{"id":2304,"date":"2017-02-26T21:35:37","date_gmt":"2017-02-26T20:35:37","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/26\/o-que-podemos-esperar\/"},"modified":"2017-02-26T21:35:37","modified_gmt":"2017-02-26T20:35:37","slug":"o-que-podemos-esperar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/26\/o-que-podemos-esperar\/","title":{"rendered":"O que Podemos esperar?"},"content":{"rendered":"<p>Nos dias 11 e 12 de Fevereiro teve lugar a Assembleia Cidad\u00e3 do Podemos, o Congresso desta forma\u00e7\u00e3o espanhola, marcado por uma profunda divis\u00e3o na sua lideran\u00e7a. Neste processo elegeu-se a nova dire\u00e7\u00e3o do partido assim como a orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para o pr\u00f3ximo per\u00edodo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Esta caminhada, que come\u00e7ou no in\u00edcio do ano com diversas vota\u00e7\u00f5es on-line e terminou com a participa\u00e7\u00e3o on-line de mais de 150 mil filiados foi marcada pela guerra aberta entre o carism\u00e1tico l\u00edder do Podemos, Pablo Iglesias, e o seu antigo \u201cn\u00famero dois\u201d, I\u00f1igo Errej\u00f3n. <\/p>\n<p>O Podemos surgiu em 2014, na sequ\u00eancia de anos de grandes mobiliza\u00e7\u00f5es contra a Troika. O partido teve um sucesso inesperado nas primeiras elei\u00e7\u00f5es em que participou, as Europeias de 2014, e desde a\u00ed disparou nas sondagens. O partido de Iglesias chegou a aparecer em primeiro lugar ou em segundo, em alguns momentos. As expectativas criadas foram alt\u00edssimas, por\u00e9m foram tamb\u00e9m expectativas defraudadas. Em 2015 o partido ficou \u201capenas\u201d com 20% dos votos e quando a elei\u00e7\u00e3o se repetiu, j\u00e1 em coliga\u00e7\u00e3o com a Izquierda Unida, o resultado manteve-se. Neste cen\u00e1rio de impasse, em que nenhum dos partidos conseguia assegurar maioria parlamentar e governar, chegou a estar colocada a hip\u00f3tese de um governo PSOE (centro-esquerda), apoiado pelo Podemos e pelo Ciudadanos (uma nova forma\u00e7\u00e3o de centro-direita). Por\u00e9m Pablo Iglesias, recusou, fazendo ao PSOE exig\u00eancias que este n\u00e3o podia aceitar, empurrando o PSOE para o apoio a um governo da direita e o Podemos para a oposi\u00e7\u00e3o. <strong>A aposta de Iglesias parecia ser a de obrigar o PSOE a \u201cqueimar-se\u201d no apoio ao governo, para em futuras elei\u00e7\u00f5es capitalizar o seu desgaste. Esta op\u00e7\u00e3o arriscada abriu brechas na dire\u00e7\u00e3o do partido. <\/strong>O porta-voz parlamentar do Podemos, Errej\u00f3n, que j\u00e1 se tinha oposto \u00e0 coliga\u00e7\u00e3o com a Izquierda Unida, queria tamb\u00e9m apoiar um governo PSOE. A pol\u00edtica de Iglesias imp\u00f4s-se mas as diferen\u00e7as prometiam dirimir-se na Assembleia Cidad\u00e3 que inauguraria 2017.<\/p>\n<p>A Assembleia do Podemos foi alvo da aten\u00e7\u00e3o de todos os principais partidos do pa\u00eds, assim como dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Teve a cobertura de uma verdadeira elei\u00e7\u00e3o oficial. A luta foi dura e eminentemente despolitizada e rica em intrigas, o que fez com que muitos temessem a ruptura no partido. As diferentes orienta\u00e7\u00f5es poderiam ser resumidas assim: <strong>Iglesias propunha um Podemos \u201cmais \u00e0 esquerda\u201d, apostado nas lutas de rua e na alian\u00e7a com a Izquierda Unida, opondo-se ao PSOE e ao PP. J\u00e1 Errej\u00f3n propunha um Podemos \u201cnem de esquerda, nem de direita\u201d, que tivesse como interlocutor privilegiado o PSOE.<\/strong> Enquanto Iglesias mantinha um discurso orientado para a juventude precarizada e para os sectores que lutaram nos \u00faltimos anos, Errej\u00f3n responde mais a uma classe m\u00e9dia ansiosa por estabilidade. N\u00e3o obstante, mantinham grandes acordos: nenhum dos dois propunha mudan\u00e7as program\u00e1ticas, mesmo Iglesias n\u00e3o defendeu voltar ao programa fundacional &#8211; \u201cMover Ficha\u201d &#8211; que, entre outras coisas, propunha a suspens\u00e3o do pagamento da d\u00edvida p\u00fablica. Tanto Errej\u00f3n como Iglesias se mantiveram a aceita\u00e7\u00e3o pela perman\u00eancia na UE e no euro, o pagamento da d\u00edvida ou contra o direito dos Bascos, Catal\u00e3es e Galegos decidirem a sua eventual independ\u00eancia face a Espanha. Assim como ambos reivindicavam as experi\u00eancias dos munic\u00edpios de Barcelona e Madrid, em que o Podemos e figuras pr\u00f3ximas governam com o PSOE \u2013 em Madrid, por exemplo, Manuela Carmona, muito pr\u00f3xima do Podemos, recusou-se a cumprir o programa e eleitoral e remuncipalizar os servi\u00e7os privatizados ou em parar os desalojamentos.<\/p>\n<p>Apresentou-se tamb\u00e9m \u00e0 Assembleia Cidad\u00e3 do Podemos a corrente \u201cAnticapitalistas\u201d, mais \u00e0 esquerda, liderada pelo eurodeputado Miguel \u00darban. Este sector defende algumas altera\u00e7\u00f5es ao programa, incluindo a nacionaliza\u00e7\u00e3o da energia, por exemplo. Por\u00e9m ao n\u00e3o ser capaz de fazer uma cr\u00edtica global ao projeto de Iglesias \u2013 os \u201cAnticapis\u201d tamb\u00e9m reivindicam os governos municipais de Madrid e Barcelona e n\u00e3o excluem o apoio a um governo PSOE \u2013 acabaram por ser eclipsados pela suposta viragem \u00e0 esquerda do l\u00edder do Podemos.<\/p>\n<p>Foi a orienta\u00e7\u00e3o de Iglesias que venceu a Assembleia Cidad\u00e3, assim como foram os seus apaniguados que ganharam espa\u00e7o na dire\u00e7\u00e3o de Podemos. A nova dire\u00e7\u00e3o conta com 37 \u201cPablistas\u201d, 23 \u201cErrejonistas\u201d e 2 anticapitalistas. Ao contr\u00e1rio do que temiam muitos, a divis\u00e3o n\u00e3o se deu: Errej\u00f3n deixou de ser porta-voz do partido no parlamento, mas ele, cujo projeto pol\u00edtico foi supostamente derrotado, passa a ser o \u201crespons\u00e1vel de an\u00e1lise estrat\u00e9gica e mudan\u00e7a pol\u00edtica\u201d na Executiva do Podemos. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m no discurso p\u00fablico, Iglesias aproximou-se do seu advers\u00e1rio: ap\u00f3s a Assembleia Cidad\u00e3, afirmou numa confer\u00eancia de imprensa que a sua estrat\u00e9gia passa por \u201cseduzir o PSOE\u201d.<\/p>\n<p>O que explica ent\u00e3o a tens\u00e3o que atravessou o Podemos nos \u00faltimos meses? Para alguns seria a luta entre as alas \u201cradical\u201d e \u201cmoderada\u201d do Podemos, para outros, apenas uma guerra por cargos e poder. Provavelmente ambos os aspectos est\u00e3o presentes. Por\u00e9m, aparentemente,<strong> a divis\u00e3o entre Errej\u00f3n e Iglesias expressa duas t\u00e1ticas poss\u00edveis para ganhar mais votos e vir a pactuar uma futura governa\u00e7\u00e3o do Estado Espanhol com o PSOE.<\/strong>\u00a0<strong>Infelizmente, nenhum dos dois apresentava uma solu\u00e7\u00e3o de ruptura, mas sim diferentes solu\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o \u201c\u00e0 esquerda\u201d da crise do pa\u00eds. <\/strong>Tal como os seus \u201cprimos pol\u00edticos\u201d, o Syriza, na Gr\u00e9cia, que \u00e9 hoje governo e aplica a austeridade com dureza, ou o Bloco de Esquerda Portugu\u00eas, que compartilha responsabilidade por um governo do PS, o Podemos n\u00e3o pretende chegar ao poder para romper com a Uni\u00e3o Europeia e o Euro. T\u00e3o pouco pretendem mudan\u00e7as radicais na economia e na sociedade como as tarefas democr\u00e1ticas essenciais no estado Espanhol, como terminar com a Monarquia e conceder o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. Iglesias e Errej\u00f3n expressavam t\u00e1ticas distintas dentro desta estrat\u00e9gia: Iglesias pretende guinar \u00e0 esquerda para ganhar mais for\u00e7a para negociar com o PSOE, enquanto Errej\u00f3n optaria por se aproximar sem sobressaltos da c\u00fapula \u201csocialista\u201d. S\u00f3 isso explica os \u201czig-zags\u201d de Iglesias, que primeiro ficou conhecido por se opor \u00e0 \u201ccasta pol\u00edtica\u201d, para depois afirmar que era \u201cuma idiotice que diz\u00edamos quando \u00e9ramos jovens de extrema-esquerda que as coisas se mudam nas ruas e n\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es\u201d. J\u00e1 os \u201cAnticapitalistas\u201d perderam uma oportunidade de ouro para levantar uma proposta alternativa tanto a Iglesias como a Errejon, com uma pol\u00edtica que fizesse justi\u00e7a ao nome desta corrente.\u00a0<\/p>\n<p>Nos tempos perigosos que ensombram a Europa, com o crescimento da extrema-direita e da xenofobia, a nova esquerda que irrompeu nos \u00faltimos anos t\u00eam uma responsabilidade acrescida. <strong>Existem for\u00e7as para lutar por uma Europa dos povos, sem muros nem austeridade. A ascen\u00e7\u00e3o de partidos como o Syriza, o Podemos, o Bloco de Esquerda ou Corbyn em Inglaterra e M\u00e9lenchon em Fran\u00e7a expressam isso. Por\u00e9m, cada um \u00e0 sua maneira, estes projetos parecem ficar aqu\u00e9m da mudan\u00e7a necess\u00e1ria.<\/strong> A Gr\u00e9cia \u00e9 o exemplo principal disso. \u00c9 necess\u00e1rio um programa unit\u00e1rio de ruptura \u00e0 esquerda, contra a UE e o Euro, por uma Europa sem austeridade, corrup\u00e7\u00e3o e xenofobia onde n\u00e3o sejam os bancos a governar. Infelizmente, neste in\u00edcio de 2017, o Podemos perdeu uma importante oportunidade de dar um passo nesse sentido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos dias 11 e 12 de Fevereiro teve lugar a Assembleia Cidad\u00e3 do Podemos, o Congresso desta forma\u00e7\u00e3o espanhola, marcado por uma profunda divis\u00e3o na sua lideran\u00e7a. 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