{"id":2263,"date":"2016-12-31T20:04:37","date_gmt":"2016-12-31T19:04:37","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/31\/optimismo-e-pessimismo-sobre-2016-e-muitas-outras-coisas\/"},"modified":"2016-12-31T20:04:37","modified_gmt":"2016-12-31T19:04:37","slug":"optimismo-e-pessimismo-sobre-2016-e-muitas-outras-coisas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/31\/optimismo-e-pessimismo-sobre-2016-e-muitas-outras-coisas\/","title":{"rendered":"Optimismo e Pessimismo, sobre 2016 e muitas outras coisas"},"content":{"rendered":"\n<p>Ainda existem reservas para lutar, os que trabalham est\u00e3o longe de estar derrotados e podem disputar a sa\u00edda para a crise. Faz falta retomar a ofensiva e apontar as sa\u00eddas estrat\u00e9gicas que fa\u00e7am os trabalhadores sentirem que podem vencer. Nesse momento, n\u00e3o nos faltar\u00e3o \u00e0 chamada.<\/p>\n<p>  <!--more-->  Cada vez mais, os dias 31 de dezembro e 1 de janeiro s\u00e3o dias normais, de trabalho. \u00c9 assim para os trabalhadores da restaura\u00e7\u00e3o, dos bares, da hotelaria, mas tamb\u00e9m nos call-centers, nos transportes ou em algumas f\u00e1bricas. \u00c9 para estes que vai a nossa primeira sauda\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Mas estas s\u00e3o tamb\u00e9m tradicionalmente datas dadas ao balan\u00e7o dos tempos recentes e a tra\u00e7ar as perspetivas dos tempos futuros. 2016 foi um ano que clama por esse balan\u00e7o: demasiadas mudan\u00e7as e conflitos inesperados irromperam \u00e0 superf\u00edcie nos \u00faltimos 366 dias \u2013 sim, foi um ano bissexto! \u2013 para que n\u00e3o paremos para pensar.<\/p>\n<p><strong>Neste ano muitos dos desequil\u00edbrios latentes ap\u00f3s a crise de 2008 expressaram-se \u00e0 superf\u00edcie, mostrando a cara feia e os dentes arreganhados do capitalismo. Uma nova rela\u00e7\u00e3o entre os grandes estados do mundo parece come\u00e7ar a desenhar-se, embora os contornos da nova ordem ainda sejam incertos.<\/strong> O papel agressivo da R\u00fassia, primeiro na Ucr\u00e2nia e depois na S\u00edria \u00e9 evidente. Assim como as tens\u00f5es entre China e EUA, sobretudo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump. A corrida armamentista, nos mares do Sul do pac\u00edfico, mas n\u00e3o s\u00f3, come\u00e7ou silenciosa, e terminou o ano nas bocas de Trump e Putin. A decad\u00eancia da Uni\u00e3o Europeia tamb\u00e9m teve um novo e qualitativo rev\u00e9s, o \u201cBrexit\u201d, surfado pela direita xen\u00f3foba. <strong>A subida eleitoral e a capacidade de iniciativa da extrema-direita, em Inglaterra, na Alemanha ou na Fran\u00e7a, Holanda e \u00c1ustria, s\u00e3o sinais de que a desfragmenta\u00e7\u00e3o da ordem pol\u00edtica tradicional est\u00e1 a ser agressivamente disputada pelas fra\u00e7\u00f5es mais reacion\u00e1rias das classes dominantes. <\/strong>A vit\u00f3ria de Trump nas presidenciais norte-americanas \u00e9 o exemplo mais evidente da sa\u00edda agressiva que o capitalismo prepara para a sua pr\u00f3pria crise. \u00c9 tamb\u00e9m sinal da abertura do maior imp\u00e9rio para negociar rearranjos na hierarquia entre estados, aceitando um equil\u00edbrio tenso com a R\u00fassia \u2013 por quanto tempo? 2016 foi o ano em que fica evidente que as rela\u00e7\u00f5es mundiais herdadas de Breton Woods e da queda do muro de Berlim podem ser postas em causa. N\u00e3o necessariamente para mudar para melhor.<\/p>\n<p><strong>A Europa vive um renascer dos nacionalismos, sobretudo dentro dos pa\u00edses imperialistas centrais, despertando os mais amea\u00e7adores fantasmas do s\u00e9culo XX. O surto de ataques terroristas no centro da Europa alimenta e alimenta-se desse ciclo vicioso: 2016 voltou a lembrar-nos que a Europa \u00e9 demasiado grande, diversa e desenvolvida para as barreiras a que se autoimp\u00f4s. <\/strong>Desde os tratados austerit\u00e1rios da UE ao bloqueio de refugiados no porto de Calais, esta \u00e9 uma Europa que prende os povos e por isso refor\u00e7a a divis\u00e3o e os nacionalismos. Mas tamb\u00e9m o clamor por justi\u00e7a e igualdade.<\/p>\n<p>A degenera\u00e7\u00e3o da Guerra Civil S\u00edria e o seu culminar no cerco e bombardeamento de Aleppo foi talvez o palco onde as contradi\u00e7\u00f5es que marcaram todo o ano se tornaram mais gr\u00e1ficas. Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o, a guerra por procura\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias pot\u00eancias mundiais \u2013 R\u00fassia e EUA principalmente \u2013 ora dispostos a negociar ora a combater-se, o acirrar dos conflitos religiosos e nacionais assim como ao refor\u00e7o do ex\u00e9rcito-partido fundamentalista e fascista ISIS. O golpe contra Erdogan e o seu contragolpe, ao servi\u00e7o de um endurecimento do regime e de uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. E um povo isolado de quase toda a solidariedade que rejeita a rendi\u00e7\u00e3o, apesar de todas as for\u00e7as no terreno se terem empenhado em reduzir a sua revolu\u00e7\u00e3o a escombros. As imagens de protestos civis, em Damasco e Aleppo, parcos, mas reais, j\u00e1 ap\u00f3s a queda da cidade, mostram bem o esp\u00edrito de 2016 naquela regi\u00e3o que, h\u00e1 poucos anos, foi palco de poderosas revolu\u00e7\u00f5es. A incapacidade da esquerda mundial em levantar uma verdadeira campanha de solidariedade com Aleppo \u2013 j\u00e1 nem dizemos com a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria \u2013 \u00e9 o mais recente sinal de como a esquerda ainda n\u00e3o se localizou perante o ritmo das mudan\u00e7as nos equil\u00edbrios de for\u00e7a mundiais.<\/p>\n<p>\u00c9, no entanto, o adensar das nuvens de chumbo da rea\u00e7\u00e3o, que nos permite ver de forma mais cristalina a for\u00e7a dos trabalhadores que saem \u00e0 luta. Em 2016 voltou a reerguer-se o movimento Black Live Matters nos EUA, assim como lutas por sal\u00e1rios ou a vitoriosa greve dos professores de Chicago. Essa nova agita\u00e7\u00e3o das classes populares norte-americanas dos \u00faltimos anos inflou a primeira campanha presidencial de esquerda, como peso de massas, nos EUA em muitos anos. 2016 foi o ano de Trump mas tamb\u00e9m de Bernie. Uma onda tremendamente progressiva que s\u00f3 n\u00e3o foi mais al\u00e9m por o pr\u00f3prio Bernie Sanders se encontrar inabalavelmente ligado ao Partido Democrata de Hillary e Obama. Na Gr\u00e3-Bretanha um fen\u00f3meno semelhante expressou-se no Labor Party, onde Jeremy Corbyn consolidou a maioria do partido com uma orienta\u00e7\u00e3o fortemente \u00e0 esquerda da Terceira-Via Blairista. Este foi, at\u00e9 agora o caminho encontrado por uma parte dos jovens e trabalhadores brit\u00e2nicos para intervir na crise econ\u00f3mica e pol\u00edtica que tem abalado a Ilha de Sua Majestade nos \u00faltimos anos. 2016 viu as mulheres trabalhadoras sa\u00edrem \u00e0 rua em massa, com as suas reivindica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias \u2013 fim da viol\u00eancia machista, igualdade salarial e direito ao aborto \u2013 usando m\u00e9todos da classe trabalhadora, com greves e paralisa\u00e7\u00f5es na Pol\u00f3nia, Argentina e Isl\u00e2ndia. Em terras Belgas e sobretudo na Fran\u00e7a foi classe oper\u00e1ria, com poderosas greves, manifesta\u00e7\u00f5es e confrontos com a pol\u00edcia que lembraram que o melhor ariete dos oprimidos para romper o cerco da rea\u00e7\u00e3o \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva encabe\u00e7ada pelos batalh\u00f5es assalariados e oper\u00e1rios. Tamb\u00e9m em Portugal foi a poderosa e prolongada greve dos Estivadores a \u00fanica a romper o avan\u00e7o da apatia e a normaliza\u00e7\u00e3o da austeridade. A classe trabalhadora organizada \u00e9 quem pode, em 2017, fazer com que os pratos da balan\u00e7a voltem a pender para o lado dos povos.<\/p>\n<p><strong>2016 foi mais um ano em que se aprofundou a polariza\u00e7\u00e3o social mundial. De um lado, cada vez mais audazes, as for\u00e7as mais obscuras do capitalismo, armadas da xenofobia, da demagogia e da for\u00e7a bruta, para impor mais austeridade e explora\u00e7\u00e3o. Do outro, os trabalhadores, os povos e, sobretudo os mais oprimidos, as mulheres, os LGBT\u2019s, os negros e os emigrantes, resistindo \u00e0 ofensiva, tentando virar o tabuleiro e passar \u00e0 ofensiva. Devemos assumir, por\u00e9m, que em 2016, foi o polo mais reacion\u00e1rio quem esteve na ofensiva. <\/strong>N\u00e3o quer dizer que tenha sido assim em todos os momentos e lugares, mas globalmente, os trabalhadores sa\u00edram amargurados deste ano e os governantes do mundo mais confiantes. Em anos recentes foi o oposto: as revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes, o ascenso oper\u00e1rio e juvenil na Europa, depois no Brasil e os movimentos Ocuppy e outros por todo o mundo colocaram o sistema na defensiva. Pode voltar a ser assim. O ano de 2016 mostra que a ofensiva da direita \u2013 chamemos-lhe assim \u2013 n\u00e3o se deve a que esta tenha mais for\u00e7a que antes. Depois da crise aberta em 2008, as classes dominantes debatem-se em crises, perdas e divis\u00f5es internas. Por\u00e9m 2016 mostrou que quem tem dire\u00e7\u00e3o, convic\u00e7\u00e3o e ousadia marca pontos. E a burguesia mundial come\u00e7ou a faz\u00ea-lo. Trump, Putin e Le Pen s\u00e3o os rostos mais conhecidos dessa agressividade reacion\u00e1ria. J\u00e1 aos trabalhadores e os povos tem faltado essa ousadia, essa organiza\u00e7\u00e3o e ideias claras, enfim uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que os leve \u00e0 vit\u00f3ria. A velha esperan\u00e7a depositada nos partidos cl\u00e1ssicos da esquerda desvaneceu-se &#8211; este foi tamb\u00e9m o ano da grande crise do PT Brasileiro ou do PSOE espanhol. Mas a f\u00e9 nas novas alternativas eleitorais de esquerda viu-se grandemente abalada pela capitula\u00e7\u00e3o total do Syriza na Gr\u00e9cia, hoje um dos grandes implementadores da austeridade. Se em 2016 a balan\u00e7a pendeu para o lado da rea\u00e7\u00e3o foi porque faltaram dire\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda capazes de tirar conclus\u00f5es anticapitalistas da crise econ\u00f3mica e apontar sa\u00edda socialistas. Os audit\u00f3rios de massas insatisfeitas com o sistema foram lan\u00e7ados nas m\u00e3os da direita, por omiss\u00e3o da esquerda.<\/p>\n<p><strong>Isso n\u00e3o nos autoriza a entrarmos cabisbaixos em 2017. Pelo contr\u00e1rio! Ainda existem reservas para lutar, os que trabalham est\u00e3o longe de estar derrotados e podem disputar a sa\u00edda para a crise. Faz falta retomar a ofensiva e apontar as sa\u00eddas estrat\u00e9gicas que fa\u00e7am os trabalhadores sentirem que podem vencer. Nesse momento, n\u00e3o nos faltar\u00e3o \u00e0 chamada.<\/strong><\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, terminados recordando as palavras do jovem revolucion\u00e1rio Leon Trotsky, na viragem do s\u00e9culo XIX para o XXI quando as convuls\u00f5es que se j\u00e1 previam no horizonte faziam os c\u00e9pticos duvidar e os timoratos recuar:<\/p>\n<p>\u201cParece at\u00e9 que o novo s\u00e9culo, este gigante rec\u00e9m-chegado, est\u00e1 determinado mesmo no momento do seu surgimento a levar o otimista ao absoluto pessimismo e a um nirvana c\u00edvico.<\/p>\n<p>\u2013 Morte \u00e0 Utopia! Morte \u00e0 f\u00e9! Morte ao amor! Morte \u00e0 esperan\u00e7a! Esbraveja o s\u00e9culo vinte em salvas de fogo e ao retumbar das armas.<\/p>\n<p>\u2013 Renda-se seu pat\u00e9tico sonhador. Aqui estou eu, o seu t\u00e3o esperado s\u00e9culo vinte, o seu \u201cfuturo\u201d.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, responde o inabalado otimista: voc\u00ea, voc\u00ea \u00e9 apenas o presente.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda existem reservas para lutar, os que trabalham est\u00e3o longe de estar derrotados e podem disputar a sa\u00edda para a crise. Faz falta retomar a ofensiva e apontar as sa\u00eddas estrat\u00e9gicas que fa\u00e7am os trabalhadores sentirem que podem vencer. Nesse momento, n\u00e3o nos faltar\u00e3o \u00e0 chamada.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2262,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[31],"tags":[1012],"class_list":["post-2263","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-balanco-2016-ano-novo-2017-luta-mas-movimento-alternativa-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/iceland.jpg?fit=540%2C360","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2263"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2263\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2262"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}