{"id":2286,"date":"2017-02-20T23:57:24","date_gmt":"2017-02-20T22:57:24","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/20\/trinta-anos-da-morte-de-nahuel-moreno\/"},"modified":"2017-02-20T23:57:24","modified_gmt":"2017-02-20T22:57:24","slug":"trinta-anos-da-morte-de-nahuel-moreno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/20\/trinta-anos-da-morte-de-nahuel-moreno\/","title":{"rendered":"Trinta anos da morte de Nahuel Moreno"},"content":{"rendered":"<p>Hoje recordam-se trinta anos da morte de Nahuel Moreno. O passar dos anos pode tornar mais objetiva a aprecia\u00e7\u00e3o sobre sua obra e vida militante, mas \u00e0s vezes a dist\u00e2ncia pode ajudar a desconhecer seu papel.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Moreno pertenceu \u00e0quela gera\u00e7\u00e3o que teve que reconstruir a IV Internacional ap\u00f3s a Segunda Guerra, quando o stalinismo estava em seu auge em termos de prest\u00edgio e for\u00e7a, com a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa Oriental e principalmente com a revolu\u00e7\u00e3o chinesa de 1949. Moreno pertenceu a essa gera\u00e7\u00e3o. O balan\u00e7o de sua obra ainda n\u00e3o conta com biografias meticulosas. O destino da corrente que fundou, com as divis\u00f5es quase que intermin\u00e1veis a partir da explos\u00e3o do MAS da Argentina dificultam esse balan\u00e7o, mas espero que ainda seja feito pelos que se debru\u00e7arem sobre os registros materiais e orais.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, as ideias da corrente que animava \u00e0quela \u00e9poca me fizeram compreender as quest\u00f5es que me preocupavam: o balan\u00e7o da experi\u00eancia tr\u00e1gica da Unidade Popular Chilena, a experi\u00eancia da guerrilha latino-americana e as bases te\u00f3ricas para o recha\u00e7o \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o sionista na Palestina.<\/p>\n<p>Neste dia me veem \u00e0 mem\u00f3ria algumas das ocasi\u00f5es que tive contato direto com Moreno, particularmente na primeira fase da nova organiza\u00e7\u00e3o no Brasil, quando eu exercia um papel de dirigente. S\u00e3o elas que menciono nesta pequena nota.<\/p>\n<p>A primeira vez que o vi pessoalmente foi ao final de 1973, na sede do velho PST argentino na rua 24 de novembro, no centro de Buenos Aires. Est\u00e1vamos em uma reuni\u00e3o, discutindo a proposta de voltarmos ao Brasil para construir a nossa rec\u00e9m fundada Liga Oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Praticamente todos os participantes da reuni\u00e3o (creio que era um Comit\u00ea Executivo ampliado do PST) estavam contra a nossa volta pelos perigos que encerrava a opera\u00e7\u00e3o e por nossa pequena experi\u00eancia. Vendo nossa obstina\u00e7\u00e3o (em particular os companheiros mais velhos que eu, o Jorge Pinheiro e a Zez\u00e9 (Maria Jose Louren\u00e7o), Moreno, disse que apenas queriam expressar sua opini\u00e3o e que apoiavam nossa decis\u00e3o. Um ano e meio mais tarde, quando um grupo de 7 ou 8 quadros foram fazer um curso de forma\u00e7\u00e3o no PST, Moreno fez quest\u00e3o de se autocriticar publicamente pelo que tinha dito. Esta era uma marca que muitos j\u00e1 salientaram, que era a capacidade de reconhecer os pr\u00f3prios erros. De qualquer forma, a repress\u00e3o naqueles anos, a sorte que tivemos de n\u00e3o termos sido apanhados n\u00e3o deveria minimizar a import\u00e2ncia daquele conselho\u2026<\/p>\n<p>Voltei a v\u00ea-lo em princ\u00edpios de 1976, quando fui realizar um curso sobre a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos em Buenos Aires. O ambiente era sombrio. V\u00e1rios camaradas haviam sido assassinados e o cerco de fechava sobre a esquerda. Na ocasi\u00e3o estive presente em uma reuni\u00e3o de ruptura com um velho camarada do SWP americano, Eduard Shaw, que havia sido marinheiro durante a Segunda Guerra. O assunto era o processo revolucion\u00e1rio em Portugal e Moreno se opunha \u00e0 linha do SWP. O que me deixou espantado naquela reuni\u00e3o, e o manifestei, foi a viol\u00eancia verbal da discuss\u00e3o. Os gritos de Moreno ecoavam por toda a sede. N\u00e3o me agradaram, embora tenha entendido a gravidade do tema e ter me posicionado a favor de sua posi\u00e7\u00e3o. Posteriormente foi sempre um dos aspectos na corrente por ele animada que me desagradavam e desagradam at\u00e9 hoje. N\u00e3o que os debates n\u00e3o devam ser francos e duros, \u00e9 que \u00e0s vezes o tom substitui o conte\u00fado e impede um debate sem intimida\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fomos almo\u00e7ar em um restaurante no centro de Buenos Aires e ele me advertiu que a situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds estava muito inst\u00e1vel e que poderia haver um golpe, o que realmente ocorreu em pouco tempo.<\/p>\n<p>A outra ocasi\u00e3o que me ocorre mencionar foi quando nos encontramos na pris\u00e3o em 1978. Ele tinha sido preso na mesma ocasi\u00e3o que toda a dire\u00e7\u00e3o da Converg\u00eancia Socialista. Est\u00e1vamos em greve de fome, justamente para evitar que ele fosse deportado para a Argentina, onde seria certamente assassinado. Falamos atrav\u00e9s das grades do banheiro da cela, que davam para o p\u00e1tio, onde ele e sua companheira Rita, tamb\u00e9m presa, faziam sua caminhada.<\/p>\n<p>Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o como estava bem-humorado. E depois pude ouvir por uma porta entreaberta durante um interrogat\u00f3rio policial quando dava, com toda a calma do mundo, depoimento a um enviado do poderoso Golberi do Couto e Silva, explicando qual era a linha pol\u00edtica da Converg\u00eancia Socialista, o nome de nossa organiza\u00e7\u00e3o naquele tempo. O \u00faltimo contato ali foi quando terminamos nossa greve de fome, porque ele seria expulso para a Col\u00f4mbia onde morava e n\u00e3o para a Argentina, quando fizemos a refei\u00e7\u00e3o em uma sala especial.<\/p>\n<p><strong>Moreno tinha uma habilidade muito importante de procurar aproveitar os militantes onde mais se sentissem \u00e0 vontade e procurar que as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o se rompessem.<\/strong><strong> Foi essa uma das d\u00favidas que mencionou ao final de sua vida na entrevista transcrita no livro \u201cConversa\u00e7\u00f5es com Moreno\u201d: se n\u00e3o tinha sido demasiado arrogante e privilegiado \u201cexercer a verdade em abstrato\u201d, ou seja, sem levar em conta que o debate se fazia com militantes de carne e osso que poderiam ter condi\u00e7\u00f5es de retificar suas ideias e, fundamentalmente, que ele pr\u00f3prio poderia estar equivocado.<\/strong><\/p>\n<p>Recordo-me de um momento em que eu estava bastante desanimado. Est\u00e1vamos em agosto de 1982.\u00a0O grupo dirigente da Converg\u00eancia Socialista, por orienta\u00e7\u00e3o de Moreno, percebeu que t\u00ednhamos v\u00e1rios companheiros jovens que estavam profissionalizados h\u00e1 muito tempo e que seu n\u00famero era muito superior ao razo\u00e1vel pelas dimens\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, esta foi a outra d\u00favida que expressava Moreno ao final da vida: se n\u00e3o havia profissionalizado demasiados companheiros, o que gerava graves deforma\u00e7\u00f5es na vida das organiza\u00e7\u00f5es. A busca de trabalho n\u00e3o foi f\u00e1cil, era o momento de uma grande recess\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ao final do ano, sem que eu tivesse conseguido trabalho e tendo dificuldades de cumprir as tarefas complicadas de uma campanha eleitoral com a legenda do PT, ele fez o que muitas vezes fazia: ofereceu um desafio para ver se conseguia reanimar um camarada em certa crise: prop\u00f4s que fosse \u00e0 Bol\u00edvia, ajudar o pequeno grupo morenista no momento em que ca\u00eda a ditadura por meio de uma greve geral de 15 dias dos mineiros.<\/p>\n<p>Abriu-me as portas para um dos processos pol\u00edticos mais interessantes que conheci e um dos proletariados mais combativos e tradicionais do continente, mesmo que desconhecido da maioria. No in\u00edcio de 1983, quando passamos por Buenos Aires, eu e minha companheira \u00e0 \u00e9poca, Ana Crist\u00edna, na casa em que vivia ainda clandestino em Buenos Aires, na rua Campichuelo, contou-nos sua experi\u00eancia na Bol\u00edvia, ainda nos anos 60. Tinha hist\u00f3rias que pareciam de lenda: contou como quando foi preso na Bol\u00edvia por conta do assalto a um banco do grupo que estava a ele ligado no Peru.E contou como exigia dos carcereiros para falar com o presidente da Rep\u00fablica, ent\u00e3o Victor Paz Estenssoro, do MNR. Pensavam que era louco, mas depois de muito insistir, conseguiu enviar uma mensagem ao presidente e foi solto no dia seguinte e colocado em um hotel como h\u00f3spede de honra do governo. Moreno tinha alertado Victor Paz sobre a imin\u00eancia de um dos in\u00fameros golpes militares contra o governo e obtivera esse reconhecimento tardio. Tinha enormes expectativas no proletariado mineiro da Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, mencionei que Herm\u00ednio Saccheta, que tinha sido dirigente do grupo trotskista depois que rompeu com o PCB em 1938 \u2013 \u00a0a quem visitei com Jos\u00e9 Welmovicky -, quando dissemos que \u00e9ramos ligados a Moreno, disse: \u201cAh, Moreno, de Avellaneda, era o melhor deles!\u201d. Ao que Moreno exclamou: \u201cviu como n\u00e3o era mentira o que te falei sobre ter ido ao Brasil dar cursos a oper\u00e1rios nos anos 1950?\u201d. Assim era Moreno\u2026<\/p>\n<p>Esteve nos visitando em La Paz, entusiasmado pelo trabalho, apesar de sermos, em 1984, um pequeno grupo. Como se n\u00e3o bastasse, havia dois grupos morenistas, os bolivianos, que faziam entrismo em um partido reformista e eram dirigidos por Pablo Solon, que depois foi organizador do movimento que levou Evo Morales ao governo (e que no ano passado fez uma importante autocr\u00edtica sobre os caminhos de Evo) e um grupo de estrangeiros que trabalhava de forma independente. A ideia era unificar ambos os grupos e romper com o partido reformista, o PS1, fundado por Marcelo Quiroga Santa Cruz, ministro de energia do general nacionalista Torres, e assassinado pela ditadura de Garcia Meza, rec\u00e9m derrubada. Mas como acontece muitas vezes, os que estavam dentro do PS1 n\u00e3o queriam romper, mesmo que o partido estivesse adaptado ao governo de Frente Popular de Silez Suazo.<\/p>\n<p>Moreno fez ent\u00e3o um de seus teatros: levantou-se, e aos gritos chamou a que sa\u00edssemos com ele dizendo que rompia rela\u00e7\u00f5es e ficaria s\u00f3 com os estrangeiros e que ser\u00edamos muito maiores em pouco tempo. Claro que os camaradas recuaram e os grupos se unificaram. Assim era o velho Moreno. Apaixonado, duro nos debates, mas que n\u00e3o colocava as disputas passadas como empecilho para a colabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estreita.<\/p>\n<p>Ressalte-se que ir \u00e0 La Paz para ele era um risco, pois a altura lhe causava problemas por ser card\u00edaco e tive que procurar \u00e0s pressas a aten\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o de Pablo Solon, o Waltico, que era m\u00e9dico, pois estavam todos os companheiros ausentes em um congresso dos mineiros. Mas a sua paix\u00e3o pela luta dos trabalhadores da Bol\u00edvia o fazia arriscar a vida.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas atitudes que me parecem equivocadas ao encarar a trajet\u00f3ria e a heran\u00e7a de Moreno. A idolatria, o culto \u00e0s palavras e ideias que fez e faz muito mal a qualquer marxista e creio que ele seria o primeiro a se opor a isso.\u00a0Mas as cr\u00edticas apressadas tamb\u00e9m. Os grandes dirigentes hist\u00f3ricos devem ser compreendidos como frutos de seu tempo, com seus aspectos fortes e fracos. Muitas vezes, as cr\u00edticas s\u00e3o devidas \u00e0 in\u00famera quantidade de t\u00e1ticas que Moreno empregou para tentar construir organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias contra as press\u00f5es oportunistas, mas tamb\u00e9m as ultraesquerdistas, que liquidaram valiosos quadros revolucion\u00e1rios nos anos 60 e 70 na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses, um historiador marxista argentino, Daniel Gaido, revelou uma carta de Moreno a Per\u00f3n que se encontra na Fundaci\u00f3n Pluma na Argentina, quando Moreno estava preso na Argentina, em 1962, e amea\u00e7ado de ser condenado a uma longa pena por sua suposta implica\u00e7\u00e3o no assalto ao banco no Peru. Sem comunica\u00e7\u00e3o com sua organiza\u00e7\u00e3o, Moreno escreve diretamente a Per\u00f3n para tentar mediar sua liberta\u00e7\u00e3o. A carta nos mostra Moreno como parte do Partido Peronista, onde fazia um tipo de entrismo centrado nos organismos sindicais do partido, mas com subordina\u00e7\u00e3o formal a Per\u00f3n. A carta pode ter sido uma boa ideia, pode n\u00e3o ter sido, pode ter sido um pouco demasiadamente deferente ao General, mas n\u00e3o me somo aos que apressadamente tentam caracteriz\u00e1-la como prova do oportunismo de Moreno.<\/p>\n<p>Naquele 25 de janeiro de 1987, estava em Belo Horizonte, como parte de mais de 20 camaradas transferidos para apoiar o trabalho entre os metal\u00fargicos de BH e Contagem, cujo sindicato havia sido ganho por uma chapa dirigida por militantes da Converg\u00eancia Socialista. O Catatau, dirigente da regional e hoje dirigente do MAIS, nos chamou e deu a not\u00edcia. Ficamos todos muito abalados. Eu fiz o meu ritual de luto, relendo a biografia do Trotsky pelo Victor Serge e \u00e0 tarde fomos informar o ocorrido a uma reuni\u00e3o ampla de militantes. Tanto o Z\u00e9 Maria, dirigente do PSTU, como eu choramos ao tentar contar aos camaradas. Um dos grandes tinha se ido. Est\u00e1vamos em uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>Mas nem imagin\u00e1vamos as dificuldades que ter\u00edamos com a queda do stalinismo, com o enfraquecimento qualitativo da ideia do socialismo, com a divis\u00e3o infind\u00e1vel da pr\u00f3pria corrente morenista e da longa di\u00e1spora que se seguiu. Mas os que sobrevivemos, devemos muito \u00e0s bases pol\u00edticas, te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas herdadas do Velho.<\/strong> Essa d\u00edvida n\u00e3o me faz menos cr\u00edtico nem menos aberto a considerar suas limita\u00e7\u00f5es. Mas s\u00f3 os tolos, pedantes e pouco s\u00e9rios misturam os erros com o balan\u00e7o de um dos gigantes do trotskismo do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Waldo Mermelstein &#8211; Esquerda Online<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje recordam-se trinta anos da morte de Nahuel Moreno. 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