{"id":2347,"date":"2017-04-20T10:55:18","date_gmt":"2017-04-20T09:55:18","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/04\/20\/sarampo-uma-tragedia-evitavel\/"},"modified":"2017-04-20T10:55:18","modified_gmt":"2017-04-20T09:55:18","slug":"sarampo-uma-tragedia-evitavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/04\/20\/sarampo-uma-tragedia-evitavel\/","title":{"rendered":"Sarampo, uma trag\u00e9dia evit\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<p>Em Abril de 2017, a Europa regista j\u00e1 v\u00e1rias centenas de casos de sarampo notificados desde o in\u00edcio do ano. Em Portugal, esta quarta-feira dia 19, a doen\u00e7a acaba tragicamente com a vida de uma jovem de 17 anos.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>O sarampo consiste numa infec\u00e7\u00e3o por um v\u00edrus, altamente contagioso que se propaga atrav\u00e9s da tosse, espirro ou contacto directo. Apesar de geralmente ter um curso benigno (febre, queixas respirat\u00f3rias,<em> rash<\/em> \u2013 manchas no corpo), pode evoluir para complica\u00e7\u00f5es severas e potencialmente fatais como pneumonia ou encefalite (infec\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro e\/ou estruturas pr\u00f3ximas).<\/p>\n<p>Desde os anos 60 que existe uma vacina eficaz e relativamente segura que previne a infec\u00e7\u00e3o e as complica\u00e7\u00f5es graves da mesma. Uma das muitas conquistas da revolu\u00e7\u00e3o portuguesa, foi precisamente a sua distribui\u00e7\u00e3o em massa no \u00e2mbito do plano nacional de vacina\u00e7\u00e3o a partir de 1974, permitindo a erradica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a neste pa\u00eds no virar do s\u00e9culo XXI. Pelo mundo fora, as mortes por sarampo reduziram-se em cerca de 79% de 2000 a 2015 gra\u00e7as sobretudo \u00e0 difus\u00e3o da vacina. No entanto, ainda se verificam n\u00fameros muito elevados em regi\u00f5es pobres de \u00c1frica e da \u00c1sia, estimando-se anualmente um total de 20 milh\u00f5es de casos e 134000 mortes. <a href=\"#n1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Tal como se erradicou mundialmente a var\u00edola nos anos 70-80 em parte gra\u00e7as \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o em massa, tamb\u00e9m se entende que o sarampo seja erradic\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 simples apontar claramente os \u201cculpados\u201d ou as causas do actual surto, mas dois elementos facilitadores saltam \u00e0 vista. Por um lado, a precariedade da infra-estrutura e recursos de sa\u00fade de regi\u00f5es mais pobres do planeta, v\u00edtimas durante s\u00e9culos do roubo colonialista e hoje em dia da pilhagem e explora\u00e7\u00e3o levada a cabo pelos mais ricos. Por outro, o fen\u00f3meno de recusa da vacina que ganhou alguma express\u00e3o em pa\u00edses com acesso \u00e0 mesma, nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Em concreto, foram criados medos infundados e amplamente refutados de que a vacina do sarampo estaria associada a manifesta\u00e7\u00f5es de autismo.<\/p>\n<p>Neste como noutros casos, a pseudoci\u00eancia pode resultar em graves perigos para a sa\u00fade, sobretudo quando serve dirigentes pol\u00edticos e os interesses que os sustentam no poder. A este prop\u00f3sito, recordem-se alarvidades (perd\u00e3o, \u201cfactos alternativos\u201d como disse recentemente a porta-voz da Casa Branca) de Trump ao ter afirmado que o aquecimento global \u00e9 uma mentira inventada pelos chineses ou o ex-presidente da \u00c1frica do Sul Thabo Mbeki ao ter negado que a SIDA \u00e9 provocada por um v\u00edrus preven\u00edvel e parcialmente trat\u00e1vel, condenando indirectamente muitos naquele pa\u00eds a uma morte evit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sim, as vacinas e os medicamentos alimentam normalmente os lucros das farmac\u00eauticas. Da mesma forma, comprar carne ou legumes no supermercado em Portugal alimenta os lucros da Jer\u00f3nimo Martins e da Sonae ou ligar o interruptor da luz alimenta os lucros do capital chin\u00eas da EDP. Se isto n\u00e3o nos motivar a passar fome ou a viver \u00e0s escuras, tamb\u00e9m \u00e9 l\u00f3gico que n\u00e3o nos leve a ficar doentes desnecessariamente.<\/p>\n<p>Como noutros sectores produtivos, a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de medicamentos, assim como os cuidados de sa\u00fade em geral, s\u00f3 servir\u00e3o amplamente a humanidade se forem postas ao servi\u00e7o das necessidades da popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o dos poucos que s\u00e3o donos de quase tudo. Se acrescentarmos a isto o facto de a sa\u00fade precisar de bem-estar material, como o atesta um estudo recente que identifica um baixo estrato s\u00f3cio-econ\u00f3mico como terceiro principal factor de risco (ap\u00f3s o tabaco e a inactividade f\u00edsica) para uma morte prematura <a href=\"#n2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, podemos supor que a principal doen\u00e7a que a nossa esp\u00e9cie sofre \u00e9 uma pandemia chamada capitalismo.<\/p>\n<p><em><strong><br \/><\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>AT, M\u00e9dico do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"n1\"><\/a>1. WHO Measles Fact Sheet, Review 2017<\/p>\n<p><a name=\"n2\"><\/a>2. Stringhini et al. \u201cSocioeconomic status and the 25&#215;25 risk factors as determinants of premature mortality: a multicohort study and meta-analysis of 1\u00b77 million men and women\u201d Lancet 2017; 389: 1229-1237<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Abril de 2017, a Europa regista j\u00e1 v\u00e1rias centenas de casos de sarampo notificados desde o in\u00edcio do ano. 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