europeus e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) n\u00e3o hesitaram em se coligar para imporem uma estrat\u00e9gia de preven\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel cont\u00e1gio eleitoral grego aos restantes Estados do Sul da Europa, principalmente Espanha e Portugal. Era imperativo que a esquerda radical n\u00e3o granjeasse crescente credibilidade enquanto alternativa \u00e0 austeridade permanente imposta pelo Centro e Norte da Europa e aplicada pelos seus lacaios pol\u00edticos no Sul da Europa.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 a de que as inst\u00e2ncias europeias se assumem como porta-vozes de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica para o projecto europeu que n\u00e3o aumenta apenas a assimetria entre Estados ricos e pobres, mas que \u00e9 tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o de um novo modelo neocolonial na Europa do Sul. E a terceira \u00e9 a de que a orienta\u00e7\u00e3o austerit\u00e1ria seguida at\u00e9 ao momento n\u00e3o \u00e9 produto de uma alegada teimosia ou ortodoxia das inst\u00e2ncias europeias, mas antes de uma necessidade material das burguesias nacionais de uma maior acumula\u00e7\u00e3o capitalista nos principais centros de poder europeus. A teimosia e a ortodoxia n\u00e3o ser\u00e3o solid\u00e1ria e altruisticamente colocadas de parte em consequ\u00eancia da apresenta\u00e7\u00e3o de argumentos econ\u00f3micos ou das crises humanit\u00e1rias que possam existir, como Varoufakis aprendeu e os gregos infelizmente tanto sentem na pele depois de tr\u00eas memorandos. Em suma, \u00e9 o expoente m\u00e1ximo da luta de classes.<\/p>\n<p>Se num primeiro momento a vis\u00e3o estrat\u00e9gica da esquerda radical europe\u00edsta sobre a Uni\u00e3o Europeia foi fortemente abalada depois da capitula\u00e7\u00e3o do Syriza, a verdade \u00e9 que nos meses seguintes esta voltou a ganhar for\u00e7a pol\u00edtica \u2013 basta olhar para os documentos estrat\u00e9gicos do Partido de Esquerda Europeia (PEE) sobre o assunto. Por exemplo, Gregor Gyzi, presidente do PEE e membro da direita da direc\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Die Linke, continua a defender que a UE pode ser transformada por dentro e abra\u00e7a a ideia de uma coliga\u00e7\u00e3o entre o Die Linke e o SPD \u2013 e com Os Verdes se tal for necess\u00e1rio \u2013 para formar governo, uma geringon\u00e7a \u00e0 alem\u00e3, e, atrav\u00e9s da lideran\u00e7a da principal pot\u00eancia do projecto europeu transformar a pr\u00f3pria UE. O l\u00edder do SPD, Martin Schulz, n\u00e3o tem, de acordo com as sondagens mais recentes, quaisquer possibilidades de ganhar as elei\u00e7\u00f5es legislativas de 24 de setembro deste ano \u00e0 chanceler Angela Merkel. Mas pior do que acreditar numa ilus\u00e3o contra dados eleitorais, \u00e9 acreditar que as burguesias europeias o v\u00e3o permitir. \u00c9 continuar a bater com a cabe\u00e7a na parede. Einstein uma vez disse: \u201ca defini\u00e7\u00e3o de louco \u00e9 tentar v\u00e1rias vezes a mesma coisa e esperar resultados diferentes\u201d. Tentar mudar a Uni\u00e3o Europeia por dentro e para mais atrav\u00e9s de coliga\u00e7\u00f5es \u00e0 \u201cla geringon\u00e7a\u201d \u00e9 simplesmente uma ilus\u00e3o. Receio bastante que a solu\u00e7\u00e3o governativa portuguesa esteja a ser vista por algumas direc\u00e7\u00f5es de for\u00e7as pol\u00edticas do campo da esquerda-radical como a solu\u00e7\u00e3o para o combate contra a austeridade e as burguesias, quando a geringon\u00e7a j\u00e1 mostrou que a austeridade se mant\u00e9m, mesmo que menor e sem a imagem de vivermos num permanente estado de excep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: Disseste antes que no confronto entre o Syriza e os poderes europeus parece que s\u00f3 existiu um lado e n\u00e3o dois pelas conclus\u00f5es parciais da esquerda radical. Podes desenvolver?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RCF: <\/strong>As direc\u00e7\u00f5es dos partidos de esquerda, principalmente dos parlamentares, recusaram-se a olhar para os erros e li\u00e7\u00f5es positivas do Syriza no confronto contra os poderes europeus, independentemente dos motivos para o terem feito. Na an\u00e1lise que fa\u00e7o divido-os em tr\u00eas n\u00edveis diferentes. O primeiro \u00e9 o europeu; o segundo o do governo; e o terceiro o do partido. Todos estes planos se interligam e complementam.<\/p>\n<p>O principal e \u00f3bvio erro que o Syriza fez foi n\u00e3o ter preparado um plano B de sa\u00edda da zona euro. No confronto com os poderes europeus o potencial de chantagem e de amea\u00e7a \u00e9 fundamental e um plano seria essa margem de manobra. O Syriza acreditava que podia transformar a UE por dentro e essa ideia \u00e9 bastante velha em certas alas do partido, para al\u00e9m de que a Gr\u00e9cia nunca seria confrontada com a amea\u00e7a de expuls\u00e3o da zona euro. A direc\u00e7\u00e3o do Syriza acreditou ingenuamente que os l\u00edderes europeus queriam o melhor para a Europa e que nunca tomariam uma decis\u00e3o desta magnitude que colocasse em causa os pr\u00f3prios alicerces do projecto europeu \u2013 o que de que quem entra j\u00e1 n\u00e3o sai, princ\u00edpio que, inclusive, est\u00e1 consagrado nos tratados europeus. Os l\u00edderes europeus far\u00e3o dos tratados europeus letra morta se a isso forem obrigados. A ideia de transformar a UE por dentro \u00e9 claramente eurocomunista, que acredita que o Estado enquanto sujeito \u00e9 um palco de combate e disput\u00e1vel por dentro, gradualmente, com a burguesia. Passando esta ideia para o plano europeu esse Estado \u00e9 a UE. Estou a simplificar bastante a ideia, mas genericamente \u00e9 isto. E este erro leva-nos para uma segunda quest\u00e3o fundamental na hist\u00f3ria te\u00f3rica para a esquerda: a sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado, o eterno debate \u201creforma ou revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Ser-se governo n\u00e3o \u00e9 o mesmo que ser-se poder e o Syriza aprendeu isto mesmo da pior forma. A ideia de se controlar o aparelho de Estado por apenas se ser governo \u00e9 uma fal\u00e1cia tremenda. Os ministros do governo grego davam ordens e tinham o chamado \u201cEstado profundo\u201d a boicot\u00e1-los constantemente. Um deles foi precisamente o Presidente do Banco Central Grego, Yannis Stournaras, que agiu activamente nas reuni\u00f5es do Banco Central Europeu e com os banqueiros e finan\u00e7a mundiais contra o governo grego.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: D\u00e1 um exemplo dessa situa\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>RCF: <\/strong>Por exemplo, recusou-se a aumentar a linha de cr\u00e9dito de liquidez dos bancos naqueles longos sete meses, mesmo que todo o sistema banc\u00e1rio grego pudesse colapsar por falta de liquidez. Para derrotar o governo grego a burguesia estava disposta a tudo. O Syriza foi obrigado, como tamb\u00e9m o ser\u00e1 qualquer for\u00e7a politica anticapitalista que no futuro tome o governo com um programa reformista ou revolucion\u00e1rio, a combater em duas frentes: a externa, contra as burguesias europeias, e a interna, contra a burguesia grega. Como retirar os elementos sabotadores da burguesia no aparelho do Estado? A esquerda tem de voltar a aprofundar o debate sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado, actualizando as teorias sobre o Estado nesta nova realidade de dicotomia entre os Estados nacionais e um mega Estado europeu. An\u00e1lise da quest\u00e3o, defini\u00e7\u00e3o de programa, de estrat\u00e9gia e, depois, de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Syriza enquanto partido deu-nos tanto erros como li\u00e7\u00f5es positivas que devem ser estudadas e, porventura, adaptadas \u00e0s particularidades de cada palco nacional pelos partidos de esquerda. Comecemos pelos erros. Primeiro, o de ter tido focado a luta pol\u00edtica nas institui\u00e7\u00f5es, logo a pol\u00edtica eleitoral, em vez de se focar nas ruas e na cria\u00e7\u00e3o de alternativas pol\u00edticas mais locais. A partir das duplas elei\u00e7\u00f5es de 2012 toda a gente ficou a saber que era uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 o Syriza ser governo. Come\u00e7ou-se, inclusive, a criar um governo sombra. No p\u00f3s-grande recess\u00e3o, a traject\u00f3ria estrat\u00e9gica do Syriza \u00e9 parecida com a de outros partidos de esquerda radical europeus e pode-se dividir em duas fases distintas que se interligam e sobrep\u00f5em: o foco na participa\u00e7\u00e3o e apoio aos movimentos sociais com as ocupa\u00e7\u00f5es de pra\u00e7as\u00a0 (Occupy Wall Street, Pra\u00e7a del Sol) e de manifesta\u00e7\u00f5es\u00a0 (Que se Lixe a Troika, por exemplo); e a fase do foco na pol\u00edtica eleitoral, nas institui\u00e7\u00f5es e de ser ou apoiar o governo depois da dissolu\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais para substituir os partidos sociais-liberais que iam colapsando, que estavam em risco de ou que precisavam de ser salvos. Por fim, podemos estar tamb\u00e9m a assistir a uma nova fase estrat\u00e9gica com os movimentos de Jeremy Corbyn, Bernie Sanders e Jean-Luc Melenchon. S\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter partid\u00e1rio, mas que est\u00e3o a conseguir aglomerar movimentos sociais, partidos pol\u00edticos mais pequenos e trabalhadores e organiza\u00e7\u00f5es sindicais sob a mesma bandeira. Formalmente a luta faz-se sob a al\u00e7ada do partido, mas vai muito para al\u00e9m deste e as lideran\u00e7as n\u00e3o podem decidir tudo \u00e0 porta fechada sem ouvirem os seus aliados de base.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o do Syriza. A burocracia partid\u00e1ria aumentou \u00e0 medida que o partido se foi expandindo e quando entraram milhares de novos militantes, muitos oportunistas vindos do PASOK. Os interesses da burocracia come\u00e7aram-se a sobrepor aos dos militantes e trabalhadores, o que, em parte, resultou no erro seguinte. Segundo erro, a falta de democracia interna dentro do pr\u00f3prio Syriza, o que produziu e foi produto de uma enorme concentra\u00e7\u00e3o de poder num c\u00edrculo restrito \u00e0 volta de Alexis Tsipras. Come\u00e7ou-se a observar a um culto de personalidade &#8211; e at\u00e9 podemos fazer alguns paralelismos com outros partidos de esquerda radical europeus pr\u00f3ximos de n\u00f3s. O Podemos vem-me logo \u00e0 cabe\u00e7a, por exemplo. As decis\u00f5es do partido eram tomadas no topo, longe das bases do partido e, para piorar a situa\u00e7\u00e3o, as informa\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es n\u00e3o eram transmitidas. Ora, um militante \u00e9 \u2013 e deve ser \u2013 uma extens\u00e3o natural do partido em cada casa e local de estudo\/trabalho, explicando a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e as decis\u00f5es do partido a todos os trabalhadores. Caso contr\u00e1rio estes apenas tomar\u00e3o conhecimento das ac\u00e7\u00f5es do governo\/partido pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, que, por sua vez, s\u00e3o controlados pela burguesia e defendem os seus interesses materiais e ideol\u00f3gicos. Foi exactamente isto que aconteceu. Quando confrontados pelos trabalhadores sobre uma decis\u00e3o do governo grego, os militantes do Syriza n\u00e3o eram capazes de responder pelo simples facto de ou n\u00e3o saberem que uma decis\u00e3o tinha sido tomada ou por n\u00e3o saberem o porqu\u00ea de ter sido ou at\u00e9 por ambos. Isto retira credibilidade ao partido e aos militantes junto dos trabalhadores, para al\u00e9m de criar um sentimento de impot\u00eancia nos pr\u00f3prios activistas. E se antes do partido ser governo as decis\u00f5es j\u00e1 estavam concentradas num reduzido c\u00edrculo e, por vezes, \u00e0 margem dos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os partid\u00e1rios, com a entrada do Syriza no governo as decis\u00f5es passaram a ser tomadas no Conselho de Ministros e n\u00e3o nos \u00f3rg\u00e3os partid\u00e1rios. A democracia interna ficou ainda mais fragilizada, se ainda existia sequer.<\/p>\n<p>Um \u00faltimo erro foi a concentra\u00e7\u00e3o do internacionalismo do Syriza e da esquerda radical europeia no Parlamento Europeu com o grupo parlamentar GUE\/NGL e PEE. O internacionalismo institucional \u00e9 importante, mas n\u00e3o \u00e9 de todo suficiente para combater os interesses internacionais dos capitalistas e n\u00e3o deve ser o principal foco numa estrat\u00e9gia internacionalista. \u00c9 fundamental um internacionalismo de rua, de movimentos sociais, de troca de experi\u00eancias de base. Estes dois internacionalismos n\u00e3o se auto-excluem, ao inv\u00e9s, complementam-se dialeticamente, elevam em conjunto a voz da rua europeia e intensificam a luta de classes. Na minha opini\u00e3o, o Syriza n\u00e3o investiu o suficiente para criar internacionalismo de rua, quando este \u00e9 fundamental para demonstrar solidariedade e criar ra\u00edzes para futuros movimentos por toda a Europa, principalmente nos pa\u00edses do Sul. Se n\u00e3o tivessem sido ativistas de movimentos sociais que tomaram as r\u00e9deas de livre e espont\u00e2nea vontade, as express\u00f5es de solidariedade n\u00e3o teriam sido t\u00e3o grandes como foram. Poderei estar a ser injusto, mas \u00e9 o que me parece. Na quest\u00e3o do internacionalismo parece-me tamb\u00e9m imperativo referir a necessidade de um programa pol\u00edtico internacional adaptado \u00e0s especificidades nacionais e que repudie as ilus\u00f5es do europe\u00edsmo de esquerda. A simples partilha de valores comuns j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente para a esquerda agir concertadamente neste momento. \u00c9 essencial ir mais al\u00e9m e preparar conjunta e democraticamente, de baixo para cima, um programa internacional de rompimento com a zona euro e at\u00e9 com a UE, um programa anticapitalista que coloque a t\u00f3nica nos interesses dos trabalhadores. A iniciativa do Plano B prop\u00f5e-se fazer isso, mas \u00e9 preciso esperar para ver quais as linhas program\u00e1ticas gerais que ter\u00e1, a estrat\u00e9gia para a sa\u00edda da zona euro que escolher\u00e1 e, n\u00e3o menos importante, ver qual ser\u00e1 a metodologia para se criar esse plano, se no final ser\u00e1 \u00e0 porta fechada com uma s\u00e9rie de acad\u00e9micos ou especialistas ou se democraticamente pela base. \u00c9 esperar para ver, mas a primeira reac\u00e7\u00e3o que tive foi positiva.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s li\u00e7\u00f5es positivas da experi\u00eancia do Syriza. A principal parece-me ser a constru\u00e7\u00e3o de redes de solidariedade a partir de 2010. At\u00e9 foi a juventude do partido a avan\u00e7ar com isso mesmo contra o c\u00edrculo de Tsipras, o que, convinhamos, n\u00e3o \u00e9 muito pr\u00f3prio de uma juventude partid\u00e1ria na forma como em Portugal se olha para este modelo organizativo. Por\u00e9m, as primeiras redes de solidariedade n\u00e3o foram criadas pelo partido, mas por organiza\u00e7\u00f5es autonomistas e anarquistas, mas os militantes do Syriza n\u00e3o ficaram para tr\u00e1s. As redes de solidariedade n\u00e3o s\u00e3o apenas positivas por responderem \u00e0s necessidades dos trabalhadores, desempregados, estudantes, pensionistas e reformados quando as estruturas sociais do Estado colapsam, mas tamb\u00e9m por criarem pr\u00e1ticas alternativas ao sistema capitalista. Novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, mesmo que micro, democracia de alta intensidade na base, destrui\u00e7\u00e3o de hierarquias e do individualismo neoliberal extremo, etc. Em suma, destr\u00f3i-se a hegemonia neoliberal e erode-se a forma como esta molda os comportamentos sociais pela pr\u00e1tica, ao mesmo tempo que aglomera cada vez mais trabalhadores e contacta com as suas realidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O MAS entrevistou Ricardo Cabral Fernandes,\u00a0 activista do Bloco de Esquerda. Entre setembro de 2015 e fevereiro de 2016 esteve em Sal\u00f3nica, Gr\u00e9cia, onde participou no movimento estudantil da Universidade de Sal\u00f3nica e na Unidade Popular.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2465,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[39],"tags":[116,499,684,1194,233,476,1195,422,114,115,1193,117,423],"class_list":["post-2466","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-europa","tag-alternativa","tag-austeridade","tag-bloco","tag-cabral","tag-crise","tag-esquerda","tag-fernandes","tag-grecia","tag-mas","tag-movimento","tag-ricardo","tag-socialista","tag-syriza"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rcf.jpg?fit=716%2C711","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2466","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2466"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2466\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2465"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2466"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2466"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2466"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}