{"id":2265,"date":"2016-12-31T20:29:43","date_gmt":"2016-12-31T19:29:43","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/31\/apos-o-ano-da-geringonca-comecar-2017-com-o-pe-esquerdo\/"},"modified":"2016-12-31T20:29:43","modified_gmt":"2016-12-31T19:29:43","slug":"apos-o-ano-da-geringonca-comecar-2017-com-o-pe-esquerdo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/31\/apos-o-ano-da-geringonca-comecar-2017-com-o-pe-esquerdo\/","title":{"rendered":"Ap\u00f3s o ano da Geringon\u00e7a, come\u00e7ar 2017 com o p\u00e9 esquerdo"},"content":{"rendered":"\n<p>Portugal, como muitas vezes acontece na nossa Hist\u00f3ria, parece viver numa bolha isolada do mundo. 2016 foi o ano da vit\u00f3ria de Trump, da ousadia de Putin, do massacre de Aleppo, da crise dos refugiados: o inaugurar de uma nova era dos extremos. Por c\u00e1, em 2016, o centro pol\u00edtico restabeleceu-se.<\/p>\n<p>  <!--more-->  A estabilidade foi alcan\u00e7ada e a f\u00e9 no sistema pol\u00edtico, conjunturalmente, restabelecida. 2016 foi o ano de gra\u00e7a da Geringon\u00e7a e de Marcelo Rebelo de Sousa. A vit\u00f3ria de Marcelo, o seu estilo hipercativo e a sua pol\u00edtica consensualista, repuseram a for\u00e7a do \u201cextremo centro\u201d pol\u00edtico assente em PS e PSD, na obsess\u00e3o do d\u00e9fice e subservi\u00eancia a Bruxelas. <strong>Ant\u00f3nio Costa, embalado pelo seu optimismo falsamente social-democrata n\u00e3o faltou \u00e0 chamada, e ajudado por BE e PCP, salvou o PS da crise em que caem os seus partidos irm\u00e3os por toda a Europa. A exist\u00eancia da Geringon\u00e7a a anulou a exist\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o: a esquerda passou a integrar o arco de governo e a direita ofendida a sem espa\u00e7o pol\u00edtico resume-se a esperar pelo \u201cdiabo\u201d, ou pela sa\u00edda de Passos Coelho, para se poder renovar. <\/strong>A chamada devolu\u00e7\u00e3o de rendimentos ficou aqu\u00e9m das necessidades, assim como das possibilidades. Perante o aumento dos pre\u00e7os, das rendas e o endividamento das fam\u00edlias, n\u00e3o melhorou o n\u00edvel de vida. As mudan\u00e7as centrais impostas pela troika \u00e0 estrutura econ\u00f3mica do pa\u00eds e \u00e0 vida dos trabalhadores n\u00e3o sofrem nem sofrer\u00e3o altera\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3os do PS. Por\u00e9m, \u201cenquanto o pau vai-e-vem, folgam as costas\u201d. E na necessidade de ter f\u00e9 em algo, trabalhadores e jovens apegam-se ao mal menor da geringon\u00e7a. <\/p>\n<p>Por\u00e9m este estado de gra\u00e7a n\u00e3o ser\u00e1 eterno. <strong>A crise banc\u00e1ria, nacional e europeia, os conflitos internacionais e as conting\u00eancias da austeridade far\u00e3o balan\u00e7ar o barco. E 2016 mostra-nos que a direita n\u00e3o tem dificuldades em ser audaz para aproveitar o descr\u00e9dito de governos que desiludem a sua base social ou surfar a indigna\u00e7\u00e3o gerada pelas press\u00f5es austerit\u00e1rias de Bruxelas.<\/strong> Estar\u00e1 a esquerda preparada para as perigosas esquinas da hist\u00f3ria que se avizinham? Ser\u00e1 sensato colocar todas as fichas na Geringon\u00e7a, na estrat\u00e9gia de empurrar para a esquerda um governo que, cedo ou tarde, vai atolar-se ao centro e pender para a direita? <strong>2016 foi o ano em que a esquerda nacional, pelo menos os seus grandes representantes, BE, PCP e CGTP, deixaram de ter uma estrat\u00e9gia de futuro. Acomodaram-se a viver para o amanh\u00e3: para a pr\u00f3xima medida parlamentar, para a pr\u00f3xima pol\u00e9mica nos jornais, para o pr\u00f3ximo elogio ao PS, sempre seguido de alguma cr\u00edtica artificialmente &#8220;dura\u201d que cada vez convence menos.<\/strong><\/p>\n<p>A classe dominante n\u00e3o est\u00e1 a dormir. Tem em Costa um representante moderado, ainda que preso ao \u201cempecilho\u201d da geringon\u00e7a, e em Passos um outro empecilho a resolver, no entanto ela move-se. As mais recentes negocia\u00e7\u00f5es da Concerta\u00e7\u00e3o Social, em que a migalha do aumento m\u00ednimo do sal\u00e1rio foi transformada numa c\u00f4dea para os trabalhadores roerem, s\u00e3o exemplificativas. A CIP e a burguesia, patrocinados por Marcelo e com a aceita\u00e7\u00e3o do governo, fizeram o trabalho de casa: disputaram, regatearam e pressionaram. A esquerda descansou \u00e0 sombra da Geringon\u00e7a: baixou as suas linhas vermelhas, n\u00e3o saiu \u00e0 rua e confiou no governo. A passa, essa, saiu aos trabalhadores. Este cen\u00e1rio vai repetir-se em 2017 e, acomodados como est\u00e3o, BE, PCP e CGTP, arriscam-se a acordar quando j\u00e1 for tarde mais.<\/p>\n<p><strong>2017 deve ser por isso momento de virar o bico a este prego. Portugal n\u00e3o existe fora do mundo e a nova era dos extremos que nos entra pelo telejornal, em breve entrar\u00e1 pela porta de casa e do trabalho. Nesse momento ser\u00e1 tarde de mais para nos prepararmos: as guerras de amanh\u00e3 vencem-se hoje. <\/strong>Por isso \u00e9 necess\u00e1rio reconstruir um polo de oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao governo. Seja no campo pol\u00edtico, seja no campo sindical. A CGTP retirou-se de cena em 2016 \u2013 a recente desconvoca\u00e7\u00e3o da greve do <em>handling<\/em> com base em promessas do governo \u00e9 disso sinal &#8211; e a UGT parece mais moderada que o governo. No entanto nas empresas tudo est\u00e1 como antes e cada vez mais activistas e dirigentes sindicais se indagam sobre o que fazer. <strong>\u00c9 necess\u00e1rio unir na ac\u00e7\u00e3o e no debate sindicatos, comiss\u00f5es de trabalhadores e sindicalistas que queiram reconstruir uma estrat\u00e9gia de luta, democracia e de independ\u00eancia face ao governo.<\/strong><\/p>\n<p>Mas a resposta n\u00e3o pode ser meramente sindical: <strong>\u00e9 preciso demonstrar aos trabalhadores que existe alternativa pol\u00edtica para o pa\u00eds para l\u00e1 da direita e da Geringon\u00e7a. Que \u00e9 poss\u00edvel subir sal\u00e1rios e criar emprego rompendo com o euro e com as regras da Uni\u00e3o Europeia. Que \u00e9 poss\u00edvel unir dos debaixo, contra os patr\u00f5es, se combatermos o machismo e o racismo e levantarmos as bandeiras dos trabalhadores mais oprimidos. Por isso a par com a maior unidade de ac\u00e7\u00e3o nas lutas sindicais, \u00e9 necess\u00e1rio apoiar as lutas dos seus sectores mais oprimidos. 2017 \u00e9 o ano para se apostar na campanha unit\u00e1ria pela altera\u00e7\u00e3o da lei da nacionalidade, que tanto afecta trabalhadores e jovens negros, assim como na prepara\u00e7\u00e3o de uma grande manifesta\u00e7\u00e3o no dia 8 de mar\u00e7o, que mobilize as trabalhadoras e jovens, de forma independente do governo.<\/strong> N\u00e3o deixar que seja o PS a apropriar-se destas causas \u00e9 essencial \u2013 como tentou este ano na Marcha de Orgulho Gay e na Manifesta\u00e7\u00e3o contra a Viol\u00eancia sobre a Mulher &#8211; pois essa \u00e9 a estrat\u00e9gia do governo para controlar esses sectores.<\/p>\n<p><strong>O desafio mais essencial para a esquerda em 2017 \u00e9 o de construir uma nova mensagem. Demonstrar que \u00e9 poss\u00edvel governar sem os partidos que afundaram o pa\u00eds, a direita e o PS. \u00c9 preciso dizer quem diga bem alto que cabe ao Bloco de Esquerda e ao PCP rejeitar a alian\u00e7a com Ant\u00f3nio Costa e disputarem um verdadeiro governo unit\u00e1rio e de esquerda.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para isso \u00e9 preciso abrir os canais de discuss\u00e3o e de ac\u00e7\u00e3o conjunta entre aqueles que fora de BE e PCP ou entre as fileiras destes partidos, partilham da necessidade de abrir um novo rumo \u00e0 esquerda. Essa \u00e9 uma tarefa essencial para 2017. Para que seja o ano em que volta a haver uma esquerda com peso, independente do governo, que possa combater a direita e o PS. <\/strong>Por fim, sendo o centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, num momento em que a crise capitalista volta a expressar-se das mais diversas formas, h\u00e1 que aproveitar para reabrir um debate mais estrat\u00e9gico \u00e0 esquerda. Um debate entre os que se reivindicam da revolu\u00e7\u00e3o russa, mas se considera opostos ao estalinismo e \u00e0 deforma\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica que marcou a maior parte da vida da URSS, Cuba e China, para come\u00e7ar a reconstruir uma esquerda revolucion\u00e1ria cada vez maior e mais forte em Portugal.<\/p>\n<p>Se o tempo \u00e9 de acalmia hoje no pa\u00eds, em breve ser\u00e1 de novo de tormenta e as esperan\u00e7as que hoje se depositam no governo e no presidente e no seu espet\u00e1culo demag\u00f3gico, amanh\u00e3 procurar\u00e3o alternativas por fora do centro pol\u00edtico. 2016, com Trump, Putin, Le Pen ou o Brexit, foi a direita quem lhes ofereceu essa alternativa radical. Quem 2017 seja o ano em que as alternativas fraturantes venham da esquerda, que em Portugal aproveitemos o actual interregno para tomarmos a iniciativa. Em 2017, a sa\u00edda \u00e9 pela esquerda!<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o de H\u00e9lder Oliveira<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal, como muitas vezes acontece na nossa Hist\u00f3ria, parece viver numa bolha isolada do mundo. 2016 foi o ano da vit\u00f3ria de Trump, da ousadia de Putin, do massacre de Aleppo, da crise dos refugiados: o inaugurar de uma nova era dos extremos. Por c\u00e1, em 2016, o centro pol\u00edtico restabeleceu-se.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2264,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[31],"tags":[1013],"class_list":["post-2265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-geringonca-governo-ps-pcp-be-balanco-ano-novo-2016-2017-luta-mas-movimento-alternativa-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/geringonca1.jpg?fit=620%2C395","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2265"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2265\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2264"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}