{"id":2292,"date":"2017-02-21T00:40:54","date_gmt":"2017-02-20T23:40:54","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/21\/algumas-reflexoes-sobre-o-morenismo\/"},"modified":"2017-02-21T00:40:54","modified_gmt":"2017-02-20T23:40:54","slug":"algumas-reflexoes-sobre-o-morenismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/21\/algumas-reflexoes-sobre-o-morenismo\/","title":{"rendered":"Algumas reflex\u00f5es sobre o \u201cmorenismo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em><em><\/em>Publicado na revista Marxismo Vivo Especial (2007) com o t\u00edtulo: <em>Nahuel Moreno. H\u00e1 20 anos de sua morte, algumas reflex\u00f5es sobre o \u201cmorenismo\u201d<\/em>.<\/em><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Normalmente, dentro da esquerda, quando um determinado dirigente adquire uma grande proje\u00e7\u00e3o e contribui com algo qualitativamente diferente de seus antecessores, seja isso positivo ou negativo, seus seguidores, ou mesmo seus inimigos, identificam o movimento ao qual o dirigente pertence com o seu nome.\u00a0Assim, fala-se de marxismo, de leninismo, de stalinismo ou de trotskismo. Ainda em vida de Moreno, e principalmente depois de sua morte, alguns milhares de pessoas, organizadas inclusive em correntes distintas, se autodenominam\u00a0morenistas, como forma de se identificar com as ideias e o trabalho pr\u00e1tico do dirigente trotskista argentino Nahuel Moreno, morto h\u00e1 20 anos. Cabe-nos agora perguntar: \u00e9 justa essa denomina\u00e7\u00e3o? Existiu um \u201cmorenismo\u201d? Moreno deixou contribui\u00e7\u00f5es qualitativas que justifiquem falar de \u201cmorenismo\u201d? Ou essa denomina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais do que a identifica\u00e7\u00e3o carinhosa com um dirigente trotskista muito respeitado?<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito desse tema dos nomes que os movimentos adquirem, \u00e9 necess\u00e1rio observar que essas denomina\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o sempre justas. O pr\u00f3prio Moreno opinava que era injusto falar de \u201cmarxismo\u201d porque essa denomina\u00e7\u00e3o identifica uma determinada concep\u00e7\u00e3o de mundo com o pr\u00f3prio Karl Marx quando, na realidade, ela era produto do trabalho pr\u00e1tico e intelectual de uma equipe formado por ele e por Friedrich Engels. Dessa forma, essa injusti\u00e7a hist\u00f3rica, surgida provavelmente por limita\u00e7\u00f5es idiom\u00e1ticas, condenou Engels a um papel auxiliar, de colaborador de Marx, quando ele era na verdade muito mais do que isso.<\/p>\n<p>O caso do trotskismo tamb\u00e9m merece ser analisado. Nos primeiros anos da luta contra Stalin, nem Trotsky nem seus seguidores falavam de \u201ctrotskismo\u201d para identificar seu movimento. Eles se autodenominavam \u201cbolcheviques\/leninistas\u201d e tinham raz\u00e3o. N\u00e3o era poss\u00edvel falar de \u201ctrotskismo\u201d porque, embora Trotsky tivesse desempenhado um papel brilhante na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e \u00e0 frente do Ex\u00e9rcito Vermelho na Guerra Civil, n\u00e3o havia incorporado ao marxismo e ao leninismo algo que fosse qualitativo e que, portanto, merecesse identificar seu movimento com seu nome. Quem come\u00e7ou a falar de trotskismo foi Stalin, com o objetivo de contrapor Trotsky e seus seguidores a Lenin e aos bolcheviques. Por isso, tanto Trotsky como seus companheiros, nesses primeiros anos, quando falavam de trotskismo, sempre punham a palavra entre aspas (\u201ctrotskismo\u201d).<\/p>\n<p>No entanto, com o passar do tempo, essa denomina\u00e7\u00e3o cunhada por Stalin foi sendo incorporada pelos disc\u00edpulos de Trotsky, n\u00e3o para diferenci\u00e1-lo de Lenin, mas de Stalin, e, nesse momento, essa denomina\u00e7\u00e3o do movimento foi correta porque Trotsky, em sua luta contra Stalin, deu uma contribui\u00e7\u00e3o qualitativa ao marxismo. Tratava-se da interpreta\u00e7\u00e3o sobre a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica da URSS e da tarefa que dela se desprendia: a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Se analisarmos o \u201cmorenismo\u201d com esses crit\u00e9rios, ter\u00edamos que fazer uma dupla interpreta\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, Moreno trouxe contribui\u00e7\u00f5es ao trotskismo, a maioria delas resumidas em seu trabalho\u00a0Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Moreno p\u00f4de acrescentar suas contribui\u00e7\u00f5es ao marxismo porque sempre buscou um equil\u00edbrio entre a a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e o estudo, a reflex\u00e3o e a elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. No entanto, essas contribui\u00e7\u00f5es, sendo muito importantes, n\u00e3o foram qualitativamente distintas das elabora\u00e7\u00f5es de Marx, Engels, Lenin e Trotsky. Nesse sentido, n\u00e3o poder\u00edamos falar da exist\u00eancia de um \u201cmorenismo\u201d como uma s\u00edntese superadora do marxismo. Contudo, se localizarmos Moreno no interior do movimento trotskista, poderemos falar de um \u201cmorenismo\u201d como uma corrente diferenciada, com uma personalidade pr\u00f3pria em quase todos os terrenos. Diferente e, em muitos aspectos, oposta ao restante das correntes que integraram, e integram, o denominado movimento trotskista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O movimento trotskista: v\u00e1rias d\u00e9cadas na marginalidade<\/strong><\/p>\n<p>Quando Trotsky construiu a IV Internacional, estava consciente de que \u201cnadava contra a corrente\u201d. Sua inten\u00e7\u00e3o era a de que a IV fosse a continuidade da III Internacional da \u00e9poca de Lenin. Por\u00e9m, os contextos mundiais em que se constru\u00edram essas duas internacionais foram opostos. A III Internacional foi o subproduto do triunfo da maior revolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria: a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. A IV Internacional foi o subproduto do maior processo contrarrevolucion\u00e1rio: o fascismo, de um lado, e o stalinismo, do outro.<\/p>\n<p>Justamente por isso, a quest\u00e3o de construir ou n\u00e3o a IV Internacional foi t\u00e3o pol\u00eamica entre os revolucion\u00e1rios. Trotsky insistia em constru\u00ed-la e seus cr\u00edticos diziam-lhe que n\u00e3o havia nenhum acontecimento da luta de classes que o justificasse. Trotsky lhes respondia dizendo que havia dois grandes acontecimentos: o stalinismo e o fascismo.<\/p>\n<p>Para Trotsky, se n\u00e3o se constru\u00edsse a IV, o stalinismo e o fascismo acabariam com qualquer tipo de vest\u00edgio de programa e organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Quando, em 1938, Trotsky construiu a IV, n\u00e3o o fez com a esperan\u00e7a de ganhar, nesse momento, as massas para esse programa, mas com o objetivo de poder intervir no pr\u00f3ximo e inevit\u00e1vel ascenso revolucion\u00e1rio com um programa e uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria internacional.<\/p>\n<p>Trotsky sabia perfeitamente que a IV Internacional estava isolada das grandes massas, mas pensava que essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o duraria muito tempo. A Segunda Guerra Mundial, em sua interpreta\u00e7\u00e3o, abriria uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e, da mesma forma como aconteceu com os bolcheviques durante a Primeira Guerra, essa situa\u00e7\u00e3o levaria a IV se transformar em uma internacional de massas.<\/p>\n<p>Trotsky, em certo sentido, acertou. A derrota do fascismo durante a Segunda Guerra Mundial abriu uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria como nunca antes ocorrera. Mas isso n\u00e3o fortaleceu a IV Internacional, e sim o stalinismo, que usurpou as conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro em seu proveito, e foi visto pelas massas como o basti\u00e3o da luta contra o fascismo. Essa realidade condenou a IV Internacional ao isolamento e, mais ainda, \u00e0 marginalidade por v\u00e1rias d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O Movimento Trotskista foi heroico por ter lutado durante muito tempo para manter vivo o programa da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria contra aparatos t\u00e3o poderosos como o fascismo e o stalinismo. Mas, tal como assinalava Marx, \u201ca exist\u00eancia determina a consci\u00eancia\u201d e, no caso do trotskismo, uma exist\u00eancia marginal levou, na maioria dos casos, a processos degenerativos e ao abandono, na pr\u00e1tica, do programa revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nahuel Moreno come\u00e7ou a militar na Argentina, possivelmente em um dos lugares onde o trotskismo era mais marginal. Foi talvez essa realidade o que o levou durante toda a sua vida, apesar das condi\u00e7\u00f5es objetivas adversas, a lutar duramente, de maneira quase desesperada, para encontrar, no marco do programa trotskista, o caminho das massas e romper assim com a marginalidade.<\/p>\n<p>Moreno, de forma quase permanente, procurou explicar as causas e consequ\u00eancias da marginalidade do movimento trotskista do qual fazia parte. N\u00e3o conhecemos outro dirigente trotskista que tenha se preocupado com esse assunto. E isso n\u00e3o \u00e9 casual. Tem a ver com a pr\u00f3pria marginalidade. Como Moreno repetiu tantas vezes: \u201cH\u00e1 setores do movimento trotskista que s\u00e3o t\u00e3o marginais que n\u00e3o sabem que s\u00e3o marginais\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Ao encontro das massas<\/strong><\/p>\n<p>Muitas organiza\u00e7\u00f5es trotskistas se adaptaram \u00e0 marginalidade a tal ponto que, durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, foram constru\u00eddos centenas de pequenos grupos que tiveram, e t\u00eam, como pr\u00e1tica central procurar destruir outro grupo trotskista, na maioria das vezes t\u00e3o pequeno como os primeiros, para ganhar para seu \u201cpartido\u201d um ou dois militantes da outra organiza\u00e7\u00e3o. Para cumprir esse objetivo, normalmente se valem de qualquer expediente, desde manobrar at\u00e9 caluniar. Esse setor do \u201ctrotskismo\u201d, v\u00edtima da marginalidade, renunciou na pr\u00e1tica \u00e0 eterna batalha de Trotsky: encontrar, com um programa revolucion\u00e1rio, o caminho das massas.<\/p>\n<p>Como diz\u00edamos anteriormente, Nahuel Moreno se recusou a se adaptar \u00e0 marginalidade. A obsess\u00e3o de toda sua vida foi encontrar o caminho para as massas e, em especial, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria. Moreno era obcecado por encontrar as palavras de ordem e as t\u00e1ticas que pudessem estabelecer uma ponte entre os trotskistas e as massas. Mas ser\u00edamos injustos com o movimento trotskista se diss\u00e9ssemos que Moreno foi o \u00fanico que buscou esse caminho. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Houve muitas organiza\u00e7\u00f5es e dirigentes trotskistas que tamb\u00e9m buscaram. Mas, o que sim \u00e9 verdade, \u00e9 que Moreno foi um dos poucos que lutou para encontrar o caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s massas no\u00a0marco do programa trotskista.<\/p>\n<p>A nova dire\u00e7\u00e3o da IV Internacional depois da morte de Trotsky (Michel Pablo e Ernest Mandel) n\u00e3o atuou como uma seita marginal diante das massas que, depois da Segunda Guerra Mundial, agruparam-se em torno dos partidos comunistas. Pelo contr\u00e1rio, tentaram romper com a marginalidade, mas fizeram isso com uma orienta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao programa trotskista. Convocaram os trotskistas a entrar nos partidos comunistas para atuar, na pr\u00e1tica, como conselheiros das dire\u00e7\u00f5es stalinistas. A tal ponto foi assim que, em 1953, quando os oper\u00e1rios da Alemanha Oriental se levantaram contra o governo da burocracia, a dire\u00e7\u00e3o de Pablo e Mandel, num primeiro momento, colocou-se do lado do governo contra as massas.<\/p>\n<p>No caso da Revolu\u00e7\u00e3o Boliviana de 1952, o trotskismo tampouco foi marginal. Pelo contr\u00e1rio. No processo revolucion\u00e1rio, o Partido Oper\u00e1rio Revolucion\u00e1rio (POR), a se\u00e7\u00e3o da IV Internacional, ganhou influ\u00eancia de massas. Mais ainda, ocupou um papel de destaque \u00e0 frente das mil\u00edcias armadas que agrupavam mais de 100 mil oper\u00e1rios e camponeses. Mas a dire\u00e7\u00e3o da IV Internacional, Pablo e Mandel, novamente procurou ir ao encontro das massas por fora do programa trotskista. Sua orienta\u00e7\u00e3o foi dar apoio cr\u00edtico ao governo burgu\u00eas do MNR. Foi a primeira trai\u00e7\u00e3o do trotskismo a uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, o jovem Moreno teve uma posi\u00e7\u00e3o oposta. Ele tamb\u00e9m buscou o caminho das massas, mas n\u00e3o a ponto de capitular \u00e0 consci\u00eancia atrasada delas, que apoiavam o governo burgu\u00eas do MNR. Moreno orientou a n\u00e3o ter nenhuma confian\u00e7a no governo do MNR e afirmou que o poder deveria ser tomado pelo organismo que as massas tinham constru\u00eddo durante a revolu\u00e7\u00e3o, a Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB). Prop\u00f4s, de forma coerente com o programa trotskista:\u00a0Todo o poder \u00e0 COB!<\/p>\n<p>Na Nicar\u00e1gua, no final da d\u00e9cada de 70, as massas se insurgiram contra a ditadura de Somoza. \u00c0 sua frente se colocou a FSLN (Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional). A Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique, dirigida por Moreno, lan\u00e7ou como consigna:\u00a0Vit\u00f3ria \u00e0 FSLN!\u00a0Diante desse mesmo fato, o SWP dos EUA atuou como uma seita marginal. Dizia, com raz\u00e3o, que a FSLN era uma dire\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa, mas n\u00e3o teve pol\u00edtica nenhuma ou, melhor dizendo, sua pol\u00edtica se limitou a agitar essa caracteriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Moreno, pelo contr\u00e1rio, al\u00e9m de defender a palavra de ordem\u00a0Vit\u00f3ria \u00e0 FSLN!,\u00a0convocou a forma\u00e7\u00e3o de uma Brigada Internacional (a Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar) para intervir, junto com os sandinistas, na luta armada contra Somoza. A Brigada se formou, entrou na Nicar\u00e1gua, e participou dos combates que levaram \u00e0 queda da ditadura de Somoza.<\/p>\n<p>O prest\u00edgio que a Brigada adquiriu na Nicar\u00e1gua foi muito grande, e foi usado, por orienta\u00e7\u00e3o de Moreno, para organizar depois da vit\u00f3ria v\u00e1rias dezenas de sindicatos oper\u00e1rios. Essa pol\u00edtica levou a um enfrentamento com a dire\u00e7\u00e3o sandinista, que acabou expulsando a Brigada da Nicar\u00e1gua e entregando-a \u00e0 pol\u00edcia do Panam\u00e1, que prendeu e torturou os brigadistas.<\/p>\n<p>O SWP dos EUA, que havia atuado como uma seita marginal, procurou ir ao encontro das massas, mas o fez de forma desastrosa. Parou de agitar a caracteriza\u00e7\u00e3o de que a FSLN era uma dire\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa e passou a apoiar essa dire\u00e7\u00e3o, no mesmo momento em que essa dire\u00e7\u00e3o, que havia desempenhado um papel muito progressivo na luta contra Somoza, passava a desempenhar um papel regressivo ao reorganizar o Estado burgu\u00eas. Mas o SWP n\u00e3o se limitou a isso. Quando os sandinistas expulsaram a Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar, a dire\u00e7\u00e3o do SWP, em conjunto com o resto da dire\u00e7\u00e3o do Secretariado Unificado da IV Internacional, formou uma delega\u00e7\u00e3o que se encontrou com a dire\u00e7\u00e3o sandinista para lhe dar seu apoio e para denunciar os trotskistas da Brigada como ultraesquerdistas. Foi uma nova trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mesma hist\u00f3ria, embora com outros personagens, repetiu-se no Brasil. Tamb\u00e9m no fim da d\u00e9cada de 70, Moreno prop\u00f4s, como forma de ir ao encontro das massas, chamar a classe oper\u00e1ria e os dirigentes sindicais a construir um Partido dos Trabalhadores. Essa proposta foi tomada pelos dirigentes sindicais e pelos trabalhadores e assim o PT foi constru\u00eddo. Outra corrente trotskista, o lambertismo, em um primeiro momento respondeu a essa proposta como uma seita marginal. Denunciou, com raz\u00e3o, que \u00e0 frente do projeto do PT estava um setor da burocracia e que o PT n\u00e3o seria um partido revolucion\u00e1rio, mas foram incapazes de ver, nesse momento, que esse partido oper\u00e1rio de massas abriria um campo importante para o trabalho dos revolucion\u00e1rios. Por essa raz\u00e3o, a pol\u00edtica do lambertismo se limitava a denunciar Lula e sua corrente e a chamar a constru\u00e7\u00e3o de sindicatos livres, sem a burocracia, que eram, na pr\u00e1tica, sindicatos dos militantes e simpatizantes lambertistas. Mas essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o durou muito tempo. Quando o lambertismo \u201cdescobriu\u201d o PT, acreditou ter tocado o \u201cc\u00e9u com as m\u00e3os\u201d e passou ao outro extremo. Confundiram um fato enormemente progressivo: milhares e milhares de oper\u00e1rios, camponeses e jovens construindo um partido oper\u00e1rio, independente da burguesia, com algo sumamente regressivo: uma dire\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, a de Lula e sua corrente, querendo construir um partido independente para colaborar com a burguesia. A partir da\u00ed, lan\u00e7aram-se, corretamente, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do PT, mas capitulando, aqui e ali, \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do PT. Os resultados est\u00e3o \u00e0 vista. Passados mais de 20 anos, o lambertismo continua fazendo parte do PT, enquanto este partido, no governo, n\u00e3o faz outra coisa a n\u00e3o ser administrar os neg\u00f3cios da burguesia. Por outro lado, 80% de seus militantes e dirigentes abandonaram suas fileiras para integrar o aparato controlado por Lula, a tal ponto que uma boa parte dos ministros e funcion\u00e1rios de confian\u00e7a do governo Lula prov\u00e9m da corrente lambertista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O trotskismo oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Mostramos anteriormente como a maioria do trotskismo, em seu af\u00e3 de romper com a marginalidade, procurou encontrar o caminho das massas rompendo com o programa trotskista. A marginalidade do trotskismo e o tremendo peso dos aparatos, em especial das novas dire\u00e7\u00f5es (titoismo, maoismo, castrismo, PT\u2026), provocaram essa situa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m mostramos como Nahuel Moreno, em toda sua trajet\u00f3ria militante, diferenciou-se da maioria do movimento trotskista. No entanto, n\u00e3o \u00e9 nosso interesse canonizar Moreno. Se atu\u00e1ssemos assim, estar\u00edamos sendo antimorenistas.<\/p>\n<p>Moreno tamb\u00e9m sofreu na pr\u00f3pria carne a marginalidade do trotskismo e n\u00e3o foi imune \u00e0 press\u00e3o das novas dire\u00e7\u00f5es. Assim, por exemplo, n\u00e3o p\u00f4de escapar da influ\u00eancia da dire\u00e7\u00e3o cubana. Uma dire\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa, sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a classe oper\u00e1ria, contr\u00e1ria \u00e0 democracia oper\u00e1ria, que se p\u00f4s \u00e0 frente de uma revolu\u00e7\u00e3o e por isso provocou uma onda de simpatia na vanguarda e nas massas de todo o continente e do mundo.<\/p>\n<p>Moreno chegou a identificar Fidel Castro e Che Guevara como a sua dire\u00e7\u00e3o e a considerar que por fora do castrismo n\u00e3o existia \u201c\u2026 outra corrente revolucion\u00e1ria na Am\u00e9rica\u201d. Entretanto, diferente da maioria das outras correntes do movimento trotskista, Moreno n\u00e3o levou essas ideias at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias. Pelo contr\u00e1rio, \u00e0 medida que os fatos demonstravam a realidade, Moreno foi desnudando e denunciando o car\u00e1ter burocr\u00e1tico e pequeno-burgu\u00eas da dire\u00e7\u00e3o castrista e o crescente car\u00e1ter contrarrevolucion\u00e1rio de sua pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Por que Moreno, apesar de suas opini\u00f5es iniciais, n\u00e3o se transformou, como a maioria das correntes trotskistas, em um porta-voz do castrismo? Como p\u00f4de reorientar sua posi\u00e7\u00e3o e a posi\u00e7\u00e3o da corrente que dirigia? Porque, apesar de suas d\u00favidas e confus\u00f5es moment\u00e2neas, sempre se manteve fiel \u00e0 classe oper\u00e1ria, a seus interesses e suas lutas.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de Nahuel Moreno com a classe oper\u00e1ria surgiu em seus primeiros anos de milit\u00e2ncia. Ele foi ganho para o trotskismo argentino em 1939 (quando Trotsky ainda estava vivo). O trotskismo argentino n\u00e3o era apenas marginal. Era pior que isso. Como Moreno bem assinalava, o trotskismo argentino daquela \u00e9poca \u201cera uma festa\u201d. Ser trotskista significava participar de reuni\u00f5es intermin\u00e1veis, de intelectuais pequeno-burgueses, que se reuniam em distintos bares de Buenos Aires para debater sobre os mais diversos temas pol\u00edticos. Por isso, n\u00e3o deixa de ser curioso que Moreno tenha sido ganho para o trotskismo por um dos poucos oper\u00e1rios que existiam nesse movimento: um trabalhador mar\u00edtimo chamado Faraldo.<\/p>\n<p>Foi justamente esse oper\u00e1rio mar\u00edtimo quem o colocou em contato pela primeira vez, em 1941, com os oper\u00e1rios da f\u00e1brica t\u00eaxtil Alpargatas, uma das mais importantes do pa\u00eds. Foi nessa f\u00e1brica que Moreno conheceu um dirigente oper\u00e1rio boliviano chamado Fidel Ortiz Saavedra, por quem sentia grande admira\u00e7\u00e3o. Fidel era semianalfabeto, mas tinha um alto n\u00edvel pol\u00edtico e era um grande orador.<\/p>\n<p>Fidel Ortiz Saavedra ajudou Moreno a ganhar para o trotskismo um grupo de jovens oper\u00e1rios com os quais, no ano de 1943, formou o GOM (Grupo Oper\u00e1rio Marxista).<\/p>\n<p>Foi essa rela\u00e7\u00e3o com Faraldo, com os oper\u00e1rios da f\u00e1brica Alpargatas, com Fidel Ortiz Saavedra, com o dirigente dos oper\u00e1rios da ind\u00fastria da madeira Mateo Fossa (que se encontrou com Trotsky), com os jovens oper\u00e1rios do GOM, que fizeram Moreno chegar a uma conclus\u00e3o fundamental: n\u00e3o h\u00e1 trotskismo fora da classe oper\u00e1ria. De tal forma que no primeiro documento pol\u00edtico que Moreno escreveu (em 1943), intitulado\u00a0O Partido, assinala: \u201c[A necessidade] mais urgente, mais imediata, hoje como ontem, \u00e9: aproximar-nos da vanguarda prolet\u00e1ria, sempre que isso se apresente como uma tarefa poss\u00edvel, e recha\u00e7ar como oportunista toda inten\u00e7\u00e3o de nos desviar dessa linha\u201d. Consequente com essa conclus\u00e3o, em 1945 a maioria dos militantes do GOM, com Moreno \u00e0 cabe\u00e7a, rompeu definitivamente com o trotskismo dos bares de Buenos Aires. Foram morar na\u00a0Villa Pobladora, que era a principal concentra\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria do pa\u00eds e que se transformaria em uma \u201cfortaleza trotskista\u201d.<\/p>\n<p>Essa orienta\u00e7\u00e3o de Moreno em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria, que manteve at\u00e9 sua morte, diferenciou-o profundamente n\u00e3o de todos, mas da maioria dos outros dirigentes trotskistas.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito dessa rela\u00e7\u00e3o com a classe oper\u00e1ria, Moreno afirmou em um de seus \u00faltimos trabalhos: \u201cAo longo de minha vida pol\u00edtica, depois, por exemplo, de\u00a0observar com simpatia o regime que surgiu da revolu\u00e7\u00e3o Cubana, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que \u00e9 necess\u00e1rio continuar com a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria de classe, ainda que atrase a tomada do poder em vinte ou trinta anos ou quanto tempo seja necess\u00e1rio. N\u00f3s queremos que a classe oper\u00e1ria chegue verdadeiramente ao poder, por isso queremos dirigi-la.\u201d<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Moreno e a Internacional<\/strong><\/p>\n<p>Trotsky deu tanta import\u00e2ncia \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Internacional que o genial dirigente da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, construtor e dirigente do vitorioso Ex\u00e9rcito Vermelho, considerava que sua contribui\u00e7\u00e3o mais importante \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o havia sido a constru\u00e7\u00e3o da pequena e fr\u00e1gil IV Internacional. Trotsky mantinha essa opini\u00e3o por uma simples raz\u00e3o. Porque, quando encabe\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o da IV, n\u00e3o havia outra pessoa que pudesse empreender essa tarefa e porque considerava que era imposs\u00edvel construir um partido revolucion\u00e1rio, em n\u00edvel nacional, se n\u00e3o fosse como parte de uma internacional. Entretanto, apesar dos esfor\u00e7os de Trotsky, hoje a IV Internacional est\u00e1 destru\u00edda e isso merece algumas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sempre houve muitas organiza\u00e7\u00f5es trotskistas, em n\u00edvel nacional, que acreditavam que ser internacionalista \u00e9 simplesmente apoiar as lutas que ocorrem em outros pa\u00edses, mesmo n\u00e3o fazendo parte de uma organiza\u00e7\u00e3o internacional. Tamb\u00e9m sempre houve, e h\u00e1, importantes organiza\u00e7\u00f5es nacionais que se autodefinem como trotskistas, mas que consideram que n\u00e3o est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de um partido mundial. H\u00e1 outros grupos trotskistas que est\u00e3o a favor da constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio em n\u00edvel internacional, mas que entendem essa \u201cinternacional\u201d como uma soma de partidos nacionais subordinados a um partido nacional maior, que seria uma esp\u00e9cie de \u201cpartido m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, na hist\u00f3ria do movimento trotskista existiu uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es e de dirigentes que, estando a favor, teoricamente, da constru\u00e7\u00e3o da Internacional, tiveram uma atitude irrespons\u00e1vel diante da mesma. N\u00e3o dedicaram o grosso de seus esfor\u00e7os \u00e0 sua constru\u00e7\u00e3o e inclusive n\u00e3o tiveram maiores problemas em romper com ela em fun\u00e7\u00e3o de uma diferen\u00e7a nacional ou circunstancial.<\/p>\n<p>Todas essas organiza\u00e7\u00f5es, que constituem a ampla maioria do movimento trotskista, nunca compreenderam, ou n\u00e3o estiveram de acordo, com algo que foi o centro do pensamento de Trotsky e dos bolcheviques: que a revolu\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter mundial, que por isso \u00e9 necess\u00e1rio um partido mundial e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir um partido revolucion\u00e1rio em n\u00edvel nacional se ele n\u00e3o faz parte de uma Internacional. Nesse sentido, o trabalho internacionalista de Nahuel Moreno aparece como uma das poucas exce\u00e7\u00f5es no interior do movimento trotskista.<\/p>\n<p>A primeira organiza\u00e7\u00e3o criada por Moreno, o GOM da Argentina, de 1943 at\u00e9 1948, tinha uma pr\u00e1tica \u201cinternacionalista\u201d similar \u00e0 que teve e tem uma boa parte do movimento trotskista. O GOM apoiava as lutas dos trabalhadores de todo o mundo e, mais ainda, reivindicava a IV Internacional, mas n\u00e3o estava comprometido com sua constru\u00e7\u00e3o. Essa realidade mudou a partir de 1948, quando Moreno participou como delegado do II Congresso da IV Internacional.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o objetivo central de Moreno n\u00e3o foi construir um partido, ou v\u00e1rios partidos nacionais, mas sim uma internacional que os agrupasse. \u00c9 interessante observar que Moreno, por levar adiante uma luta consequente em defesa do programa trotskista, sempre teve muitas dificuldades em sua atua\u00e7\u00e3o no interior da IV Internacional. No entanto, as diferen\u00e7as, os enfrentamentos, e mesmo as tremendas injusti\u00e7as, nunca o levaram a ter uma atitude irrespons\u00e1vel e muito menos autoproclamat\u00f3ria de romper formando sua pr\u00f3pria internacional como lamentavelmente muitos dirigentes fizeram.<\/p>\n<p>Moreno n\u00e3o defendeu a ruptura com a Internacional quando, em 1951, o III Congresso Mundial reconheceu como se\u00e7\u00e3o oficial na Argentina o grupo dirigido por J. Posadas, um dirigente que, al\u00e9m de capitular abertamente ao peronismo e ao stalinismo, desprestigiou toda a IV Internacional com suas pol\u00edticas delirantes, como o chamado a que a URSS lan\u00e7asse a bomba at\u00f4mica contra os EUA ou sobre a necessidade de formar comit\u00eas de recep\u00e7\u00e3o para os OVNIS.<\/p>\n<p>Quando a Internacional se dividiu, em 1953, e se formou o Comit\u00ea Internacional, encabe\u00e7ado pelo SWP dos EUA, que agrupava os setores que se opunham \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o de Pablo ao stalinismo, Moreno n\u00e3o prop\u00f4s romper com esse Comit\u00ea, apesar de que este, em dez anos, n\u00e3o convocou um \u00fanico congresso mundial.<\/p>\n<p>Quando, em 1963, a Internacional se reunificou e Moreno se op\u00f4s \u00e0 reunifica\u00e7\u00e3o devido \u00e0 falta de qualquer balan\u00e7o, um ano depois defendeu a ades\u00e3o, para n\u00e3o ficar fora desse marco internacional.<\/p>\n<p>Finalmente, em 1969, quando o IX Congresso da Internacional votou que a se\u00e7\u00e3o oficial da Argentina era o PRT (O Combatente), uma organiza\u00e7\u00e3o que estava rompendo com o trotskismo (coisa que se concretizou pouco tempo depois), Moreno n\u00e3o prop\u00f4s a ruptura com a IV Internacional. Pelo contr\u00e1rio, foi um defensor intransigente da Internacional, lutando em seu interior para dot\u00e1-la de um programa revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Moreno s\u00f3 defendeu a ruptura com o SU em 1979, isto \u00e9, depois de quase 30 anos de luta contra as v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es pablistas e neopablistas. S\u00f3 defendeu a ruptura quando a luta de classes nos colocou em trincheiras opostas. A dire\u00e7\u00e3o do SU se solidarizou com a dire\u00e7\u00e3o da FSLN da Nicar\u00e1gua quando esta reprimiu a Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar, ao mesmo tempo que proibia a constru\u00e7\u00e3o de partidos trotskistas na Nicar\u00e1gua e em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Central.<\/p>\n<p>Mas Moreno n\u00e3o rompeu com o SU para abandonar a luta pela IV Internacional, nem para autoproclamar uma nova Quarta. Quando rompeu, aproximou-se de outras correntes internacionais (o lambertismo e uma corrente do SU) com as quais encarou a tarefa de construir o Comit\u00ea Internacional \u2013 Quarta Internacional (CI-QI), que tinha como principal objetivo reconstruir a IV, e foi apenas quando essa experi\u00eancia fracassou (a partir da capitula\u00e7\u00e3o de Lambert \u00e0 Frente Popular na Fran\u00e7a) que Moreno chamou a constru\u00e7\u00e3o da LIT-QI a partir de sua pr\u00f3pria corrente.<\/p>\n<p>Moreno ficou \u00e0 frente da LIT e pouco tempo depois ficou tamb\u00e9m \u00e0 frente do MAS (a se\u00e7\u00e3o argentina da LIT). Os resultados dessa atividade foram impressionantes. Quando Moreno morreu, a LIT se convertera, de longe, na corrente mais din\u00e2mica do trotskismo em n\u00edvel internacional e o MAS era o maior partido da esquerda argentina e o maior partido trotskista do mundo.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria do movimento trotskista, em v\u00e1rias oportunidades, tamb\u00e9m se deram saltos importantes em n\u00edvel de uma determinada se\u00e7\u00e3o ou de uma corrente internacional. Como esses saltos se davam no marco da marginalidade, na maioria dos casos, ajudaram a confundir os dirigentes que estavam \u00e0 frente deles e, dessa forma, esses avan\u00e7os alimentaram projetos de \u201cpartidos m\u00e3e\u201d, ao mesmo tempo que v\u00e1rias IV Internacionais foram autoproclamadas. Moreno fez exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Moreno, estando \u00e0 frente da corrente mais din\u00e2mica do trotskismo, n\u00e3o autoproclamou a LIT como a IV Internacional reconstru\u00edda. N\u00e3o foi por casualidade que a \u00faltima tarefa internacional que levou adiante antes de morrer foi viajar \u00e0 Inglaterra para tentar construir uma organiza\u00e7\u00e3o em comum com os dirigentes do\u00a0Workers Revolutionary Party\u00a0desse pa\u00eds. Moreno atuava assim porque n\u00e3o via a LIT como um objetivo em si mesmo, mas como um instrumento a servi\u00e7o da reconstru\u00e7\u00e3o da IV Internacional.<\/p>\n<p>Por outro lado, Moreno, que se apoiou muito no MAS argentino para construir a LIT, nunca considerou essa organiza\u00e7\u00e3o como um \u201cpartido m\u00e3e\u201d. Pelo contr\u00e1rio. Para Moreno, o MAS era s\u00f3 uma parte de uma organiza\u00e7\u00e3o internacional, que era a LIT-QI, e insistia sempre que a mais poderosa e provada dire\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 inferior a mais d\u00e9bil das dire\u00e7\u00f5es internacionais. Essa concep\u00e7\u00e3o est\u00e1 concretizada mesmo nos estatutos da LIT-QI, que n\u00e3o permitem que um partido nacional, por maior que seja, tenha mais de tr\u00eas membros na dire\u00e7\u00e3o internacional, da mesma forma que n\u00e3o permitem que as duas maiores se\u00e7\u00f5es juntas possam ter mais da metade dessa mesma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas foram as \u00faltimas li\u00e7\u00f5es que Moreno nos deixou e elas contrastam notavelmente com aquelas deixadas pela maioria dos dirigentes de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Existe, legitimamente, uma corrente morenista<\/strong><\/p>\n<p>Por tudo o que se disse anteriormente, estaremos fazendo justi\u00e7a se dissermos que Moreno construiu uma corrente com um perfil pr\u00f3prio, denominada\u00a0morenismo, que n\u00e3o \u00e9 diferente do movimento trotskista da \u00e9poca de Trotsky, mas que foi, e \u00e9, muito diferente da maioria do movimento trotskista surgido depois da morte de Trotsky. Isso \u00e9 assim em quase todos os terrenos. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria, ao programa, \u00e0s massas, \u00e0 classe oper\u00e1ria, \u00e0 Internacional\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios dirigentes que se reivindicam trotskistas que procuram mostrar a fal\u00eancia de Moreno e do Morenismo. Entre eles se destacam notavelmente o PO (Partido Oper\u00e1rio) e o PTS, ambos da Argentina.<\/p>\n<p>Essas organiza\u00e7\u00f5es utilizam um m\u00e9todo curioso, mas certamente nada original. A destrui\u00e7\u00e3o do MAS, depois da morte de Moreno, seria a prova mais evidente da fal\u00eancia de Moreno e do morenismo. Se esse tipo de racioc\u00ednio fosse v\u00e1lido, a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo no Leste europeu seria uma prova categ\u00f3rica da fal\u00eancia do marxismo, da mesma maneira que a degenera\u00e7\u00e3o stalinista da ex-URSS, do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da III Internacional seriam uma prova da fal\u00eancia do bolchevismo.<\/p>\n<p>Mas essas correntes cometem um erro a mais. Analisam a trajet\u00f3ria de um dirigente internacional e levam em considera\u00e7\u00e3o apenas sua atividade nacional, sem levar em conta o que era para Moreno sua atividade central: a constru\u00e7\u00e3o da Internacional. Por isso analisam a destrui\u00e7\u00e3o do MAS e n\u00e3o se referem \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da LIT-QI.<\/p>\n<p>A LIT, da mesma forma que o MAS, passou por uma importante crise e para isso contribu\u00edram fatores subjetivos e objetivos: a morte do pr\u00f3prio Moreno e as confus\u00f5es criadas a partir dos processos do Leste europeu. Mas, desde alguns anos, a LIT n\u00e3o s\u00f3 deu um salto qualitativo na supera\u00e7\u00e3o de sua crise como hoje em dia \u00e9 uma refer\u00eancia para um n\u00famero importante de organiza\u00e7\u00f5es, dos mais variados pa\u00edses, que veem a necessidade de construir uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, centralizada democraticamente, em n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p>Evidentemente, a atual dire\u00e7\u00e3o da LIT tem seu m\u00e9rito nessas conquistas, mas, na realidade, nosso verdadeiro m\u00e9rito foi ter seguido tr\u00eas conselhos b\u00e1sicos de Moreno para superar a crise das organiza\u00e7\u00f5es trotskistas: tornar-nos mais marxistas do que nunca, ligar-nos cada vez mais \u00e0 classe oper\u00e1ria e ser mais internacionalistas do que nunca.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, nos \u00faltimos anos, avan\u00e7amos na tarefa de construir a LIT, mas n\u00e3o podemos ser conformistas. Porque nem para Moreno, nem para n\u00f3s, a constru\u00e7\u00e3o da LIT foi um objetivo em si mesmo. Constru\u00edmos a LIT com o objetivo de reconstruir a IV Internacional.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o momento hist\u00f3rico para encarar essa tarefa. Porque as massas est\u00e3o se sublevando e porque as revolu\u00e7\u00f5es do Leste europeu feriram o stalinismo mortalmente. N\u00e3o h\u00e1, portanto, mais raz\u00f5es objetivas para novas e longas d\u00e9cadas de marginalidade.<\/p>\n<p>Reconstruir a IV Internacional \u00e9 nosso objetivo estrat\u00e9gico. Se no pr\u00f3ximo per\u00edodo avan\u00e7armos nessa tarefa, estaremos fazendo honra ao t\u00edtulo de morenistas, com o qual s\u00f3 queremos dizer que somos trotskistas (de Trotsky). Essa ser\u00e1 nossa melhor homenagem, pr\u00e1tica, n\u00e3o s\u00f3 a Moreno, mas a todos os revolucion\u00e1rios que deram o melhor de suas vidas para que a Internacional fosse constru\u00edda.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><strong>Mart\u00edn Hern\u00e1ndez &#8211; LIT-QI<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado na revista Marxismo Vivo Especial (2007) com o t\u00edtulo: Nahuel Moreno. H\u00e1 20 anos de sua morte, algumas reflex\u00f5es sobre o \u201cmorenismo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2291,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[97],"tags":[116,1041,188,114,1043,1038,115,1037,1039,117,1045],"class_list":["post-2292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-30-anos-sem-moreno","tag-alternativa","tag-anos","tag-lit","tag-mas","tag-morenismo","tag-moreno","tag-movimento","tag-nahuel","tag-qi","tag-socialista","tag-trotskismo"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/morenismobrasil.jpg?fit=500%2C281","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2292\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2291"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}