{"id":2329,"date":"2017-03-23T12:47:06","date_gmt":"2017-03-23T11:47:06","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/03\/23\/a-importancia-da-tradicao\/"},"modified":"2017-03-23T12:47:06","modified_gmt":"2017-03-23T11:47:06","slug":"a-importancia-da-tradicao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/03\/23\/a-importancia-da-tradicao\/","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia da tradi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Por que estamos recordando e rendendo homenagens a Moreno nesses trinta anos de sua morte? Muitos jovens e quadros do MES\/PSOL podem legitimamente perguntar-se isso.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <span style=\"line-height: 1.5;\">Como \u00e9 relatado na cr\u00f4nica deste boletim especial, o MES realizou dois atos no Brasil para recordar seu legado, como parte do que tem sido feito em outros pa\u00edses. Foi uma importante iniciativa que teve como motores Israel Dutra, Roberto Robaina e Leandro Fontes, organizador deste boletim. Em ambos os atos estiveram presentes companheiros do PSTU, MAIS e CST. Recebemos calorosas sauda\u00e7\u00f5es de Nora Ciapponi (da Argentina), Carlos Maradona (do j\u00e1 hist\u00f3rico MST da Argentina), Gonzalo (Marea Socialista, da Venezuela) e Tito Prado (MPGT do Peru), cujos textos est\u00e3o neste boletim. Com essas homenagens e aquela que o MST fez na Argentina em 27 de janeiro, teremos cumprido nossa parte para manter Moreno e sua tradi\u00e7\u00e3o vivos.<\/span> <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel e fundamental para construir seja uma corrente, como o MES, ou um partido revolucion\u00e1rio, como foi o MAS e agora \u00e9 o MST da Argentina. N\u00e3o existimos sem ela, seja mais recente ou mais longa. \u00c9 a mem\u00f3ria acumulada da teoria e a\u00e7\u00e3o, ou seja, a pr\u00e1xis do que foram fazendo ao longo do tempo os militantes, construtores e dirigentes. A pr\u00e1xis \u00e9 mais do que a hist\u00f3ria escrita e a teoria porque a a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 sensorial. A mem\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m um ac\u00famulo de moral militante atrav\u00e9s de recorda\u00e7\u00f5es, anedotas, feitos parciais, viv\u00eancias que se tem e levam consigo quem luta pelo socialismo, explicando-se pelo pensamento mas sentindo-se no cora\u00e7\u00e3o que nos move a pensar e militar.<\/p>\n<p>Essa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 como uma cadeia formada por liga\u00e7\u00f5es que t\u00eam um ponto de partida ao qual v\u00e3o agregando-se novos; essa tradi\u00e7\u00e3o vai se construindo no dia a dia que vamos forjando como coletivo humano. Assim se forma uma grande retaguarda, uma sustenta\u00e7\u00e3o em que se apoia nossa raz\u00e3o de ser, nossa a\u00e7\u00e3o de todos os dias e dos que vir\u00e3o. Somos todos parte desse coletivo que jovens e velhos v\u00e3o herdando. Nos permite encarar o futuro com mais sabedoria, confian\u00e7a, energia e paix\u00e3o. Ora, a tradi\u00e7\u00e3o possui pessoas de carne e osso, nossos mestres com quem demos os primeiros de muitos passos, e em nosso caso o mais importante \u00e9 Nahuel Moreno.<\/p>\n<p>O MES \u00e9 parte dessa tradi\u00e7\u00e3o. Possui 18 anos; portanto, \u00e9 ainda jovem. Apesar disso, Luciana e Roberto tiveram a oportunidade de conhecer Moreno e fazer uma reuni\u00e3o com ele, quando ainda na casa dos 18 anos militavam na Converg\u00eancia Socialista, uma corrente do PT que na d\u00e9cada de 1980, ao lado do MAS, era uma das organiza\u00e7\u00f5es mais importantes de nossa corrente.<\/p>\n<p>Nahuel Moreno era o nome de guerra de Hugo Bressano, o mais importante mestre de nossa corrente internacional que faleceu h\u00e1 trinta anos em sua casa em Mor\u00f3n, na regi\u00e3o metropolitana de Buenos Aires, quando seu cora\u00e7\u00e3o deixou de funcionar. Era jovem, tinha 62 anos, mas seu cora\u00e7\u00e3o estava h\u00e1 muitos anos cansado, com problemas. Eram anos em que n\u00e3o contava-se com a moderna ci\u00eancia e tecnologia card\u00edaca. Um m\u00eas antes havia voltado de uma viagem pela Inglaterra e It\u00e1lia \u2013 pelo que me parece, isso acelerou sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua morte \u00e9 uma grande injusti\u00e7a. Muita coisa poderia ser diferente se seguisse com vida. Ele estava angustiado pela sua sa\u00fade mas seguia ativo produzindo muito. Em seus \u00faltimos meses levantava hip\u00f3teses sobre as media\u00e7\u00f5es que estavam ocorrendo na Argentina a prop\u00f3sito do triunfo do peronismo nas elei\u00e7\u00f5es de Buenos Aires. Esse triunfo esmagador punha em quest\u00e3o nosso progn\u00f3stico de uma nova fase ininterrupta da revolu\u00e7\u00e3o \u2013 depois da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que liquidou a ditadura, haveria uma outra, que seria social. Esfor\u00e7ava-se para fazer uma caracteriza\u00e7\u00e3o do reaganismo, sendo autocr\u00edtico por n\u00e3o ter dado a devida import\u00e2ncia \u00e0 derrota da greve dos mineiros ingleses que fortaleceu Thatcher.<\/p>\n<p>Nahuel significa \u201ctigre\u201d em araucano, e agregaram \u201cMoreno\u201d pela cor de seu cabelo mas tamb\u00e9m por causa de Mariano Moreno, um dos l\u00edderes jacobinos da revolu\u00e7\u00e3o pela independ\u00eancia da Argentina, respons\u00e1vel por fuzilar com seu grupo o vice-rei espanhol que tentou fugir para C\u00f3rdoba. Assim o batizou Quebracho \/1\/ no in\u00edcio dos anos 1940.<\/p>\n<p>Com Moreno, o Trotskismo latino-americano protagonizou grandes lutas e construiu importantes partidos. \u00c9 a corrente que teve e tem (apesar das fragmenta\u00e7\u00f5es posteriores a sua morte) a maior presen\u00e7a no continente. Milhares de n\u00f3s nos consideramos legitimamente seus seguidores, e assim temos hoje diferen\u00e7as em nossas leituras pol\u00edticas e m\u00e9todos de constru\u00e7\u00e3o. E apesar de militarmos em partidos e organiza\u00e7\u00f5es diferentes, todos reivindicamos sua trajet\u00f3ria. Ningu\u00e9m pode negar esse direito aos outros e reivindicar para si a paternidade de Moreno. H\u00e1 coisas que permanecem para sempre para al\u00e9m das diferen\u00e7as que existem no interior de uma tradi\u00e7\u00e3o comum.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas formas de desviar-se da tradi\u00e7\u00e3o. Como recordou Valerio Arcary no ato de homenagem em S\u00e3o Paulo, \u201ctemos que saber fazer nossas homenagens.\u201d E dizia que uma das formas de n\u00e3o faz\u00ea-lo \u00e9 transformar um dirigente e sua obra em um culto \u00e0 personalidade. Isso foi levado ao m\u00e1ximo pelo estalinismo com Lenin, e para tanto tiveram at\u00e9 de deformar sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em nosso caso, muito longe disso. Somos cr\u00edticos e autocr\u00edticos, e desde 1998 reconhecemos erros importantes, especialmente a formula\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria mundial e a imin\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos aprofundaremos sobre isso neste texto porque essas ideias que elaboramos no MES, principalmente com Roberto Robaina e os aportes de Tito Prado do Peru, e em seguida o MST da Argentina e os companheiros venezuelanos do Marea Socialista, s\u00e3o sinteticamente desenvolvidas em um texto que produzimos por ocasi\u00e3o dos 20 anos da morte de Moreno.<\/p>\n<p>Existem organiza\u00e7\u00f5es que romperam com sua tradi\u00e7\u00e3o e com isso perderam o norte. Tive a oportunidade de acompanhar com Hugo as reuni\u00f5es com o SWP dos EUA, quando formamos com os herdeiros de Cannon (um dos mais importantes dirigentes da oposi\u00e7\u00e3o de esquerda durante a vida de Trotsky) a tend\u00eancia e em seguida fra\u00e7\u00e3o \u201cleninista-trotskista\u201d. Est\u00e1vamos convergindo com eles, enfrentando a orienta\u00e7\u00e3o guerrilherista que a dire\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria da IV Internacional, encabe\u00e7ada por Mandel e Livio Maitan, postulava para a Am\u00e9rica Latina. O SWP era um partido forte, forjado em uma longa tradi\u00e7\u00e3o, que havia ganhado muitos quadros e dirigentes nos anos 1970 na luta contra a Guerra do Vietn\u00e3 e no movimento pela liberta\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>Ainda estavam com vida velhos dirigentes da velha guarda de Cannon, entre eles Farrel Dobs (dirigente da greve dos caminhoneiros de Minneapolis em 1938), Tom Kerry, da mesma gera\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de Hansen (um dos secret\u00e1rios de Trotsky) e George Novack, conhecido historiador e fil\u00f3sofo militante. Com Moreno nos demos conta de que a nova dire\u00e7\u00e3o mantinha Farrel Dobs e Tom Kerry na tarefa de organizar a livraria \u2013 eles n\u00e3o participavam das reuni\u00f5es entre n\u00f3s e a CE do SWP. Tampouco Gerge Novack. Moreno ent\u00e3o chegou a essa conclus\u00e3o: \u201cest\u00e3o desprezando os velhos e v\u00e3o romper com uma tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a mais importante da \u00faltima d\u00e9cada de vida de Trotsky.\u201d<\/p>\n<p>E assim aconteceu: algum tempo depois estavam apoiando incondicionalmente a dire\u00e7\u00e3o de Castro e transformando-se em ap\u00eandice do partido cubano. O hist\u00f3rico SWP est\u00e1 agora reduzido a nada, o que mostra que n\u00e3o se pode fazer uma mudan\u00e7a brusca de envergadura sem romper com a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos exemplos de que a ruptura com a tradi\u00e7\u00e3o leva a um desvio de outro tipo, e esse \u00e9 o caso do PTS argentino. Por meio da dire\u00e7\u00e3o do MAS, cometemos com eles excessos fracionais quando romperam, \u00e9poca em que Moreno j\u00e1 havia morrido. Talvez esse excesso tenha a ver com um peso herdado pelo conjunto do trotskismo, que por situa\u00e7\u00f5es objetivas e pela sua debilidade, teve sempre caracter\u00edsticas de partido-fra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, esse excesso n\u00e3o explica o que se sucedeu como PTS, que tem passado a negar o morenismo, nossa hist\u00f3ria e sua pr\u00f3pria. Em poucas palavras, eles a tem apagado, atacando nossa hist\u00f3ria pol\u00edtica. Seu maior ataque \u00e9 considerar que capitulamos para a democracia burguesa em um dos momentos mais dif\u00edceis e heroicos do partido, quando chegou ao auge a Triplo A (Alian\u00e7a Anticomunista da Argentina), que era um grupo militar dirigido pelo pr\u00f3prio governo. A Triplo A assassinou vinte de nossos companheiros, dentre os quais Cesar Robles, um de nossos principais dirigentes. Sofremos o massacre de La Plata, em que mataram oito, e a de Pacheco, onde mataram tr\u00eas. Nos acusam de termos capitulado \u00e0 democracia burguesa porque levamos adiante a pol\u00edtica de unidade de a\u00e7\u00e3o com partidos burgueses para nos defendermos da Triplo A. Se esquecem de que durante a homenagem aos m\u00e1rtires do massacre de Pacheco, Nahuel Moreno defendeu a necessidade de formar grupos de autodefesa, pleiteando uma reuni\u00e3o com todas as organiza\u00e7\u00f5es presentes. Nem os fortes grupos guerrilheiros e nem o resto da esquerda quis participar.<\/p>\n<p>A tentativa de unidade de a\u00e7\u00e3o com os partidos burgueses era uma t\u00e1tica necess\u00e1ria que faz\u00edamos sem abandonar nem por um minuto a luta de classes. Seria bom se recordassem a hist\u00f3rica greve dos metal\u00fargicos de Villa Constituci\u00f3n, em que o PTS, com Pacho Suarez e Pepe Kalauz e v\u00e1rios outros militantes e dirigentes partid\u00e1rios que estivemos empenhados no conflito, pudemos manter a heroica greve por dois meses, rodeados pelos fascistas da Triplo A.<\/p>\n<p>Romper com a tradi\u00e7\u00e3o e revisar toda a hist\u00f3ria como se tem feito pode levar \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o reformista (como no caso do SWP) ou ao perigo sect\u00e1rio e propagandista. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o ter uma retaguarda concreta \u2013 nenhuma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nasce de \u201cum repolho\u201d. N\u00e3o se pode tampouco ter uma retaguarda \u201cabstrata\u201d no trotskismo como teoria. Aqueles que pensam assim v\u00e3o acabar considerando que eles s\u00e3o os \u00fanicos verdadeiros revolucion\u00e1rios, e v\u00e3o formar seus militantes como se tudo tivesse come\u00e7ado com eles porque s\u00e3o os \u00fanicos e verdadeiros herdeiros de Trotsky.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel ser trotskista na Europa continental ignorando a IV de carne e osso, a que resistiu ao nazismo e que se confunde com a trajet\u00f3ria de Mandel, o qual escapou duas vezes dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, ou sem levar em conta o papel desempenhado por Krivine e Bensaid no maio franc\u00eas de 1968. J\u00e1 na Inglaterra, \u00e9 incontorn\u00e1vel rememorar Ted Grant, Alan Woods, Tony Cliff e as hist\u00f3ricas jornadas de enfrentamento com Thatcher, quando dirigiam o Partido Trabalhista na prefeitura de Liverpool. E \u00e9 imposs\u00edvel ser trotskista na Am\u00e9rica Latina, ignorando toda a ac\u00famulo do morenismo no p\u00f3s-guerra, a hist\u00f3ria do PST e do MAS na Argentina, da Converg\u00eancia Socialista no Brasil, de Hugo Blanco e o PST no Peru.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro desvio que \u00e9 muito forte no trotskismo em geral e no morenismo em particular. \u00c9 crer que tudo o foi feito esteve bem; n\u00e3o haveria nada em Moreno tenha se equivocado, \u201cMoreno teve raz\u00e3o em todas as pol\u00eamicas, todos os progn\u00f3sticos coincidiram com a realidade e nunca cometeu erros na pol\u00edtica\u201d. Esta forma de pensar contradiz o pr\u00f3prio Moreno, o qual, quando fazia a hist\u00f3ria do partido nos anos 60-70, dizia que era preciso elabor\u00e1-la com base nos erros. O desvio\u00a0obrerista\u00a0at\u00e9 1947 que levou o GOM a ignorar a juventude e o estudantado. Quando se corrigiu este equ\u00edvoco, foi-se \u00e0s universidades e captou-se uma camada de jovens que foram muito importantes na dire\u00e7\u00e3o (Horacio Lagar, Ernesto Gonzalez, o pr\u00f3prio Hugo Blanco que estudava agronomia em La Plata e que depois foi trabalhar no setor frigor\u00edfico, para em seguida participar da revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria no Peru). Houve tamb\u00e9m o desvio sect\u00e1rio que\u00a0 n\u00e3o enxergava que o peronismo, embora fosse um movimento de dire\u00e7\u00e3o burguesa, enfrentava o imperialismo estadunidense e para tanto precisava fazer grandes concess\u00f5es para a classe trabalhadora. Isso foi corrigido e dentro das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias peronistas foi poss\u00edvel desempenhar um papel muito destacado na resist\u00eancia da ditadura pr\u00f3-ianque, ainda que isso tenha levado a um certo desvio sindicalista e movimentista. Acreditar que tudo ocorreu bem na nossa hist\u00f3ria \u00e9 uma forma de apagar a verdadeira hist\u00f3ria. Se tudo foi correto antes, tudo tamb\u00e9m \u00e9 agora. Cria-se uma conduta que perde um dos elementos essenciais do marxismo revolucion\u00e1rio, o esp\u00edrito cr\u00edtico, e tamb\u00e9m pode-se tergiversar essa hist\u00f3ria. Por exemplo, escutei no Brasil que h\u00e1 companheiros morenistas os quais dizem que Moreno sempre teve a pol\u00edtica de apresentar-se com o partido revolucion\u00e1rio sozinho nas elei\u00e7\u00f5es. Assim deixa-se de lado que fomos parte na Argentina do PSRN de Dickman, dirigindo a Federa\u00e7\u00e3o bonarense de referido partido, que estivemos dentro do peronismo e que nos apresentamos com eles nas elei\u00e7\u00f5es. H\u00e1 que se recordar que com essa pol\u00edtica formamos um bloco de deputados oper\u00e1rios na Federa\u00e7\u00e3o das Usinas A\u00e7ucareiras (FOTIA) em Tucum\u00e1n e tivemos um deputado da Palabra Obrera. Mais tarde, em 1985 com Moreno ainda em vida, fizemos a \u201cFrente do Povo\u201d com Partido Comunista Argentino. Mesmo que involuntariamente, esta pol\u00edtica de se isolar nos leva a criar uma homogeneidade no interior da organiza\u00e7\u00e3o e a pensar que quem pensa diferente est\u00e1 equivocado e deve-se separ\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Mais ainda \u00e9 fazer com as caracteriza\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas de Moreno a leitura da realidade atual. Moreno morreu h\u00e1 30 anos, \u00e9 quase toda uma \u00e9poca, o mundo mudou. As revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na ex-URSS e nos pa\u00edses do Leste n\u00e3o se deram como esper\u00e1vamos; houve derrota do aparato stalinista, mas tamb\u00e9m restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Houve uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e nas comunica\u00e7\u00f5es (as quais Moreno especulou e dizia que nesse caso a situa\u00e7\u00e3o se modificaria) e entramos na globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal e numa nova crise do capitalismo. \u00c9 imposs\u00edvel fazer a leitura desta realidade com as an\u00e1lises, caracteriza\u00e7\u00f5es e pol\u00edtica de Moreno. Quem o faz (e se o faz) leva um pensamento de seita ou ao propagandismo de ter a verdade absoluta, que Moreno combatia. Moreno dizia: \u201cSer trotskista hoje n\u00e3o significa estar de acordo com tudo aquilo que escreveu ou o que disse Trotsky, mas sim saber fazer-lhe cr\u00edticas ou super\u00e1-lo, como a Marx, a Engels ou L\u00eanin, porque o marxismo pretende ser cient\u00edfico e a ci\u00eancia ensina que n\u00e3o h\u00e1 verdades absolutas. Em primeiro lugar, ser trotskista \u00e9 ser cr\u00edtico, inclusive ao pr\u00f3prio trotskismo\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, o MES e nossa corrente est\u00e1 viva, aproximando-se com dificuldades \u00e0 realidade, mas nos aproximando. Porque tentamos ter um esp\u00edrito cr\u00edtico de supera\u00e7\u00e3o sem por isso perder as marcas essenciais mais importantes do Morenismo: a paix\u00e3o pela classe oper\u00e1ria; a luta irredut\u00edvel contra a burguesia e a burocracia que nos d\u00e1 nossa perspectiva socialista; o internacionalismo militante; a intransig\u00eancia nos princ\u00edpios e a flexibilidade na t\u00e1tica para fazer avan\u00e7ar o movimento de massas intervindo nos processos objetivos e fazer com isso a constru\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode concluir este texto sobre a tradi\u00e7\u00e3o sem esbo\u00e7ar as perspectivas futuras. No dia em que homenageamos Moreno depois de sua morte \/2\/ toda a for\u00e7a e energia herdada esteve posta em manter com destaque suas marcas fundamentais, manter a paix\u00e3o militante que t\u00ednhamos de transmitir.<\/p>\n<p>Acreditamos que um elemento importante da dispers\u00e3o do morenismo \u00e9 que demoramos muito em ver os erros que tinha a caracteriza\u00e7\u00e3o de Moreno da situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria mundial. Continuamos por bastante tempo repetindo caracteriza\u00e7\u00f5es que nos levaram a errar muito mais que Moreno e que produziram uma dispers\u00e3o de sua corrente. Como diz\u00edamos antes, o rearmamento n\u00e3o foi f\u00e1cil e o fizemos de maneira desigual.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, conservamos suas marcas, herdamos muito dele. Acreditamos que agora com seu talento e moral revolucion\u00e1ria estar\u00edamos mais fortes; os desafios que temos nos exigem conservar suas marcas e ao mesmo tempo avan\u00e7ar. O mundo est\u00e1 convulsionado, h\u00e1 uma grande crise do capitalismo sem que se afirme todavia a \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel que \u00e9 o socialismo. No entanto, novos processos se d\u00e3o, ainda que sejam embrion\u00e1rios e intermedi\u00e1rios, facilitando o trabalho de criar novas alternativas socialistas. \u00c9 verdade que apareceram nuvens negras e perigosas como Trump, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que um dos grandes sonhos de Moreno e do trotskismo, a entrada da crise e com ela a entrada em cena das massas do pa\u00eds mais imperialista mais importante est\u00e1 se dando. Nos EUA, est\u00e1 Trump, mas tamb\u00e9m est\u00e1 a grande resist\u00eancia democr\u00e1tica popular onde brotam e reaparecem as ideias socialistas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Pedro Fuentes &#8211; MES-PSOL, Brasil<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que estamos recordando e rendendo homenagens a Moreno nesses trinta anos de sua morte? 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