{"id":2302,"date":"2017-02-25T22:44:36","date_gmt":"2017-02-25T21:44:36","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/25\/a-universidade-de-coimbra-a-beira-da-privatizacao\/"},"modified":"2017-02-25T22:44:36","modified_gmt":"2017-02-25T21:44:36","slug":"a-universidade-de-coimbra-a-beira-da-privatizacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/25\/a-universidade-de-coimbra-a-beira-da-privatizacao\/","title":{"rendered":"A Universidade de Coimbra \u00e0 beira da privatiza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Neste momento funcionam, em regime de funda\u00e7\u00e3o, as Universidades do Minho, Aveiro, Porto, a Nova de Lisboa e o ISCTE. Prev\u00ea-se tamb\u00e9m, desde que o Reitor, Jo\u00e3o Gabriel Silva, convocou, em Outubro, a comunidade universit\u00e1ria para uma sess\u00e3o de esclarecimento sobre a&nbsp; ado\u00e7\u00e3o do regime fundacional, que a Universidade de Coimbra adopte igualmente o modelo fundacional.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 o regime fundacional?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2007, com a aprova\u00e7\u00e3o do Regime Jur\u00eddico das Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior (RJIES), abriu-se a possibilidade das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior solicitarem ao Governo a sua transforma\u00e7\u00e3o em funda\u00e7\u00e3o p\u00fablica com regime de direito privado. Elaborado aprovado pelo PS, esta lei implementa nas Universidades P\u00fablicas um modelo de gest\u00e3o igual \u00e0 das institui\u00e7\u00f5es privadas. Com a ado\u00e7\u00e3o deste modelo, o Estado \u00e9 desresponsabilizado das suas fun\u00e7\u00f5es \u2013 especialmente no que toca ao financiamento, visto que a institui\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a ter que garantir mais do que 50% do seu or\u00e7amento, inevitavelmente atrav\u00e9s dos privados. Desse modo, abrem-se portas a empresas e grandes grupos econ\u00f3micos que passar\u00e3o a investir nas universidades e&nbsp; a decidir sobre o rumo do ensino. Numa palavra, trata-se da privatiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas do Regime fundacional \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um Conselho de Curadores, \u00abconstitu\u00eddo por cinco personalidades de elevado m\u00e9rito e experi\u00eancia profissional, reconhecidos como especialmente relevantes\u00bb. Este novo Conselho coloca-se acima do Reitor, os membros s\u00e3o nomeados pelo Governo, ap\u00f3s proposta do Conselho Geral da Universidade, tem um mandato de cinco anos, renov\u00e1vel uma \u00fanica vez, n\u00e3o podendo ser destitu\u00eddo sem motivo justificado. No seu dom\u00ednio est\u00e1 a gest\u00e3o do patrim\u00f3nio e a gest\u00e3o do or\u00e7amento, entre muitos outros poderes.<\/p>\n<p>Nas Universidades que j\u00e1 adotaram o modelo fundacional, as figuras que ocupam os cargos do Conselho de Curadores s\u00e3o, muitas vezes, gestores e ex-gestores de grandes empresas ou bancos, entre eles: Alexandre Soares dos Santos (Jer\u00f3nimo Martins) na Universidade de Aveiro, Ant\u00f3nio Saraiva (presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Empresarial de Portugal) no ISCTE, Ricardo Salgado, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, Ant\u00f3nio Mexia ou Miguel Cadilhe, parte deles agora em Tribunal envolvidos em esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O regime fundacional afeta desde estudantes a professores, passando igualmente pelo corpo n\u00e3o docente. A precariedade passar\u00e1 a ditar ainda mais o dia-a-dia nas universidades. O regime de contrata\u00e7\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, mais flex\u00edvel por obedecer \u00e0s normas do modelo privado. Recorde-se, pois, a recente pol\u00e9mica dos 40 docentes contratados pela Universidade do Porto sem remunera\u00e7\u00e3o, que, segundo o presidente do Conselho de Reitores, Ant\u00f3nio Cunha, \u00e9&#8221;normal e pontual&#8221;<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Diogo\/Downloads\/Regime%20Fundacional.doc#_edn1\"><sup>1<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Os estudantes, sem d\u00favida, sentem tamb\u00e9m o efeito da passagem a Funda\u00e7\u00e3o. <strong>Se j\u00e1 em regime p\u00fablico muitos sentem dificuldades em manter-se na universidade (contando com a ajuda dos pais e dos empregos prec\u00e1rios), quanto mais elitista e privatizado for o ensino, mais dificuldades sentir\u00e3o em permanecer na Universidade, e o aumento da taxa de abandono, que neste momento j\u00e1 \u00e9 elevada, certamente ser\u00e1 mais um reflexo disso.<\/strong><\/p>\n<p>Embora neste momento se discuta o congelamento da propina, o valor em que est\u00e1 (em Coimbra \u00e9 de 1064\u20ac) hoje em dia j\u00e1 imp\u00f5e limita\u00e7\u00f5es ao acesso, havendo muitos casos de alunos\/as que desistem ou nem chegam a ingressar no ensino superior. E se num primeiro momento n\u00e3o se aumenta a propina de forma a gerar mais rendimentos, pode-se mexer nos custos inerentes \u00e0 frequ\u00eancia do ensino superior, como fizeram na Universidade do Minho, que ap\u00f3s passar a funda\u00e7\u00e3o, viu o custo das cadeiras isoladas a duplicar.<\/p>\n<p>Por fim, a pr\u00f3pria investiga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sofre nesta l\u00f3gica de mercado do ensino \u2013 as empresas entram cada vez mais nas universidades, sob a ret\u00f3rica de agilizar a rela\u00e7\u00e3o estudantes\/investigador e o mercado de trabalho, e escolhem investir nas \u00e1reas que mais lucros d\u00e3o, desprezando aquelas que n\u00e3o tem tantos benef\u00edcios financeiros associados. Ou seja, o que acontece \u00e9 um aut\u00eantico afunilamento da investiga\u00e7\u00e3o. O que j\u00e1 acontece em muitas universidades, onde as empresas fazem parcerias, e, em troca do investimento, requerem que os investigadores fa\u00e7am patentes em vez de publicar os seus trabalhos \u2013 a Bluepharma em Coimbra \u00e9 excelente exemplo desde modelo de parceria \u2013, fechando as portas \u00e0 circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o produzida nas Universidades. No fundo trata-se de ter institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a fazer investiga\u00e7\u00e3o paga por todos, para dar lucro a grandes empresas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O Governo tem obriga\u00e7\u00e3o de parar a passagem a funda\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Um dos pontos dos acordos entre PS, PCP e BE, que permitiram a forma\u00e7\u00e3o do atual do governo, \u00e9 o fim das privatiza\u00e7\u00f5es. Ora, sendo assim, <strong>a passagem da UC a Funda\u00e7\u00e3o, colocando grandes empres\u00e1rios a dirigir a Universidade e retirando-lhe financiamento p\u00fablico, \u00e9 certamente uma privatiza\u00e7\u00e3o pouco camuflada e portanto um incumprimento do acordo entre PS e a esquerda. Bloco de Esquerda e PCP n\u00e3o podem contemporizar com mais este atropelo do PS e devem dizer abertamente que esta altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser aceite por eles. Devem propor na Assembleia da Rep\u00fablica a suspens\u00e3o da passagem de mais institui\u00e7\u00f5es de ensino a Funda\u00e7\u00e3o.<\/strong> Caso contr\u00e1rio, nem os famosos acordos da Geringon\u00e7a servem para salvar o Ensino Superior e ajudar professores e estudantes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Mobilizar para travar a funda\u00e7\u00e3o!<\/strong><\/p>\n<p>Tal como noutras universidades que abriram o processo de passagem a Funda\u00e7\u00e3o, em Coimbra os\/as estudantes e docentes organizam a resist\u00eancia, dentro e fora dos c\u00edrculos oficiais, e acusam o regime fundacional de significar parte do processo de privatiza\u00e7\u00e3o daquela institui\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o maiorit\u00e1ria \u00e9 de cr\u00edtica \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o, nomeadamente por parte do atual Conselho Geral. As rep\u00fablicas e outros coletivos de estudantes t\u00eam-se mobilizado no sentido de contestar a Funda\u00e7\u00e3o, bem como de exigir do Reitor a realiza\u00e7\u00e3o um amplo debate junto de toda a comunidade universit\u00e1ria sobre a eventual passagem e os efeitos que ter\u00e1 na Universidade.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o caminho a seguir: o da mobiliza\u00e7\u00e3o. <strong>\u00c9 preciso antes de mais alargar o debate a toda a comunidade universit\u00e1ria, chegar aos estudantes, aos n\u00facleos de estudantes e \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica de Coimbra, quer a a sua dire\u00e7\u00e3o queira quer n\u00e3o. Ao mesmo tempo, \u00e9 essencial unir estudantes, professores, funcion\u00e1rios e investigadores. A maioria dos professores elegeu representantes para o Conselho Geral que recusam o modelo fundacional: \u00e9 necess\u00e1rio que estes se juntem aos estudantes nas ruas para exigir a suspens\u00e3o deste processo e que toda a Universidade seja ouvida e consultada. <\/strong>O Reitor e o Governo n\u00e3o podem privatizar uma das Universidades mais antigas da Europa, contra tudo e contra todos!<\/p>\n<div>\n<div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>NOTAS<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><sup>1<\/sup>&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.jn.pt\/nacional\/interior\/reitores-dizem-que-docentes-sem-salario-e-normal-e-pontual-5574870.html\">http:\/\/www.jn.pt\/nacional\/interior\/reitores-dizem-que-docentes-sem-salario-e-normal-e-pontual-5574870.html<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste momento funcionam, em regime de funda\u00e7\u00e3o, as Universidades do Minho, Aveiro, Porto, a Nova de Lisboa e o ISCTE. 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