{"id":2294,"date":"2017-02-21T00:56:53","date_gmt":"2017-02-20T23:56:53","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/21\/recordacoes-sobre-nahuel-moreno-nos-30-anos-de-sua-morte\/"},"modified":"2017-02-21T00:56:53","modified_gmt":"2017-02-20T23:56:53","slug":"recordacoes-sobre-nahuel-moreno-nos-30-anos-de-sua-morte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/21\/recordacoes-sobre-nahuel-moreno-nos-30-anos-de-sua-morte\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es sobre Nahuel Moreno nos 30 anos de sua morte"},"content":{"rendered":"<p>Fiquei sabendo da morte de Moreno em plena Pra\u00e7a da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo. Era janeiro de 1987, e eu estava voltando de \u00f4nibus de um Congresso Nacional de professores em Jo\u00e3o Pessoa. Tinha desembarcado na rodovi\u00e1ria do Tiet\u00ea, tomado o metro e, acidentalmente, cruzei com um militante que me deu a not\u00edcia. Ainda me lembro de ter comentado: \u201cagora estamos muito mais sozinhos\u201d.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Tinha acabado de fazer trinta anos. Fui, atordoado ou, talvez, atormentado \u00e0 reda\u00e7\u00e3o da Folha de S\u00e3o Paulo e da Globo para levar uma nota. Sentia o peso esmagador das novas responsabilidades.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Suspeitava que, para aqueles que est\u00e1vamos engajados na luta pela reconstru\u00e7\u00e3o da Quarta no Brasil, esse janeiro desenhava uma antes e um depois. E foi assim.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou entre os brasileiros que tiveram contato pessoal regular e intenso com Hugo. Nunca vivi nem na Col\u00f4mbia, nem na Argentina. Depois que sa\u00ed de Portugal permaneci, ininterruptamente, no Brasil. Minha rela\u00e7\u00e3o foi sempre, essencialmente, indireta, atrav\u00e9s da leitura de seus escritos.<\/p>\n<p>Encontrei-o pela primeira vez no aeroporto de Lisboa em 1975. Ele demorava muito para sair do controle de passaportes e eu estava ansioso, portanto, n\u00e3o hesitei. N\u00e3o me lembro como, mas conhecia o seu nome de batismo. Em alguns minutos ecoava bem alto pelos autofalantes da Portela: \u201cSenhor Hugo Bressano, est\u00e3o \u00e0 sua procura\u201d, e n\u00e3o deixei que cansassem de repetir.<\/p>\n<p>Estavam em Lisboa, desde o \u00faltimo trimestre de 1974, Aldo Casas e L\u00eddia Daleffe do PST argentino e seu filho Huguito, ent\u00e3o um menino. Eles tiveram a disposi\u00e7\u00e3o de mudar para Portugal, vieram para ficar. T\u00ednhamos recebido a visita de Gerry Foley do SWP dos EUA, mas somente uma visita de poucas semanas. Os dois eram quadros de despojamento extraordin\u00e1rio, e de capacidades complementares. Tinham conquistado, merecidamente, a nossa confian\u00e7a e afeto.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que Moreno vinha a Portugal, e fomos direto do aeroporto para a Avenida da Rep\u00fablica, onde o GMR (Grupo Marxista Revolucion\u00e1rio) tinha ocupado um palacete, alguns meses antes, um solar meio grandioso, quase um Pal\u00e1cio, por\u00e9m, abandonado e decadente. Ainda assim, desproporcional para o qu\u00ea, de fato, \u00e9ramos: um pequeno n\u00facleo fundador de algumas dezenas de jovens estudantes imberbes, e alguns poucos trabalhadores inexperientes. Majestoso e, tamb\u00e9m, algo pretensioso era o novo nome da organiza\u00e7\u00e3o: PRT (Partido Revolucion\u00e1rio dos Trabalhadores). Ousadia e alguma presun\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos faltavam.<\/p>\n<p>A primeira impress\u00e3o de Moreno foi arrebatadora, creio que para todos n\u00f3s. Hugo estava no auge aos cinquenta anos. Parecia, talvez, um pouco mais velho: era um homem alto e corpulento, muito educado, at\u00e9 um pouco formal, tinha um vigor, intensidade ou veem\u00eancia que lhe era pr\u00f3pria. N\u00e3o era nem solene, nem pomposo. N\u00f3s \u00e9ramos adolescentes, portanto, impression\u00e1veis, e ele transbordava de entusiasmo. Tinha uma for\u00e7a contagiosa que animava todos que o ouviam, quase uma como\u00e7\u00e3o. O tom de voz era poderoso, e uma atitude, ao mesmo tempo, en\u00e9rgica e s\u00e9ria. Mas, tamb\u00e9m, respeitosa.<\/p>\n<p>Moreno tinha amplo repert\u00f3rio cultural, aos nossos olhos era um erudito. Combinava variedade de interesses e um senso de humor de tipo \u201cmonumental\u201d: ria muito e alto, e sem freios, todo ele se sacudia em gargalhadas, quando contava uma de suas muitas hist\u00f3rias hil\u00e1rias. Minha primeira impress\u00e3o permanece viva at\u00e9 hoje: foi umas das pessoas, sem exagero algum, de intelig\u00eancia mais extraordin\u00e1ria que conheci ao longo da vida.<\/p>\n<p>A corrente morenista se expandia, nesses anos, com muito dinamismo. O impacto do trabalho que veio a ser publicado sob o t\u00edtulo O partido e a revolu\u00e7\u00e3o era muito grande. Em imensa maioria concordamos, em 1976, com a decis\u00e3o de formar a Tend\u00eancia Bolchevique, que depois se transformou em Fra\u00e7\u00e3o. Mas pagamos um pre\u00e7o elevado. Porque o processo de debate da separa\u00e7\u00e3o com o SWP norte-americano, com quem tinha sido constitu\u00edda a FLT para o Congresso Mundial de 1974, n\u00e3o foi un\u00e2nime. Os procedimentos da discuss\u00e3o foram, em Portugal pelo menos, extremadamente sum\u00e1rios.<\/p>\n<p>Tudo terminou em algumas expuls\u00f5es sob a acusa\u00e7\u00e3o de fra\u00e7\u00e3o secreta. Olhando para tr\u00e1s, em perspectiva, iniciava-se ali, talvez, uma din\u00e2mica de fracionamentos r\u00e1pidos, portanto, tamb\u00e9m, de isolamento latino-americano, que viria a ter graves, ou at\u00e9 incontorn\u00e1veis consequ\u00eancias para nossa corrente nos anos oitenta: a incapacidade de compreender a abertura de uma situa\u00e7\u00e3o europeia e mundial mais desfavor\u00e1vel, na virada para a d\u00e9cada de oitenta, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, as ditaduras eram derrotadas no Cone Sul.<\/p>\n<p>Reencontrei Moreno quando ele voltou a Lisboa, em 1977, e ele teve um papel agregador insubstitu\u00edvel na solu\u00e7\u00e3o de uma crise que quase destruiu a jovem organiza\u00e7\u00e3o. No ano e meio anterior, inspirados por um projeto elaborado por quadros da fra\u00e7\u00e3o bolchevique que vieram para Portugal substituir Aldo e L\u00eddia, t\u00ednhamos realizado uma experi\u00eancia de proletariza\u00e7\u00e3o de mais de cinquenta militantes entre os metal\u00fargicos de Aveiro. O giro era fundamentado em uma an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se demonstrou equivocada. A ligeireza, imaturidade e superficialidade, ou um pouco de tudo isso, n\u00e3o nos permitiram compreender o significado da invers\u00e3o desfavor\u00e1vel da rela\u00e7\u00e3o social de for\u00e7as, depois do golpe de 25 de novembro de 1975, e da elei\u00e7\u00e3o do general Ramalho Eanes \u00e0 presid\u00eancia em 1976.<\/p>\n<p>Tampouco consideramos que n\u00e3o era razo\u00e1vel exigir da abnegada estrutura de quadros um engajamento em uma t\u00e1tica de constru\u00e7\u00e3o irrealista, que colocava objetivos que estavam muito al\u00e9m das possibilidades subjetivas da milit\u00e2ncia. Participei, ent\u00e3o, da minha primeira luta pol\u00edtica, em condi\u00e7\u00e3o de minoria, e fiquei chocado, e entristecido com a forma impaciente, \u00e1spera, e at\u00e9 mesmo feroz de pol\u00eamica de alguns quadros educados na \u201cescola\u201d argentina. Felizmente, a vinda de Moreno permitiu um di\u00e1logo unificador e construtivo, e a recupera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a que abriram o caminho para a unifica\u00e7\u00e3o com a LCI, e a funda\u00e7\u00e3o do PSR.<\/p>\n<p>Poucos meses depois, em agosto de 1978, Moreno foi preso em S\u00e3o Paulo, junto com a maioria dos quadros da organiza\u00e7\u00e3o brasileira. Decidi voltar para o Brasil, e me unir \u00e0 Converg\u00eancia Socialista. Com a sa\u00edda dos quadros mais veteranos da pris\u00e3o se abriu na CS uma luta fracional. Uma luta pol\u00edtica que tinha, como pano de fundo, diferentes aprecia\u00e7\u00f5es de balan\u00e7o sobre os erros que tinham conduzido \u00e0s pris\u00f5es, diferen\u00e7as sobre os ritmos da luta de classes, e a press\u00e3o do crescente movimento pr\u00f3-PT, que acabou sendo fundado em fevereiro de 1980. Mas, tamb\u00e9m, uma disputa pela dire\u00e7\u00e3o, com elementos de um conflito geracional, que terminou resultando na ruptura de um ter\u00e7o do n\u00facleo dirigente, e a dispers\u00e3o de mais de metade da milit\u00e2ncia: uma cat\u00e1strofe. O papel moderador dos camaradas argentinos nessa luta, em especial, de Martin Hernandez, representando a tradi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o argentina, e inspirado por Moreno, consolidou uma s\u00f3lida rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre n\u00f3s, que foi decisiva, em minha opini\u00e3o, para manter a unidade da dire\u00e7\u00e3o e da organiza\u00e7\u00e3o por muitas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Depois estive presente, em janeiro de 1980, no Congresso do PST argentino que se realizou na Col\u00f4mbia e, na sequ\u00eancia, na reuni\u00e3o que constituiu o comit\u00ea parit\u00e1rio com a corrente liderada pela OCI francesa e Pierre Lambert, uma tentativa frustrada de reagrupamento internacional para diminuir o risco do isolamento latino-americano. O contexto era dram\u00e1tico: as diferen\u00e7as com o SU da Quarta sobre a revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense conduziram \u00e0 ruptura com o bloco da maioria formado pelos franceses e norte-americanos. O horizonte sul-americano de perspectiva de momentos decisivos na etapa final de luta pela derrubada das ditaduras nos levou a conclus\u00f5es apressadas e unilaterais.<\/p>\n<p>Foi nesse processo que a corrente assimilou, infelizmente, a elabora\u00e7\u00e3o sobre o car\u00e1ter \u201ciminente\u201d da revolu\u00e7\u00e3o socialista, uma formula\u00e7\u00e3o sobre a etapa internacional que se demonstrou, especialmente, equivocada, depois do in\u00edcio da restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China com Deng Xao Ping, em 1978, e que deu um salto de qualidade com Gorbatchev em 1986. Acompanhei o Congresso do PST (A) preocupado. Porque a pol\u00eamica que existia, previamente, foi resolvida por uma interven\u00e7\u00e3o pessoal de Moreno que, embora brilhante, foi devastadora para os que estavam em minoria, e sugeria que ele ocupava, na principal organiza\u00e7\u00e3o da Fra\u00e7\u00e3o, o papel de uma lideran\u00e7a com autoridade incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Compreendo que alguns possam ter conclu\u00eddo que ele seria um caudilho, ou at\u00e9 que ele gostava de ser um caudilho. N\u00e3o \u00e9 essa a minha opini\u00e3o. Ele era, ao lado de Ernesto Gonzalez, o \u00fanico quadro reminiscente dos anos cinquenta. Exercia autoridade com equil\u00edbrio, mesmo quando perdia a sobriedade, ainda quando sua opini\u00e3o tendia a ser a \u00faltima. Acontece que l\u00edderes incontroversos, queiram ou n\u00e3o, podem acabar cercados por colaboradores incondicionais, em um processo de sele\u00e7\u00e3o regressivo determinado pelas lealdades pessoais.<\/p>\n<p>Seria injusto n\u00e3o ressaltar que Moreno era, diante de n\u00f3s, um \u201cgigante\u201d, ou seja, tinha qualidades excepcionais. Hugo ocupava um papel proeminente, muito especial, mas n\u00e3o acredito que se sentia confort\u00e1vel nessa condi\u00e7\u00e3o. Era melhor que isso. Era l\u00facido o bastante para tentar evitar, a qualquer pre\u00e7o, a degenera\u00e7\u00e3o da corrente em mais uma seita que se transforma a si mesma em um fim. Gostava muito de rir, honestamente, de si mesmo.<\/p>\n<p>Me recordo de um epis\u00f3dio divertido. Aconteceu quando Moreno voltou de uma viagem \u00e0 Inglaterra, e comentou a reuni\u00e3o que tinha feito com um grupo que tinha rompido com WRP de Healy. Os camaradas ingleses colocaram como ponto de pauta um balan\u00e7o da experi\u00eancia, na Argentina, de interven\u00e7\u00e3o nas 62 organiza\u00e7\u00f5es, um movimento de resist\u00eancia oper\u00e1ria sindical liderado pelos peronistas. Consideravam oportunista a orienta\u00e7\u00e3o. Hugo n\u00e3o se ofendeu, mas nos alertou que o debate sobre poss\u00edveis unifica\u00e7\u00f5es deveria sempre calibrar os acordos e diferen\u00e7as sobre a realidade presente, e perspectivas do que fazer no futuro. Nunca a partir da exig\u00eancia ultimatista de acordo sobre balan\u00e7os autocr\u00edticos do que tinha acontecido vinte e cinco anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Pude testemunhar, mais de uma vez, que valorizava camaradas com opini\u00f5es distintas \u00e0s suas. Nunca aderiu \u00e0 ideia ing\u00eanua de internacional-fra\u00e7\u00e3o. Minha interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 que Moreno queria reconstruir a Quarta como uma grande organiza\u00e7\u00e3o, por isso, estava sempre inquieto: depois do fracasso das rela\u00e7\u00f5es com a OCI de Lambert, tentou a aproxima\u00e7\u00e3o com Lutte Ouvriere e com os ingleses que vinham do WRP de Healy.<\/p>\n<p>Moreno j\u00e1 era nesses anos, indiscutivelmente, o nosso mentor. Estive, nos dois anos seguintes, por mais duas vezes alguns poucos dias em Bogot\u00e1, a primeira vez com Eduardo Almeida, e a segunda com Maria Jos\u00e9 de Almeida, a Z\u00e9z\u00e9, para discutir a proposta de entrada no PT. Cada um de n\u00f3s representava uma das sensibilidades presentes na dire\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>O papel de Hugo nesse debate foi inspirador. Abdicou de avan\u00e7ar posi\u00e7\u00e3o sobre os temas mais t\u00e1ticos, e privilegiou o debate estrat\u00e9gico sobre as peculiaridades brasileiras, que conhecia bem. Insistiu que a constru\u00e7\u00e3o de um partido de classe sem delimita\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, ou seja, sem um programa revolucion\u00e1rio, era, relativamente, progressivo, quando considerado o papel do MDB como \u00fanico partido de oposi\u00e7\u00e3o legal \u00e0 ditadura. Mas alertou para o car\u00e1ter social de casta burocr\u00e1tica das lideran\u00e7as sindicais. E insistiu que n\u00e3o dever\u00edamos, em nenhuma circunst\u00e2ncia, sacrificar a nossa pr\u00f3pria independ\u00eancia pol\u00edtica, nem nos dissolvermos.<\/p>\n<p>Foi quando tive um conv\u00edvio pessoal mais estreito com Hugo. Comentou as viagens que tinha feito ao Brasil, no passado, e fez elogios a Herm\u00ednio Sachetta. Me recordo, tamb\u00e9m, dos coment\u00e1rios respeitosos sobre Ernest Mandel. Moreno procurava ter, ao mesmo tempo, uma vis\u00e3o cr\u00edtica, e uma atitude generosa sobre as pessoas. Ele nos ofereceu uma noite um jantar em seu apartamento: a c\u00e9lebre prefer\u00eancia argentina pelo bife \u00e0 milanesa, que ele mesmo preparou. Gosto de pensar que, para me agradar, Hugo abriu uma garrafa de vinho verde portugu\u00eas. Ainda colocou um tango, e convidou Z\u00e9z\u00e9 para dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ao final da noite, ele perguntou se eu ainda tinha o passaporte diplom\u00e1tico. Tive esse direito at\u00e9 os 25 anos, pelo lugar de minha m\u00e3e no Itamaraty. Eu j\u00e1 tinha sido correio uma vez, entre Lisboa e Madri, com uma mala cheia de d\u00f3lares: uma parte dos fundos do partido argentino. Hugo me pediu para passar por Buenos Aires, antes de voltar, para levar uns documentos em microfilmes, porque sabia que era pequena a possibilidade de ser revistado com o passaporte vermelho. Hugo gostava de acreditar nos camaradas, mesmo os muito jovens: preferia a confian\u00e7a \u00e0 suspeita, nos estimulava e empolgava, apostava na integridade dos militantes, e lhes colocava desafios.<\/p>\n<p>Finalmente, em meados dos anos oitenta, encontrei-o, pela \u00faltima vez, com Lu\u00eds Leiria, no Rio de Janeiro. Viajamos para v\u00ea-lo. Ele estava muito zangado conosco, e discordava, frontalmente, de nossas posi\u00e7\u00f5es. Discutiu de forma franca, perdeu a paci\u00eancia, decepcionado, talvez. Levantou a voz mais de uma vez, furioso. Lembro da minha surpresa quando ele nos disse, j\u00e1 mais calmo, que esperava mais de n\u00f3s dois, j\u00e1 que \u00e9ramos t\u00e3o estudiosos: t\u00ednhamos a obriga\u00e7\u00e3o de ser mais agregadores, ter sentido das propor\u00e7\u00f5es, e ser menos conflitivos. N\u00e3o chegamos a um acordo, e a reuni\u00e3o terminou muito amarga. Mas, somente anos depois, fiquei sabendo que a interven\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica dele favoreceu, na reuni\u00e3o do executivo da CS, uma solu\u00e7\u00e3o negociada, depois referendada no comit\u00ea central. Brigou conosco, mas depois nos defendeu. Foi poss\u00edvel a constitui\u00e7\u00e3o de uma regional para uma experi\u00eancia em separado, em S\u00e3o Paulo, e o ambiente, em alguns anos desanuviou.<\/p>\n<p>Assim era Moreno: o dia em que foi mais brutal conosco foi o mesmo dia em que nos fez o maior elogio de sempre. Moreno foi grande.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Val\u00e9rio Arcary &#8211; Esquerda Online<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei sabendo da morte de Moreno em plena Pra\u00e7a da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo. Era janeiro de 1987, e eu estava voltando de \u00f4nibus de um Congresso Nacional de professores em Jo\u00e3o Pessoa. 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