{"id":2407,"date":"2017-06-21T10:47:05","date_gmt":"2017-06-21T09:47:05","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/06\/21\/entrevista-a-femafro\/"},"modified":"2017-06-21T10:47:05","modified_gmt":"2017-06-21T09:47:05","slug":"entrevista-a-femafro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/06\/21\/entrevista-a-femafro\/","title":{"rendered":"Entrevista \u00e0 FEMAFRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>MAS: O que s\u00e3o as FEMAFRO e que tipo de trabalho fazem?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: A FEMAFRO \u2013 Associa\u00e7\u00e3o de mulheres e Afro Descendentes em Portugal, foi criada a 20 de julho de 2016, cujo objectivo \u00e9 defender e promover a imagem e os direitos das mulheres negras, africanas e afro descendentes.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <strong>MAS: Como \u00e9 que as FEMAFRO surgiram?<\/strong> <\/p>\n<p>FEMAFRO: Surgimos com o objetivo de quebrar esta invisibilidade da mulher negra na sociedade portuguesa. O movimento come\u00e7ou como um movimento social, nas redes sociais, no sentido de todos os dias colocarmos um post relativo \u00e0 mulher negra \u00e0 volta do globo, porque n\u00e3o t\u00ednhamos muitos dados sobre o posicionamento social e econ\u00f3mico da mulher negra &#8211; e ainda n\u00e3o temos. E como come\u00e7\u00e1mos a ver um maior interesse das pessoas e dos media, resolvemos, ent\u00e3o, fazer o 1\u00ba encontro de feministas negras em Portugal. Depois, a partir da\u00ed, com a percep\u00e7\u00e3o de que havia um longo trabalho a ser feito, resolvemos passar deste movimento social para uma associa\u00e7\u00e3o constitu\u00edda, com o objectivo de atuar no terreno.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos muitas mulheres negras que nasceram c\u00e1 em Portugal. \u00c9 importante dividirmos esta quest\u00e3o da mulher negra intimamente ligada \u00e0 quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o porque isso \u00e9 uma fal\u00e1cia. Logo ai estamos a retirar uma boa parte de mulheres negras que tamb\u00e9m vivem, e sempre fizeram a sua vida, em Portugal (nasceram c\u00e1, tiveram toda a sua socializa\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio portugu\u00eas, t\u00eam nacionalidade portuguesa), mas, mesmo assim, continuam a n\u00e3o ser consideradas portuguesas. Por isso \u00e9 importante associarmos a quest\u00e3o da mulher negra \u00e0 quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito mais vasto do que isto.<\/p>\n<p><strong>MAS: Como v\u00eaem a situa\u00e7\u00e3o da mulher negra em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: Para sabermos como estamos, precisamos de recuar \u00e0 Hist\u00f3ria e aos 500 anos de coloniza\u00e7\u00e3o e de escravatura, para percebermos que as estruturas ideol\u00f3gicas e sociol\u00f3gicas, apesar das mudan\u00e7as, presenciam uma g\u00e9nese. Cada indiv\u00edduo \u00e9 constru\u00eddo socialmente para ocupar um lugar. Tomando a imagem da pir\u00e2mide, vemos que as pessoas consideradas como a norma, hist\u00f3rica e biologicamente, est\u00e3o no topo. As pessoas que fogem um pouco \u00e0 norma e que sempre tiveram um papel pouco relevante, esquecido, renegado da Hist\u00f3ria, continuam ainda a ocupar a base da pir\u00e2mide. Isto \u00e9 uma quest\u00e3o social que ainda acontece, n\u00e3o s\u00f3 em Portugal, mas em todos os pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da quest\u00e3o da ra\u00e7a, temos a quest\u00e3o do g\u00e9nero e da classe social. Historicamente, as mulheres negras sempre ocuparam a classe social mais baixa, em todas as sociedades. E como \u00e9 que estas opress\u00f5es se entrecruzam? Como \u00e9 que uma mulher negra, pobre, que n\u00e3o teve muitas oportunidades de vida, devido passado hist\u00f3rico que ainda carrega sobre as costas, consegue sobreviver numa sociedade como esta? O que se percebe \u00e9 que as estruturas sociais n\u00e3o mudaram assim tanto. As estruturas sociais, em Portugal, continuam estratificadas, e a mulher negra sofre as suas principais dificuldades, n\u00e3o apenas com o sexismo, mas com o sexismo aliado ao racismo e \u00e0 classe social.<\/p>\n<p>Falar sobre a classe \u00e9 importante porque as mulheres negras continuam subrrepresentadas nos espa\u00e7os de poder (falando em politica, economia, cultura). As mulheres negras continuam presas ao estigma de que ocupam profiss\u00f5es que, socialmente, n\u00e3o s\u00e3o consideradas honor\u00e1rias. As mulheres t\u00eam de balan\u00e7ar dois, tr\u00eas trabalhos para se poderem sustentar, e n\u00e3o t\u00eam tempo para se dedicarem \u00e0 fam\u00edlia, ao lazer, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e p\u00fablica. Isto causa tamb\u00e9m uma certa exclus\u00e3o. Sobre a quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o das mulheres negras na vida p\u00fablica, nos espa\u00e7os acad\u00e9micos e de conhecimento, vemos que a fatia tende a diminuir ainda mais, devido a estas quest\u00f5es. Por isso \u00e9 importante falar sobre os impedimentos que fazem parte da vida das mulheres negras. Na quest\u00e3o cultural de hoje, n\u00e3o causa espanto ver uma mulher negra a limpar uma casa de banho num centro comercial, mas causa espanto quando a mesma \u00e9, por exemplo, nomeada para exercer um cargo governativo, como \u00e9 o caso da Ministra da Justi\u00e7a Francisca Van Dunem. Porque \u00e9 que causou este espanto vermos uma mulher negra a ocupar um cargo de poder num espa\u00e7o governativo? Precisamente porque o papel social da mulher negra est\u00e1 intimamente ligado \u00e0s quest\u00f5es da subservi\u00eancia e da obedi\u00eancia. Quando cruzamos esta fronteira, causamos espanto, pois as pessoas n\u00e3o est\u00e3o habituadas.<\/p>\n<p>\u00c9 importante desconstruir, tamb\u00e9m, este conceito da meritocracia, pois percebemos que, na realidade, n\u00e3o \u00e9 bem assim. Quem det\u00e9m privil\u00e9gios, desde a nascen\u00e7a, obviamente ir\u00e1 conseguir um cargo superior ou mais oportunidades de vida. Quem nunca os teve, historicamente, tem um caminho mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>MAS: Estando uma mulher negra no poder (refere-se a Francisca Van Dunem), existem contradi\u00e7\u00f5es ou \u00e9, de todo, positivo?\u00a0 Ser\u00e1 que vai mudar alguma coisa?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: Se [Francisca Van Dunem] chegou ao poder, teve m\u00e9rito, oportunidade de estudar e um percurso com uma fam\u00edlia estruturada, e tudo mais (coisa que a maioria das mulheres negras acaba por n\u00e3o ter). Penso que \u00e9 apenas uma \u201cgota no oceano\u201d. Pode fazer um bom trabalho, com certeza, mas, em termos percentuais, \u00e9 irris\u00f3rio. \u00c9 bom, por um lado, mas \u00e9 muito pouco.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica \u00e9 um meio muito complicado. H\u00e1 uma m\u00e1quina por tr\u00e1s dessa pessoa. Ela n\u00e3o vai mandar no mundo, nem impor as suas vontades e escolhas. Foi isso que aconteceu com Obama, e \u00e9 o que vai acontecer com todos os pol\u00edticos, independentemente da cor, g\u00e9nero, ra\u00e7a, religi\u00e3o, etc.. Portanto, \u00e9 complicado. \u00c9 bom para vermos que h\u00e1 ali algu\u00e9m, mas \u00e9 um pouco estranho, visto que havia um leque de pessoas a dizerem que \u201cagora s\u00f3 temos um governo de pretos, ciganos e afins\u201d. \u00c9 triste por haver apenas 3 representantes um pouco diferentes da norma, em dezenas.<\/p>\n<p>Estas nomea\u00e7\u00f5es est\u00e3o longe da realidade do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 pelo facto de termos uma Ministra da Justi\u00e7a negra que Portugal deixa de ser um pa\u00eds racista. O racismo \u00e9 muito mais do que pessoas individuais: \u00e9 uma estrutura, uma m\u00e1quina bem-oleada ao longo de s\u00e9culos, que continua a determinar a posi\u00e7\u00e3o dos negros na sociedade. Estas figuras n\u00e3o representam um fim de uma ideologia que continua a subordinar pessoas pela sua cor de pele e a dizer quais vidas importam e quais n\u00e3o importam. \u00c9 bastante importante termos uma ministra negra em 40 anos de democracia, mas n\u00e3o chega, n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 uma percentagem \u00ednfima.<\/p>\n<p>Se falarmos em percentagens, n\u00f3s, negros e negras em Portugal, nem sequer termos o direito a saber qual \u00e9 a nossa percentagem no pa\u00eds, ou seja, n\u00e3o temos dados estat\u00edsticos que nos digam quantos negros realmente existem no pa\u00eds. N\u00f3s, negras e negros, n\u00e3o podemos, neste momento, exigir pol\u00edticas p\u00fablicas e respostas \u00e0 nossa situa\u00e7\u00e3o social, se n\u00e3o temos dados para nos basearmos. N\u00e3o temos dados para, de uma forma n\u00e3o-demag\u00f3gica, pensar nas nossas comunidades e estruturar uma pol\u00edtica social que vai de encontro \u00e0s nossas pr\u00f3prias necessidades. At\u00e9 nisto sofremos de uma sociedade racista.<\/p>\n<p>N\u00e3o falar da diferen\u00e7a \u00e9 silenciar vozes, e as vozes das negras e negros em Portugal, sem dados estat\u00edsticos, \u00e9 silenciada. A pr\u00f3pria lei silencia. Temos que ir um pouco mais a fundo e n\u00e3o ficar pelas quest\u00f5es superficiais. Temos de questionar sobre como a constitui\u00e7\u00e3o est\u00e1 feita para conseguirmos ter uma vis\u00e3o mais aprofundada sobre o racismo em Portugal.<\/p>\n<p><strong>MAS: E quanto ao tema da lei da nacionalidade?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: Eu tive a sorte de ter nacionalidade portuguesa porque o meu pai j\u00e1 tinha iniciado o processo e, quando a lei saiu, a nacionalidade dele tinha sido adquirida um m\u00eas antes. Portanto, eu consegui a nacionalidade portuguesa, mas tenho familiares, amigos e pessoas pr\u00f3ximas cujos filhos n\u00e3o t\u00eam a nacionalidade portuguesa. T\u00eam nacionalidade cabo-verdiana, tendo que se registar na embaixada de Cabo Verde. Quando falo em Cabo Verde, falo tamb\u00e9m em outros pa\u00edses africanos, e n\u00e3o s\u00f3. Se eu nasci c\u00e1, se eu me socializei aqui, se toda a minha vida foi feita aqui, em Portugal, porque \u00e9 que n\u00e3o tenho direito \u00e0 nacionalidade?<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o curiosa \u00e9 a dos imigrantes de 1\u00aa, 2\u00aa e 3\u00aa gera\u00e7\u00e3o e de quando \u00e9 que estes imigrantes passar\u00e3o a ser portugueses. Esta quest\u00e3o \u00e9 extremamente sens\u00edvel pois causa, nos jovens e nas pessoas que nasceram c\u00e1, sem nacionalidade portuguesa, uma d\u00favida de saber quem s\u00e3o. \u00c9s filho de um cabo-verdiano, chegas aos 18 anos, e j\u00e1 n\u00e3o podes pedir autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia pelos teus pais. Para isto, precisas de um trabalho para pagar os descontos na seguran\u00e7a social, tens uma data de requisitos para preencher sobre quando tu nasceste c\u00e1.<\/p>\n<p>Existem outros casos mais problem\u00e1ticos de pessoas com doen\u00e7as mentais. H\u00e1 pouco tempo soube de um desses casos. Ele nasceu aqui, os pais n\u00e3o eram portugueses e j\u00e1 morreram, e neste momento \u00e9 um sem-abrigo. Entretanto, precisa da documenta\u00e7\u00e3o para ter acompanhamento m\u00e9dico, mas nem sequer sabe se os pais o registaram na embaixada angolana e, se n\u00e3o sabe, tem de mandar vir documentos da Angola, que s\u00e3o car\u00edssimos e dificilmente adquiridos, devido \u00e0 burocracia. Esta pessoa est\u00e1 h\u00e1 20 anos sem documenta\u00e7\u00e3o, e nasceu c\u00e1, em Portugal. Como \u00e9 que esta pessoa pode criar uma identidade e dizer-se portuguesa? Quando falo desta pessoa, falo, tamb\u00e9m, de v\u00e1rias outras. Como \u00e9 que isto pode acontecer?<\/p>\n<p>Isto criou um afastamento f\u00edsico e social entre os jovens. N\u00e3o sinto que fa\u00e7o parte desta sociedade porque esta me exclui. Nasci filho de imigrantes e filho de imigrantes continuarei. A nova lei da imigra\u00e7\u00e3o tem colocado cada vez mais empecilhos para a aquisi\u00e7\u00e3o da nacionalidade. Estamos com uma camada juvenil muito grande de negras e de negros que dizem claramente, e com todas as letras, que n\u00e3o se sentem portugueses. A longo prazo, isto ir\u00e1 ter consequ\u00eancias na sociedade portuguesa. Por isso \u00e9 importante que o Estado olhe para estas pessoas, que podem n\u00e3o ser eleitores, mas que fazem parte de uma sociedade e devem ser vistos.<\/p>\n<p><strong>MAS: O que acham da elei\u00e7\u00e3o de Trump? Existir\u00e3o apenas consequ\u00eancias negativas?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: O problema do Trump at\u00e9 ultrapassa a figura em si. Ele abriu a caixa de Pandora. As coisas nos EUA j\u00e1 estavam complicadas e ele abriu uma caixa de movimentos racistas, xen\u00f3fobos que estavam um pouco adormecidos pois est\u00e1vamos numa sociedade um pouco mais liberal. Agora, acordaram e descobriram que podem ter uma voz. Houve um ressurgir destes movimentos: \u201cEu posso, quero e vai acontecer\u201d. Esse \u00e9 o grande problema do Trump, independentemente das suas pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>MAS: Ser\u00e1 que pode trazer alguma mobiliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: Anterior ao Trump, j\u00e1 havia muito a esse n\u00edvel, desde o Brasil aos EUA. J\u00e1 existiam muitas associa\u00e7\u00f5es a trabalhar nesse sentido. O problema do Trump \u00e9 dar voz a certos grupos. Talvez ele queira mudar alguma coisa, mas talvez n\u00e3o consiga mudar tanto assim. Quero ver como vai lidar com o problema da R\u00fassia, da S\u00edria, como vai lidar com o problema da NATO.<\/p>\n<p>A principal quest\u00e3o do Trump n\u00e3o tem muito a ver com a figura em si, tem mais a ver com a legitima\u00e7\u00e3o de um discurso xen\u00f3fobo, racista, mis\u00f3gino, machista, todos os \u201c-istas\u201d que podemos encontrar, e a forma de como o mundo deve lidar com este \u201csinal verde\u201d.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria vai-se repetindo por ciclos. Hitler foi eleito democraticamente numa altura em que a Europa e os EUA passavam uma crise enorme. Chegou ao poder como qualquer outro e pegou nalgo que faz parte do ser humano: o medo do desconhecido. As pessoas baseiam-se neste medo. \u00c9 sempre isso que acontece quando os regimes fascistas sobem ao poder: \u00e9 incitado, na pessoa, o medo do outro e a ignor\u00e2ncia (o fascismo alimenta-se da falta de conhecimento). A culpa \u00e9 do outro. Eu tenho de destruir o outro para voltar a ser quem eu achava que era antigamente, para voltar a ser melhor (Make America Great Again). E o que \u00e9 que est\u00e1 a deixar os EUA para tr\u00e1s, de acordo com esta mensagem? Os mexicanos e os mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Na 1\u00aa semana depois da elei\u00e7\u00e3o de Trump, 200 casos de viol\u00eancia racista, xen\u00f3foba e LGBTf\u00f3bica foram registados. Trump legitimou um discurso. Em vez de os responsabilizar pelo fracasso da pol\u00edtica interna e externa dos \u00faltimos anos, apontou um alvo a abater. A meu ver, foi um dos aspetos que o fez subir ao poder.<\/p>\n<p>Temos de olhar tamb\u00e9m para o continente europeu. Estamos a ver o surgimento de novas for\u00e7as de extrema-direita em pa\u00edses extremamente democr\u00e1ticos, como a Su\u00e9cia, Hungria, Fran\u00e7a, Alemanha, e at\u00e9 em Portugal, em que os militantes do PNR afrontaram a marcha a favor da legaliza\u00e7\u00e3o dos imigrantes.<\/p>\n<p><strong>MAS: Acham que \u00e9 importante criar um movimento negro que juntasse as associa\u00e7\u00f5es, colectivos, etc. que fizessem trabalho nessa \u00e1rea, para trabalharem juntos nesse sentido? Acham que h\u00e1 espa\u00e7o para isso em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: N\u00e3o temos uma hist\u00f3ria forte de movimento sociais em Portugal. Falo na sociedade como um todo, e n\u00e3o apenas no caso das negras e negros. O movimento social est\u00e1 menos desenvolvido do que, por exemplo, no Brasil, EUA, ou Mo\u00e7ambique, onde surgiram novos movimentos de mulheres. \u00c9 interessante vermos como temos tanto por fazer.<\/p>\n<p>Aqui, os movimentos funcionam como se cada um trabalhasse no seu pr\u00f3prio quintal. Cada um trata das suas pr\u00f3prias quest\u00f5es, tem o seu p\u00fablico-alvo, e trabalha em pequenos grupos. Temos de nos unir, fazer parcerias, criar redes de contacto entre n\u00f3s para chegarmos a um determinado ponto de desenvolvimento. \u00c9 isto que falta, embora este ano se sinta que surgiram novos movimentos, especialmente quando falamos em mulheres negras. S\u00e3o muito recentes, mas a m\u00e9dio-longo prazo podem-se tornar coesos. \u00c9 este um dos objetivos da FEMAFRO. Achamos que \u00e9 importante ter a mulher africana\/afrodescendente como a protagonista, no sentido de ser ela a estar \u00e0 frente da direc\u00e7\u00e3o, das decis\u00f5es tomadas em nome da FEMAFRO porque, historicamente, sempre fomos apartadas de todos os espa\u00e7os, e assim temos um espa\u00e7o nosso.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o de nos identificarmos como uma organiza\u00e7\u00e3o feminista, pois muitas vezes, e at\u00e9 mesmo na esquerda, vemos uma grande dificuldade em falar sobre as quest\u00f5es raciais e de g\u00e9nero. Vemos partidos revolucion\u00e1rios que n\u00e3o querem tratar de forma igualit\u00e1ria todas estas opress\u00f5es. Quando falamos em explora\u00e7\u00e3o de classes, por ser mulher, e por ser mulher negra, esta luta \u00e9 muito mais dif\u00edcil de travar. Preciso da ajuda de pessoas que n\u00e3o s\u00e3o negros, nem mulheres. \u00c9 por isso que somos apartid\u00e1rias. Queremos trabalhar com todos os movimentos, com todos os partidos, e n\u00e3o apenas com um. De momento, a nossa perce\u00e7\u00e3o \u00e9 que s\u00f3 conseguimos alterar algumas pol\u00edticas p\u00fablicas falando com os diversos partidos e movimentos sociais. Nenhuma opress\u00e3o \u00e9 superior \u00e0s outras e, juntos, devemos colaborar para abrir a porta do nosso quintal.<\/p>\n<p><strong>MAS: Raramente ouvimos den\u00fancias de viol\u00eancia dom\u00e9stica sobre mulheres negras, acham que existe racismo nesta quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>FEMAFRO: H\u00e1 um fator cultural. A cultura cigana \u00e9 extremamente patriarcal e dificilmente uma mulher consegue furar, como tamb\u00e9m a cultura negra tem as suas particularidades. \u00c9 muito dif\u00edcil ver uma mulher negra a denunciar uma situa\u00e7\u00e3o dessas porque estamos no fundo da pir\u00e2mide. Nas esquadras dizem que \u00e9 melhor voltar para o marido, que \u00e9 s\u00f3 uma discuss\u00e3o. H\u00e1 uma s\u00e9rie de estrat\u00e9gias para fazer com que desistam. A pr\u00f3pria pol\u00edcia desvaloriza a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando uma mulher negra apresenta queixa \u00e0 esquadra no Brasil, h\u00e1 uma diferencia\u00e7\u00e3o na ra\u00e7a da pessoa. Assim, \u00e9 poss\u00edvel vermos quantas mulheres negras s\u00e3o v\u00edtimas (no Brasil, o n\u00ba de mulheres negras v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica aumentou em 51,1%). Em Portugal, esta diferencia\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre e, por isso, voltamos \u00e0 quest\u00e3o da estat\u00edstica. N\u00e3o temos dados. O Estado limita-nos.<\/p>\n<p>Em todas as campanhas contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica, n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica fotografia de uma mulher negra, cigana ou asi\u00e1tica. N\u00e3o existe representatividade dos negros e negras em Portugal. Este silenciamento \u00e9 o que nos mantem na base da pir\u00e2mide. Talvez se houvesse mais esquadras femininas, seria mais f\u00e1cil para uma mulher reportar, mas n\u00e3o h\u00e1 sensibilidade. Os pr\u00f3prios homens s\u00e3o humilhados pelos pol\u00edcias porque a sociedade espera, inconscientemente, que o homem seja o agressor, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAS: O que s\u00e3o as FEMAFRO e que tipo de trabalho fazem? FEMAFRO: A FEMAFRO \u2013 Associa\u00e7\u00e3o de mulheres e Afro Descendentes em Portugal, foi criada a 20 de julho de 2016, cujo objectivo \u00e9 defender e promover a imagem e os direitos das mulheres negras, africanas e afro descendentes.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2406,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[31],"tags":[116,1140,114,115,368,708,282,117],"class_list":["post-2407","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-alternativa","tag-femafro","tag-mas","tag-movimento","tag-mulher","tag-negra","tag-racismo","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/femafro.jpg?fit=2048%2C1536","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2407"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2407\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2406"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}