{"id":2325,"date":"2017-03-23T11:54:53","date_gmt":"2017-03-23T10:54:53","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/03\/23\/apos-o-8-de-marco-pensar-os-proximos-passos\/"},"modified":"2017-03-23T11:54:53","modified_gmt":"2017-03-23T10:54:53","slug":"apos-o-8-de-marco-pensar-os-proximos-passos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/03\/23\/apos-o-8-de-marco-pensar-os-proximos-passos\/","title":{"rendered":"Ap\u00f3s o 8 de Mar\u00e7o: pensar os pr\u00f3ximos passos"},"content":{"rendered":"<p>O 8 de Mar\u00e7o de 2017 foi um dia de luta assinal\u00e1vel em todo o mundo que ficar\u00e1 para a Hist\u00f3ria. As grandes manifesta\u00e7\u00f5es, as greves e as reivindica\u00e7\u00f5es das\u00a0 trabalhadoras, pobres, LGBT&#8217;s e negras voltaram ao palco da luta das mulheres, depois de anos em que o feminismo se refugiou na academia e o 8 de Mar\u00e7o foi transformado numa comemora\u00e7\u00e3o consumista e in\u00f3cua.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <span style=\"line-height: 1.5;\">Portugal n\u00e3o ficou isolado desta onda global. Em Lisboa, Porto, Set\u00fabal, Coimbra, Braga e Vila Real milhares de mulheres sa\u00edram \u00e0 rua. Num pa\u00eds onde \u00e9 normal encarar o dia da mulher como uma comemora\u00e7\u00e3o onde se distribuem flores ou kits de maquilhagem, esta foi uma mudan\u00e7a importante. Durante d\u00e9cadas n\u00e3o houve no dia da mulher manifesta\u00e7\u00f5es dignas deste nome nem qualquer mobiliza\u00e7\u00e3o ou luta. A primeira vit\u00f3ria foi que, em 2017, o 8 de Mar\u00e7o foi de novo um dia de luta. Daqui em diante dever\u00e1 ser sempre assim.<\/span> <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O movimento e as suas contradi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>No cen\u00e1rio em que vive o pa\u00eds, de acalmia social, onde o movimento feminista \u00e9 fr\u00e1gil ou inexistente, era inevit\u00e1vel que este avan\u00e7o trouxesse consigo algumas dificuldades e debates. Para avan\u00e7ar e construir um forte movimento feminista \u00e9 preciso fazer esses debates, com calma e seriedade.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XIX e XX houve tr\u00eas grandes ondas feministas. A inicial, na viragem e in\u00edcio do s\u00e9culo XX foi iniciada pelas sufragistas e\u00a0 levou a movimentos radicais, como as greves que iniciaram a revolu\u00e7\u00e3o russa ou a instaura\u00e7\u00e3o do dia 8 de Mar\u00e7o. A segunda vaga d\u00e1-se nos anos 60 e 70. O direito ao aborto, \u00e0 igualdade salarial, aos contraceptivos ou ao div\u00f3rcio foram conquistas conseguidas em v\u00e1rios pa\u00edses. Nos anos 90 uma nova vaga surgiu, agora centrada nas academias e que se expressava nas institui\u00e7\u00f5es como a Uni\u00e3o Europeia ou a ONU. Todas as vagas foram atravessadas por grandes divis\u00f5es. Na primeira grande onda as mulheres trabalhadoras e burguesas lutaram juntas pelo direito ao voto &#8211; embora houvesse casos em que as sufragistas defendiam o voto s\u00f3 para mulheres de classes altas, como Beatriz \u00c2ngelo<sup>1<\/sup>\u00a0&#8211; mas quando as oper\u00e1rias faziam greve n\u00e3o tinham as patroas ao seu lado. A segunda grande vaga tamb\u00e9m foi marcada por grandes lutas de trabalhadoras pela igualdade salarial, junto com lutas que mobilizavam mulheres de todas as classes, pelos direitos reprodutivos e outras reivindica\u00e7\u00f5es que dizem respeito a todas as mulheres. Foi nesta altura que despontou tamb\u00e9m o movimento LGBT<sup>2<\/sup>. Tamb\u00e9m foi nesta \u00e9poca que mais avan\u00e7ou a institucionaliza\u00e7\u00e3o do dia das mulheres. O tardio reconhecimento do 8 de Mar\u00e7o pela ONU, em 1975, serviu para que as lutas dessem lugar \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es, afastando do terreno as organiza\u00e7\u00f5es tradicionais de esquerda, os sindicatos e as reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres mais pobres. A vaga dos anos 90, ap\u00f3s a queda do muro de Berlim e do suposto \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, foi fortemente marcada pela luta pela igual representatividade nas institui\u00e7\u00f5es e mais focada no \u201cempoderamento\u201d individual que na emancipa\u00e7\u00e3o colectiva. Estas divis\u00f5es entre um feminismo radical, anti-capitalista e o feminismo liberal s\u00e3o inevit\u00e1veis, dado que h\u00e1 mulheres de todas as classes e os anseios e problemas das trabalhadoras s\u00e3o diferentes, muitas vezes opostos, a de Ministras, Presidentes ou empres\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>De Washington a Lisboa<\/strong><\/p>\n<p>Com a elei\u00e7\u00e3o de Trump, o epicentro do movimento feminista passaram a ser os EUA, expressando-se nas gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es de 21 de Janeiro. Tamb\u00e9m da\u00ed nascem duas estrat\u00e9gias opostas para o movimento. Nas ruas dos EUA juntaram-se, por um lado, as apoiantes de Hillary Clinton e do Partido Democrata, maioritariamente brancas, de classes m\u00e9dias e altas e as negras, imigrantes, jovens e prec\u00e1rias, vindas do apoio a Bernie Sanders, das lutas contra a viol\u00eancia racista, dos sindicatos e das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. Esta uni\u00e3o fez a for\u00e7a. Mas aponta para duas vis\u00f5es distintas. A do chamado \u201cfeminismo liberal\u201d, de um movimento baseado em ONG&#8217;s e nas Universidades, centrado na quest\u00e3o da representatividade das mulheres no poder, preparando uma recandidatura de Hillary, de Michelle Obama ou outro l\u00edder do Partido Democrata. Outros sectores agruparam-se em torno do manifesto divulgado por Angela Davis<sup>3<\/sup>\u00a0\u201cPor uma Greve Internacional Militante no 8 de Mar\u00e7o\u201d, com uma proposta internacionalista e anti-capitalista.<sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em Portugal estas vis\u00f5es se expressaram. Ap\u00f3s a manifesta\u00e7\u00e3o do dia 25 de Novembro contra a viol\u00eancia machista, viu-se que era poss\u00edvel unir cada vez mais mulheres, associa\u00e7\u00f5es, partidos e outras organiza\u00e7\u00f5es na luta contra o machismo. Mas tamb\u00e9m que a manifesta\u00e7\u00e3o foi usada como palco pelo governo, cujos ministros encabe\u00e7aram a manifesta\u00e7\u00e3o para a anunciar uma suposta campanha nacional contra a viol\u00eancia. A campanha limitou-se a alguns cartazes espalhados pelo pa\u00eds, mas permitiu ao PS pousar como \u201camigo das mulheres\u201d. Para o 8 de Mar\u00e7o estavam em cima da mesa os mesmos perigos e potencialidades. As v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de mulheres tiveram o m\u00e9rito de se juntar para discutir as v\u00e1rias propostas, em v\u00e1rios f\u00f3runs em cada cidade. Naturalmente reproduziram-se diverg\u00eancias parecidas \u00e0s do movimento internacional. Em Lisboa, a Assembleia Feminista propunha ades\u00e3o \u00e0 Paralisa\u00e7\u00e3o Internacional de mulheres e a organiza\u00e7\u00e3o de uma manifesta\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica. Outros sectores da Rede 8 de Mar\u00e7o centravam-se num evento\/concerto em parceria com a C\u00e2mara Municipal, do PS<sup>5<\/sup>. Acabou por se construir num calend\u00e1rio comum, com diversos tipos de iniciativas. Noutras cidades, como Coimbra, trabalhou-se de forma unit\u00e1ria e as organiza\u00e7\u00f5es feministas adoptaram o manifesto internacional e organizaram uma manifesta\u00e7\u00e3o. A pr\u00e1tica provou que foram as mobiliza\u00e7\u00f5es na rua e o seu car\u00e1cater combativo que fizeram que este 8 de Mar\u00e7o fosse diferente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea manifesta\u00e7\u00f5es separadas?<\/strong><\/p>\n<p>Se nos anos anteriores tinham faltado manifesta\u00e7\u00f5es de mulheres, este 8 de Mar\u00e7o houve em demasia. Al\u00e9m da manifesta\u00e7\u00e3o do dia 8 de Mar\u00e7o, em v\u00e1rias cidades, houve v\u00e1rias datas de convocat\u00f3ria. Em 57 pa\u00edses milh\u00f5es de mulheres pararam no dia 8, por\u00e9m em Lisboa a maioria das organiza\u00e7\u00f5es de mulheres empenhou-se em fazer manifesta\u00e7\u00f5es no dia 11. Parte da rede 8 de Mar\u00e7o centrou-se numa manifesta\u00e7\u00e3o no dia 11 e a CGTP e o MDM (Movimento Democr\u00e1tico de Mulheres, afecto ao PCP), que inicialmente ignoraram o movimento, marcaram uma manifesta\u00e7\u00e3o no mesmo dia&#8230; noutra hora e local! Podia ter havido um grande movimento no dia 8 de Mar\u00e7o. <strong>Caso a CGTP se tivesse empenhado de facto na mobiliza\u00e7\u00e3o podia ter havido paralisa\u00e7\u00f5es. Isso obrigaria o governo a dar aten\u00e7\u00e3o ao assunto e colocaria o movimento de mulheres no centro da cena pol\u00edtica portuguesa.<\/strong> A maioria das organiza\u00e7\u00f5es apostaram no oposto. Infelizmente \u00e9 um reflexo de n\u00e3o serem independentes das agendas partid\u00e1rias, sobretudo do PS e dos partidos que o apoiam, BE e PCP. Por isso evitam colocar na rua um movimento que, inevitavelmente, vai chocar-se com o governo. Achamos legitimo e desej\u00e1vel a presen\u00e7a dos partidos de esquerda na luta feminista.\u00a0 Por\u00e9m, isso n\u00e3o pode servir para dividir o movimento conforme a \u201c\u00e1rea de influ\u00eancia\u201d de cada um ou evitar que se pressione o governo. S\u00f3 assim se explica o inexplic\u00e1vel: que de manifesta\u00e7\u00e3o nenhuma tenhamos passado para tr\u00eas, s\u00f3 em Lisboa! Uma grande manifesta\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria no dia 8 de Mar\u00e7o, acompanhada de paralisa\u00e7\u00f5es ainda que parciais ao trabalho teria colocando Portugal no mapa da luta mundial de mulheres.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Unidade, mobiliza\u00e7\u00e3o e exig\u00eancia!<\/strong><\/p>\n<p> Em Portugal est\u00e1 colocada a hip\u00f3tese de come\u00e7ar a criar um movimento feminista amplo e combativo. Como avan\u00e7ar? Aqui ficam algumas propostas. Unidade: existem diversos colectivos, associa\u00e7\u00f5es, partidos e sindicatos que representam milhares de mulheres. Todos s\u00e3o bem vindos! Devem-se formar espa\u00e7os amplos em que todos possam participar. Afastar partidos e sindicatos \u00e9 afastar lutadoras: em Coimbra, por exemplo, essa atitude levou ao afastamento do sindicato dos t\u00eaxteis que representa centenas de mulheres. <strong>Democracia e a transpar\u00eancia s\u00e3o a \u00fanica garantia para um movimento independente. Mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de trabalhar em movimentos comuns deve tentar-se fazer campanhas e mobiliza\u00e7\u00f5es unit\u00e1rias.<\/strong> Mobiliza\u00e7\u00e3o: h\u00e1 muitas formas de luta. N\u00e3o desprezamos a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, as actividades culturais ou as festas. Mas s\u00f3 milhares de mulheres (e homens!) na rua podem obrigar os governos em todo o mundo adoptarem medidas que melhorem a vida das mulheres. Exig\u00eancias: Queremos mudar o mundo e para isso temos de combater o poder institu\u00eddo, a sociedade capitalista baseada na explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Esse foi o sentido do Manifesto internacional deste 8 de Mar\u00e7o: \u201cprecisamos alvejar o ataque neoliberal em curso sobre os direitos sociais e trabalhistas (\u2026) As condi\u00e7\u00f5es de vida das mulheres, especialmente as das mulheres de cor e as trabalhadoras, desempregadas e migrantes, t\u00eam-se deteriorado (&#8230;) gra\u00e7as \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o e \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o empresarial\u201d. <strong>Tamb\u00e9m em Portugal \u00e9 preciso traduzir este enfoque em exig\u00eancias concretas: igualdade salarial, socializa\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico, com creches, lares e lavandarias p\u00fablicas, investimento s\u00e9rio no combate \u00e0 viol\u00eancia machista, \u00e0 LGBTfobia e ao racismo, ao ass\u00e9dio sexual e moral etc. S\u00f3 assim traremos para a luta as mais pobres, exploradas e oprimidas. <\/strong> <\/p>\n<div>\n<div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><strong>NOTAS<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>1<\/sup>\u00a0Beatriz \u00c2ngelo, m\u00e9dica e sufragista, foi a primeira mulher a votar em Portugal, nas elei\u00e7\u00f5es para a Assembleia Constituinte de 1911. Apesar, supostamente, s\u00f3 os homens terem direito ao voto, valeu-de a lei permitir o voto de todos os \u201cportugueses chefes-de-fam\u00edla\u201d. Por ser vi\u00fava e sustentar os seus filhos e valendo-se que o masculino \u00e9, na nossa l\u00edngua um g\u00e9nero \u201cneutro\u201d, conseguiu em tribunal que lhe fosse reconhecido o direito de votar. a lei foi alterada no ano seguinte, com a especifica\u00e7\u00e3o de que apenas os chefes de fam\u00edlia do\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sexo_masculino\">sexo masculino<\/a> poderiam votar. Beatriz \u00c2ngelo foi membro da Liga Republicana de Mulheres Portuguesas e fundadora e presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Propaganda Feminista, com a qual veio a romper, mais tarde, porque as suas companheiros defendiam o direito ao voto para as mulheres de todas as classes enquanto ela defendia que s\u00f3 as mulheres de classes altas votassem.<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>2<\/sup>\u00a0Podemos dizer que o movimento LGBT moderno se inicia com a revolta de Stonewall, em 1969 em New York, a luta LGBT mais marcante, embora n\u00e3o \u00fanica neste per\u00edodo. Mas tal como nas lutas das mulheres, foi o movimento socialista que mais cedo pautou esta batalha. Foi o partido social-democrata alem\u00e3o, em particular o dirigente oper\u00e1rio August Bebel, o primeiro a propor a descrminilaza\u00e7\u00e3o da homosexualidade, ainda no s\u00e9culo XIX. Assim como a Revolu\u00e7\u00e3o Russa inaugurou o primeiro estado onde todas as leis ou normas que restringiam a liberdade sexual dos cidad\u00e3os foram abolidas.<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>3<\/sup> Feminista negra norte-americana, foi membro do Partido Comunista e dos Partidos Panteras Negras.<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>4<\/sup>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/02\/07\/por-uma-greve-internacional-militante-no-8-de-marco\/\">https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/02\/07\/por-uma-greve-internacional-militante-no-8-de-marco\/<\/a><\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>5<\/sup> Esta proposta acabou por se realizar tamb\u00e9m, com um chamado ao evento \u201cOne Billion Rising: Dan\u00e7ar pelo fim da viol\u00eancia contra as mulheres (<a href=\"http:\/\/plataformamulheres.org.pt\/one-billion-rising-dancar-pelo-fim-da-violencia-contra-as-mulheres\/\">http:\/\/plataformamulheres.org.pt\/one-billion-rising-dancar-pelo-fim-da-violencia-contra-as-mulheres\/<\/a>)<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O 8 de Mar\u00e7o de 2017 foi um dia de luta assinal\u00e1vel em todo o mundo que ficar\u00e1 para a Hist\u00f3ria. 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