{"id":227,"date":"2010-05-20T19:10:31","date_gmt":"2010-05-20T18:10:31","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/05\/20\/apontamentos-desde-a-grecia-ii\/"},"modified":"2010-05-20T19:10:31","modified_gmt":"2010-05-20T18:10:31","slug":"apontamentos-desde-a-grecia-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/05\/20\/apontamentos-desde-a-grecia-ii\/","title":{"rendered":"Apontamentos desde a Gr\u00e9cia (II)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-226\" alt=\"Manifesta\u00e7\u00e3o na Gr\u00e9cia em dia de greve geral\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/arton319.jpg?resize=262%2C337\" style=\"margin-right: 10px; float: left;\" width=\"262\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/arton319.jpg?w=262 262w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/arton319.jpg?resize=233%2C300 233w\" sizes=\"(max-width: 262px) 100vw, 262px\" \/>Hoje vou falar um pouco sobre o que fez rebentar a ira dos trabalhadores gregos bem como sobre outros elementos interessantes que est\u00e3o presentes na actual situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica grega. O governo do suposto \u201cpartido socialista\u201d (Pasok) resolveu, para atacar aquilo a que chamam de crise, cortar nos sal\u00e1rios dos trabalhadores, primeiro de todos os funcion\u00e1rios p\u00fablicos e pensionistas e j\u00e1 se fala que o far\u00e3o para os trabalhadores do sector privado. Os cortes s\u00e3o na ordem, em muitos dos casos, de cerca de 30% do sal\u00e1rio e por m\u00eas. A particularidade da realidade grega \u00e9 que devido \u00e0s (m\u00e1s) negocia\u00e7\u00f5es das burocracias sindicais com o poder ao longo dos \u00faltimos anos, um funcion\u00e1rio p\u00fablico tinha um (relativo) baixo sal\u00e1rio, na ordem de uns 800 euros mas que era compensado com v\u00e1rios extras (de acordo com o facto de se t\u00eam filhos a cargo, se dominam outras l\u00ednguas, etc) com o que poderiam fazer crescer o sal\u00e1rio para quase o dobro. Os cortes, calcula-se que em muitos casos podem atingir cerca de 300 euros por m\u00eas ou um pouco mais, o que equivale a uma renda de casa, por exemplo.  <!--more-->  <br \/>Desde que cheguei a Atenas que me intrigava como se processaria uma greve geral na Gr\u00e9cia. Primeiro, se parariam todos e a maioria dos sectores do mundo do trabalho, segundo, se se realizariam ao mesmo tempo (e sempre) greves gerais e grandes manifesta\u00e7\u00f5es de rua. Na verdade, em Portugal, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem havido greves gerais (a \u00faltima teve lugar a 30 de Maio de 2007 e n\u00e3o foi t\u00e3o geral assim), nem foi seguida de nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o no mesmo dia. Pois na Gr\u00e9cia, todas as greves gerais s\u00e3o com manifesta\u00e7\u00f5es de rua (e n\u00e3o s\u00f3 em Atenas em que na recente greve geral de 5 de Maio estiveram na rua, s\u00f3 em Atenas 350.000 pessoas) e igualmente seguidas com massivas manifesta\u00e7\u00f5es em muitas outras cidades gregas. Um dirigente do OKDE dizia-nos que h\u00e1 uma forte tradi\u00e7\u00e3o de democracia oper\u00e1ria na Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores que permite que todas as correntes se manifestem e mobilizem para estas gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es de rua. Mas h\u00e1 um outro factor, digamos que mais forte ainda, a maioria que se desloca \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 espont\u00e2nea, n\u00e3o \u00e9 controlada por ningu\u00e9m, vem descarregar a sua raiva contra as medidas de austeridade do governo. Os sindicatos est\u00e3o l\u00e1 com as suas (cada vez mais ex\u00edguas) colunas mas onde predomina os trabalhadores an\u00f3nimos, que n\u00e3o se rev\u00eaem em nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica nem em nenhuma estrutura sindical. Um exemplo s\u00f3. A central sindical que chamou \u00e0 \u00faltima greve geral e manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 dirigida por um dirigente sindical pr\u00f3ximo do partido do governo e para protegerem o homem (e o seu discurso de ocasi\u00e3o) de uma \u2018chuva\u2019 de pedras, frutas ou ovos por parte da maioria da manifesta\u00e7\u00e3o, as primeiras filas eram ocupadas por adeptos do dito dirigente sindical e as \u2018pancartas\u2019 eram levantadas bem no alto para evitar que este fosse atingido no palco, a tal ponto que nem se quer se via a cara do orador. Contudo, estas manifesta\u00e7\u00f5es fazem-me recordar as mais recentes manifesta\u00e7\u00f5es de massas de professores em Portugal, entre 2005 e 2008 (com mais de 100.000 professores), em que as pessoas deslocavam-se a um acto convocado pelo sindicato mas a larga maioria nada tinha que ver com o sindicato e, muito provavelmente, nem sindicalizado estava. Ainda que, neste caso, reconhecessem alguma credibilidade a quem iria discursar. N\u00e3o esque\u00e7amos que nestas manifesta\u00e7\u00f5es, em Portugal, predominam figuras pr\u00f3ximas de algu\u00e9m que faz oposi\u00e7\u00e3o ao governo do PS e que na Gr\u00e9cia a manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cpresidida\u201d por um dirigente sindical pr\u00f3ximo do partido do governo ainda que a larga maioria dos presentes na manifesta\u00e7\u00e3o nada tenham que ver nem com o partido do governo nem com nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Outra particularidade da realidade grega na base da classe trabalhadora e que provavelmente antecipa muito do que a\u00ed vem em outros pa\u00edses, \u00e9 o surgimento daquilo que os gregos chamam de sindicatos de base e por empresa. Uma camarada do OKDE \u00e9 trabalhadora da empresa mundialmente conhecida Vodafone, com mais de 1500 trabalhadores s\u00f3 em Atenas. Contava-nos ela que h\u00e1 pouco tempo ela e mais dois ou tr\u00eas colegas propuseram-se construir um sindicato, ao que aderiram rapidamente algumas centenas de trabalhadores. E n\u00e3o se trata de um sindicato paralelo a nada que exista (pelo menos a classe n\u00e3o o sente assim) dado que os \u2018velhos\u2019 sindicatos nunca l\u00e1 foram para realizar reuni\u00e3o nenhuma nem para organizar ningu\u00e9m. Assim, meias d\u00fazia de revolucion\u00e1rios, em duas empresas distintas, podem dirigir dois sindicatos num \u00e1pice. Isto est\u00e1 a acontecer por muitas empresas por toda a a Gr\u00e9cia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje vou falar um pouco sobre o que fez rebentar a ira dos trabalhadores gregos bem como sobre outros elementos interessantes que est\u00e3o presentes na actual situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica grega. 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