{"id":2284,"date":"2017-02-19T23:22:38","date_gmt":"2017-02-19T22:22:38","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/19\/qqueremos-acolherq-a-proposito-da-manifestacao-em-barcelona\/"},"modified":"2017-02-19T23:22:38","modified_gmt":"2017-02-19T22:22:38","slug":"qqueremos-acolherq-a-proposito-da-manifestacao-em-barcelona","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/02\/19\/qqueremos-acolherq-a-proposito-da-manifestacao-em-barcelona\/","title":{"rendered":"&#8220;Queremos Acolher&#8221;: a prop\u00f3sito da manifesta\u00e7\u00e3o em Barcelona"},"content":{"rendered":"<p>Ontem, 18 de Fevereiro, 160 mil pessoas sa\u00edram \u00e0 rua em Barcelona, em defesa dos refugiados. O lema da manifesta\u00e7\u00e3o foi \u201cQueremos Acolher\u201d e o objetivo \u00e9 o de exigir ao governo Rajoy que cumpra com os compromissos do pa\u00eds neste terreno.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>O estado Espanhol tinha-se comprometido em receber 16 mil refugiados, tendo at\u00e9 agora recebido apenas 1100. N\u00e3o devemos tamb\u00e9m esquecer que o Estado Espanhol possui dois enclaves em Ceuta e Melila, no norte de Marrocos emparedados por um muro militarizado que tem como objetivo travar a entradas de imigrantes. \u00c0 cabe\u00e7a da manifesta\u00e7\u00e3o, convocada pelo movimento \u201cCasa notra casa vostra\u201d, esteve tamb\u00e9m o Sindicato dos Vendedores ambulantes. A manifesta\u00e7\u00e3o contou ainda com o apoio de Ada Colau, \u201cAlcadesa\u201d de Barcelona, assim como Bob Brown, fundador dos Panteras Negras de Chicago, esteve presente, demonstrando a solidariedade internacionalista. <strong>Foi sem d\u00favida uma manifesta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, pela sua dimens\u00e3o, pelo seu programa e por contra com as organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores imigrantes e refugiados. Um exemplo que se deve estender, desde j\u00e1 a Portugal.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os muros e a xenofobia crescem na Europa da austeridade<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o dos refugiados n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o menor. Junto com a crescente islamofobia, atentados terroristas e o crescimento da extrema-direita, tornar-se numa das ferramentas que as classes dominantes querem usar para mudar radicalmente a Europa, para pior. Por isso a esquerda e os trabalhadores t\u00eam obrigatoriamente de ter uma resposta neste terreno.<\/p>\n<p><strong>Em 2016 morreram 5 mil refugiados nas \u00e1guas do Mediterr\u00e2neo. Parte importante dos impostos dos Europeus serve para financiar programas como o Frontex, que visam perseguir e impedir a entrada de refugiados do norte de \u00c1frica. <\/strong>Se existe este \u00eaxodo massivo do norte de Africa e m\u00e9dio oriente, isso deve-se \u00e0 explora\u00e7\u00e3o brutal, \u00e0s guerras e cat\u00e1strofes ambientais, exportadas pelos pa\u00edses ocidentais. Os governos Europeus s\u00e3o portanto os respons\u00e1veis por estas mortes. Por\u00e9m isso n\u00e3o parece impedi-los de dormir \u00e0 noite. Ap\u00f3s uma abertura inicial \u2013 que se deu meramente na Alemanha, que acolheu cerca de 1 milh\u00e3o de refugiados em 2015 \u2013 as palavras e os actos dos governos endureceram. Os muros crescem nas fronteiras Europeias, e a Comiss\u00e3o Europeia e Berlim n\u00e3o mostram nem um d\u00e9cimo da preocupa\u00e7\u00e3o que revelam relativamente ao d\u00e9fice or\u00e7amental dos pa\u00edses. As leis endureceram nos pa\u00edses centrais: a pretexto da defesa contra os ataques terroristas, Fran\u00e7a e B\u00e9lgica aprovaram leis antidemocr\u00e1ticas que permitem a proibi\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es e reuni\u00f5es, assim como julgamentos de tipo sum\u00e1rio. A esquerda e o movimento sindical, assim como os refugiados s\u00e3o o alvo destas medidas, n\u00e3o os terroristas. A extrema-direita tamb\u00e9m come\u00e7a a mostrar as suas garras: em Inglaterra ap\u00f3s o Brexit, os ataques a imigrantes aumentaram exponencialmente. Na Alemanha, PEGIDA, movimento de tra\u00e7os neonazis, organiza manifesta\u00e7\u00f5es semanais contra os refugiados, enquanto em Fran\u00e7a o \u201cBloco Identit\u00e1rio\u201d, um grupo fascista ligado \u00e0 extrema-direita, se organiza para agredir refugiados e imigrantes. Neste contexto, Marine Le Pen est\u00e1 em primeiro ligar nas sondagens presidenciais assim como o Holand\u00eas Geert Wilders, que come\u00e7ou a sua campanha afirmando que quer expulsar a \u201cescumalha marroquina\u201d. Os governos de \u201ccentro\u201d falam em nome da toler\u00e2ncia mas fazem o oposto: Merkel j\u00e1 endureceu a lei do asilo e proibiu a Burka. Ou seja: a ofensiva dos poderosos est\u00e1 em marcha, e \u00e9 feita nas ruas pela extrema-direita nazi, nas oposi\u00e7\u00f5es pela extrema-direita populista e nos governos pelos partidos do centro. \u00c9 uma ofensiva sobre o elo mais fraco da classe trabalhadora, os imigrantes e refugiados, mas que visa atacar a todo. \u00c9 preciso responder.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Barcelona, EUA e Alemanha, os trabalhadores de todo o mundo uniram-se!<\/strong><\/p>\n<p>Por isso \u00e9 t\u00e3o importante a manifesta\u00e7\u00e3o de dia 18 em Barcelona. E \u00e9 t\u00e3o importante que esta seja encabe\u00e7ada por sindicatos e movimentos sociais e n\u00e3o por ONG\u2019s ou a Amnistia Internacional cuja abordagem despolitizada e assistencialista isola os refugiados do resto da popula\u00e7\u00e3o. Esta manifesta\u00e7\u00e3o foi precedida pelas mobiliza\u00e7\u00f5es nos EUA contra o bloqueio de Trump aos imigrantes \u00e1rabes, que conseguiu vit\u00f3rias parciais, bloqueando os aeroportos pela Ac\u00e3o direta. Nem 20 anos de relat\u00f3rios de ONG\u2019s tiveram o mesmo efeito que essa noite de luta nos EUA, que contou, por exemplo, com a ades\u00e3o do Sindicato dos Motoristas de Taxi de New York, a maioria mu\u00e7ulmanos. Tamb\u00e9m na Alemanha esta fus\u00e3o entre a luta contra a xenofobia e o mundo sindical j\u00e1 come\u00e7ou: 2014 um grupo de refugiados, \u201cLuta de Refugiados pela Liberdade\u201d ocupou o edif\u00edcio da DGB, a principal central sindical alem\u00e3, reclamando apoio para o seu direito de trabalhar e viver na Alemanha, para se encontrar com os respons\u00e1veis sindicais e o direito de ser filiado no sindicato com pleno apoio legal. Ap\u00f3s algum choque com a burocracia sindical, os lutadores conseguiram resultados. O VER.DI, o maior sindicato de servi\u00e7os do pa\u00eds, no seu Congresso de 2015, conclui que:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cas lutas dos refugiados s\u00e3o tamb\u00e9m lutas laborais e devem ser reconhecidas como tais, j\u00e1 que se trata do interesse comum de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Os refugiados lutam contra a explora\u00e7\u00e3o radical sob condi\u00e7\u00f5es ilegais&#8230; o VER.DI op\u00f5e-se a n\u00edvel pol\u00edtico \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e apoia a implementa\u00e7\u00e3o dos direitos fundamentais dos oper\u00e1rios para os imigrantes.\u201d<\/p>\n<p>Este \u00e9 um excelente exemplo de qual deve ser atitude da esquerda e dos movimento sindical a esta problem\u00e1tica, sendo a \u00fanica forma de travar a extrema-direita ou que seja institui\u00e7\u00f5es e movimentos pr\u00f3-capitalistas a surfar a solidariedade, canalizando-a para os seus pr\u00f3prios fins.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Porque \u00e9 que esta quest\u00e3o \u00e9 importante?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Perante o cen\u00e1rio de morte, persegui\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria a que est\u00e3o sujeitos os milh\u00f5es de seres humanos que procuram uma vida melhor na Europa, a solidariedade \u00e9 o m\u00ednimo sentimento humanit\u00e1rio. <\/strong>Este \u00e9 um primeiro motivo para defender o acolhimento dos refugiados. Mas como vimos acima, \u00e9 preciso travar a ofensiva da extrema-direita e das organiza\u00e7\u00f5es xen\u00f3fobas. Os governos de centro tentam fazer isso \u201ccopiando\u201d as medidas repressivas da extrema-direita, como fez Hollande em Fran\u00e7a e Merkel na Alemanha, ou ignorando o assunto, enquanto \u00e9 poss\u00edvel, como fazem os governos Espanhol e Portugu\u00eas. Por\u00e9m tudo isso refor\u00e7a a extrema-direita que assim que puder, eliminar\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 os refugiados, como a esquerda e at\u00e9 o centro pol\u00edtico. <strong>A \u00fanica forma \u00e9 unir os trabalhadores pelo acolhimento dos refugiados e por direitos iguais, contra a pol\u00edtica imperialista que os obriga a fugir para a Europa. Os acontecimentos nos EUA e agora em Barcelona mostram que isso \u00e9 poss\u00edvel.<\/strong><\/p>\n<p>Claro que muitos trabalhadores ficam receosos. Temem que os refugiados venham usufruir do estado social europeu, pago pelos impostos dos trabalhadores e que lhes roubem o trabalho, j\u00e1 escasso devido \u00e0 crise. Por\u00e9m \u00e9 f\u00e1cil perceber que n\u00e3o \u00e9 assim. Primeiro porque tantos os governos como a extrema-direita n\u00e3o querem de facto expulsar os refugiados. Toda a repress\u00e3o est\u00e1 ao servi\u00e7o de criar uma camada de trabalhadores de terceira classe, a receber menos, sem direitos e sem protec\u00e7\u00e3o sindical, e usar isso para pressionar todos os sal\u00e1rios para baixo. Al\u00e9m disso, assim justificam medidas repressivas sobre todos os trabalhadores e a esquerda.<strong> Ou seja, a inten\u00e7\u00e3o daqueles que propagam a xenofobia \u00e9 dividir para reinar, atacar todos os trabalhadores e a democracia, n\u00e3o especificamente os refugiados, que s\u00e3o usados como \u201ccunha\u201d para dividir os trabalhadores.<\/strong><\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 verdade que uma onda de imigra\u00e7\u00e3o pode pressionar para baixo os sal\u00e1rios de todos, uma vez que coloca os trabalhadores nativos a disputar os postos de trabalho com refugiados, dispostos a receber. Mas isso s\u00f3 \u00e9 assim se, de facto, os refugiados n\u00e3o tiverem direitos iguais. Se tiverem sal\u00e1rios, seguran\u00e7a social e apoio sindical como os trabalhadores nativos, por que motivo os patr\u00f5es iriam preferir contratar refugiados? <strong>Por isso \u00e9 essencial defender a igualdade de direitos, de forma a defender imigrantes e nativos<\/strong>. O problema do estado social n\u00e3o se coloca. Para j\u00e1 porque, infelizmente, os refugiados n\u00e3o tem praticamente direito a apoios do estado. O \u00fanico \u201cestado\u201d que v\u00eam, na maioria dos casos, \u00e9 o bast\u00e3o da pol\u00edcia e o arame farpado na fronteira. Por outro porque, se de facto vierem trabalhar de forma legal, pagar\u00e3o os seus impostos, pelo que estar\u00e3o a contribuir para o estado social, n\u00e3o o oposto. <strong>Ainda recentemente, Ant\u00f3nio Correia de Campos, presidente do Conselho Econ\u00f3mico e Social, afirmou que Portugal precisa de 900 mil trabalhadores imigrantes para crescer 3%. S\u00f3 se esqueceu de dizer que a falta de emprego n\u00e3o se deve aos imigrantes, mas ao facto de PSD, CDS e agora PS, usarem o dinheiro p\u00fablico para salvar bancos e n\u00e3o para criar emprego.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>E em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>Em Portugal, direita, Governo, BE e PCP, assobiam para o lado. O Governo comprometeu-se em receber o m\u00edsero n\u00famero de 5 mil refugiados e at\u00e9 agora recebeu 1000. Ap\u00f3s longas negocia\u00e7\u00f5es e pol\u00e9micas com a Gr\u00e9cia, ir\u00e3o agora chegar\u2026 Mais 30! <strong>Esta parece ser a \u00fanica meta europeia que o governo n\u00e3o parece obcecado em cumprir. Tamb\u00e9m o sil\u00eancio da esquerda \u00e9 conden\u00e1vel: se o PCP tem uma longa hist\u00f3ria de chauvinismo, como demonstra ter votado contra uma nova lei da nacionalidade, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o BE fez dos refugiados um tema de campanha eleitoral e depois largou o assunto.<\/strong> Tamb\u00e9m c\u00e1 \u00e9 preciso exigir do governo que cumpra o prometido e que acolha mais refugiados, garantindo direitos iguais entre todos os trabalhadores. Caso contr\u00e1rio perdemos terreno para a extrema-direita que, cedo ou tarde, marcar\u00e1 presen\u00e7a tamb\u00e9m em Portugal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Manuel Afonso<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, 18 de Fevereiro, 160 mil pessoas sa\u00edram \u00e0 rua em Barcelona, em defesa dos refugiados. 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