{"id":2323,"date":"2017-03-20T20:35:30","date_gmt":"2017-03-20T19:35:30","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/03\/20\/costas-lapavitsas-defende-a-saida-do-euro\/"},"modified":"2017-03-20T20:35:30","modified_gmt":"2017-03-20T19:35:30","slug":"costas-lapavitsas-defende-a-saida-do-euro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/03\/20\/costas-lapavitsas-defende-a-saida-do-euro\/","title":{"rendered":"Costas Lapavitsas defende a sa\u00edda do Euro"},"content":{"rendered":"<p>Costas Lapavitsas (1961), Professor de Economia na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, visitou Barcelona no passado m\u00eas para apresentar o seu mais recente trabalho, que defende a Gr\u00e9cia fora do euro como uma ferramenta para superar a crise.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Muito cr\u00edtico do Syriza (foi seu deputado at\u00e9 ao terceiro acordo com a troika), de Alexis Tsipras e Yannis Varufakis, Lapavitsas est\u00e1 consciente de que as suas posi\u00e7\u00f5es sobre a Uni\u00e3o Europeia e o euro ainda s\u00e3o minoria entre os progressistas europeus. No entanto, acredita que &#8220;o primeiro passo para a esquerda \u00e9 dizer que a uni\u00e3o monet\u00e1ria tem que terminar&#8221;.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um ano esteve em Madrid na apresenta\u00e7\u00e3o do Plano B para a Europa. Como acha que evoluiu esta iniciativa?<\/strong><\/p>\n<p>As confer\u00eancias de Madrid foram interessantes porque havia um bom n\u00famero de pessoas e uma boa atmosfera. No entanto, foram politicamente confusas porque foram apresentadas v\u00e1rias ideias mas sem nenhuma conclus\u00e3o sobre o que deveria a esquerda fazer a respeito da Europa. As pessoas ainda pensam que se pode mudar a Uni\u00e3o Europeia (UE). Passado um ano, parece-me que essa posi\u00e7\u00e3o perdeu adeptos. Mais gente j\u00e1 percebeu que temos que ter uma alternativa, um caminho ou uma estrat\u00e9gia diferente exigem medidas radicais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0 UE.<\/p>\n<p><strong>E a\u00ed est\u00e1 o seu plano para a Gr\u00e9cia, a sa\u00edda do euro.<\/strong><\/p>\n<p>Deixar o euro \u00e9 parte de uma estrat\u00e9gia. Mas, em ess\u00eancia, temos de tomar medidas para fortalecer a procura agregada: despesas e investimentos p\u00fablicos. No in\u00edcio, o sector p\u00fablico tem de liderar a economia e o sector privado, em especial os servi\u00e7os, para poder come\u00e7ar a respirar. Numa segunda fase, devemos tomar medidas em mat\u00e9ria de pol\u00edtica industrial.<\/p>\n<p><strong>E isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer no \u00e2mbito do euro?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje em dia a institui\u00e7\u00e3o fundamental da UE \u00e9 a uni\u00e3o monet\u00e1ria. E a Uni\u00e3o Monet\u00e1ria falhou, \u00e9 disfuncional e n\u00e3o trouxe reformas, prosperidade e solidariedade, mas pelo contr\u00e1rio, intensificou-se a hostilidade e as tens\u00f5es entre os europeus. O primeiro passo para a esquerda \u00e9 dizer que a uni\u00e3o monet\u00e1ria tem que terminar. O euro falhou e n\u00e3o precisamos dele.<\/p>\n<p><strong>Acabar com o euro n\u00e3o faria precisamente que os pa\u00edses e as suas moedas compitam entre si em vez de serem solid\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio voltar a um sistema de moedas nacionais para competir uns com os outros. Existem alternativas intermedi\u00e1rias para os pa\u00edses europeus para organizarem a circula\u00e7\u00e3o de capitais e com\u00e9rcio. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma moeda comum como o euro ou nem o atual Banco Central Europeu (BCE). Os mecanismos utilizados durante anos favorecem basicamente as grandes corpora\u00e7\u00f5es e grandes bancos.<\/p>\n<p><strong>Em \u00faltima an\u00e1lise, a esquerda assumir o discurso anti-euro n\u00e3o facilita o trabalho \u00e0 extrema-direita?<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio! Aqui est\u00e1 outro falhan\u00e7o da esquerda. Se a esquerda n\u00e3o tivesse aceite o euro ou se tivesse proposto uma sa\u00edda do euro de forma positiva a partir de um discurso radical, no sentido de ir \u00e0 raiz dos problemas, teria dificultado e tornado mais dif\u00edcil o trabalho \u00e0 extrema-direita. Na Gr\u00e9cia, a extrema-direita \u201cGolden Dawn\u201d tem deputados, mas n\u00e3o foram capazes de encontrar o seu lugar no debate sobre o euro, porque j\u00e1 havia uma esquerda que o propunha. Em vez da Marine Le Pen, teria de ser a esquerda francesa a falar sobre a sa\u00edda do euro.<\/p>\n<p><strong>Apesar disso, a posi\u00e7\u00e3o maiorit\u00e1ria na esquerda europeia n\u00e3o \u00e9 a sa\u00edda do euro, mas reformar a UE. Em Espanha temos visto como o Podemos \u00e0 medida que as sondagens os favoreciam, centravam o seu discurso.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 certo. \u00c9 por isso que a esquerda europeia falhou na \u00faltima d\u00e9cada e, \u00e0 direita, e agora parece que tamb\u00e9m a extrema-direita, tem se sa\u00eddo t\u00e3o bem. A esquerda historicamente foi o garante das pol\u00edticas de transfer\u00eancia favor\u00e1veis \u200b\u200bpara a classe trabalhadora, desafiar os poderosos e falar sobre mudan\u00e7as radicais. Mudar o sistema, mudar o mundo. Onde est\u00e1 tudo isso? A esquerda est\u00e1 pagando o seu discurso conservador na uni\u00e3o monet\u00e1ria. Agora a extrema-direita tem um discurso radical e roubou \u00e0 esquerda a maioria das mensagens, e em alguns casos o eleitorado.<\/p>\n<p><strong>O seu pa\u00eds, a Gr\u00e9cia, parece estar envolto em um ciclo vicioso de resgastes\u201d e planos de ajuste.<\/strong><\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia \u00e9 um caso extremo do fracasso da zona euro. Eu n\u00e3o acho que a Gr\u00e9cia saia satisfatoriamente da crise no m\u00e9dio prazo. O problema foi que, quando a crise eclodiu, a solu\u00e7\u00e3o imposta pela Comiss\u00e3o Europeia e Berlin destruiu a procura agregada. Cortou-se nos gastos e nas pens\u00f5es e aumentou-se os impostos. O pacote de medidas de austeridade contraiu a procura agregada e o investimento entrou em colapso. Empresas fechadas, o desemprego aumentou e a recess\u00e3o foi enorme.<\/p>\n<p>Foi dito que isso iria estabilizar a economia e que a queda da procura agregada era a oportunidade de tomar medidas adicionais, tais como a liberaliza\u00e7\u00e3o e desregulamenta\u00e7\u00e3o para sermos competitivos. Mas o capitalismo moderno n\u00e3o funciona dessa maneira. O que aconteceu \u00e9 que o pa\u00eds estagnou: a economia cresce um pouco e volta a contrair-se. E o caso de Espanha n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o longe desta descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o parece que os credores proponham um via muito diferente do caminho seguido at\u00e9 agora.<\/strong><\/p>\n<p>Assim, a Gr\u00e9cia nunca vai crescer e vai permanecer estagnada, com a procura interna destru\u00edda e \u00e0 espera de um milagre. Esta estrada leva a Gr\u00e9cia \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 irrelev\u00e2ncia, e continuar\u00e1 enquanto se mantiver a uni\u00e3o monet\u00e1ria. Para come\u00e7ar a fazer politicas alternativas \u00e0 austeridade temos que sair do euro.<\/p>\n<p><strong>Por outro lado, o apoio que o governo Syriza teve durante o referendo parece ter evaporado. A Europa dos trabalhadores \u00e9 mais mito do que realidade?<\/strong><\/p>\n<p>A Europa dos trabalhadores n\u00e3o existe. \u00c9 um mito que a maioria da Esquerda Europeia acreditava. N\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 uma Europa, existem 28 estados, 19 deles na uni\u00e3o monet\u00e1ria. A esquerda tem que pensar mais sobre a soberania nacional e redefini-la, n\u00e3o numa perspetiva nacionalista ou agressiva, mas num sentido popular. Eu acho que esta \u00e9 a verdadeira perspetiva da Europa dos povos e os trabalhadores, e n\u00e3o um \u00f3rg\u00e3o transnacional com sede em Bruxelas governada por burocratas que vivem no seu pr\u00f3prio mundo.<\/p>\n<p>Pensar que a partir da esquerda se pode transformar tudo isso na Europa das pessoas \u00e9 um erro. A Europa dos trabalhadores existe, em primeiro lugar, se no teu pr\u00f3prio pa\u00eds se reivindica soberania e, a partir dessa base, poder criar uma Europa unida.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea vive em Londres. Como est\u00e3o sendo os primeiros meses postBrexit?<\/strong><\/p>\n<p>O Brexit mostrou que a classe trabalhadora brit\u00e2nica n\u00e3o quer a EU, que a UE n\u00e3o \u00e9 um projeto popular e que nunca o foi no Reino Unido. A UE foi um projeto da classe m\u00e9dia brit\u00e2nica. E eu acho que o que sempre aconteceu no Reino Unido \u00e9 transport\u00e1vel para muitos pa\u00edses: a Uni\u00e3o Europeia nunca foi um projeto das classes populares.<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1 que as piores consequ\u00eancias chegar\u00e3o quando o mecanismo para sair da EU for activado?<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o foi dito que o Brexit seria o fim do mundo e que haveria uma recess\u00e3o massiva, fuga de capitais e dificuldades econ\u00f3micas. At\u00e9 agora nada disso aconteceu. Obviamente, quando se iniciar o processo de desconex\u00e3o haver\u00e1 efeitos negativos, mas at\u00e9 agora t\u00eam sido exagerados. A cat\u00e1strofe que era anunciada n\u00e3o est\u00e1 a ocorrer. O pensamento entre muita gente \u00e9: &#8220;Se isto \u00e9 o que acontece quando decides sair, onde est\u00e1 o desastre?&#8221;<\/p>\n<p>Haver\u00e1 efeitos complexos e negativos sobre a economia. Desmantelar todo um sistema legal\/jur\u00eddico estabelecido vai ser uma tarefa dif\u00edcil, porque a legisla\u00e7\u00e3o europeia afeta muitos aspetos da vida. Os acordos comerciais e as opera\u00e7\u00f5es financeiras ser\u00e3o afetados ainda n\u00e3o se sabe muito bem como.<\/p>\n<p><strong>Esperava-se a vit\u00f3ria do Brexit?<\/strong><\/p>\n<p>A classe dominante brit\u00e2nica n\u00e3o queria o Brexit. A City de Londres e os poderosos queriam ficar. Foi uma surpresa e as elites n\u00e3o estavam preparadas porque o Brexit foi um voto popular. Politicamente, o Brexit contribuiu para acabar com a divis\u00e3o do partido conservador em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. Agora, os conservadores s\u00e3o mais fortes.<\/p>\n<p><strong>Pelo contr\u00e1rio, a esquerda parece totalmente desnorteada.<\/strong><\/p>\n<p>O Labour n\u00e3o tem nada claro e est\u00e1 dividido. A esquerda no Reino Unido est\u00e1 em crise porque n\u00e3o sabe o que dizer sobre a Europa. Ela n\u00e3o tem propostas radicais para as pessoas. Alguns acreditam que \u00e9 poss\u00edvel voltar \u00e0 U.E para a reformar, o que n\u00e3o faz sentido nenhum. Isso nunca vai acontecer, e caso se voltasse atr\u00e1s, isso s\u00f3 agravaria a vida dos trabalhadores, que votaram contra a UE.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o demonstra que um dos problemas da esquerda europeia \u00e9 que perdeu a confian\u00e7a nos trabalhadores. Uma parte do Laborismo, em vez de propor um programa de abandono da austeridade e promo\u00e7\u00e3o do investimento p\u00fablico e distribui\u00e7\u00e3o da riqueza coloca os seus esfor\u00e7os para voltar a uma institui\u00e7\u00e3o que os pr\u00f3prios trabalhadores rejeitaram e a promover outro referendo. Politicamente n\u00e3o faz sentido. Neste contexto, a extrema-direita est\u00e1 a ganhar as classes trabalhadoras brit\u00e2nicas. Isto \u00e9 terr\u00edvel e o pior \u00e9 que est\u00e1 a acontecer o mesmo na maioria dos pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><strong>Entrevista ao eldiario.es<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Costas Lapavitsas (1961), Professor de Economia na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, visitou Barcelona no passado m\u00eas para apresentar o seu mais recente trabalho, que defende a Gr\u00e9cia fora do euro como uma ferramenta para superar a crise.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2322,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[39],"tags":[613,1069,233,148,139,881,422,1070,114,1068,659],"class_list":["post-2323","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-europa","tag-bce","tag-costas","tag-crise","tag-divida","tag-euro","tag-europa","tag-grecia","tag-lapavitsas","tag-mas","tag-movimentom-alternativa-socialista","tag-uniao-europeia"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/costaslapavitsas.jpg?fit=643%2C429","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2323\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2322"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}