{"id":2269,"date":"2017-01-10T10:39:26","date_gmt":"2017-01-10T09:39:26","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2017\/01\/10\/mario-soares-um-ebert-portugues\/"},"modified":"2017-01-10T10:39:26","modified_gmt":"2017-01-10T09:39:26","slug":"mario-soares-um-ebert-portugues","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2017\/01\/10\/mario-soares-um-ebert-portugues\/","title":{"rendered":"M\u00e1rio Soares, um Ebert portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre os louvores p\u00f3stumos que a direita dedica a M\u00e1rio Soares conta-se, principalmente, o de ter sabido recusar o destino de um \u201cKerensky portugu\u00eas\u201d. \u00c9 verdade: Soares teve a habilidade, e tamb\u00e9m a sorte, de escapar a esse destino. Se se pode comparar a algu\u00e9m, \u00e9 a Friedrich Ebert, coveiro da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Como todas, tamb\u00e9m essa compara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica tem os seus limites. Ebert era um t\u00edpico rebento da aristocracia oper\u00e1ria, dirigente do maior partido social-democrata do mundo. Com todo o aparelho do partido, apoiara o militarismo prussiano durante a guerra e tornara-se, na sua fase final, parte integrante do governo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era f\u00e1cil estar no poder e, de repente, ter de disfar\u00e7ar-se de revolucion\u00e1rio, quando, em Novembro de 1918, a revolu\u00e7\u00e3o irrompeu vitoriosa e derrrubou esse poder. Ebert ainda vociferou contra o seu camarada Scheidemann, quando este fez coro com o povo insurrecto para proclamar o fim da monarquia. Depois habituou-se \u00e0 ideia da rep\u00fablica e foi o seu primeiro presidente.<\/p>\n<p>Em todo o caso, esta promo\u00e7\u00e3o de um oper\u00e1rio social-democrata e mon\u00e1rquico a supremo magistrado da rep\u00fablica burguesa n\u00e3o era principalmente um produto da agilidade vira-casacas de Ebert, limitada como vimos, mas sobretudo de uma burguesia alem\u00e3 muito mais s\u00f3lida que a russa, mais h\u00e1bil, mais r\u00e1pida em convocar elei\u00e7\u00f5es constituintes. Havia, al\u00e9m disso, uma conjuntura em certo sentido mais favor\u00e1vel do que na R\u00fassia: a Alemanha estava derrotada e j\u00e1 n\u00e3o era precisa uma segunda revolu\u00e7\u00e3o para acabar com a guerra.<\/p>\n<p><strong>Ebert e Soares<\/strong><\/p>\n<p>Diferente de Ebert em v\u00e1rios aspectos importantes, M\u00e1rio Soares n\u00e3o era um aristocrata oper\u00e1rio, e sim um burgu\u00eas de robusta forma\u00e7\u00e3o republicana (com um breve devaneio juvenil estalinista). N\u00e3o encabe\u00e7ava partido algum, nem grande nem pequeno: a sua influ\u00eancia limitava-se inicialmente a algumas tert\u00falias de profissionais liberais, muito pouco decididos a formalizarem a cria\u00e7\u00e3o de um partido, para n\u00e3o se exporem a uma maior repress\u00e3o. Ganhou prest\u00edgio como advogado de presos pol\u00edticos, rompeu a frente eleitoral da oposi\u00e7\u00e3o em 1969 e demarcou-se do PCP para abrir caminho \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o de um partido social-democrata. Mas todo esse c\u00e1lculo falhou, porque a \u201cprimavera marcelista\u201d n\u00e3o continha em si qualquer perspectiva bipartid\u00e1ria. Ela era, afinal, o outono da ditadura \u2013 duro, repressivo, intrat\u00e1vel e unipartid\u00e1rio como sempre.<\/p>\n<p>Bem longe da superpot\u00eancia social-democrata alem\u00e3, a corrente de Soares n\u00e3o teve ministros no governo final da ditadura, e nem sequer conseguiu ser legalizada. O Congresso de funda\u00e7\u00e3o do PS, realizado em 1973, em Bad M\u00fcnstereifel, simbolicamente sob a asa protectora da Funda\u00e7\u00e3o Friedrich Ebert, cabia em tr\u00eas ou quatro t\u00e1xis. Quando caiu a ditadura, o PS fundado de fresco compensou a sua fraqueza com uma inflamada ret\u00f3rica de esquerda: come\u00e7ou logo com o discurso de M\u00e1rio Soares no 1\u00ba de Maio, enfeitou-se um pouco mais com o recrutamento de um Palma In\u00e1cio, culminou num congresso cheio de discurso autogestion\u00e1rio. Mas o discurso eram palavras e a pol\u00edtica verdadeira devia ficar nas m\u00e3os da direita social-democrata: o mesmo congresso que falava em autogest\u00e3o liquidava a ala esquerda de Manuel Serra.<\/p>\n<p>Contrastando com a revolu\u00e7\u00e3o russa, tanto a alem\u00e3 de 1918 como a portuguesa de 1974 come\u00e7aram com a guerra praticamente terminada: menos uma arma decisiva nas m\u00e3os da esquerda que quisesse levar mais longe a revolu\u00e7\u00e3o, fazer na segunda aquilo que faltara na primeira.<\/p>\n<p><strong>Soares e o putschismo spinolista<\/strong><\/p>\n<p>Contrastando tamb\u00e9m com a revolu\u00e7\u00e3o russa, tanto a burguesia alem\u00e3 como a portuguesa se decidiram pela organiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es constituintes. Nisso, contudo, Ebert venceu os seus resqu\u00edcios mon\u00e1rquicos rapidamente e foi mais expedito do que Soares: em Janeiro de 1919, dois meses depois de derrubada a monarquia, estavam feitas as elei\u00e7\u00f5es. Soares ainda come\u00e7ou por vacilar sobre a estrat\u00e9gia plebiscit\u00e1ria de Palma Carlos em Julho e teve um perfil apagado e amb\u00edguo na resist\u00eancia ao golpe spinolista de Setembro.&nbsp;<\/p>\n<p>A ambiguidade debilitou-o politicamente e f\u00ea-lo duvidar da sua for\u00e7a para ser opor \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o da unicidade sindical. Foi Salgado Zenha a impor-se e a trazer o PS para a rua contra a unicidade. O PS perdeu a batalha, mas come\u00e7ou a demarcar-se do PCP e a preparar o terreno para uma cerrada disputa do eleitorado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m perante o golpe spinolista de 11 de Mar\u00e7o Soares voltou a ter uma atitude amb\u00edgua e mesmo suspeita. Quem tinha clareza estrat\u00e9gica, neste caso, n\u00e3o era ainda Soares, nem era j\u00e1 Salgado Zenha, mas o embaixador norte-americano, Frank Carlucci: ele, que sabia mais de golpes militares do que ningu\u00e9m, percebeu que a receita pinochetista-spinolista n\u00e3o servia para a situa\u00e7\u00e3o portuguesa de 1975. Cultivou as suas rela\u00e7\u00f5es com o mesmo MFA que se tinha oposto \u00e0 estrat\u00e9gia plebiscit\u00e1ria-golpista e conseguiu que este, em boa l\u00f3gica, garantisse a realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Estas n\u00e3o se realizavam dois meses depois, e sim um ano depois de irromper a revolu\u00e7\u00e3o. A burguesia portuguesa tinha perdido tempo e pagava o pre\u00e7o: o sector financeiro, a grande ind\u00fastria e a grande propriedade agr\u00e1ria expropriados. Mas o importante era que o poder passasse para m\u00e3os fi\u00e1veis. A vit\u00f3ria do PS nas elei\u00e7\u00f5es surpreendeu o pr\u00f3prio Soares e confirmou a estrat\u00e9gia de Carlucci.<\/p>\n<p><strong>Soares e o trunfo eleitoral<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, Soares tornou-se o grande paladino da Constituinte e sugou at\u00e9 ao tutano o capital pol\u00edtico que ela lhe tinha fornecido. Juntou o m\u00e9todo de Zenha, ao chamar \u00e0 rua uma coliga\u00e7\u00e3o de todas as direitas; e a bandeira de Carlucci, ao invocar a legitimidade eleitoral. Com estes dois ingredientes, assaltaram-se sedes partid\u00e1rias de esquerda, fez-se do \u201cRep\u00fablica\u201d e da R\u00e1dio Renascen\u00e7a temas internacionais, encheu-se a Alameda e derrubou-se o \u00faltimo governo gon\u00e7alvista.<\/p>\n<p>Mesmo assim, quando chegou o 25 de Novembro, n\u00e3o era Soares quem tinha assimilado mais plenamente a orienta\u00e7\u00e3o de Carlucci. Com boa parte da direc\u00e7\u00e3o do PS, ele meteu-se a caminho do Porto, para preparar o assalto \u00e0 \u201cComuna de Lisboa\u201d \u2013 isto \u00e9, a guerra civil. Quem seguiu at\u00e9 ao fim a cartilha de Carlucci foram Costa Gomes e Melo Antunes, que permaneceram no seu posto e negociaram com o PCP uma sa\u00edda quase sem sangue.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria dos militares novembristas abriu a Soares o caminho do poder. Ao leme da barca do Estado, com a revolu\u00e7\u00e3o derrotada, imp\u00f4s uma violenta pol\u00edtica de austeridade e um desmantelamento sistem\u00e1tico das conquistas do PREC. A demagogia pseudo-esquerdista tornava-se, nesse novo contexto, sup\u00e9rflua. Mas Soares, com a sua inesgot\u00e1vel imagina\u00e7\u00e3o, ainda conseguia fazer-nos sorrir quando, ao alcan\u00e7ar esse outro grande des\u00edgnio da sua pol\u00edtica \u2013 a ades\u00e3o \u00e0 CEE -, se justificava dizendo que n\u00e3o era poss\u00edvel \u201cconstruir o socialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Mas tamb\u00e9m, para qu\u00ea tanto empenhamento em criar um quadro internacional de viabiliza\u00e7\u00e3o do socialismo, se, no p\u00f3s-25 de Novembro, este era afinal para meter na gaveta?&nbsp;<\/p>\n<p>Soares n\u00e3o foi, muitas vezes, o primeiro nem o mais brilhante inventor de inova\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas. Foi a reboque de Sp\u00ednola e Palma Carlos durante um tempo, depois seguiu Zenha, depois Carlucci, depois beneficiou do sangue frio de Costa Gomes e Melo Antunes. Mas foi o \u201canimal pol\u00edtico\u201d que soube sempre articular os lampejos inspirados de outros e transform\u00e1-los numa campanha por um democracia musculada ao servi\u00e7o da burguesia.<\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os louvores p\u00f3stumos que a direita dedica a M\u00e1rio Soares conta-se, principalmente, o de ter sabido recusar o destino de um \u201cKerensky portugu\u00eas\u201d. \u00c9 verdade: Soares teve a habilidade, e tamb\u00e9m a sorte, de escapar a esse destino. Se se pode comparar a algu\u00e9m, \u00e9 a Friedrich Ebert, coveiro da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2268,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[31],"tags":[1016,1017,228,1015,1014,114,145,609,247],"class_list":["post-2269","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-1016","tag-1017","tag-25-de-abril","tag-antonio-louca","tag-mario-soares","tag-mas","tag-movimento-alternativa-socialista","tag-pcp","tag-ps"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/mariosoares4.jpg?fit=1600%2C1196","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2269"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2269\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2268"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}