{"id":2277,"date":"2017-01-30T11:02:19","date_gmt":"2017-01-30T10:02:19","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/01\/30\/antonio-santos-junior-um-dos-nossos\/"},"modified":"2017-01-30T11:02:19","modified_gmt":"2017-01-30T10:02:19","slug":"antonio-santos-junior-um-dos-nossos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/01\/30\/antonio-santos-junior-um-dos-nossos\/","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Santos J\u00fanior, um dos nossos"},"content":{"rendered":"\n<p>Morreu no dia 27 de Janeiro, com 73 anos de idade, aquele que foi o mais destacado militante sindical na resist\u00eancia antifascista. Ant\u00f3nio Santos J\u00fanior, que a generalidade da imprensa teve artes de esquecer, foi, por um momento, protagonista da grande Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Mas, quando a ribalta pol\u00edtica foi ocupada por renegados e oportunistas de toda a esp\u00e9cie, ele regressou discretamente \u00e0 base, a partilhar o destino dos seus companheiros. Esta \u00e9 a parte menos conhecida, e talvez a mais her\u00f3ica, da sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A biografia de Santos J\u00fanior, adolescente, jovem adulto e homem feito, \u00e9 razoavelmente conhecida. Nascido numa aldeia ribatejana, veio para Lisboa aos 14 anos, come\u00e7ando a trabalhar como aprendiz de pintor. Trabalhou e estudou, foi recrutado para o servi\u00e7o militar, adquiriu na For\u00e7a A\u00e9rea a especialidade de mec\u00e2nico de avi\u00f5es, e escapou da guerra colonial gra\u00e7as ao talento invulgar que revelava nessa profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1968 foi admitido na TAP, onde em breve se tornou um dirigente natural das reivindica\u00e7\u00f5es esbo\u00e7adas pelos seus companheiros. Em 1970, n\u00e3o surpreendeu que fosse escolhido, entre um n\u00facleo muito consciente e combativo, como o nome \u00f3bvio para encabe\u00e7ar a lista B, que concorria \u00e0 direc\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Metal\u00fargicos na primeira elei\u00e7\u00e3o realizada sob a ditadura. A lista esmagou nas urnas os burocratas fascistas e Santos J\u00fanior tornou-se presidente do sindicato, logo da federa\u00e7\u00e3o dos metal\u00fargicos e depois, ainda, cofundador da Intersindical.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Da resist\u00eancia \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A nova direc\u00e7\u00e3o do sindicato tratou de dinamizar as reivindica\u00e7\u00f5es da contrata\u00e7\u00e3o colectiva e de promover a elei\u00e7\u00e3o de delegados combativos em cada local de trabalho. Combinou esse \u00e1rduo trabalho de base com uma iniciativa vision\u00e1ria e ambiciosa: realizar uma assembleia geral dos metal\u00fargicos no Est\u00e1dio da Luz. O SLB cedeu o Est\u00e1dio para o efeito, mas o ministro fascista Baltazar Rebelo de Sousa, pai do actual PR, mandou proibir a assembleia.<\/p>\n<p>Em breve, o mesmo Rebelo de Sousa intervencionou o sindicato, fez destituir a sua direc\u00e7\u00e3o e entregou-o a uma comiss\u00e3o administrativa \u2013 esc\u00e1rnio descarado das promessas da \u201cprimavera marcelista\u201d. Santos J\u00fanior foi detido pela PIDE no h\u00e2ngar 4, onde trabalhava, e os seus companheiros imediatamente anunciaram que entravam em greve. E assim fizeram, at\u00e9 ele ser libertado hora e meia depois.<\/p>\n<p>O n\u00facleo combativo em que Santos J\u00fanior continuava a ter papel destacado reorganizara-se entretanto, com a sigla \u201cComiss\u00e3o Oper\u00e1ria de Unidade Metal\u00fargica\u201d (CUOM), de car\u00e1cter semi-clandestino. Continuava a animar as reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, nomeadamente as que estavam sobre a mesa de negocia\u00e7\u00f5es do acordo colectivo da TAP. Em 11 de Julho de 1973, depois de duas assembleias gerais na Voz do Oper\u00e1rio, com participa\u00e7\u00e3o cada vez mais massiva, uma terceira foi reprimida pela pol\u00edcia. Os trabalhadores dispersaram, com a palavra de ordem de aflu\u00edrem ao aeroporto, onde se manifestaram nessa mesma noite e enfrentaram a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a for\u00e7a de choque da PSP invadiu as oficinas, abrindo fogo e fazendo v\u00e1rios feridos. Os trabalhadores resistiram em terreno conhecido, alvejaram a pol\u00edcia com fisgas improvisadas, com esferas de rolamentos, com material de escrit\u00f3rio arremessado do alto dos edif\u00edcios administrativos. \u00c0 porta do h\u00e2ngar 6, a pol\u00edcia recuou, com receio de cair numa emboscada \u2013 que efectivamente poderia ter sucedido. E retirou das oficinas debaixo de uma chuva de proj\u00e9cteis. Era meio caminho andado para uma meia vit\u00f3ria, que finalmente viria ao fim de mais uma semana de greve. Esta foi a luta oper\u00e1ria mais importante que houve numa s\u00f3 empresa durante toda a ditadura e aquela que teve mais profundas repercuss\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O eco diferido da meia vit\u00f3ria de julho foi a nova elei\u00e7\u00e3o para o sindicato, em dezembro do mesmo ano. A lista apoiada por Santos J\u00fanior voltou a ganhar, embora ele pr\u00f3prio estivesse proibido de recandidatar-se. A pol\u00edcia fazia-lhe uma marca\u00e7\u00e3o cerrada, que finalmente o levou a emigrar para o Canad\u00e1. A\u00ed foi surpreendido pelo 25 de Abril, tendo embarcado quase imediatamente de regresso a Lisboa.<\/p>\n<p>Chegou ao aeroporto da Portela no dia 1\u00ba de Maio, quando centenas de milhares de pessoas j\u00e1 aflu\u00edam ao antigo Est\u00e1dio da FNAT. Os dirigentes do MES, na altura em forma\u00e7\u00e3o, esperavam-no no aeroporto. Santos J\u00fanior sa\u00edu dali directamente para o Est\u00e1dio, com o mandato de pronunciar um discurso em nome do partido nascente. Mas, chegado a\u00ed, viu ser-lhe barrado o acesso \u00e0 tribuna por militantes do PCP: o pr\u00f3prio PCP, o PS e o MDP iam ser os \u00fanicos partidos com direito \u00e0 palavra. O incidente era um primeiro aviso \u00e0 navega\u00e7\u00e3o, sobre o m\u00e9todo estalinista de ostracizar toda a esquerda que n\u00e3o apoiasse o primeiro Governo Provis\u00f3rio.<\/p>\n<p>Mas outros incidentes se lhe seguiram, principalmente nos conflitos laborais da TAP. Muitos anos depois, Santos J\u00fanior continuava a contar com o seu humor inconfund\u00edvel o di\u00e1logo que com ele manteve o comandante de uma for\u00e7a de p\u00e1raquedistas enviada numa dessas ocasi\u00f5es para ocupar as instala\u00e7\u00f5es da TAP. O militar procurou obter o acordo de Santos J\u00fanior para normas a observar durante a ocupa\u00e7\u00e3o e este respondeu-lhe que os dirigentes n\u00e3o poderiam comprometer-se sem primeiro consultarem as bases. Perplexo, o oficial s\u00f3 se lembrou de replicar: \u201cMas das bases [da For\u00e7a A\u00e9rea] vimos n\u00f3s!\u201d&nbsp; N\u00e3o lhe passava pela cabe\u00e7a que representantes eleitos cumprissem mandato dos representados. At\u00e9 o portugu\u00eas que falava o proletariado parecia aos militares uma l\u00edngua muito estrangeira.<\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Depois da derrota, a classe oper\u00e1ria continua a lutar<\/strong><\/p>\n<p>No anos de refluxo, o Grupo de Activistas da TAP (GATAP) continuou a ser um fermento de lutas e reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. Foi nessa recta final que conheci Santos J\u00fanior e \u00e9 dela que dou testemunho. A organiza\u00e7\u00e3o em que eu pr\u00f3prio militava na altura, a Esquerda Revolucion\u00e1ria (ER, mais tarde componente da FER), tinha iniciado a partir de 1987, em v\u00e1rias grandes empresas, um trabalho de agita\u00e7\u00e3o com os boletins quinzenais \u201cLuta de classes\u201d. Eram boletins feitos quase sempre a partir de not\u00edcias internas das f\u00e1bricas, a partir de relatos de pessoas que a\u00ed trabalhavam.<\/p>\n<p>Assim que estabelecemos contacto com o grupo de Santos J\u00fanior, estivemos de acordo para fazer em conjunto o \u201cLuta de Classes\u201d da TAP. O grupo de traballhadores come\u00e7ou a reunir-se regularmente connosco. Discut\u00edamos os temas do boletim seguinte e, uma semana depois, Santos J\u00fanior encontrava-se comigo a entregar-me o que ele pr\u00f3prio e outros companheiros tinham escrito. Era a \u00fanica empresa para a qual a ER praticamente n\u00e3o precisava de escrever uma linha, porque tudo era feito por aquele n\u00facleo com incompar\u00e1vel experi\u00eancia de luta e grande arg\u00facia pol\u00edtica. A ER pouco tinha a oferecer \u00e0quele n\u00facleo e muito aprendeu com ele. O boletim manteve durante v\u00e1rios anos uma publica\u00e7\u00e3o regular.<\/p>\n<p>Aquilo que o filho de Ant\u00f3nio Santos J\u00fanior, Paulo, definiu como a mais longa luta de seu pai \u2013 uma luta contra a doen\u00e7a, longa de 31 anos \u2013 tinha entretanto come\u00e7ado e obrigou-o a reformar-se da TAP. J\u00e1 depois disso, numa visita em que o acompanhei dentro das instala\u00e7\u00f5es da empresa, pude verificar como a sua passagem por qualquer h\u00e2ngar ou oficina era um acontecimento emocionante, que logo fazia suspender as actividades em curso e fazia afluir \u00e0 sua volta dezenas de pessoas de cada vez.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Santos J\u00fanior foi sepultado numa tarde chuvosa, segundo as tr\u00eas recomenda\u00e7\u00f5es que deixara: em campa rasa, vestido de ganga e sem nenhum padre a dizer missa. Mas a simplicidade da cerim\u00f3nia n\u00e3o impediu que uma multid\u00e3o de pessoas amigas, principalmente companheiros da TAP, tivesse encontrado o caminho daquela aldeia perdida do Ribatejo para lhe prestar um \u00faltima homenagem.<\/p>\n<p>Depois da sua milit\u00e2ncia no MES, n\u00e3o voltara a ter qualquer envolvimento partid\u00e1rio. N\u00e3o se despolitizou nem desdenhava de lutar ombro a ombro com pessoas e organiza\u00e7\u00f5es identificadas com a classe trabalhadora. F\u00ea-lo sempre com a integridade, o trato fraterno e generoso que, de h\u00e1 muitos anos, tinham feito dele um gigante do movimento oper\u00e1rio. Permito-me citar aqui, em jeito de conclus\u00e3o, as palavras que escrevi no come\u00e7o de um livro, publicado h\u00e1 precisamente duas d\u00e9cadas, sobre grandes negociatas da Segunda Guerra Mundial: \u201cOnde se fala de bancos e de poder econ\u00f3mico, logo algum c\u00ednico aparece a dizer que todo o ser humano tem um pre\u00e7o. Dedico este livro ao Ant\u00f3nio Santos J\u00fanior, dirigente oper\u00e1rio que n\u00e3o tem pre\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu no dia 27 de Janeiro, com 73 anos de idade, aquele que foi o mais destacado militante sindical na resist\u00eancia antifascista. Ant\u00f3nio Santos J\u00fanior, que a generalidade da imprensa teve artes de esquecer, foi, por um momento, protagonista da grande Hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2276,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[33],"tags":[116,777,1026,114,1027,115,1025,117],"class_list":["post-2277","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-trabalhadores","tag-alternativa","tag-antonio","tag-junior","tag-mas","tag-mes","tag-movimento","tag-santos","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/antoniosantosjunior2.jpg?fit=500%2C401","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2277","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2277"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2277\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2276"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2277"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2277"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2277"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}