{"id":2290,"date":"2017-02-21T00:25:33","date_gmt":"2017-02-20T23:25:33","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/21\/in-memoriam\/"},"modified":"2017-02-21T00:25:33","modified_gmt":"2017-02-20T23:25:33","slug":"in-memoriam","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/21\/in-memoriam\/","title":{"rendered":"In Memoriam"},"content":{"rendered":"<p>Num 25 de Janeiro, h\u00e1 30 anos, desapareceu fisicamente &#8220;Nahuel Moreno&#8221;, &#8220;Capa&#8221;, Hugo&#8230; mestre, camarada, refer\u00eancia inevit\u00e1vel at\u00e9 nas diverg\u00eancias.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>H\u00e1 poucos meses, uma camarada da LIT-QI pediu-me uma evoca\u00e7\u00e3o para ser publicada, junto com outras, numa reedi\u00e7\u00e3o do livro Conversas com Nahuel Moreno. Quero partilhar o que escrevi na altura.<\/p>\n<p>Corria o ano de 1966. A ditadura de Ongan\u00eda interveio nas Universidades apesar da frontal resist\u00eancia de estudantes e docentes. Os dirigentes das equipas estudantis do PRT fomos convocados para discutir com a direc\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria a orienta\u00e7\u00e3o da frente. A reuni\u00e3o fez-se num local clandestino nas imedia\u00e7\u00f5es da Plaza Once. Lembro-me vivamente que ao entrar dev\u00edamo comprometer-nos a guardar segredo e preservar a seguran\u00e7a do s\u00edtio. O juramento presidia-o o inesquec\u00edvel C\u00e9sar Robles. Nesse ambiente t\u00e3o solene, conheci pessoalmente Nahuel Moreno\u2026<\/p>\n<p>A primeira impress\u00e3o foi profunda e duradoura. Nahuel Moreno escutava com interesse e aten\u00e7\u00e3o cada uma das opini\u00f5es, incluindo as de um ilustre desconhecido como eu, acabado de chegar do servi\u00e7o militar. Na frente universit\u00e1ria surgiram discrep\u00e2ncias e cada um exp\u00f4s as suas opini\u00f5es. Escutou todos, fez algumas perguntas e em vez de passar linha, deu-nos uma li\u00e7\u00e3o de m\u00e9todo. A sua interven\u00e7\u00e3o reafirmou os acertos de cada posi\u00e7\u00e3o, exp\u00f4s as ambiguidades e\/ou contradi\u00e7\u00f5es que existiam e aconselhou-nos a elaborar em conjunto um novo texto. Deu orienta\u00e7\u00e3o para come\u00e7ar pelas quest\u00f5es mais gerais e de fundo: a caracteriza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o nacional e da Am\u00e9rica Latina; a articula\u00e7\u00e3o das lutas parciais na perspectiva centralizadora de dar a volta \u00e0 ditadura e lutar por um governo Oper\u00e1rio e Popular. Explicou que s\u00f3 com uma clara perspectiva estrat\u00e9gica poder\u00edamos superar as diverg\u00eancias t\u00e1cticas e elaborar uma pol\u00edtica correcta para a Universidade. Hugo tinha essa grande capacidade para dar orienta\u00e7\u00f5es fundamentadas teoricamente, expostas de forma pedag\u00f3gica. Utilizava exemplos que \u201dbaixavam \u00e0 terra\u201d quest\u00f5es complexas, rematando com sa\u00eddas humor\u00edsticas. Isto representou uma li\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, j\u00e1 que o compromisso revolucion\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 envolto em humor, e Moreno ensinou-nos que deviamos rir-nos, inclusiv\u00e9 de n\u00f3s pr\u00f3prios!.<\/p>\n<p>Seguindo o seu conselho, escrevemos um novo documento com foco nas grandes tarefas da etapa, superando as diverg\u00eancias na frente universit\u00e1ria, e em pouco tempo est\u00e1vamos mais unidos que nunca. Isto foi muito \u00fatil para nos virarmos, de seguida, \u00a0para a solidariedade com a grande greve dos portu\u00e1rios e da Intervillas, a organiza\u00e7\u00e3o de luta com base territorial que o PRT contrinuiu para organizar e dirigir.<\/p>\n<p>Durante mais de 20 anos reconheci Hugo como meu dirigente e mestre. Apesar da proximidade e da confian\u00e7a que com o tempo se gerar\u00e3o, sempre o tratei por voc\u00ea e ele tamb\u00e9m n\u00e3o me tratava por tu. Possivelmente retribuia o zelo para colocar-se num plano de igualdade. Creio que chegou a gostar bastante de mim e eu tamb\u00e9m gostava muito dele. Aprendi com ele a reconhecer o potencial revolucion\u00e1rio dos trabalhadores e a paix\u00e3o por ajudar o desenvolvimento de quadros oper\u00e1rios. Entendi que a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma forma de chegar \u00e0s institui\u00e7\u00f5es burguesas, mas sim um compromisso de vida, full.tima, para o desenvolvimento da luta de classes e da batalha pelo socialismo.<\/p>\n<p>Desde esta experi\u00eancia vital digo que o Hugo n\u00e3o s\u00f3 era um dirigente respeitado, mas tamb\u00e9m querido. <strong>Os trabalhadores e a base do partido, em especial, adoravam-no. Incutiu-nos a alegria de desafiar a ordem burguesa fazendo pol\u00edtica revolucion\u00e1ria, com e desde a classe trabalhadora, evitando tanto o seguidismo populista como o vanguardismo substituista. E formou-nos profundamente internacionalistas.<\/strong><\/p>\n<p>Por outro lado, o regime interno da organiza\u00e7\u00e3o contentrava o poder de decis\u00e3o na direc\u00e7\u00e3o, e especialmente no Hugo, ap\u00f3s se terem ouvido as diferentes opini\u00f5es. A estrutura de quadros construia-se assim, na pr\u00e1tica, de cima para baixo. Moreno corrigia parcialmente esse \u201cverticalismo\u201d com oma incompar\u00e1vel capacidade para interpretar o estado de \u00e2nimo dos militantes, tendo em conta as suas inqueta\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias. Desta forma tamb\u00e9m se ajustavam ou mudavam as orienta\u00e7\u00f5es ou t\u00e1cticas pol\u00edticas. Mas era, sim, inflex\u00edvel na defesa do \u201ccentralismo\u201d e em diversas ocasi\u00f5es respondeu com demasiada dureza a quem discordava, especialmente se se tratava de camaradas da direc\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia entusiasmar os quadros e incentivar o seu desenvolvimento e inicitaiva como ele. Pessoalmente tamb\u00e9m senti esse est\u00edmulo nas diversas tarefas internacionais que me tocou assumir: Venezuela, Portugal ou Espanha. Tamb\u00e9m quando acompanhei Mario Doglio em representa\u00e7\u00e3o do Partido Socialista dos Trabalhadores nas reuni\u00f5es do Secretariado Unificado da Quarta Internacional, ou integrando o Bureau Pol\u00edtico instalado em Paris durante a breve unifica\u00e7\u00e3o com os lambertistas. E quando voltei ao nosso pa\u00eds, em plena ditadura, em 1978 (para reintegrar a direc\u00e7\u00e3o do PST) fi-lo com a convic\u00e7\u00e3o e a segura\u00e7a que nos dava ser parte de uma equipa conduzida \u2013 apesar da dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica \u2013 pelo Hugo.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes parece que foi apenas ontem, mas o certo \u00e9 que passaram 30 anos desde a sua morte. Nos anos que passaram muitas coisas mudaram. Assim as organiza\u00e7\u00f5es em que Moreno investiu na constru\u00e7\u00e3o (tanto o MAS como a LIT-QI), sofreram fortes crises e divis\u00f5es. Na realidade, o ruma da luta de classes tinha iniciado a sofrer mudan\u00e7as substanciais ainda em vida de Moreno, sem que as tiv\u00e9ssemos notado nem modificado progn\u00f3sticos e\/ou pol\u00edticas. \u00c9 inevit\u00e1vel, ent\u00e3o, que as velhas emo\u00e7\u00f5es e exeri\u00eancias que aparecem hoje misturadas com a convic\u00e7\u00e3o, t\u00e3o genu\u00edna como a anterior, de que mesmo com Moreno cometemos v\u00e1rios erros. Mencionarei apenas tr\u00eas: a errada caracteriza\u00e7\u00e3o que viv\u00edamos a etapa de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o mundial eminente e generalizada\u201d; o acreditar que tinha chegado \u201ca hora do trotskismo\u201d pelo que as nossas organiza\u00e7\u00f5es ganhariam rapidamente influ\u00eancia de massas; e por \u00faltimo e n\u00e3o menos importante, t\u00ednhamos um regime interno hiper-centralizado, com muito pouca flexibilidade para assumir ou debater diferen\u00e7as, a par da disciplina interna mais pr\u00f3pria de uma seita que de um grande partido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, entendo que a imensa personalidade de Moreno merece ser recordada com as suas contradi\u00e7\u00f5es, luzes e sombras: a de \u201cum trotskismo b\u00e1rbaro\u201d, segundo disse, for\u00e7ado a aprender com os seus pr\u00f3prios e numerosos erros. Por exemplo, o passo fundamental do Grupo Oper\u00e1rio Marxista foi inserir-se no movimento oper\u00e1rio, mas fez-se ignorando o Partido Trabalhista e sem compreender o que representava o peronismo, o que n\u00e3o permitiu o crescimento a n\u00e3o ser aos trope\u00e7\u00f5es. Outro exemplo: foi um enorme acerto lutar contra a Revolu\u00e7\u00e3o Libertadora, participar n&#8217;A Resist\u00eancia e entrar com a Palavra Oper\u00e1ria nas 62 Organiza\u00e7\u00f5es para organizar o Peronismo Oper\u00e1rio Revolucion\u00e1rio, enfrentando as capitula\u00e7\u00f5es da burocracia e do pr\u00f3prio Per\u00f3n. Mas diversos erros, como desvios sindicalistas, despolitiza\u00e7\u00e3o e sectarismo, que se somavam ao isolamento internacional, fizeram com que aquela colossal experi\u00eancia de massas culminasse numa crise interna bastante s\u00e9ria. T\u00e3o grave, que inicialmente n\u00e3o se reconheceu o car\u00e1cter e alcance da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, erro posteriormente corrigido com um heterodoxo e audaz documento escrito por Moreno, intitulado A Revolu\u00e7\u00e3o Latinoamericana (1962), em que assume o desafio de pensar novos em novos termos a revolu\u00e7\u00e3o socialista e a luta armada no continente latinoamericano.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o milito em nenhuma das organiza\u00e7\u00f5es chamadas morenistas, o que n\u00e3o impede que assuma a traject\u00f3ria da corrente com \u201cbeneficio de invent\u00e1rio\u201d (acto de receber uma heran\u00e7a sem partilhar das d\u00edvidas do antecessor), sabendo que n\u00e3o existe um balan\u00e7o comum do legado de Moreno nem do que fomos capazes ou incapazes de fazer com o mesmo. Penso, no, entanto que para compreender o que ocorreu basta olhar para n\u00f3s pr\u00f3prios. Dever\u00edamos considerar o quadro geral em que temos vivido. Desde a \u201crevolu\u00e7\u00e3o conservadora\u201d dos anos 80, a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo nos pa\u00edses do chamado \u201csocialismo real\u201d nos anos 90, a ofensive \u201cneo-liberal\u201d que acompanhou a plena forma\u00e7\u00e3o do mercado mundial e a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d\u2026 Todo um cataclismo econ\u00f3mico, pol\u00edtico e social, que varreu os estados burocr\u00e1ticos e restos do aparato estalinista (que n\u00e3o lamento de todo), mas que sem d\u00favidas tamb\u00e9m bateu fundo e desarticulou a classe trabalhadora e todas as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e revolucion\u00e1rias a n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p><strong>Por\u00e9m, a luta continua. E a crise estrutural do capital coloca-nos a necessidade e a possibilidade de relan\u00e7ar, sobre novas bases, uma renovada ofensiva socialista. Isto n\u00e3o significa limpar o passado, mas pelo contr\u00e1rio, recuperar criticamente as mais diversas tradi\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias.<\/strong> Tamb\u00e9m por isto n\u00e3o renego a nossa tradi\u00e7\u00e3o, que continua e continuar\u00e1 vova enquanto formos capazes de intervir nos novos combates para mudar o mundo, e a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><strong>Suponho que o Hugo, que a sua grande capacidade te\u00f3rica, somava aud\u00e1cia para enfrentar as mudan\u00e7as e paix\u00e3o para a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massas, n\u00e3o agiria de outra forma. Nesse sentido, talvez, continue sendo morenista.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Aldo Casas, Novembro de 2016<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num 25 de Janeiro, h\u00e1 30 anos, desapareceu fisicamente &#8220;Nahuel Moreno&#8221;, &#8220;Capa&#8221;, Hugo&#8230; mestre, camarada, refer\u00eancia inevit\u00e1vel at\u00e9 nas diverg\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[97],"tags":[1044,116,1041,396,188,114,1043,1038,115,1037,1039,117],"class_list":["post-2290","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-30-anos-sem-moreno","tag-aldo","tag-alternativa","tag-anos","tag-casas","tag-lit","tag-mas","tag-morenismo","tag-moreno","tag-movimento","tag-nahuel","tag-qi","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/moreno03.jpg?fit=500%2C305","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2290","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2290"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2290\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2289"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}