{"id":2273,"date":"2017-01-23T22:45:03","date_gmt":"2017-01-23T21:45:03","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/01\/23\/extrema-direita-europeia-reune-se-e-quer-repetir-a-facanha-de-trump\/"},"modified":"2017-01-23T22:45:03","modified_gmt":"2017-01-23T21:45:03","slug":"extrema-direita-europeia-reune-se-e-quer-repetir-a-facanha-de-trump","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/01\/23\/extrema-direita-europeia-reune-se-e-quer-repetir-a-facanha-de-trump\/","title":{"rendered":"Extrema-direita europeia re\u00fane-se e quer repetir a fa\u00e7anha de Trump"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cEstamos vendo o fim de um mundo e o nascimento de um novo\u201d. Estas foram as palavras de Marine Le Pen, l\u00edder do partido de extrema-direita franc\u00eas, Front National, este fim de semana num encontro da extrema-direita europeia em Koblenz, na Alemanha.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Reivindicando a vit\u00f3ria de Donald Trump e o Brexit, Le Pen continuou: \u201cestou certa de que este ser\u00e1 o ano em que o continente Europeu ir\u00e1 tamb\u00e9m acordar\u201d. No mesmo tom, Geert Wilder, l\u00edder do Partido da Liberdade, partido anti-isl\u00e2mico holand\u00eas, afirmou aos conferencistas: \u201contem uma nova Am\u00e9rica, hoje Koblenz, amanh\u00e3 uma nova Europa\u201d. A vit\u00f3ria de Trump insuflou a confian\u00e7a das diversas forma\u00e7\u00f5es de extrema-direita xen\u00f3foba presentes. N\u00e3o por acaso, Geert Wilder, uma das \u201cestrelas\u201d do evento, apresentou o encontro de Koblenz com o mote #Makeourcountrysgreatagain (\u201cfazer os nossos pa\u00edses grandes de novo\u201d).<\/p>\n<p>O encontro teve como anfitri\u00e3o o AfD, Alternativa para a Alemanha, a mais recente forma\u00e7\u00e3o&nbsp; xen\u00f3foba a dar nas vistas, e foi organizado pelo Europe of Nations and Freedom (Europa das Na\u00e7\u00f5es e da Liberdade), que congrega 40 deputados do parlamento europeu de nove pa\u00edses. O objectivo foi anunciar uma ofensiva destes partidos sobre uma Europa em crise.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso o encontro de Koblenz se deu imediatamente ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Trump e no in\u00edcio de um ano marcado por elei\u00e7\u00f5es \u2013 na Holanda, Fran\u00e7a e Alemanha \u2013 onde a extrema-direita vai ter o protagonismo central, sendo at\u00e9 candidata \u00e0 vit\u00f3ria na Fran\u00e7a e na Holanda.<\/p>\n<p>Marine Le Pen foi a figura central do evento. Foi ela que conseguiu transformar a extrema-direita de novo numa op\u00e7\u00e3o eleitoral de massas na Europa. O primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais francesas ser\u00e1 disputado entre ela e o candidato de direita conservadora, Fran\u00e7ois Fillon, e foram recentemente publicadas sondagens demonstrando que Le Pen pode ganhar o primeiro turno.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em Abril ser\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es na Holanda e o Partido da Liberdade de Geert Wilders, aparece em primeiro lugar nas inten\u00e7\u00f5es de voto. No encontro de Koblenz, o l\u00edder populista holand\u00eas afirmou que, devido \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o de origem \u00e1rabe, no seu pa\u00eds as mulheres tem de esconder os cabelos loiros. Apesar de uma subida vertiginosa nas sondagens no ano passado, Wilders perdeu espa\u00e7o nos \u00faltimos meses para o partido de direita liberal, VVD, que aparece em segundo lugar.<\/p>\n<p>O partido anfitri\u00e3o, AfD, Alternativa pela Alemanha, apesar de ainda n\u00e3o se colocar como candidato \u00e0 vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 o novo grande fen\u00f3meno na direita europeia. N\u00e3o \u00e9 para menos, com 12% nas sondagens, tornou-se o primeiro partido de extrema-direita a ter influ\u00eancia eleitoral de massas na Alemanha nos \u00faltimos 60 anos. Em 2013 este partido apresentou-se a elei\u00e7\u00f5es com uma cara bem mais moderada, colocando \u00eanfase na reforma da Uni\u00e3o Europeia e no fim da moeda \u00fanica europeia. Ainda sem o actual discurso racista, j\u00e1 tinha uma perspectiva reaccion\u00e1ria: a Alemanha n\u00e3o deveria gastar dinheiro a \u201cajudar\u201d pa\u00edses pobres como a Gr\u00e9cia. Por\u00e9m, em 2014 o AfD adopta um discurso islamof\u00f3bico e contra os refugiados, enquanto Frauke Petry, a actual l\u00edder, ganhava a direc\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria afirmando que \u201co isl\u00e3o n\u00e3o tem lugar na Alemanha\u201d. Desde a\u00ed, o AfD conseguiu eleger deputados em 7 elei\u00e7\u00f5es regionais, com v\u00e1rios resultados acima dos 20%. Nas elei\u00e7\u00f5es de Setembro o AfD ir\u00e1 provavelmente conquistar uma forte bancada parlamentar, dificultando que Angela Merkel consiga uma maioria est\u00e1vel e tornando-se assim o centro da discuss\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds. Embora as suas lideran\u00e7as o neguem, o AfD est\u00e1 ligado ao PEGIDA, (Patriotas Europeus Contra a Islamiza\u00e7\u00e3o do Ocidente), que tem levado milhares \u00e0s ruas contra os refugiados. Angela Merkel, que inicialmente tinha&nbsp; uma pol\u00edtica de relativa abertura, j\u00e1 reagiu ao crescimento da extrema-direita e anunciou o corte de apoios aos refugiados e a proibi\u00e7\u00e3o da Burka<sup>1<\/sup><\/p>\n<p><strong>Um projecto contra os povos embrulhado em demagogia nacionalista<\/strong><\/p>\n<p>Junto a estes arietes da extrema-direita xen\u00f3foba, estiveram no encontro outras forma\u00e7\u00f5es, como a Liga Norte Italiana, o Partido da Liberdade austr\u00edaco e o Interesse Flamengo, da B\u00e9lgica, todas elas convergindo no discurso xen\u00f3fobo e na proposta de projectos aut\u00e1rquicos de cada um dos seus pa\u00edses imperialistas.&nbsp;<\/p>\n<p>Os partidos tradicionais, sobretudo a social-democracia, perdem cada vez mais espa\u00e7o e&nbsp; a esquerda, que cresceu de forma importante em alguns pa\u00edses, encontra-se sem estrat\u00e9gia, ap\u00f3s a capitula\u00e7\u00e3o do Syriza. Os planos de austeridade sucessivamente aplicados a partir do centro-direita e centro-esquerda, mostraram que o projecto da Uni\u00e3o Europeia falhou. A crise dos refugiados importou para dentro das fronteiras europeias a barb\u00e1rie que a UE, junto com a NATO e os EUA semearam no M\u00e9dio Oriente e em \u00c1frica. <strong>Na aus\u00eancia de uma perspetiva de mudan\u00e7a radical vinda da esquerda &#8211; como vimos, o Syriza, que chegou ao governo na Gr\u00e9cia, n\u00e3o s\u00f3 aprofundou a austeridade como reprimiu os refugiados \u2013 a extrema-direita ganha espa\u00e7o. Nos pa\u00edses imperialistas europeus, Alemanha, Fran\u00e7a, Inglaterra, apoia-se no nacionalismo da classe m\u00e9dia e de parte da classe trabalhadora para apontar numa sa\u00edda xen\u00f3foba, de um refor\u00e7o de cada imperialismo nacional, em detrimento da alian\u00e7a que o Euro e a UE configuram.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 da\u00ed que surge a oposi\u00e7\u00e3o destas for\u00e7as pol\u00edtica ao euro e \u00e0 UE. <strong>Para a extrema-direita a sa\u00edda do euro n\u00e3o \u00e9 para parar a austeridade, mas para substituir a austeridade europeia pela austeridade nacional de cada um dos pa\u00edses. Algumas destas for\u00e7as procuram alinhar-se com Trump, rec\u00e9m-eleito nos EUA e Putin, que j\u00e1 fizeram reuni\u00f5es com Marine Le Pen. <\/strong>O objectivo \u00e9 impor uma sa\u00edda para a crise capitalista mais dura ainda para os trabalhadores e os povos, que amea\u00e7a com novas tens\u00f5es nacionalistas que no passado dilaceraram a Europa com as duas grandes guerras e o Holocausto Nazi.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que nenhuma destas forma\u00e7\u00f5es \u00e9 directamente fascista \u2013 ainda nenhuma delas usa m\u00e9todos de viol\u00eancia f\u00edsica contra os imigrantes ou contra a esquerda, mas tamb\u00e9m seria uma erro confundi-las com a direita tradicional, liberal ou conservadora. N\u00e3o por acaso na esteira destes partidos crescem movimentos como o PEGIDA, esse sim, que tem contornos neo-nazis e actua nas ruas contra os imigrantes. O crescimento de uma direita abertamente fascista tamb\u00e9m \u00e9 um &nbsp;en\u00f3meno real ainda que mais marginal, que se pode ver tamb\u00e9m na Gr\u00e9cia e na Hungria, assim como na viragem \u00e0 direita do governo de Erdogan na Turquia. Tempos perigosos est\u00e3o de volta \u00e0 Europa.<\/p>\n<p><strong>Colocar a esquerda em marcha contra a a xenofobia e a austeridade<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, no entanto, uma fatalidade a ascens\u00e3o da extrema-direita. Trata-se de uma disputa pelo futuro da Europa e pela consci\u00eancia dos trabalhadores e at\u00e9 das classes m\u00e9dias em que a esquerda deve colocar-se na ofensiva. Os \u00faltimos dias d\u00e3o-nos sinais de como isso pode ser feito. \u00c0 porta do encontro de Koblenz, manifestaram-se cerca de 3 mil pessoas. O protesto contava com uma convocat\u00f3ria ampla, que ia desde o partido de esquerda Die Linke, ao SPD, incluindo diversos sindicatos. As manifesta\u00e7\u00f5es por todo o mundo contra Trump tamb\u00e9m s\u00e3o o exemplo da unidade de ac\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria nas ruas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da unidade de ac\u00e7\u00e3o nas ruas, \u00e9 preciso levantar uma alternativa de esquerda para a crise europeia, que se oponha \u00e0s propostas nacionalistas e xen\u00f3fobas, mas tamb\u00e9m \u00e0 austeridade, ao Euro e aos actuais governos europeus, de centro-esquerda ou centro-direita. A forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica Anticapitalistas, corrente interna do Podemos espanhol veio propor-se recentemente a organizar uma grande Confer\u00eancia Anti-Fascista em Madrid, com toda a esquerda da Europa e dos EUA. A possibilidade de organizar um evento com muito mais for\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o que o encontro de Koblenz \u00e9 real. Seria uma express\u00e3o de que as for\u00e7as sociais e pol\u00edticas necess\u00e1rias para travar a ultra-direita existem. Por\u00e9m n\u00e3o basta juntar gente em Confer\u00eancias e mesmo nas ruas, \u00e9 preciso apontar um caminho de ruptura alternativo ao que a extrema-direita prop\u00f5e.<\/p>\n<p><strong>Uma alternativa ao euro e \u00e0 UE, que una os povos numa alian\u00e7a pelo pleno emprego, contra a pol\u00edtica imperialista da UE dentro e fora das suas fronteiras, pelo acolhimento e integra\u00e7\u00e3o dos refugiados, pelo fim imediato de toda a austeridade e a reconstru\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a social na Europa. S\u00f3 a aus\u00eancia desta perspetiva anticapitalista por parte da esquerda \u00e9 que pode permitir que a extrema-direita cres\u00e7a. Por\u00e9m \u00e9 preciso ultrapassar as limita\u00e7\u00f5es que a experi\u00eancia grega apontou: s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel salvar os povos europeus rompendo com o Euro e a UE, sem governar com os partidos da austeridade, de centro-esquerda e centro direita. Sem uma ofensiva unit\u00e1ria da esquerda em torno de um programa de ruptura, ser\u00e1 a extrema-direita a destruir a Uni\u00e3o Europeia, para substitui-la por diversos projectos nacionalistas e imperialistas, amea\u00e7ando o velho continente.<\/strong><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>NOTAS<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><sup><span style=\"font-size: 10pt;\">1<\/span><\/sup> <span style=\"font-size: 10pt;\">Burka: v\u00e9u isl\u00e2mico integral, que, na verdade, \u00e9 muito raro nas comunidades turcas e \u00e1rabes que vivem na Alemanha;<\/span><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEstamos vendo o fim de um mundo e o nascimento de um novo\u201d. 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