{"id":2386,"date":"2017-06-06T20:15:36","date_gmt":"2017-06-06T19:15:36","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/06\/06\/frente-ao-abismo-trump-da-um-passo-em-frente\/"},"modified":"2017-06-06T20:15:36","modified_gmt":"2017-06-06T19:15:36","slug":"frente-ao-abismo-trump-da-um-passo-em-frente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/06\/06\/frente-ao-abismo-trump-da-um-passo-em-frente\/","title":{"rendered":"Frente ao abismo, Trump d\u00e1 um passo em frente!"},"content":{"rendered":"<p>Era um acordo de cavalheiros. Depois do fracasso do Protocolo de Quioto negociado em 1997, a Confer\u00eancia do Clima de Paris de Novembro 2015 era mais uma tentativa de minimizar os efeitos do aquecimento global, pois longe vai o tempo em que este podia ser travado.<\/p>\n<p>  <!--more-->  As metas s\u00e3o pouco ambiciosas e n\u00e3o vinculativas. Barack Obama sabia que se Paris fosse um tratado internacional e n\u00e3o um mero acordo, a maioria republicana no congresso n\u00e3o o ratificaria tal como aconteceu com Quioto. Os Estado-Unidos s\u00e3o pois uma das poucas na\u00e7\u00f5es onde a realidade do aquecimento global ainda \u00e9 debatida, merc\u00ea do lobby das empresas petrol\u00edferas e das empresas carbon\u00edferas ainda sobreviventes. Mesmo a pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o Trump parece dividida sobre esta quest\u00e3o com Steve Bannon um negacionista do aquecimento global antropog\u00e9nico e Rex Tillerson e Ivanka, aparentemente favor\u00e1veis ao acordo de Paris, o que espelha bem o caos e divis\u00e3o que reina na Casa Branca. <\/p>\n<p>O Acordo de Paris pretendia limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2\u00ba cent\u00edgrados, estabelecendo um mecanismo de revis\u00e3o que de cinco em cinco anos reavaliaria os compromissos de redu\u00e7\u00e3o de gases de estufa, sempre volunt\u00e1rios, de cada pa\u00eds. Al\u00e9m disso, ajuda financeira na ordem dos 3 mil milh\u00f5es seria fornecida, atrav\u00e9s de um \u201cGreen climate fund\u201d, a na\u00e7\u00f5es pobres para as ajudar a lidar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Este \u00e9 pois, n\u00e3o um acordo com medidas concretas, assertivas e urgentes mas sim uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es. E de boas inten\u00e7\u00f5es est\u00e1 o inferno cheio, especialmente este em que estamos lentamente a arder: secas, tempestades, inc\u00eandios, cheias, subidas do n\u00edvel do Mar, fomes e cerca de 100 000 000 de pessoas, no hemisf\u00e9rio Sul, que poder\u00e3o ser atiradas para a pobreza nos pr\u00f3ximos quinze anos segundo n\u00fameros do Banco Mundial.<\/p>\n<p>E mesmo esta t\u00edmida tentativa de minimizar os efeitos das emiss\u00f5es de gases de estufa \u00e9 posta em causa pelo actual inquilino da Casa Branca. Numa confer\u00eancia de imprensa, que seria uma obra prima da com\u00e9dia, se fosse fic\u00e7\u00e3o, anunciou a retirada dos Estados-Unidos do Acordo de Paris comprometendo seriamente o objectivo estabelecido. Estes tinham-se comprometido em reduzir as as suas emiss\u00f5es de 26 a 28% abaixo dos n\u00edveis de 2005. Os Estados-Unidos s\u00e3o actualmente respons\u00e1veis por mais de 22% das emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono e o maior emissor per capita de todas as na\u00e7\u00f5es o que implicaria que sem o esfor\u00e7o americano de redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica 0,3 graus dos 2 acordados como limite ficariam j\u00e1 comprometidos.<\/p>\n<p>Populista como sempre, e a realidade que se dane, Trump retomou uma das suas promessas de campanha, de recriar postos de trabalho na extrac\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, uma ind\u00fastria que o g\u00e1s natural j\u00e1 tinha tornado obsoleta muito antes da explora\u00e7\u00e3o em massa de energia solar e e\u00f3lica. \u00c9 um discurso que fala para as famigeradas bases de Trump, as popula\u00e7\u00f5es dos Estados economicamente deprimidas da chamada cintura de ferrugem, acenando com a possibilidade de um regresso de um tipo de ind\u00fastrias que h\u00e1 muito tempo deixou aquele territ\u00f3rio. Neste momento, mais de 370 000 pessoas trabalham no sector da energia solar, o dobro dos que trabalham no carv\u00e3o. Foi tamb\u00e9m um discurso profundamente paranoico que acusa o acordo de ser um embuste, um instrumento de guerra econ\u00f3mica contra os Estados-Unidos e de extors\u00e3o de fundos americanos, quando na verdade a burguesia americana se conta entre aqueles que mais exploram e contribuem para a degrada\u00e7\u00e3o da ecosfera. Das sementes transg\u00e9nicas da Monsanto \u00e0 mar\u00e9 negra do Golfo do M\u00e9xico passando pelo lixo electr\u00f3nico largado em lixeiras a c\u00e9u aberto em v\u00e1rios pa\u00edses africanos e asi\u00e1ticos, entre outros crimes ambientais, a d\u00edvida ecol\u00f3gica americana \u00e9 avassaladora.<\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es tamb\u00e9m se levantam com este rasgar do acordo, no que a ordem pol\u00edtica mundial diz respeito. Este isolamento auto-imposto dos Estados-Unidos em quest\u00f5es ambientais revela ser mais um sintoma da perda de poderio e protagonismo do imperialismo americano. A decis\u00e3o de Trump \u00e9 coerente com a ideologia protecionista que ele vem anunciando desde a sua campanha eleitoral e satisfar\u00e1 uma parte da burguesia americana, como os Irm\u00e3os Koch, que v\u00ea qualquer tipo de regulamenta\u00e7\u00e3o ambiental como um entrave ao lucro. Por outro lado, multinacionais do sector das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e das energias renov\u00e1veis como a Microsoft, a Google, a Tesla, a Shell e a Disney criticaram veementemente esta decis\u00e3o que cria assim profundas divis\u00f5es na pr\u00f3pria burguesia americana.<\/p>\n<p>No fim, a China poder\u00e1 ser um dos grandes benefici\u00e1rios da decis\u00e3o de Trump. Depois do acordo de Paris, j\u00e1 anunciara o cancelamento da constru\u00e7\u00e3o de uma centena de centrais de carv\u00e3o e decidiu investir 361 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em energias renov\u00e1veis at\u00e9 2020. A China \u00e9 j\u00e1 hoje o maior produtor mundial de pain\u00e9is solares, um t\u00edtulo que j\u00e1 pertenceu em tempos aos Estados-Unidos.<\/p>\n<p>Uma improv\u00e1vel alian\u00e7a parece ter-se formado, nesta quest\u00e3o, entre as maiores economias da Zona Euro, &#8211; a Alemanha, a It\u00e1lia e a Fran\u00e7a &#8211; e a China. Temos Macron na televis\u00e3o a convidar cientistas e engenheiros americanos a vir trabalhar para a Fran\u00e7a e onde estes ir\u00e3o, obviamente, o investimento em tecnologia seguir\u00e1. E temos a possibilidade de uma \u201ctaxa de carbono\u201d sobre as exporta\u00e7\u00f5es americanas a ser sugerida pelo governo mexicano. Ser\u00e1 que estamos perante o princ\u00edpio de uma guerra comercial, aquela mesma que Trump amea\u00e7ava come\u00e7ar? Se a primeira declara\u00e7\u00e3o de guerra \u00e9, pela boca de Trump, a retirada dos Estados-Unidos do acordo de Paris, o primeiro tiro poder\u00e1 n\u00e3o ser o seu. E neste momento, o Tio Sam encontra-se completamente isolado.<\/p>\n<p>Durante anos, alguns sectores da burguesia americana lan\u00e7aram a desinforma\u00e7\u00e3o, a suspeita sobre a realidade do aquecimento global para proteger os seus neg\u00f3cios. O resultado est\u00e1 a vista: uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o elegeu um magnata da constru\u00e7\u00e3o civil com um discurso anti-intelectual, com promessas v\u00e3s de recuperar empregos gra\u00e7as a ao desmantelamento de regulamenta\u00e7\u00e3o ambiental. E agora mesmo o muito insuficiente acordo de Paris \u00e9 posto em causa pela maior pot\u00eancia industrial do mundo. At\u00e9 que ponto os objectivos deste acordo podem estar comprometidos, tanto em graus Celsius como no empenho dos signat\u00e1rios, est\u00e1 ainda por determinar.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 certa, enquanto formos dominados por uma classe privilegiada, para a qual\u00a0os neg\u00f3cios se devem sobrepor\u00a0ao clima, este problema tender\u00e1 a agravar-se. \u00c9 isto que o capitalismo tem para nos oferecer: destrui\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, muros, explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Davide Santos<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um acordo de cavalheiros. 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