{"id":2444,"date":"2017-08-21T13:06:54","date_gmt":"2017-08-21T12:06:54","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/08\/21\/testamento-de-leon-trotsky\/"},"modified":"2017-08-21T13:06:54","modified_gmt":"2017-08-21T12:06:54","slug":"testamento-de-leon-trotsky","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/08\/21\/testamento-de-leon-trotsky\/","title":{"rendered":"Testamento de Leon Trotsky"},"content":{"rendered":"<p>A minha press\u00e3o sangu\u00ednea elevada (e que continua a elevar-se) engana aqueles que me s\u00e3o pr\u00f3ximos sobre as minhas reais condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Estou ativo e capaz de trabalhar, mas o fim est\u00e1 evidentemente pr\u00f3ximo. Estas linhas ser\u00e3o tornadas p\u00fablicas ap\u00f3s minha morte.<\/p>\n<p>  <!--more-->  N\u00e3o preciso mais uma vez refutar aqui a cal\u00fania vil de Estaline e seus agentes: n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 mancha sobre a minha honra revolucion\u00e1ria. N\u00e3o entrei, nem direta nem indiretamente, em nenhum acordo, ou mesmo em nenhuma negocia\u00e7\u00e3o de bastidores, com os inimigos da classe oper\u00e1ria. Milhares de advers\u00e1rios de Estaline tombaram, v\u00edtimas de falsas acusa\u00e7\u00f5es. As novas gera\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias reabilitar\u00e3o a sua honra pol\u00edtica e tratar\u00e3o os seus carrascos do Kremlin como eles merecem. <\/p>\n<p>Agrade\u00e7o ardentemente aos amigos que se mantiveram leais atrav\u00e9s das horas mais dif\u00edceis de minha vida. N\u00e3o cito nenhum em particular, porque n\u00e3o os posso citar todos.<\/p>\n<p>Apesar disso, considero-me no direito de fazer exce\u00e7\u00e3o para o caso de minha companheira, Nat\u00e1lia Ivanovna Sedova. Al\u00e9m da felicidade de ser um combatente da causa do socialismo, quis a sorte me reservar a felicidade de ser seu esposo. Durante quarenta anos de vida comum, ela permaneceu uma fonte inesgot\u00e1vel de amor, magnanimidade e ternura. Sofreu grandes dores, principalmente no \u00faltimo per\u00edodo das nossas vidas. Encontro algum conforto no facto de que ela conheceu tamb\u00e9m dias de felicidade.<\/p>\n<p>Nos quarenta e tr\u00eas anos da minha vida consciente, permaneci um revolucion\u00e1rio; durante quarenta e dois destes, combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recome\u00e7ar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imut\u00e1vel. Morro revolucion\u00e1rio prolet\u00e1rio, marxista, partid\u00e1rio do materialismo dial\u00e9tico e, por conseq\u00fc\u00eancia, ateu irredut\u00edvel. A minha f\u00e9 no futuro comunista da humanidade n\u00e3o \u00e9 menos ardente; em verdade, ela \u00e9 hoje mais firme do que o foi nos dias da minha juventude.<\/p>\n<p>Natascha acabou de chegar pelo p\u00e1tio at\u00e9 a janela e abriu-a completamente para que o ar possa entrar mais livremente no meu quarto. Posso ver a larga faixa de verde sob o muro, sobre ele o claro c\u00e9u azul, e por todos os lados, a luz solar. A vida \u00e9 bela, que as gera\u00e7\u00f5es futuras a limpem de todo o mal, de toda opress\u00e3o, de toda viol\u00eancia e possam goz\u00e1-la plenamente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Leon Trotsky<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p> <strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em><\/strong> <\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Coyoac\u00e1n, 27 de fevereiro de 1940.<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Post Scriptum<\/em><\/p>\n<p>Diante da natureza da minha doen\u00e7a (press\u00e3o sangu\u00ednea elevada e em constante eleva\u00e7\u00e3o), parece-me que o fim chegar\u00e1 de repente e, provavelmente &#8211; \u00e9 ainda uma hip\u00f3tese pessoal -, por uma hemorragia cerebral. \u00c9 o melhor dos fins que eu poderia desejar. \u00c9 poss\u00edvel, entretanto, que eu me engane (n\u00e3o tenho a menor vontade de ler livros especializados, e os m\u00e9dicos naturalmente n\u00e3o me dir\u00e3o a verdade). Se a esclerose tiver que assumir um car\u00e1ter prolongado e eu for amea\u00e7ado de uma longa invalidez (neste momento, pelo contr\u00e1rio, sinto at\u00e9 uma intensa energia espiritual devida ao subir da press\u00e3o, mas isso n\u00e3o durar\u00e1 muito), reservo-me o direito de determinar por mim mesmo o momento de minha morte. O &#8220;suic\u00eddio&#8221; (se \u00e9 esse o termo apropriado) n\u00e3o ser\u00e1, de maneira alguma, a express\u00e3o de uma explos\u00e3o de desespero. Natascha e eu j\u00e1 nos dissemos mais de uma vez que, se chegados a uma tal condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, preferiremos encurtar a pr\u00f3pria vida, ou mais exatamente, o longo processo da agonia. Mas, sejam quais forem as condi\u00e7\u00f5es da minha morte, morrerei com uma f\u00e9 inquebrant\u00e1vel no futuro comunista. Esta f\u00e9 no homem e no seu futuro d\u00e1-me, mesmo agora, uma tal for\u00e7a de resist\u00eancia como religi\u00e3o alguma poder-me-ia fornecer.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Leon Trotsky<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p> <strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em><\/strong> <\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">3 de mar\u00e7o de 1940.<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A minha press\u00e3o sangu\u00ednea elevada (e que continua a elevar-se) engana aqueles que me s\u00e3o pr\u00f3ximos sobre as minhas reais condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Estou ativo e capaz de trabalhar, mas o fim est\u00e1 evidentemente pr\u00f3ximo. 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