{"id":2259,"date":"2016-12-26T15:24:31","date_gmt":"2016-12-26T14:24:31","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/26\/licoes-da-revolucao-siria-entrevista-com-ghayath-naisse-da-corrente-revolucionaria-de-esquerda\/"},"modified":"2016-12-26T15:24:31","modified_gmt":"2016-12-26T14:24:31","slug":"licoes-da-revolucao-siria-entrevista-com-ghayath-naisse-da-corrente-revolucionaria-de-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/26\/licoes-da-revolucao-siria-entrevista-com-ghayath-naisse-da-corrente-revolucionaria-de-esquerda\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria: entrevista com Ghayath Naisse, da Corrente Revolucion\u00e1ria de Esquerda"},"content":{"rendered":"\n<p>O Esquerda Online come\u00e7a a publicar v\u00e1rios materiais da esquerda s\u00edria para auxiliar na compreens\u00e3o do complexo processo vivido no pa\u00eds desde o levante de 2011.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <span style=\"font-style: italic; font-weight: bold;\">Nesta recente e longa entrevista, publicada recentemente na revista brit\u00e2nica&nbsp;International Socialism, o socialista revolucion\u00e1rio Ghayath Naisse, dirigente da Corrente Revolucion\u00e1ria de Esquerda, conversou com Simon Assaf sobre a brutaliza\u00e7\u00e3o na S\u00edria, os objetivos daqueles que est\u00e3o intervindo e as perspectivas para os socialistas na regi\u00e3o<\/span><sup><span style=\"font-size: 10pt;\">1<\/span><\/sup>. <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>SA: Come\u00e7ando com o imperialismo. O que aqueles que est\u00e3o intervindo na S\u00edria \u2013 R\u00fassia, os sauditas, EUA e a Turquia \u2013 esperam alcan\u00e7ar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: A S\u00edria serve como um estudo de caso muito particular, na medida em que praticamente todas as pot\u00eancias imperialistas e regionais est\u00e3o em a\u00e7\u00e3o no mesmo territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Primeiro, falemos sobre a interven\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e seus aliados. O imperialismo russo tem um importante interesse geoestrat\u00e9gico na regi\u00e3o. Depois da L\u00edbia, a S\u00edria \u00e9 agora o \u00faltimo basti\u00e3o onde a R\u00fassia teve uma presen\u00e7a militar por d\u00e9cadas. Tem a base naval em Tartus, que tem crescido nos \u00faltimos anos, e a base a\u00e9rea em Hmeimim perto de Latakia. Assim, em um n\u00edvel geoestrat\u00e9gico, se perde a S\u00edria, a R\u00fassia n\u00e3o tem presen\u00e7a e nenhum canal para influ\u00eancia diplom\u00e1tica na bacia do Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Esse interesse particular se combina com outro mais geral. Desde a ascens\u00e3o de Vladimir Putin, a R\u00fassia tem procurado recuperar seu lugar entre as grandes pot\u00eancias \u2013 fazendo com que as outras pot\u00eancias imperialistas reconhe\u00e7am seu lugar entre elas, pela for\u00e7a, se necess\u00e1rio. Isso moldou suas a\u00e7\u00f5es na Ucr\u00e2nia e tamb\u00e9m est\u00e1 moldando o que acontece na S\u00edria.<\/p>\n<p>Para entender o outro \u201ccampo\u201d imperialista, os Estados Unidos e seus aliados, devemos come\u00e7ar por ver que a invas\u00e3o anglo-americana do Iraque em 2003 terminou em fracasso e derrota. A sa\u00edda das for\u00e7as dos EUA em 2011 foi uma impressionante demonstra\u00e7\u00e3o de fracasso para o imperialismo norte-americano em toda a regi\u00e3o e no Iraque em particular. O que est\u00e1 acontecendo agora com o Estado Isl\u00e2mico (EI) permitiu que os EUA voltem para a regi\u00e3o, n\u00e3o apenas para o Iraque, mas tamb\u00e9m para a S\u00edria, pelo menos dentro dos limites de uma \u201cinterven\u00e7\u00e3o de baixo custo\u201d. Isso significa que ele n\u00e3o precisa colocar suas tropas no terreno, mas tem uma grande presen\u00e7a a\u00e9rea.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, supostamente para enfrentar o EI, houve um retorno dos EUA ao Iraque. E na S\u00edria, onde anteriormente os EUA tinham uma presen\u00e7a m\u00ednima, em grande parte diplom\u00e1tica, agora interv\u00eam diretamente. Possuem for\u00e7as especiais ao longo da fronteira e no norte, e uma incontest\u00e1vel supremacia a\u00e9rea. Isso \u00e9 o que est\u00e1 em jogo para os EUA \u2013 o seu interesse em retornar a uma regi\u00e3o da qual tinham sido for\u00e7ados a sair. Esta \u00e9 uma regi\u00e3o importante para os EUA, onde seus aliados como Israel e os Estados do Golfo foram amea\u00e7ados pelo levante e as revolu\u00e7\u00f5es que varreram a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><strong>SA<\/strong>: Parte da esquerda radical critica a pol\u00edtica dos EUA na regi\u00e3o por \u201cn\u00e3o fazer nada\u201d. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Os EUA intervieram. T\u00eam atuado. Eles fizeram alguma coisa. Sua pol\u00edtica para a S\u00edria era a de permitir que os diferentes grupos se matassem entre eles, por um lado. Mas seu objetivo tamb\u00e9m era destruir as capacidades econ\u00f4micas e militares da S\u00edria, at\u00e9 o ponto em que o regime \u2013 ou qualquer outro regime futuro depois desse [de Assad] \u2013 nunca pudesse constituir qualquer tipo de amea\u00e7a a Israel.<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: Vale a pena notar que os EUA n\u00e3o assumiram inicialmente uma posi\u00e7\u00e3o firme sobre a Revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria. Barack Obama disse para Ben Ali abandonar o poder ap\u00f3s duas semanas da Revolu\u00e7\u00e3o Tunisiana, e para Hosni Mubarak sair da presid\u00eancia apenas depois de uma semana da Revolu\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia. Mas sua primeira declara\u00e7\u00e3o sobre Bashar al-Assad foi em agosto de 2011 \u2013 cinco meses depois que a revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, entre as pot\u00eancias regionais est\u00e3o os Estados do Golfo, liderados pela Ar\u00e1bia Saudita. No primeiro m\u00eas da Revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria, a Ar\u00e1bia Saudita deu ao regime de Assad 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda. Viram a amplitude e o radicalismo do levante popular, cuja din\u00e2mica constituiu um perigo para todos os regimes reacion\u00e1rios e ditatoriais da regi\u00e3o. Quando eles intervieram, foi contra o regime, mas tamb\u00e9m em apoio a fac\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas radicais, diretamente apoiadas pelo Estado saudita ou por uma mir\u00edade &nbsp;de outras organiza\u00e7\u00f5es que controla. E houve um fluxo de fundos e lutadores para fac\u00e7\u00f5es extremistas como Jabhat al-Nusra e Ahrar al-Sham<sup><span style=\"font-size: 10pt;\">2<\/span><\/sup>. Pouco a pouco, com o Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria lutando por equipamentos, esses grupos tomaram a frente do cen\u00e1rio militar na S\u00edria.<\/p>\n<p>O segundo ponto para a Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 sua rivalidade com o Ir\u00e3. A Ar\u00e1bia Saudita viu o Ir\u00e3 ganhar influ\u00eancia no Iraque \u2013 gra\u00e7as, ali\u00e1s, \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos EUA \u2013 e os aliados do Ir\u00e3, a R\u00fassia e o Hezbollah, est\u00e3o ajudando o regime s\u00edrio<sup><span style=\"font-size: 10pt;\">3<\/span><\/sup>. Assim, uma vit\u00f3ria do regime e do Hezbollah sobre a Revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria constitui uma amea\u00e7a para a Ar\u00e1bia Saudita que reduziria sua influ\u00eancia na regi\u00e3o. Para o Ir\u00e3, o regime s\u00edrio tem sido um aliado desde a Primeira Guerra do Golfo \u2013 o sangrento e mortal conflito entre o regime iraniano e Saddam Hussein no Iraque<sup><span style=\"font-size: 10pt;\">4<\/span><\/sup>. Essa guerra matou e feriu milh\u00f5es e trouxe grande destrui\u00e7\u00e3o a ambos os pa\u00edses, com a ajuda das pot\u00eancias imperialistas. O Ir\u00e3 tamb\u00e9m tem interesse em preservar uma zona de influ\u00eancia que se extende do Iraque atrav\u00e9s da S\u00edria at\u00e9 o L\u00edbano. Assim, o Ir\u00e3 esteve militarmente do lado do regime desde o in\u00edcio, e foi seguido, timidamente no in\u00edcio, pelo Hezbollah a partir de 2012. Em 2013, o l\u00edder do Hezbollah, Hasran Nasrallah, disse que estava intervindo na S\u00edria para proteger os locais sagrados do Isl\u00e3 xiita contra os Takfiri<a href=\"http:\/\/esquerdaonline.com.br\/2016\/12\/25\/licoes-da-revolucao-siria-entrevista-com-ghayatah-naisse-da-corrente-revolucionaria-de-esquerda\/#_ftn5\"><sup>5<\/sup><\/a>. Assim, o eixo iraniano foi parte do conflito s\u00edrio desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>Essa rivalidade inflamou o aspecto sect\u00e1rio do conflito. Por um lado, a Ar\u00e1bia Saudita ajudou extremistas isl\u00e2micos, e, por outro lado, o Ir\u00e3 interveio sob seus pr\u00f3prios slogans religiosos. Esses partidos provocaram um conflito religioso que n\u00e3o estivera presente na revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria.<br \/> Para a Turquia as apostas s\u00e3o ligeiramente diferentes. A quest\u00e3o curda \u00e9 o pesadelo do Estado turco desde sua funda\u00e7\u00e3o. A maior popula\u00e7\u00e3o curda do mundo \u00e9 a que est\u00e1 dentro das fronteiras da Turquia. A Revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria permitiu a liberta\u00e7\u00e3o do povo curdo na S\u00edria e levantou a quest\u00e3o da liberta\u00e7\u00e3o nacional curda.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria e o aspecto militar do conflito permitiram que o PYD [Partido da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica) curdo controlasse uma vasta \u00e1rea do que \u00e9 chamado de Rojava &#8211; Curdist\u00e3o S\u00edrio, que compreende os tr\u00eas cant\u00f5es de Jazira, Koban\u00ea e Afrin<sup><span style=\"font-size: 10pt;\">6<\/span><\/sup>. Entretanto, faltava algum territ\u00f3rio entre Koban\u00ea e Afrin. A capacidade das for\u00e7as curdas e dos seus aliados \u00e1rabes para ligar os dois cant\u00f5es criaria um territ\u00f3rio de fato cont\u00ednuo e efetivamente aut\u00f4nomo no norte da S\u00edria. Assim, a Turquia interviu para impedir qualquer continuidade entre Jazira e Koban\u00ea no leste e Afrin no oeste. O fez com pelo menos dois objetivos: esmagar a aspira\u00e7\u00e3o pela autonomia curda na S\u00edria, que tem consequ\u00eancias dentro da Turquia, e garantir que o futuro da S\u00edria n\u00e3o ser\u00e1 decidido sem a participa\u00e7\u00e3o ativa da Turquia.<\/p>\n<p>Finalmente, Israel n\u00e3o deve ser esquecido. Desde o in\u00edcio em 2011, Ehud Barak fez uma declara\u00e7\u00e3o reveladora<sup><span style=\"font-size: 10pt;\">7<\/span><\/sup>. Ele disse que a S\u00edria n\u00e3o deve seguir o caminho do Iraque. O regime deve ser melhorado, mas o ex\u00e9rcito s\u00edrio e o Partido Baath devem permanecer intactos<sup>8<\/sup>. Israel quer a S\u00edria enfraquecida econ\u00f4mica e militarmente, mas sem a queda do regime, o que abriria uma guerra civil desenfreada que amea\u00e7ava Israel e toda a estabilidade da ordem imperialista na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><strong> SA<\/strong>: Qual a natureza do regime de Assad?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: Historicamente, foi o ex\u00e9rcito que assumiu o poder na S\u00edria, com o Partido Baath e o que podemos chamar de pequena burguesia ou classe m\u00e9dia. Tony Cliff descreveu como, numa situa\u00e7\u00e3o em que tanto o proletariado como a burguesia s\u00e3o fracos, a classe m\u00e9dia pode desempenhar um papel-chave, numa esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a para baixo<sup><span style=\"font-size: 10pt;\">9<\/span><\/sup>.<\/p>\n<p>Quando o ex\u00e9rcito e o Partido Baath assumiram o poder representaram a classe m\u00e9dia diante de uma burguesia enfraquecida, particularmente pelas nacionaliza\u00e7\u00f5es e a reforma agr\u00e1ria do regime de Nasser durante a uni\u00e3o entre o Egito e a S\u00edria em 1958-61<sup>10<\/sup>. Nos anos 50 houve um crescimento dos comunistas na S\u00edria. A esquerda era forte e os desafios das classes populares tornavam-se perigosos tanto para a burguesia como para o regime, e a burguesia escolheu uma uni\u00e3o com o Egito para tentar acabar com essa revolta radical. Este foi um longo per\u00edodo de instabilidade pol\u00edtica na S\u00edria, com um ou dois golpes de Estado quase todos os anos a partir de 1949.<\/p>\n<p>O regime Baath empreendeu uma s\u00e9rie de reformas \u2013 particularmente sob a ala radical do partido, no poder de 1966 a 1970 \u2013 que foram relativamente positivas e as mais radicais na regi\u00e3o. Isso enfraqueceu ainda mais a burguesia s\u00edria, at\u00e9 o colapso.<\/p>\n<p>Hafez al-Assad assumiu o poder em um golpe em 1970 e governou por 30 anos. Inicialmente ele desempenhou um papel relativamente bonapartista<sup>11<\/sup>. Enquanto velhas forma\u00e7\u00f5es sociais foram destru\u00eddas, o estado ajudou a criar novas. Como marxistas reconhecemos que o Estado pode influenciar o desenvolvimento das classes sociais. O regime s\u00edrio ajudou a forjar uma \u201cnova e velha\u201d burguesia s\u00edria que estava intimamente ligada ao Estado. Burocratas de alto n\u00edvel unidos atrav\u00e9s de la\u00e7os matrimoniais ou empresariais com a velha burguesia tradicional. E, por meio da corrup\u00e7\u00e3o, esses burocratas se tornaram muito ricos e procuraram investir sua nova riqueza na economia. Assim, pouco a pouco, o regime come\u00e7ou a quebrar o monop\u00f3lio econ\u00f4mico do estado, notadamente com o Decreto N\u00famero 10 em 1991, que abriu a economia ao capital privado. Os mesmos burocratas corruptos foram transformados por seus la\u00e7os com a velha burguesia, que j\u00e1 n\u00e3o tinha a mesma capacidade de investir. Eles injetaram suas riquezas na economia terci\u00e1ria em particular \u2013 constru\u00e7\u00e3o civil, f\u00e1bricas, turismo \u2013 e, a partir da d\u00e9cada de 1990, tornaram-se uma nova burguesia organicamente ligada ao regime de Assad.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Hafez al-Assad supervisionava uma partilha n\u00e3o declarada, mas r\u00edgida, de posi\u00e7\u00f5es no aparelho de Estado ao longo de linhas sect\u00e1rias ou regionais. Por exemplo, cada um de seus governos tinha que incluir dois Druze, um primeiro-ministro sunita e talvez um ministro da defesa tamb\u00e9m sunita, etc<sup>12<\/sup>. E ele era capaz de integrar todas as hierarquias religiosas ao estado. Embora ateu, ele se certificou de ser visto rezando em mesquitas \u00e0 maneira sunita, participando de festivais crist\u00e3os e at\u00e9 judaicos. O fruto da pol\u00edtica do Estado foi vis\u00edvel na Revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria, onde a hierarquia de cada religi\u00e3o se aliou ao regime.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o impediu o desenvolvimento de atividades pol\u00edticas, sindicais ou de ONGs independentes do regime. E o regime manteve presos dezenas de milhares de opositores pol\u00edticos e sindicalistas por muito tempo. Um dos meus primos foi preso por 25 anos \u2013 entrou aos 33 anos e saiu aos 58. As pessoas apodreceram na pris\u00e3o por imensos per\u00edodos de tempo. O regime tinha um controle estreito na sociedade, e esta era uma gera\u00e7\u00e3o que teve que ser corajosa para desafi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Quando Bashar al-Assad herdou o poder de seu pai em 2000, cerca de 11% da popula\u00e7\u00e3o estava abaixo da linha de pobreza. Depois de dez anos, isso havia chegado a 33%. Isso significa que Bashar al-Assad aplicou na S\u00edria as pol\u00edticas neoliberais mais severas, mais radicais e monstruosas da regi\u00e3o \u2013 pior do que no Marrocos, pior do que o Egito, pior do que a Jord\u00e2nia. Ele pensou que n\u00e3o haveria oposi\u00e7\u00e3o, nenhuma resist\u00eancia. Ele pensou que tinha herdado uma sociedade que tinha sido esmagada. Por isso, permitiu-se aplicar pol\u00edticas sociais que em dez anos tinham feito com que a propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que vivia com cerca de dois d\u00f3lares por dia ou menos crescesse para enormes 50 por cento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><strong>SA<\/strong>: Como a revolu\u00e7\u00e3o mudou a natureza do regime?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: A guerra, as interven\u00e7\u00f5es, a revolu\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a demogr\u00e1fica mudaram a natureza do regime. Agora nada mais \u00e9 do que a mil\u00edcia de uma fam\u00edlia e seus aliados \u2013 uma fac\u00e7\u00e3o que forma o n\u00facleo duro da burguesia s\u00edria \u2013 a mil\u00edcia de um cl\u00e3 em guerra com o povo.&nbsp;<\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<p><strong><strong>SA<\/strong>: \u00c9 justo dizer, como alguns argumentam, que a revolu\u00e7\u00e3o foi suplantada por um conflito sect\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: Isso \u00e9 apenas parcialmente verdade. Sim, por um lado, h\u00e1 grupos isl\u00e2micos que s\u00e3o sect\u00e1rios reacion\u00e1rios. Por outro lado, o regime tamb\u00e9m usa mil\u00edcias sect\u00e1rias xiitas como o Hezbollah ou a mil\u00edcia afeg\u00e3 e iraniana. Isso \u00e9 uma realidade. Mas constituem-se em talvez 100.000 ou 200.000 pessoas. Como \u00e9 para o povo s\u00edrio como um todo? Deixe-me dizer-lhe em primeiro lugar em termos de minhas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Estive na S\u00edria v\u00e1rias vezes durante esses anos. N\u00e3o recebi quase nenhuma hostilidade sect\u00e1ria ou religiosa. Al\u00e9m disso, temos um punhado de camaradas que sa\u00edram da S\u00edria nos \u00faltimos meses. Para fazer isso, eles tinham que atravessar zonas controladas por isl\u00e2micos \u2013 e alguns desses companheiros s\u00e3o de minorias religiosas que os isl\u00e2micos sunitas n\u00e3o devem aprovar. Mas eles n\u00e3o foram impedidos. Eles n\u00e3o foram decapitados. A popula\u00e7\u00e3o de l\u00e1 disse: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o nossos irm\u00e3os\u201d. Um desses companheiros passou dois meses dentro desta zona antes que ele pudesse chegar \u00e0 Turquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A verdade \u00e9 que se este fosse um conflito sect\u00e1rio, ter\u00edamos visto massacres sect\u00e1rios sem fim. Houve alguns massacres sect\u00e1rios, cometidos primeiro pelo regime e depois por alguns grupos isl\u00e2micos. Mas eles s\u00e3o espor\u00e1dicos e de escala limitada. At\u00e9 agora, no conflito s\u00edrio, houve 600.000 mortes. O n\u00famero de mortos em conflitos sect\u00e1rios foi talvez de 1.100. N\u00e3o vimos ningu\u00e9m matar uma aldeia inteira de alauitas, cortando milhares de gargantas, n\u00e3o vimos o sangue fluir da maneira que isso implicaria<sup>13<\/sup>. Vimos incidentes. Mas em geral n\u00e3o acontece, e as pessoas n\u00e3o s\u00e3o espontaneamente sect\u00e1rias. Na regi\u00e3o controlada pelo regime h\u00e1 pessoas que foram deslocadas de toda a S\u00edria. Somente em Latakia eles s\u00e3o um milh\u00e3o e meio \u2013 sunitas e n\u00e3o sunitas \u2013 vivendo entre alauitas em um momento em que soldados alauitas est\u00e3o morrendo \u00e0s dezenas. Mas voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar desses sunitas sendo massacrados? N\u00e3o, porque n\u00e3o aconteceu. Em termos da popula\u00e7\u00e3o comum, as pessoas ainda n\u00e3o se transformaram em monstros sect\u00e1rios.<\/p>\n<p>Dizer que isso se tornou um conflito religioso e n\u00e3o h\u00e1 nada que possamos fazer sobre isso \u00e9 uma desculpa f\u00e1cil para abdicar toda a responsabilidade pela solidariedade com a luta do povo s\u00edrio. N\u00e3o, h\u00e1 um aspecto sect\u00e1rio do que est\u00e1 acontecendo, como h\u00e1 outros aspectos, mas a tend\u00eancia fundamental, a base de tudo isso, \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o popular \u2013 que viu altos e baixos, pontos de viragem, interven\u00e7\u00e3o imperialista e uma guerra de terra arrasada pelo regime, que tem visto um refluxo para o movimento popular, mas n\u00e3o a ponto que possamos dizer que tudo acabou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><strong>SA<\/strong>: O que est\u00e1 acontecendo atualmente com as for\u00e7as da revolu\u00e7\u00e3o e os diferentes grupos armados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: Primeiro, vamos examinar o Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria, sobre o qual muito ouvimos. Muitos observadores cometem um erro quando falam do Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria como se fosse um ex\u00e9rcito organizado e com uma estrutura de comando. \u00c9 realmente um r\u00f3tulo gen\u00e9rico que abrange diversos fen\u00f4menos. Para entender o que \u00e9 podemos olhar para tr\u00e1s e ver como come\u00e7ou. Com a militariza\u00e7\u00e3o do levante, a partir do segundo semestre de 2011, come\u00e7amos a observar a ocorr\u00eancia de dois fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>Por um lado, algumas das pessoas que estavam protestando e sendo baleadas como p\u00e1ssaros pelos soldados do regime, decidiram pegar em armas e se proteger. Estes eram os indiv\u00edduos que levaram armas com eles para proteger as manifesta\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, houve um n\u00famero crescente de deser\u00e7\u00f5es do ex\u00e9rcito. No final de 2011 e especialmente em 2012 houve 20.000-30.000 soldados que desertaram com suas armas. Destes fen\u00f4menos foi criado o Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria.<\/p>\n<p>Era muito parecido com o que chamamos de coordena\u00e7\u00e3o. Em cada bairro, em cada aldeia, em cada aldeia, as pessoas se organizavam e criavam coordena\u00e7\u00f5es que chamavam manifesta\u00e7\u00f5es, decidiam sua rota, acertavam seus slogans, planejavam vias de evacua\u00e7\u00e3o caso chegassem as for\u00e7as do regime e organizavam o tratamento e a evacua\u00e7\u00e3o dos feridos. Eram um fen\u00f4meno local, e isso era tanto a sua fraqueza como a sua for\u00e7a. Foi uma fraqueza porque sempre careciam de uma rede que pudesse coorden\u00e1-las em n\u00edvel nacional. Mas tamb\u00e9m ajudou-as a sobreviver mais tempo \u2013 \u00e9 muito dif\u00edcil para o regime esmagar algo t\u00e3o localizado e m\u00faltiplo.<\/p>\n<p>O Ex\u00e9rcito S\u00edrio Livre, da mesma forma, era realmente uma combina\u00e7\u00e3o de desertores e de pessoas comuns que tomaram as armas em suas \u00e1reas locais. Havia pouca coordena\u00e7\u00e3o entre eles. Os poderes regionais ajudaram a criar algo tamb\u00e9m, mas este era um fen\u00f4meno real do povo. Novamente, seu localismo era tanto a sua fraqueza como a sua for\u00e7a. Ainda hoje, na S\u00edria, ainda existem 3.000 \u201cgrupos armados\u201d al\u00e9m das grandes organiza\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas \u2013 estes s\u00e3o realmente os que foram mais bem organizados, mas o fen\u00f4meno em seu auge foi muito mais amplo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><strong>SA<\/strong>: Quem foi que teve que ser evacuado em Al-Zabadani<sup>14<\/sup>? Voc\u00ea ouviu sobre eles?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: Era gente comum da zona rural ao redor de Damasco. Era o Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria. Eram pequenos grupos locais aqui e ali que se defenderam quando foram jogados nas m\u00e3os da Jabhat al-Nusra. O regime fez um jogo esperto em jog\u00e1-los para as m\u00e3os da Al Qaeda \u2013 isto permitiu que o regime dissesse que somente a Al Qaeda e o EI &nbsp;lutavam contra ele, e que Al Qaeda tinha que ser destru\u00edda.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno da resist\u00eancia popular, na verdade, n\u00e3o teve qualquer solidariedade das pot\u00eancias regionais porque o povo em armas \u00e9 uma coisa perigosa para eles. Eles d\u00e3o a alguns grupos, cuidadosamente identificados e que est\u00e3o em sua folha de pagamento.<\/p>\n<p>Juntamente com isso, temos as for\u00e7as curdas \u2013 o PYD e suas Unidades de Prote\u00e7\u00e3o Popular \u2013 que j\u00e1 t\u00eam d\u00e9cadas de experi\u00eancia na guerrilha na Turquia e nas montanhas. Era o \u00fanico partido curdo com seu pr\u00f3prio poder militar. Com a retirada do regime de algumas \u00e1reas do norte da S\u00edria em 2012, essas for\u00e7as \u2013 ligadas ao PKK \u2013 apossaram-se imediatamente e consolidaram sua presen\u00e7a militar. Isso ocorreu a partir de julho de 2012, seguindo-se uma din\u00e2mica de autoadministra\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento das Unidades de Prote\u00e7\u00e3o da Mulher. No ano passado, aliaram-se com alguns batalh\u00f5es do Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria para formar a For\u00e7a Democr\u00e1tica da S\u00edria, uma for\u00e7a curda-\u00e1rabe ou \u00e1rabe-curda no norte da S\u00edria. Estamos em estreito di\u00e1logo fraterno com parte deste agrupamento em particular, uma alian\u00e7a nacionalista democr\u00e1tica, incluindo ass\u00edrios, turcomanos e \u00e1rabes, com uma presen\u00e7a ao norte e ao oeste de Aleppo<sup>15<\/sup>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 os grupos isl\u00e2micos mais poderosos. Se deixarmos o EI de lado \u2013 porque para mim \u00e9 um fen\u00f4meno separado \u2013 existem dois poderes principais. Um deles \u00e9 Ahrar al-Sham, uma mil\u00edcia isl\u00e2mica que quer um regime salafista, jihadista, mas com uma diferen\u00e7a: n\u00e3o querem impor o estado isl\u00e2mico de imediato, mas ganhar tempo para o futuro e, entretanto, atrair as pessoas para a religi\u00e3o. E h\u00e1 Jabhat Fateh al-Sham, originalmente al-Nusra. \u00c9 o maior poder, e tem uma for\u00e7a militar importante ao norte de Aleppo, em Aleppo e em torno de Idlib. Em Damasco e arredores h\u00e1 tamb\u00e9m Jaysh al-Islam, uma mil\u00edcia que \u00e9 uma esp\u00e9cie de feudo da fam\u00edlia de Zahran Alloush, que foi assassinado pelos russos em 2015.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><strong>SA<\/strong>: O que est\u00e1 acontecendo no sul, ao redor de Daraa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: A regi\u00e3o de Daraa tem essa especificidade \u2013 sua geografia \u00e9 uma ratoeira. Para grupos l\u00e1, as coisas podem ocorrer de duas maneiras. Se o regime jordaniano abrir a fronteira, eles podem respirar; Se ele fechar a fronteira, eles ser\u00e3o sufocados entre o regime s\u00edrio e a Jord\u00e2nia. Esta geografia torna-os muito sens\u00edveis \u00e0s pol\u00edticas de fronteira do regime jordaniano.<\/p>\n<p>Muitos dos batalh\u00f5es do Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria se viram obrigados, em fun\u00e7\u00e3o da busca de solidariedade, muni\u00e7\u00f5es, armas e tratamento m\u00e9dico para os feridos, a se tornar muito dependentes da Jord\u00e2nia. Agora mesmo, a Jord\u00e2nia n\u00e3o quer uma guerra, e est\u00e1 fechando essa torneira. Ent\u00e3o, essas pessoas n\u00e3o podem fazer muito mais ou ser\u00e3o esmagadas.<\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>SA: Os comit\u00eas populares formados durante a revolu\u00e7\u00e3o ainda existem? O que eles est\u00e3o fazendo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: Uma coisa importante que caracterizou a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria foi que ela foi capaz de criar \u2013 ou as massas populares foram capazes de criar \u2013 \u00f3rg\u00e3os de auto-organiza\u00e7\u00e3o. Estas foram as coordena\u00e7\u00f5es locais que j\u00e1 discutimos e, a partir de 2012, os chamados conselhos civis ou conselhos locais, os \u00f3rg\u00e3os de autoadministra\u00e7\u00e3o para a gest\u00e3o da vida quotidiana. Em 2011, 2012 e at\u00e9 mesmo em 2013, este foi um fen\u00f4meno imenso. Onde quer que o regime n\u00e3o estivesse presente \u2013 e mesmo em alguns lugares onde estava \u2013 havia esses dois \u00f3rg\u00e3os de auto-organiza\u00e7\u00e3o e autoadministra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, 2013 trouxe, por um lado, o EI e o avan\u00e7o dos grupos isl\u00e2micos reacion\u00e1rios e sect\u00e1rios e, por outro lado, a viol\u00eancia sem precedentes do regime. Esse foi o ponto onde realmente come\u00e7ou a aplica\u00e7\u00e3o com selvageria de uma guerra de terra arrasada, destruindo infra-estrutura e edif\u00edcios. Isso foi quando as ondas de refugiados s\u00edrios realmente come\u00e7aram a crescer, a partir de 2013 em diante. Foi tamb\u00e9m quando esses conselhos e coordena\u00e7\u00f5es se enfraqueceram, com as pessoas que estavam dirigindo sendo mortas, deslocadas ou transformadas em refugiados. \u00c9 por isso que falamos do avan\u00e7o da contra-revolu\u00e7\u00e3o a partir de 2013 e com ela o refluxo do movimento popular.<\/p>\n<p>Refluxo n\u00e3o significa desaparecimento.<\/p>\n<p>Hoje, h\u00e1 apenas uma hora, houve uma manifesta\u00e7\u00e3o popular na cidade de Zakieh, perto de Damasco. Hoje ainda h\u00e1 algumas coordena\u00e7\u00f5es, embora enfraquecidas. O movimento popular n\u00e3o est\u00e1 morto. Cada vez que as armas silenciam, as massas populares reaparecem. Elas renascem. Vemos isso apesar da destrui\u00e7\u00e3o, apesar da guerra, apesar do massacre, apesar do deslocamento e do \u00eaxodo.<\/p>\n<p>Isso ainda existe hoje, mas \u00e9 muito fraco. Participamos em alguns comit\u00eas de coordena\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis, e ainda existem alguns conselhos locais que ainda est\u00e3o ativos. Embora as organiza\u00e7\u00f5es do movimento tenham retrocedido e foram severamente enfraquecidas, elas sobrevivem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>SA: Esta \u00e9 a grande quest\u00e3o: o que deve ser feito? Qual \u00e9 a estrat\u00e9gia da esquerda revolucion\u00e1ria na S\u00edria?<\/strong><\/p>\n<p>GN: A perspectiva de curto prazo de nossa organiza\u00e7\u00e3o socialista revolucion\u00e1ria na S\u00edria, a Corrente Revolucion\u00e1ria de Esquerda, envolve v\u00e1rias tarefas. \u00c9 claro, precisamos sobreviver \u2013 para conservar a for\u00e7a que temos e recrutar novos ativistas. Em segundo lugar, precisamos tomar parte em todas as lutas que ocorrem, nas coordena\u00e7\u00f5es e conselhos sobreviventes. Onde quer que haja luta, seja em que condi\u00e7\u00e3o for, precisamos fazer parte dela. Por mais dif\u00edceis que sejam as condi\u00e7\u00f5es, nossa tarefa \u00e9 participar das lutas enquanto se constr\u00f3i o partido. Nosso jornal \u00e9 produzido na S\u00edria. Quando voc\u00ea olha para ele, h\u00e1 alguns erros de impress\u00e3o, erros ortogr\u00e1ficos e gram\u00e1tica ruim \u2013 e da\u00ed? O importante \u00e9 que s\u00e3o os ativistas de l\u00e1, n\u00e3o n\u00f3s no ex\u00edlio, que o est\u00e3o produzindo e distribuindo. \u00c9 uma experi\u00eancia de aprendizagem, em condi\u00e7\u00f5es onde raramente h\u00e1 eletricidade<sup>16<\/sup>.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 a metade da tarefa. A outra \u00e9 que precisamos criar uma frente \u00fanica, reunindo todas as for\u00e7as da esquerda e todas as for\u00e7as democr\u00e1ticas e revolucion\u00e1rias na S\u00edria. Esse poderia ser um p\u00f3lo de atra\u00e7\u00e3o diferente da oposi\u00e7\u00e3o burguesa, do regime e dos seus aliados ou dos extremistas isl\u00e2micos. Fizemos alguns passos nessa dire\u00e7\u00e3o, apesar das dificuldades. Anunciamos um acordo de coopera\u00e7\u00e3o com a Alian\u00e7a Democr\u00e1tica, que envolve v\u00e1rios partidos, incluindo os antigos comunistas. Precisamos dessa frente tanto para dar forma ao que est\u00e1 acontecendo hoje quanto no longo prazo. Para n\u00f3s, \u00e9 importante preparar-se para o per\u00edodo que est\u00e1 por vir. O atual estado de coisas n\u00e3o pode durar para sempre. Chegar\u00e1 o momento em que a guerra e o bombardeio cessar\u00e3o, e quando isso acontecer precisaremos estar a prontos. Precisaremos de for\u00e7a para nos enraizar na popula\u00e7\u00e3o, nas classes populares. Precisamos estar com eles para garantir que o destino da S\u00edria n\u00e3o seja decidido pelas pot\u00eancias regionais ou imperialistas ou pela burguesia s\u00edria.<\/p>\n<p>Criar esse equil\u00edbrio de for\u00e7as come\u00e7a hoje. Portanto, esse \u00e9 o trip\u00e9 em que se baseia nosso trabalho \u2013 estar nas lutas das massas, construir o partido e formar uma frente \u00fanica das for\u00e7as democr\u00e1ticas. Claro, tamb\u00e9m levantamos nossos slogans, dizendo: \u201cNem Washington nem Moscou, nem Riyadh nem Ankara nem Teer\u00e3\u201d. Isto \u00e9 para educar as pessoas, para sublinhar que a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o vir\u00e1 desses poderes, mas que \u00e9 o pr\u00f3prio povo s\u00edrio quem deve decidir seu pr\u00f3prio destino. E \u00e9 para pressionar a oposi\u00e7\u00e3o burguesa que est\u00e1 negociando com o regime, para que n\u00e3o aceitem a continua\u00e7\u00e3o do regime com alguns ajustes e alguns postos para si pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Precisamos aprofundar as lutas das massas s\u00edrias para obter a mais profunda e democr\u00e1tica mudan\u00e7a social e pol\u00edtica. Essa ser\u00e1 uma luta muito longa, por isso precisamos construir nossas for\u00e7as para continuar lutando por um longo tempo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>SA: Voc\u00ea \u00e9 pessimista ou otimista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GN<\/strong>: Estou muito otimista, contrariando o humor geral. A batalha \u00e9 dif\u00edcil. Mas veja, nossa revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 dura seis anos. Que li\u00e7\u00f5es trouxeram esses seis anos?<\/p>\n<p>Primeiro, que podemos nos revoltar, que o regime n\u00e3o pode simplesmente esmagar a vontade popular, n\u00e3o importa os meios que ele utilizar contra ela e os aliados que encontrar. Algo est\u00e1 destru\u00eddo no regime. Alguma coisa terminou. Se os americanos, os russos e as demais pot\u00eancias nos impuserem uma situa\u00e7\u00e3o em que Bashar al-Assad e seu cl\u00e3 continuar\u00e3o a reinar, nunca mais poder\u00e3o reinar como antes.<\/p>\n<p>O regime sobrevive com um chamado ambiente \u201clealista\u201d, composto por mais de dez milh\u00f5es de pessoas, quase a metade da popula\u00e7\u00e3o, ainda sob seu controle. E essas pessoas t\u00eam um \u00f3dio, um \u00f3dio real, desse regime. Sua vida di\u00e1ria \u00e9 um mart\u00edrio. H\u00e1 imensas manifesta\u00e7\u00f5es contra o regime e a fam\u00edlia Assad. H\u00e1 grandes explos\u00f5es \u00e0 frente, e \u00e9 a\u00ed que eles v\u00e3o acontecer. Onde o regime pensa que \u00e9 mais est\u00e1vel \u00e9 onde menos o \u00e9. Os dias em que algu\u00e9m poderia governar o povo s\u00edrio dizendo: \u201cCalem suas bocas, vou fazer o que eu quero\u201d, acabaram.<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 a li\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. Tempos atr\u00e1s, se voc\u00ea fosse um dos \u201cvelhos\u201d socialistas revolucion\u00e1rios e queria falar sobre socialismo, poderia dizer que queremos um Estado oper\u00e1rio baseado em conselhos oper\u00e1rios e camponeses e tudo mais. As pessoas faziam perguntas, ent\u00e3o voc\u00ea poderia dizer, isso aconteceu, pelo menos por um momento, na Alemanha, na Hungria, e mais importante, na R\u00fassia. Voc\u00ea poderia dizer tudo isso, mas estava muito longe da experi\u00eancia das pessoas. Agora tudo isso \u00e9 muito mais simples. A auto-organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que as pessoas entendem por causa das coordena\u00e7\u00f5es. O povo s\u00edrio, sem ler Lenin, Marx ou Trotsky, j\u00e1 fez isso em suas lutas. Ent\u00e3o, quando falamos de conselhos oper\u00e1rios e camponeses, eles o entendem porque o fizeram. \u00c9 a sua experi\u00eancia vivida.<\/p>\n<p>A terceira li\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0s for\u00e7as isl\u00e2micas. Eles sempre costumavam dizer que o Isl\u00e3 \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Essa hip\u00f3tese est\u00e1 agora esgotada na S\u00edria. As pessoas viram o que significa quando as for\u00e7as isl\u00e2micas religiosas imp\u00f5em seu modelo de governo. Esse argumento foi posto \u00e0 prova e falhou.<\/p>\n<p>O que resta \u00e9 o socialismo. Compete a n\u00f3s. Acreditamos que essa \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o, a mais humanista e a mais igualit\u00e1ria, para as massas da S\u00edria e de qualquer outro lugar. A luta continua.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Ghayath Naisse \u00e9 um dirigente da Corrente Revolucion\u00e1ria de Esquerda, uma organiza\u00e7\u00e3o socialista revolucion\u00e1ria s\u00edria. Simon Assaf \u00e9 membro do Socialist Workers Party e al-Muntada al-Ishtiraki (F\u00f3rum Socialista) no L\u00edbano.<\/em><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas de Lucas Dallarosa Foga\u00e7a<\/em><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em><span style=\"font-size: 12pt;\"><br \/><\/span><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em><span style=\"font-size: 12pt;\">NOTAS<\/span><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Obrigado a Dave Sewell por seu trabalho na transcri\u00e7\u00e3o desta entrevista.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> Jabhat al-Nusra foi a organiza\u00e7\u00e3o s\u00edria da Al Qaeda, que subsequentemente rompeu com a segunda e se rebatizou de Jabhat Fateh al-Sham al-Islamiyya. Ahrar al-Sham \u00e9 outra mil\u00edcia isl\u00e2mica, atualmente aliada com Jabhat Fateh al-Sham.<\/p>\n<p><sup>3 <\/sup>O Hezbollah \u00e9 uma mil\u00edcia isl\u00e2mica xiita e um partido pol\u00edtico baseado no L\u00edbano.<\/p>\n<p><sup>4<\/sup> A guerra Ir\u00e3-Iraque de 1980-88.<\/p>\n<p><sup>5 <\/sup>Takfiri \u00e9 um termo \u00e1rabe derrogat\u00f3rio para um mu\u00e7ulmano que acusa os outros de serem incr\u00e9dulos. \u00c9 freq\u00fcentemente usado para descrever grupos como ISIS.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup> O PYD (Partiya Yek\u00eetiya Demokrat, Partido da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica) \u00e9 um partido curdo no norte da S\u00edria aliado ao PKK (Partiya Karker\u00ean Kurdistan\u00ea, Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o), a principal organiza\u00e7\u00e3o curda na Turquia.<\/p>\n<p><sup>7<\/sup> Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, foi ministro da Defesa de 2007-13.<\/p>\n<p><sup>8<\/sup> O Partido Baath, ao qual o Presidente Bashar al-Assad pertence, foi o partido no poder da S\u00edria desde o golpe de 1963 e \u00e9 discutido em mais detalhes abaixo.<\/p>\n<p><sup>9<\/sup> Esta \u00e9 uma refer\u00eancia \u00e0 teoria de Tony Cliff da revolu\u00e7\u00e3o permanente desviada, detalhada em um panfleto do mesmo nome e dispon\u00edvel on-line aqui: www.marxists.org\/archive\/cliff\/works\/1963\/xx\/permrev.htm<\/p>\n<p><sup>10<\/sup> Anne Alexander escreveu sobre o l\u00edder eg\u00edpcio Gamal Abdel Nasser no n\u00famero 112 desta revista: <a href=\"http:\/\/isj.org.uk\/suez-and-the-high-tide-of-arab-nationalism\">http:\/\/isj.org.uk\/suez-and-the-high-tide-of-arab-nationalism<\/a><\/p>\n<p><sup>11<\/sup> O termo \u201cbonapartista\u201d deriva da an\u00e1lise de Karl Marx do regime de Napole\u00e3o Bonaparte na Fran\u00e7a, que conseguiu estabelecer-se em um golpe de Estado quando as for\u00e7as das classes insurgentes desencadeadas pelas revolu\u00e7\u00f5es de 1848 se esgotaram.<\/p>\n<p><sup>12<\/sup> Os Drusos s\u00e3o uma minoria religiosa encontrada principalmente na S\u00edria, no L\u00edbano e em Israel.<\/p>\n<p><sup>13<\/sup> Os alau\u00edtas s\u00e3o membros de um ramo do Isl\u00e3 xiita, encontrado principalmente na S\u00edria e na Turquia, a que Assad pertence.<\/p>\n<p><sup>14<\/sup> Al-Zabadani \u00e9 uma pequena cidade na fronteira com o L\u00edbano.<\/p>\n<p><sup>15 <\/sup>Ass\u00edrios e turcomanos s\u00e3o ambos grupos minorit\u00e1rios na popula\u00e7\u00e3o s\u00edria.<\/p>\n<p><sup>16 <\/sup>A RLC, fundada na S\u00edria em outubro de 2011, publica na S\u00edria um jornal mensal chamado Frontline.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Esquerda Online come\u00e7a a publicar v\u00e1rios materiais da esquerda s\u00edria para auxiliar na compreens\u00e3o do complexo processo vivido no pa\u00eds desde o levante de 2011.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2258,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[42],"tags":[1010],"class_list":["post-2259","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo","tag-revolucao-siria-assad-guerra-civil-esquerda-online-mais-brasil"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/gan.jpg?fit=1280%2C720","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2259"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2259\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2258"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}