{"id":2361,"date":"2017-05-08T19:54:03","date_gmt":"2017-05-08T18:54:03","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/05\/08\/macron-venceu-e-agora\/"},"modified":"2017-05-08T19:54:03","modified_gmt":"2017-05-08T18:54:03","slug":"macron-venceu-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/05\/08\/macron-venceu-e-agora\/","title":{"rendered":"Macron venceu. E agora?"},"content":{"rendered":"<p>Depois de meses de campanha, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais francesas chegaram ao fim. Os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.mediapart.fr\/journal\/france\/070517\/second-tour-la-carte-des-resultats\">primeiros resultados<\/a> deste segundo turno s\u00e3o os esperados pelos mercados financeiros e a grande burguesia: a vit\u00f3ria do candidato de centro Emmanuel Macron, do\u00a0En Marche, sobre a candidata da\u00a0Frente Nacional\u00a0da extrema-direita Marine Le Pen por, aproximadamente, 66% a 34%.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Apesar de esperado, \u00e9 um resultado que abalou o sistema pol\u00edtico franc\u00eas, ap\u00f3s a derrota no primeiro turno dos dois principais partidos pol\u00edticos,\u00a0Republicanos\u00a0(LR) e o\u00a0Partido Socialista (PS). Isso implicou uma verdadeira reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema eleitoral franc\u00eas. Primeiro, porque emerge o fen\u00f4meno do crescimento do centro atrav\u00e9s da candidatura Macron; segundo, que a candidatura de M\u00e9lenchon, da\u00a0Fran\u00e7a Insubmissa, obteve uma vota\u00e7\u00e3o muito superior ao PS; terceiro, a vit\u00f3ria de Le Pen sobre o LR. <\/p>\n<p>Trata-se de uma reorganiza\u00e7\u00e3o, de um rearranjo do sistema pol\u00edtico que continuar\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de junho. Tal como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.mediapart.fr\/journal\/france\/050517\/emmanuel-macron-battre-le-pen-et-ensuite-0\">declarou em entrevista na \u00faltima sexta-feira<\/a>, Macron tentar\u00e1 obter uma maioria parlamentar para governar atrav\u00e9s de uma unidade de setores da LR, do PS e do partido centrista Movimento Democr\u00e1tico (MoDem) de Fran\u00e7ois Bayrou.<\/p>\n<p>O pano de fundo desse abalo \u00e9 a<a href=\"http:\/\/esquerdaonline.com.br\/2017\/02\/07\/franca-encurralada\/\"> decad\u00eancia imperialista francesa<\/a>: fraco crescimento econ\u00f4mico dos \u00faltimos anos, taxa de desemprego de aproximadamente 10%, queda da rentabilidade e da presen\u00e7a do capital franc\u00eas no sistema econ\u00f4mico mundial. Al\u00e9m disso, h\u00e1 tamb\u00e9m uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2017\/05\/1881789-macron-revive-esperanca-contra-sentimento-de-declinio-frances.shtml)\">perda do protagonismo pol\u00edtico<\/a> franc\u00eas tanto no cen\u00e1rio mundial, quanto no cen\u00e1rio europeu, com a ascens\u00e3o do imperialismo alem\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A vota\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Diferentemente de 2012, quando a elei\u00e7\u00e3o de Fran\u00e7ois Hollande representou um al\u00edvio e foi considerada uma vit\u00f3ria para os movimentos sociais, dessa vez, h\u00e1 um certo ceticismo em rela\u00e7\u00e3o a vit\u00f3ria de Macron.<\/p>\n<p>Com a exce\u00e7\u00e3o de seu movimento,\u00a0En Marche,\u00a0n\u00e3o deve haver grandes comemora\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de sua vit\u00f3ria, nem mesmo grandes reuni\u00f5es \u201cem defesa da Rep\u00fablica\u201d contra Le Pen. O movimento liderado por Macron tem pouca base social (mesmo no patronato) e, inclusive, parlamentar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esse segundo turno registrou tr\u00eas recordes. O primeiro foi a vota\u00e7\u00e3o da FN. Lembremos que em 2002, quando ent\u00e3o Jean-Marie Le Pen foi ao segundo turno contra Jacques Chirac, ele perdeu a elei\u00e7\u00e3o por 82% a 18%. Agora, sua filha, Marine Le Pen, praticamente conseguiu dobrar essa vota\u00e7\u00e3o ao obter aproximadamente 11 milh\u00f5es de votos. Trata-se de um claro avan\u00e7o da extrema-direita: milh\u00f5es de eleitores votaram por um programa nacionalista, xen\u00f3fobo e anti-Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>O segundo recorde est\u00e1 na absten\u00e7\u00e3o eleitoral. \u00c9 a mais forte desde 1969, com aproximadamente 25,4%. Por fim, o terceiro recorde s\u00e3o os votos em branco ou nulo: 8,6% do total de inscritos a votar.<\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>O programa de Macron<\/strong><\/p>\n<p>Macron se reivindica um liberal no campo econ\u00f4mico e no campo pol\u00edtico. Suas propostas s\u00e3o uma continuidade da austeridade aplicada pelos presidentes desde a crise de 2008: corte de investimentos, redu\u00e7\u00e3o de impostos, redu\u00e7\u00e3o de direitos, entre outras, todas voltadas para aumentar a taxa de explora\u00e7\u00e3o do proletariado franc\u00eas e retomar a t\u00e3o falada \u201ccompetitividade\u201d da economia.<\/p>\n<p>Macron j\u00e1 anunciou que vai manter e aprofundar a contrarreforma trabalhista de Hollande \u2013 tanto Le Pen, quanto M\u00e9lenchon falaram em revog\u00e1-la. Essa contrarreforma permitiu que os acordos por empresa modificassem a dura\u00e7\u00e3o do trabalho ao substituir os acordos coletivos por ramo de trabalho. Atualmente, a jornada semanal na Fran\u00e7a \u00e9 de 35 horas, por\u00e9m a m\u00e9dia trabalhada \u00e9 de 39h semanais (contando as horas extras). Com a nova lei \u00e9 poss\u00edvel ampliar essa dura\u00e7\u00e3o em acordos por empresas.<\/p>\n<p>Agora, Macron quer estender esse tipo de acordo por empresa para outros campos dos direitos trabalhistas como sal\u00e1rios, condi\u00e7\u00f5es de trabalho, forma\u00e7\u00e3o, etc. Isso enfraqueceria o contrato coletivo, afetando os direitos dos trabalhadores e tamb\u00e9m sua resist\u00eancia, j\u00e1 que fragmentaria ainda mais as lutas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Macron quer reduzir as representa\u00e7\u00f5es dos trabalhadores nas empresas, generalizando a fus\u00e3o dos comit\u00eas de higiene, seguran\u00e7a e condi\u00e7\u00f5es do trabalho (uma esp\u00e9cie de CIPA), com as representa\u00e7\u00f5es dos trabalhadores nos comit\u00eas de empresa. Isso j\u00e1 pode acontecer, de maneira facultativa, desde 2015, em empresas com menos de 300 trabalhadores.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a pol\u00edtica fiscal, Macron tem uma velha receita neoliberal: redu\u00e7\u00e3o de 120 mil funcion\u00e1rios p\u00fablicos atrav\u00e9s de demiss\u00f5es volunt\u00e1rias, aposentadorias, etc.; manuten\u00e7\u00e3o da aposentadoria as 62 anos (reforma de Sarkozy); modifica\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es do seguro desemprego, supress\u00e3o do regime especial para trabalhadores artes\u00e3os e independentes; redu\u00e7\u00e3o dos impostos sobre os lucros das empresas, passando de 33% para 25%; redu\u00e7\u00e3o do imposto sobre fortunas para \u201caqueles que investirem na economia\u201d, entre outras medidas.<\/p>\n<p>O objetivo de todas essas medidas n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o de continuar a pol\u00edtica de austeridade dos \u00faltimos anos. Pol\u00edtica defendida pela Uni\u00e3o Europeia para todo o continente.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, a tend\u00eancia \u00e9 que Macron continue a alian\u00e7a Fran\u00e7a-Alemanha na condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de austeridade. Entre todos os candidatos que disputaram a elei\u00e7\u00e3o, possivelmente Macron seja o mais pr\u00f3-UE. Nesse sentido, muito das suas medidas econ\u00f4micas tem como objetivo adequar a economia francesa \u00e0 pr\u00f3pria UE, tais como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lemonde.fr\/programmes\/economie\/l-attribution-des-marches-publics\">priorizar as compras p\u00fablicas<\/a> para as empresas europeias e n\u00e3o somente francesas. Com essa pol\u00edtica econ\u00f4mica e a continuidade da alian\u00e7a com a Alemanha, a tend\u00eancia \u00e9 que a trajet\u00f3ria de decad\u00eancia da Fran\u00e7a enquanto pa\u00eds imperialista deve continuar.<\/p>\n<p>Por outro lado, com sua pol\u00edtica de favorecimento das grandes empresas, Macron dever\u00e1 enfrentar uma forte oposi\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que at\u00e9 o jornal\u00a0Le Monde\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lemonde.fr\/election-presidentielle-2017\/article\/2017\/05\/03\/quelles-sont-les-premieres-mesures-que-prendrait-emmanuel-macron-s-il-etait-elu_5121606_4854003.html\">destaca<\/a> que a continuidade da contrarreforma trabalhista pode enfrentar protestos ainda maiores dos que foram realizados em 2016.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00f5es legislativas em plena reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Como dissemos, no pr\u00f3ximo m\u00eas haver\u00e1 elei\u00e7\u00f5es legislativas. Com poucas exce\u00e7\u00f5es, a tend\u00eancia das elei\u00e7\u00f5es legislativas foi sempre a de dar a maioria de deputados para o partido vencedor das elei\u00e7\u00f5es presidenciais. O grande problema de Macron \u00e9 justamente que ele n\u00e3o tem esse partido. Por isso, ser\u00e1 obrigado a se apoiar em um acordo com os grandes partidos para conseguir uma maioria.<\/p>\n<p>Nesse caminho, ele ter\u00e1 uma grande dificuldade que \u00e9 enfrentar a extrema-direita de Marine Le Pen que j\u00e1 se declarou como a principal for\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o. Em menor medida, ter\u00e1 que enfrentar tamb\u00e9m a for\u00e7a da esquerda radical de M\u00e9lenchon. A tend\u00eancia \u00e9 que ambos disputem a forma\u00e7\u00e3o de governos de coabita\u00e7\u00e3o, quando o poder executivo \u00e9 governado por um partido e o legislativo por outro. Foi isso que aconteceu entre 1997-2002, no qual o presidente era Jacques Chirac, da direita, e o primeiro-ministro era Lionel Jospin, do PS. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora a disputa \u00e9 por fora dos partidos tradicionais, o que torna as coisas mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>No entanto, ap\u00f3s a pulveriza\u00e7\u00e3o dos votos no primeiro turno e com um sistema distrital de elei\u00e7\u00e3o que favorece bastante os partidos majorit\u00e1rios, \u00e9 dif\u00edcil prever se Le Pen ou M\u00e9lenchon conseguir\u00e3o superar os partidos tradicionais. Ser\u00e1 necess\u00e1rio esperar as legislativas para saber as possibilidades que Macron ter\u00e1 para governar e aplicar seu programa neoliberal. Parece que a principal tend\u00eancia \u00e9 que, mesmo que consiga formar um governo que o apoie, sua maioria ser\u00e1 fr\u00e1gil e enfrentar\u00e1 uma forte oposi\u00e7\u00e3o parlamentar tanto \u00e0 direita, quanto \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a oposi\u00e7\u00e3o social das ruas contra a continuidade do projeto neoliberal tamb\u00e9m tende a ser forte e poder\u00e1 ser o local onde a sorte do governo Macron ser\u00e1 decidida.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Renato Fernandes, Esquerda Online<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de meses de campanha, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais francesas chegaram ao fim. 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